21
Out 10

 

Acordei perto da hora do almoço. Olhei para ambos os lados, e os meus anjos da guarda ainda ali se mantinham, fiéis. E dormiam. A minha cabeça girava e estava confusa em relação ao dia e às horas. A noite anterior parecia ter sido á séculos. Mas afinal tudo se tinha passado apenas a algumas horas atrás. Sentei-me na cama, e elas começaram também a despertar. A Inês estendeu o braço para cima e fui obrigada a desviar-me, para não levar com ele. Esbocei um sorriso. Depois olhei pela janela, e reparei nos pequenos e tímidos raios de sol que passavam por entre os buraquinhos da mesma. Depois de uma noite terrível de chuva e vento, o sol parecia querer brilhar. Essa ideia deu-me algum alento. Também eu teria de enfrentar um novo dia. E este não se adivinhava nada fácil.

- Bom dia, Princesa Mel!

- Bom dia para as duas. Então hoje não se trabalha?

- Por acaso… não!

- Como não?

- Não te preocupes. Está tudo tratado.

Levantei-me da cama, apesar dos protestos das minhas companheiras, que insistiam que eu devia ficar deitada.

- Não posso. Tenho muito que fazer, muito que pensar… muito que decidir. E ainda estou meio zonza.

- Isso foi da chuva que apanhaste ontem. Sinceramente não sei o que te passou pela cabeça. Por acaso já te esqueceste o resultado que deu, a última vez que apanhaste chuva?

Não, não me tinha esquecido. Fui parar a um hospital de urgência e tive de ficar uma semana sem sair. Mas aí fora por uma boa razão. Foi o dia em que o David me beijou pela primeira vez. O dia em que, de alguma forma tudo tinha começado. E o que senti nesse dia em tudo contrastava com o que sentia agora. Meti-as fora do quarto e fui-me vestir. Doía-me imenso a cabeça, não sei se pelos acontecimentos se pela molha e frio que apanhara. Abri a janela e deixei o sol entrar. O ar fresco entrou pelo meu quarto, passando por mim e provocando-me um arrepio. Continuava desfeita, tomada por uma tristeza inigualável. Nem quando deixara tudo para trás, zangada com a minha mãe tinha sentido algo assim. Nessa altura tinha planos, algo a que me agarrar, algo em que acreditava. Agora não via nada á minha frente. Nada que valesse realmente a pena…

Respirei fundo e voltei para dentro. Vesti-me o mais rápido que pude e fui ter com elas á sala. A mesa estava posta e a Ana fazia uns ovos mexidos na cozinha. Reparei que o vestido estava pendurado perto da porta, completamente manchado e amarrotado. Ora ali estava uma despesa que não me fazia falta nenhuma. Ao lado, também pendurada, a minha mala com os documentos e telemóvel lá dentro. A mesma que tinha deixado no jipe. A Inês olhava séria para mim, como que a adivinhar o que eu estava a pensar.

- Vais ter de enfrentar isso, mais cedo ou mais tarde.

- Eu sei. E prefiro que seja mais cedo. – Disse.

- Olha, eu não sei o que se passou para o David não ter aparecido, mas eu conheço-o, e sei que ele jamais faria algo para humilhar alguém. Tenho a certeza que não teve nada a ver com o que se passou ontem.

- Como podes ter tanta certeza, Inês?

Puxei da mala e tirei o telemóvel cá para fora. No visor um pequeno envelope atestava que tinha mensagens pendentes para ler. Carreguei no botão enquanto me sentava á mesa. A Ana acabava de trazer o nosso pequeno-almoço/almoço, e sentou-se á minha frente, também ela ansiosa. A Inês pegou num bocado de pão e levou-o á boca, mastigando muito lentamente. Ambas olhavam para mim, á espera que eu esclarecesse parte do mistério que nos atormentava a todas. Tal como suspeitava, era o David. A mensagem estava gravada, e eu, de coração na mão, preparei-me para a ouvir.

“ Mel? Sou eu docinho. Aconteceu uma coisa muito chata com a Carol, eu vou ter que ficar com ela p´ra ajudar. Não sei se vai dar p´ra encontrar você aí, mas eu te ligo depois, tá. Me desculpa, mais uma vez. Vou ter de ir agora. Te explico tudo depois.Te adoro. Beijo.”

Desliguei. Aquela mensagem não me sossegou em nada o espírito, muito pelo contrário.

- Então? O que é que ele disse?

Passei o telemóvel á Inês e deixei que ela ouvisse a mensagem por ela. Não me apetecia repeti-la. Era demasiado fria, dolorosa. Levantei-me da mesa e fui buscar um casaco. Ouvi a Ana dizer “ Filho da mãe!”, e esbocei um sorriso irónico, triste.

- Vou sair. – Disse. – Hoje não quero ficar em casa. Pode aparecer alguém, e eu não tenho condições de lidar com isto agora.

- Claro, Mel. Nós vamos contigo. Mas não é melhor comeres qualquer coisa antes?

- Não tenho fome.

- Mel, não te podes deixar abater assim. Sabes que isso é perigoso para a tua saúde. Achas mesmo que ele merece que fiques doente por causa dele?

- Não, mas preciso de passar esta fase. Hoje é o meu luto.

- Luto? Como assim, luto? Mel, o que vais fazer?

- Hoje, nada. Amanhã logo se vê. Se não se importam, não quero mais falar sobre isto. Não agora. Preciso mesmo de não pensar em nada. Vou descendo. Vão ter comigo e não demorem, ok? Ah, e apaga essa mensagem Inês, por favor. Uma vez é suficiente.

  •    

O resto do dia foi passado em centros comerciais, e á noite ficámos até tarde na casa da Inês. Para evitar encontros ou qualquer outro tipo de contacto, deixei o telemóvel em casa. Não queria mesmo falar com ninguém, muito menos com o David.

No dia seguinte, levantei-me bem cedo. Era segunda-feira e tinha aulas de manhã, mas resolvi não ir, apesar de estar muito atrasada na matéria. Em vez disso dirigi-me até ao estádio. A manhã estava muito fria, como era suposto estar uma manhã de Novembro, mas era esse ar que me mantinha acordada, bem focada no que iria fazer. Não dormira nada nessa noite, pensando em que atitude tomar, o que decidir. Esperava-me um dia pesado, exigente, e uma manhã assim ajudava-me. Parecia que todos os elementos estavam sintonizados com o meu espírito, éramos um só. E eu retirava as minhas forças daí.

A Ana fazia-me companhia. Ela entrava de manhã. Descemos do Jipe e entrámos no estádio. Eu mantinha o olhar em frente, com medo de ter de encarar alguém. Ainda não sabia até que ponto estava recuperada do show que a Pat tinha dado. Mas principalmente, com medo de dar de caras com o David. O telemóvel mantivera-o desligado, para não cair na tentação de atender. Por isso, e com toda a certeza, o David já devia saber que algo se passava. E mesmo o Ruben já deveria ter falado com ele. Era uma questão de tempo até nos encontrarmos.

- Bom dia! – Dissemos ao entrar no restaurante.

O Bruno estava atrás do balcão e fico estático. Obviamente não esperava que eu aparecesse ali àquela hora. Todas as pessoas que ali trabalhavam tinham adivinhado de quem a Pat falava na outra noite.

- Bom dia meninas! – Do outro lado da sala, a Soraia encontrava-se a pôr as mesas. – Mel, não te esperava ver aqui tão cedo?

- Porquê? – Perguntei, encarando-a. – Que eu saiba, trabalho aqui, não?

- Eu sei. Eu só pensei que depois do que aconteceu na noite da gala, tu…

Dirigi-me para ela, calma e segura. Os seus olhos fitaram os meus e ela recuou alguns passos. Apoiei as mãos na mesa que nos separava e disse:

- Não penses por um momento que podes falar sobre mim, seja o que quer que for. Qualquer que tenha sido a minha atitude, ou imagem que possa ter passado, só aconteceu pelo facto de ter sido apanhada de surpresa. Mas agora estou bem ciente do que vocês são capazes, e isso inclui-te a ti Soraia. Essa admiração que tens pela Patrícia é tão patética que te impede de ver que não passas de um cãozinho atrás da dona, de rabo a abanar. Mas isso é contigo. Não te admito que te intrometas nos meus assuntos. E ficamos por aqui.

Vi-a empalidecer. Dei meia volta e perguntei ao Bruno se o Jorge já tinha chegado, e com a mesma calma dirigi-me ao seu escritório. Respirei fundo enquanto caminhava, e interroguei-me como tinha conseguido manter a pose até ali. Mas estava apenas no início.

Fiquei mais tempo do que queria no escritório do Jorge. Tive uma conversa muito séria e honesta sobre tudo o que se passara até ali, inclusive falei-lhe da relação que mantinha com o David. Quando saí, reparei nas caras dos meus colegas e apercebi-me imediatamente do porquê das suas expressões sérias. O David estava sentado numa mesa ao fundo e quando me viu pôs-se de pé num salto. Parecia uma cena saída de um filme, em que os figurantes aguardavam imóveis pela cena seguinte, interpretada pelas personagens principais, que neste caso era eu e o David. Não sei onde arranjei forças para caminhar até ele. Olhei-o e vi no seu rosto o quanto estava abatido, ansioso.

- Mel…

- Agora não David. – Interrompi-o.

- Mas eu preciso falar com você.

- E eu contigo, mas aqui não é o local nem este o momento.

Voltei costas disposta a afastar-me, mas ele impediu-me, segurando-me no braço.

- Vou ter treino agora. Me espera p´ra gente conversar.

Olhei para o braço que me segurava, e depois novamente para cima, directamente para os seus olhos. Ele largou-me e cada um seguiu direcções opostas. Ele saiu porta fora, e eu fui até ao balcão. A Ana aproximou-se de mim, e muito baixinho disse:

- Não sei como consegues, mas estou muito orgulhosa de ti.

  •   

Não esperei pelo David. Mal terminei o que tinha ido fazer ao restaurante, meti-me no Jipe e fui para a Faculdade. Assim adiantava trabalhos em atraso e ao mesmo tempo mantinha a cabeça ocupada. À tarde assisti ás aulas, e pus-me a par das últimas encenações da peça de final de ano, que se aproximava a passos largos. Vi que tinha muito que ensaiar, mas isso seria bom. Impedia-me de relembrar coisas que só me traziam sofrimento. Não saí da Faculdade muito tarde, mas já era noite. O horário nesta altura do ano fazia com que escurecesse a meio da tarde. Olhei para o relógio. Passava pouco das seis e meia. “ Acho que vou levar um pizza para o jantar”, pensei.  E apressei o passo em direcção ao Jipe. Puxei o casaco para cima, para me proteger do frio. O vento levantara-se ligeiramente e o céu começava a carregar-se de nuvens novamente. Procurava as chaves do jipe dentro da mala, quando ouvi alguém chamar-me. Reconheci imediatamente a voz e parei. O coração começou a bater mais forte, mais rápido, e temi ter uma paragem ali mesmo. Voltei-me e encarei o David.

- Mel! Eu preciso muito falar com você.

Fiquei muda. Não sabia o que dizer, apesar do tanto que havia para falar.

- Porque não me esperou? Tá fugindo de mim, porquê?

Após um primeiro momento de pânico, tentei acalmar-me, e as palavras conseguiram sair:

- Não sabia se era capaz de falar contigo…

- Porquê?

- “Porquê”? Ainda perguntas?

- Eu já sei o que aconteceu na noite passada, o Ruben me contou. Eu fiquei feito um louco tentando falar com você, fui na sua casa ontem, mas não tinha ninguém lá. Mel, eu juro que eu não sabia de nada. Eu nem sei como é que a Pat descobriu tudo.

- Ai não? Deixa cá ver então. Talvez a tua amiga lhe tenha dito alguma coisa, não?

- A Carol nunca iria fazer uma coisa dessas…

- Claro que não. Porque vocês namoraram e ela é uma pessoa excelente. E já agora, é tão excelente que me deixaste pendurada por causa dela, e eu tive de aguentar sozinha com tudo.

- Desculpa, eu não sabia. A Carol…

- Pára de falar na Carol. Isto não tem nada a ver com ela, tem haver contigo, com nós os dois.

- Mas você não me deixa explicar.

- Explicar o quê, David? O que é que há para explicar? E como é que eu sei que aquilo que tu dizes é a verdade?

- Como assim, se é verdade? Eu nunca menti p´ra você, sempre fui sincero.

- Eu não quero mais David. Chega! Tu não fazes ideia do que eu passei nessa noite, o que eu senti. Não quero mais.

- Eu imagino…

- Não, não imaginas. Para mim acabou! – As palavras saíram-me atropeladas e aos soluços. Nunca me tinha custado tanto pronunciar algo, e tentava com todas as minhas forças não chorar. Não queria fraquejar, não queria que visse o quanto sofria por ele.

- O quê? Você não está…

- Estou sim. Acabou David. A nossa história termina aqui.

Encarei-o por um segundo, e um segundo apenas. Se demorasse mais tempo provavelmente teria voltado atrás, e isso era impensável. Apesar da escuridão, vi os seus olhos encherem-se de água, e pareceu-me que uma lágrima desceu pelo seu rosto. Percebi que era tão difícil para mim, como o era para ele. Dei meia volta e afastei-me. Ele tentou impedir-me, mas fingi que não o ouvi chamar pelo meu nome, e segui em frente, sem vacilar, ou mesmo voltar atrás.

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 16:03

comentários:
Adorei!
Fabi a 21 de Outubro de 2010 às 17:01

Lindo... Adoro a forma como escreves!!!

A história está fantástica.

A Mel teve força para terminar com ele... mas será que vai conseguir manter a sua vontade até ao fim???

Continua... estou curiosa por saber se ele vai deixar as cenas ficarem assim... LOOL

Bjs
caty_silva a 21 de Outubro de 2010 às 17:29

Olá Sandra:
Isto promete!!
Muito bom, estou ansiosa para o próximo... aí aquela dupla de cobras.
Espero que eles se entendam rápido.
Beijo
Anónimo a 21 de Outubro de 2010 às 18:48

Muito bom!!
Isto está que promete.
Já estou ansiosa pelo próximo.
Beijo Sandra
Elsa a 21 de Outubro de 2010 às 22:36

Magnifico, lindo...

Quero mais... Tou muito curiosa...

Continua... Se poderes posta mais hoje... por favor...
branquinhosdoscachosdourados a 22 de Outubro de 2010 às 08:25

Posta mais hoje, pleaseeeeeeee xD A fanfic está escelente...quero saber se eles vão aguentar estar mto tempo longe um do outro!!
Anónimo a 22 de Outubro de 2010 às 19:05

ok.KKK!! esse capitulo ta mesmo mesmo muiTO BOMM!!

isto esta cada vez mais interressante!!

AMEI!!! tu tens talento pra a escrita rapariga!Escreves cuidadosamente e com todos aqueles pequenos detalhes que nos deliciam! HAJA DEdicaÇAO!

PS:tenho 3 vicios, um deles é a tua fIC!!!
postA maisS hoje,senao da.me uma cusinha ma!! a mim e e nos todas!!
PLEASEE!!!





QUERO MAIIISSS!!!!!!!!!!!!!!!! :DDDDD



<3
biaC a 22 de Outubro de 2010 às 23:57

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D