27
Out 10

Sentia a boca e os lábios secos quando acordei. O braço esquerdo estava dorido do cateter e um “bip-bip” media os batimentos cardíacos. A visão ainda estava desfocada, e tive uma ligeira tontura ao tentar levantar-me. Encostei-me novamente na almofada e fechei os olhos na esperança de que passasse depressa.

- Então, já acordámos finalmente!

- Dr. Barros!

- Como é que te sentes?

- Bem… mais ou menos. Quando é que posso ir para casa.

- Não gostas mesmo nada de estar connosco, pois não?

- Conhece alguém que goste?

O Dr. Barros riu.

- Precisamos de fazer alguns exames, e depois logo se vê. Talvez ainda fique hoje para observação.

Nesse momento vejo a Ana a espreitar pela porta. O Dr. faz sinal para que entre.

- Veja lá se a distrai, que ela já nos quer deixar. Eu volto mais tarde.

- Então princesa, como estás?

- Se eu não estivesse numa cama de hospital dizia que estava com melhor aspecto que tu. Há quanto tempo não descansas, Ana?

- Isso não interessa. Eu perguntei como é que tu estás.

- Deitada…

- Mel ?...

- Está bem. Estou um pouco zonza ainda. É de estar deitada. E tu estás a precisar disso mesmo. Vai para casa, amor. Eu não vou a lado nenhum, sabes. Pelo menos enquanto não me derem ordem.

- Eu vou sim, preciso de ir tomar um bom banho. Mas antes preciso de te dizer uma coisa.

- O quê?

- A Inês e o Bruno estiveram aí várias vezes a perguntar por ti. E o Jorge também já ligou. Pediu que o avisasse quando houvesse novidades.

- Só por isso vale a pena viver… Ok, os recados estão dados.

- Há outra coisa…

- Sim?

- O David esteve aí.

O sorriso da minha cara desvaneceu-se rapidamente.

- O que queria ele? Quem lhe disse que eu estava aqui?

- Mel… Nós avisámos-te para isto.

- Vocês disseram-lhe?

- A Inês disse-lhe onde tu estavas e ele apareceu aí com o Ruben. Eu não lhe queria contar, porque também não era por mim que ele devia saber, mas ele disse que falava com o médico… não houve como fugir.

- Eu não acredito que vocês fizeram isso.

- E eu não acredito que depois de tantas oportunidades me tenha calhado a batata quente a mim. Não vou discutir contigo Mel Andrade, mas é para que saibas que ele já sabe de tud…

David já se encontrava encostado á porta e ouvira parte da conversa. A Ana baixou os olhos e eu não soube o que dizer.

- Eu vou a casa. Volto daqui a pouco. Até já.

Eu e o David ficáramos sozinhos no quarto. Eu estava muito envergonhada com tudo aquilo. Baixei a cabeça e fiquei em silêncio. Depois, levantei o olhar e vi que ele se tinha aproximado. Por fim, foi ele quem quebrou o silêncio.

- Como é que você está se sentindo?

- Bem…

O silêncio voltara de novo. Ainda não tinha coragem de encará-lo, por isso mantinha a cabeça baixa. Quando finalmente ganhei coragem para pronunciar qualquer coisa, David também o fez, e atropelámos as palavras.

- Mel, eu…

- David…

- Desculpa, fala tu.

- Não, que é isso. Você primeiro.

- David, o que é que tu estás a fazer aqui?

- Estava preocupado com você. Eu já sei de tudo… Porquê você não me falou nada, Mel?

- Por causa disso… da maneira como tu olhas para mim agora.

- Como assim, eu olho p`ra você?

- Com esse olhar de piedade, de quem tem pena de mim. “ Pobre Mel. As coisas que ela tem de aguentar”.

- Eu não olho p`ra você desse jeito. De onde você tirou essa ideia? Eu estou olhando do mesmo jeito de antes. E se você tivesse me contado, eu teria te ajudado… Eu quero te ajudar.

- Eu não preciso que tu me ajudes. Preciso que saias daqui.

- Deixa de ser orgulhosa. Eu posso te ajudar, e você sabe que precisa. E não é por pena, é porque eu gosto de você.

- David, quando é que vais perceber que a nossa história acabou? Tu não tens obrigação nenhuma para comigo.

- E porquê você não me ouve? Eu já sei o que aconteceu…

- E eu não quero saber. Por favor sai.

- Você quer mesmo que eu vá embora.

- Eu... não quero que me vejas assim.

- Assim como?

- Assim… Aqui.

- Você continua linda, como sempre.

- Duvido. David, por favor…

- Mel… Eu te amo!

Agora sim, fixara o meu olhar no dele. Nós já tínhamos dito muitas vezes o quanto gostávamos um do outro. E não só por palavras, mas também por gestos, olhares. Mas nunca nenhum se atrevera a dizer a palavra começada por “A”. Amo-te. Parecia-me algo tão banal de se dizer. E no entanto, quando ele a pronunciou soube-me tão bem ouvi-la, que por momentos viajei até á Lua, até ás estrelas. Já não estava na cama de hospital. Estava de novo com ele, no nosso mundo. Só nosso.

Respirei fundo ao acordar do sonho em que aquelas palavras me mergulharam. O David parecia tão sincero…

- Isso não muda nada! – Disse por fim, e tentei ser a mais fria possível.

Vi o rosto do David empalidecer. Pensei em voltar atrás, dizer-lhe que também o amava… muito. O sofrimento que via na sua cara doía-me mais que a minha própria condição. Mas era necessário que o fizesse. Uma vez tentei sonhar alto demais, e esqueci-me de ter os pés no chão. Esse sonho fez-me cair, e doeu. Doeu demais. Não queria passar por aquilo outra vez. E ainda estava muito magoada com ele. Desviei o olhar para não o encarar mais. Não acho que pudesse suportar. Ele percebeu, e afastou-se. Antes de sair, deteve-se á porta e disse:

- Não me arrependo de nada do que disse, nada do que fiz, enquanto estive com você.

E saiu. Eu vi-o desaparecer no corredor. Desta vez foi ele que não olhou para trás. Tive noção do quanto o magoara, mas impedi-me de chorar. Já tinha chorado demais pelo David. Agora era virar a página.

  •   

Tentei adormecer logo após a saída do David, mas foi impossível. Em todo o lado via a sua cara de desilusão, principalmente se fechasse os olhos. Felizmente a Ana chegou pouco depois, e trazia companhia.

- Allô miúda! Ainda deitada?

- Estou preguiçosa. Ainda bem que vieram. Estava a precisar de uma boa disposição como a vossa.

- Então Mel… Não estás zangada comigo? – Perguntou a Inês.

- Humm… Não. A culpa disto tudo foi minha. Se eu tivesse contado mais cedo, nada disto teria acontecido.

- Eu já sei que ele esteve aí.

- Saio há pouco. Mas não quero falar sobre isso.

- Quer dizer que não se entenderam?

- Quer dizer que não quero falar.

- Ok, já percebi.

Nesse momento o Dr. Barros entra no quarto. Também ele vinha acompanhado.

- Já parece mais coradinha Mel.

- É da companhia. – Disse, rindo.

- Este aqui é o Dr. Jaime. Está a tirar a especialidade e a partir de agora vai ser ele o responsável a seguir o seu caso.

Olhei para aquele novo médico. Era realmente novo, talvez dois ou três anos mais velho que eu. Alto, cabelo escuro e olhos de um azul como nunca vi.

“ Mudei para melhor. Pelo menos de aspecto”, pensei. E não fui a única. A Ana e a Inês estavam de boca aberta a olhar para aquele jovem médico, e não era difícil adivinhar os seus pensamentos. É claro que a Inês tinha de lhes dar vida.

- Doutor Jaime! Vou passar a acompanhar mais vezes a Mel. Não tenho sido uma boa amiga. Vai que ela desmaia outra vez…

Levei as mãos á cara e  baixei a cabeça. Que vergonha. O Doutor percebeu e riu-se. Felizmente o Dr. Barros já tinha saído. O novo médico aproximou-se de mim e abriu um pouco da camisa para me auscultar. Corei. Nunca tinha sido examinada por alguém tão jovem.

- Então Mel, como é que se tem sentido hoje?

- Mais ou menos… mas estou melhor agora.

 Dissera aquela frase com o intuito de me dar alta, mas alguém aproveitou a deixa.

- Quando os médicos são bons…

Desta vez olhei directamente para a Inês e fiz-lhe sinal para que parasse. A Ana achou melhor levá-la dali e eu suspirei de alivio.

- Parecem gostar muito de si, as suas amigas.

- Sim. Eu tenho muita sorte.

- Também, aposto que deve ser fácil gostar de si…

Corei novamente. Era impressão minha ou o Dr. Jaime estava a atirar-se a mim?

- Desculpe. Eu não quis ofender. Só disse porque o Dr. Barros falou de si com muito carinho. A jovem que precisa de um transplante mas preferiu parar com o tratamento. Qualidade, em vez de quantidade.

Olhei para este novo médico de perto. O seu rosto era quase perfeito, e tinha uma expressão gentil. Sorri.

- Acho que foi muito corajoso da sua parte. Insensato, mas corajoso. Pronto, parece estar tudo normal. Se continuar assim, amanhã poderá sair.

- Isso é que é uma boa notícia.

- Passo por aqui depois, para ver como está.

- Se acha necessário…

- Não acho, mas quero.

E saiu de sorriso nos lábios, deixando-me a mim de queixo caído.

 

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 20:04

comentários:
Hey... então será este Jaime quem vai animar a nossa Mel??

Isto está a ficar cada vez mais interessante!!

Continua...

Beijinhosv
caty_silva a 27 de Outubro de 2010 às 20:36

magnifico...

quero mais... tou curiosa...

se poderes posta mais hoje... por favor...
branquinhosdoscachosdourados a 27 de Outubro de 2010 às 21:00

Isto está a animar! :D
Fabi a 27 de Outubro de 2010 às 21:27

Que dura agr é k o nosso menino aprende :) :)
Acho k a Mel tem de falar com ele....
Vou ficar á espera, já sabes não perco.
Beijinho.
Elsa a 27 de Outubro de 2010 às 22:04

como sempre...adoro
Sofia Mendes a 27 de Outubro de 2010 às 23:56

Isto promete!!! =)
É a primeira vez que comento e não posso deixar de te dar os parabéns pela fic. Adoro!!! :)
JoanaR a 28 de Outubro de 2010 às 02:43

Parece que a Mel vai ter um novo amor. Tadinho do David... a ver no que isto vai dar.
Marisa a 28 de Outubro de 2010 às 12:08

huMM jaimE ...axO Q tbem quero Um medico dessES ines!!
isto agOra vai ficar ++ intereSante...

tadIm do DavId..coraçaO preocupado...
*) PublIcA!! ja toU a dias a SECo...bAHH queRO a melzita :D e o daviD

biaC a 7 de Novembro de 2010 às 16:42

então, não há mais ? :(
Fabi a 10 de Novembro de 2010 às 14:37

já não postas há tanto... tou tao curiosa para ver o desenrolar da tuA fan fic...

Continua...

Fico esperando...
branquinhosdoscachosdourados a 16 de Novembro de 2010 às 00:13

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D