27
Out 10

Ana tinha já feito quilómetros naquele corredor de hospital. Já conhecia todos os quadros pendurados, e todas as fendas na parede. Não ia a casa há mais de 24 horas. Sentia o cansaço em todos os músculos do corpo. Precisava de um banho, de uma refeição decente, de uma pausa. Mas ela não o sentia. Estava demasiado preocupada, e não se atrevia a sair do hospital sem saber notícias da sua melhor amiga. O Bruno tinha-lhe deixado lá qualquer coisa para ir petiscando, mas ainda não lhe tinha tocado. Sentia o estômago embrulhado. A Inês oferecera-se para ficar lá durante uma ou duas horas. O tempo suficiente para ir a casa tomar um banho, deitar-se meia-hora. Mas ela não era capaz de sair dali. Não sem antes ter a certeza de que estava tudo bem. Mas as dúvidas pairavam. Os médicos ainda não tinham dito muita coisa. Mel continuava em observação e sem poder receber visitas. O seu estado ainda era reservado, mas Ana tinha conhecimento bastante sobre o que ela tinha para conseguir ter uma ideia do que se estava a passar. E não era bom… Há muito que ela esperava por uma coisa assim. Sabia que sem tratamento pouco ou nada havia a fazer. Pensava que estava preparada para o pior, mas afinal enganara-se. Não estava nem perto disso.

Era tarde, já passava das onze da noite e o hospital estava praticamente vazio àquela hora. Só dois ou três familiares de pessoas também internadas, e que tal como Ana aguardavam notícias. Esta estava encostada á parede, meio dormente, quando o som do elevador a despertou. Esfregou os olhos para se manter acordada, e não reparou nos dois vultos que se aproximaram dela.

- Ana!

Ana levantou a cabeça e Ruben reparou como tinha um ar cansado e estava pálida.

- Ruben? David? O que fazem vocês aqui?

- A Inês… ela disse ao David que a Mel estava no hospital.

Ana respirou fundo.

- Ela não devia ter feito isso.

- Ana, - Pergunta o David – que aconteceu com a Mel?

Hesitante, Ana não sabe o que responder. Está cansada, demasiado para pensar nalguma coisa. E depois, a Mel já devia ter falado com o David, há muito tempo… Agora, era tarde.

- David, não me faças perguntas a que eu não posso responder. Olha, tu nem devias estar aqui. O melhor é voltarem para casa. A Mel depois fala contigo.

- A Mel não atende os meus telefonemas, não quer que vocês me contem que ela se demitiu do emprego, me evita o tempo todo… Você acha que eu acredito mesmo que ela vai me falar sobre o que aconteceu?

- Tu também não foste propriamente correcto com ela. Estavas á espera de quê?

- Eu não vim aqui p`ra discutir isso. Mas eu preciso saber o que está havendo. A Inês não me falou nada. Disse que não sabia ao certo, ficou rodeando, inventando desculpas. Eu não insisti porque eu estava louco p`ra vir p`ra cá. Mas agora eu não saio daqui enquanto alguém não me disser o que é que a Mel tem. Se for preciso, eu falo com o médico.

Ana encarou David de frente. Este tinha uma expressão decidida, determinada, e ela percebeu que não adiantava fugir mais á questão.

- É melhor falarmos lá dentro, com calma.

David seguiu-a até uma salinha pequena e vazia. Ruben resolveu esperar cá fora. Ele percebera pelo constrangimento de Ana, que algo de grave se estava a passar, e que o que quer que fosse, naquele momento, só interessava a David.

- Aqui podemos falar mais á vontade. – Disse Ana. – A Mel vai ficar danada comigo… Era ela que já te devia ter contado, e há muito tempo até.

- Contado o quê? O que é que a Mel tem?

- David, a Mel está doente. Há muito tempo que ela tem um problema… eu nem sei como começar.

- Começa pelo princípio. Eu quero saber de tudo.

- Quando a Mel era pequena descobriu-se que ela tinha uma imunodeficiência no fígado. É uma coisa rara, que geralmente só se descobre mais tarde. Mas no caso dela haviam já certos sintomas que permitiram fazer um diagnóstico mais cedo. Ela foi medicada mas esses medicamentos eram muito fortes, e limitavam-na muito. Ao princípio ela não ligou, porque era muito nova. Mas com o passar dos anos, ela foi querendo fazer sempre mais coisas. Aquela rapariga tem um bichinho dentro dela que não a deixa estar quieta. Por isso ela começou a estudar música e dança. Mas muitas vezes sentia-se mal, os músculos ficavam presos, sem força. Por isso ela decidiu parar com a medicação. Mas ninguém soube, só eu.

- Mas… ela podia fazer isso? Parar de fazer um tratamento de um dia p´ro outro, não é perigoso?

- Bastante. Mas ela já não queria saber. Há muito tempo a Mel decidiu que preferia viver com qualidade, do que com quantidade. E depois veio a bolsa aqui da faculdade. A mãe dela quando soube ia tendo um ataque. Ela não queria que a Mel viesse para tão longe. Queria tê-la lá, onde pudesse vigia-la. E quando a Mel lhe disse que já não tomava os medicamentos há uns tempos e que já tinha decidido vir para Lisboa, ela passou-se completamente. Deu-lhe um ultimato. Ou esta voltava a andar na linha, ou estava fora de vez. E a Mel resolveu ficar de fora.

David ouvia tudo com o coração nas mãos. Não entendia porque razão ela nunca lhe tinha contado nada.

- Mas então e agora, o que aconteceu? Ela piorou? Quem sabe falando com o médico a gente descobre uma maneira de…

- David, a Mel está a morrer.

-…

- A única solução é fazer um transplante de fígado, mas não está fácil convencer os médicos. O facto de ela ter interrompido o tratamento não ajuda. Pelo contrário. Eles acham que ela não se interessa. Ninguém percebe que a qualidade de vida dela era mínima. Tinha dias que nem saia da cama com dores. Era horrível, eu sei, eu assisti.

- Porque ela não me falou nada? Eu podia ter ajudado ela…

- A Mel não quer a ajuda de ninguém. Ela sempre foi assim. Quer fazer tudo sozinha. Eu sempre lhe disse para te contar a verdade, mas ela não queria. Dizia que estava á espera do momento oportuno.

- E agora? Ela piorou?

- Os médicos deram-lhe entre dois a três anos de vida, sem medicamentos. Ela já deixou de os tomar á mais de um ano. Os sintomas de que a doença está a vançar são cada vez mais frequentes. Os desmaios são um presságio do que pode vir aí.

- E o que é?

- A qualquer momento ela pode entrar em coma...

David estava cada vez mais chocado com o que ouvia. Não sabia o que dizer, como reagir, o que fazer.

- Olha, eu acho que é melhor ires para casa. Não há nada que possas fazer aqui. Depois falas com ela, quando ela sair daqui.

- “Se” ela sair daqui.

- Ela vai sair. Foi só uma crise, como tantas outras que ela já teve. Tu nem imaginas como eu já a vi. Vai para casa, descansa. Eu falo com ela primeiro e depois aviso-te, ok?

David assentiu e saio com o Ruben. Estava demasiado perplexo com o que acabara de ouvir. Precisava de tempo para digerir tudo aquilo. Ruben viu que a conversa que ele tivera com Ana deixara-o muito abalado, mas não perguntou nada. Quando David se sentisse preparado para falar, falava. Mas este não sabia nem o que pensar. Nessa noite não dormiu, olhando pela janela e pensando no que ela significava realmente para ele.

  •    

No dia seguinte, bem cedo, David saiu de casa do seu mano e dirigiu-se para a sua. Quando entrou Carol ainda estava de pijama.

- David, você voltou.

- Vim ver se você já tinha ido embora.

- Eu vou embora esta tarde, foi o que consegui…

- Óptimo. – Este falava com uma expressão grave.

- David, o que você tem, meu an…

Carol conteve-se. Lembrara-se das palavras que ele lhe tinha dito, e não quis aborrecê-lo mais.

- Nada.

- Eu posso só dizer uma coisa.

- Carol, eu estou sem tempo, e sinceramente não acho que possa ter mais alguma coisa que me interesse.

- Eu só queria pedir desculpa p`ra você. Eu sei que não agi direito, e estou arrependida. Se você quiser eu falo com a Mel e tento explicar tudo.

- Eu não quero você nem perto dela, ouviu bem?

- Você gosta mesmo dela, não é? Você nunca olhou p`ra mim do jeito que eu vi você olhando p`ra ela.

- Eu vou indo.

- Vai falar com a Mel?

- Vou tentar… Quando eu voltar não quero mais ver você aqui, ou eu chamo o segurança.

David saiu porta fora, e Carol ficou imóvel no meio do corredor. As lágrimas começaram a descer e esta soube que tinha chegado ao fim…

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 01:10

comentários:
Hey agora entendi qual é a doença dela!! Já te tinha dito que andava curiosa... mas agora ainda estou mais quero saber como vai ela reagir quando souber que o David já sabe!

E claro que ver as melhoras dela! Apesar de ser grave a situação dela...

Adoro mesmo a forma como escreves e como desenvolves a história.

Continua... quero mais

Beijinhos
caty_silva a 27 de Outubro de 2010 às 01:23

lindoooooo
continuaaa!!!
Sofia Mendes a 27 de Outubro de 2010 às 15:38

Magnifico, excelente...

Quero mais... tou muito curiosa...

Se poderes posta mais hoje... por favor...continua...
branquinhosdoscachosdourados a 27 de Outubro de 2010 às 11:51

Ok, isto piorou muito.... mas eu sei k tens uma razão para isto menina Sandra.
Vou ficar coladinha á espera de mais.
Muito bom, mesmo bom
Beijinho
Elsa a 27 de Outubro de 2010 às 21:58

*-* já tinha saudades desta fic ainda bem que pude apanhar o que tinha perdido hoje :3


quero mais :)



visita a minha fic ;)
pablitoaimar a 10 de Novembro de 2010 às 15:25

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D