20
Out 10

 

Vagueei só pelas ruas de Lisboa durante uma eternidade. A chuva teimava em cair, e sentia que esta era o resultado do que me ia na alma. Não tinha conseguido ainda deitar uma única lágrima, por isso, de alguma forma o céu acompanhava o meu estado de espírito. Naquele momento eu era tudo, e não era nada. Oca, vazia, um corpo inanimado. A única coisa que atestava que vivia era o bater do meu coração, completamente despedaçado. Várias perguntas dançavam na minha mente, para logo depois desaparecerem e ficar novamente em branco. Ainda não tinha conseguido assimilar todos os acontecimentos dessa noite, e as imagens vinham-me á cabeça desordenadas, sem nexo nem rumo certo. E tantas perguntas a precisarem de resposta, urgentemente…

Interrogava-me constantemente onde diabos se teria enfiado o David, e porque razão não apareceu. E porque não tinha avisado? E onde estava a Carolina também? Seria verdade o que a Pat dissera? E como é que a Pat tinha descoberto tudo? Teria sido a Carol a contar-lhe, mesmo depois de ter prometido não dizer nada? Ou teria sido o David? E se a Pat tivesse razão, e ele andara a gozar comigo durante todo este tempo?

A minha cabeça parecia que ia explodir.

Andei pela noite fora, na calçada e ás vezes á beira da estrada, sem qualquer destino. Simplesmente andava. À chuva e ao frio, sem agasalho, sem me importar com nada. Andava para não parar, para me sentir viva. O frio que sentia lembrava-me que aquilo não era um pesadelo. Era real, bem real. De repente, outra memória veio-me á cabeça. Parei e olhei em redor. Não fazia ideia de onde estava, não conhecia aquela parte da cidade. Os carros passavam por mim e buzinavam, mas eu estava demasiado dormente para perceber porquê. Não se via mais ninguém na rua, e era compreensível. Ninguém no seu perfeito juízo iria sair numa noite daquelas. Só as tolas, as loucas se aventuravam. E mesmo essas levariam agasalhos e guarda-chuvas. Mas não eu. Saíra fugida, sem saber para onde ir, onde me refugiar… e depois atingiu-me como um raio. Eu já tinha estado ali, já tinha vivido, sentido tudo aquilo. O frio, a escuridão, a solidão, o sentir-me perdida. Tudo aquilo já me aparecera, em sonhos. A diferença é que acordava segura e protegida, na minha cama, rodeada pelas pessoas que amava, que me amavam a mim. Mas ali não podia acordar.

Sentei-me num banco virada para a estrada e tentei recompor-me, organizar as ideias. Estava completamente encharcada, tremia e começava a sentir o desconforto de toda aquela situação. Senti os pés doerem-me dos sapatos de saltos e apertados. Descalcei-os. Continuava sem verter uma lágrima, apesar de o meu coração estar cheio de mágoa. Tão cheio como as nuvens em tons avermelhados que pairavam no céu. Mas estas conseguiam aliviar a sua carga, enquanto eu ainda não o fizera. Olhei para o céu. A chuva continuava a cair. A pouco e pouco acordava do meu transe e regressava á terra. Dava-me conta do quão estranho devia parecer aos olhos de quem passava, a minha figura. E o quão perigoso era estar ali àquela hora. Tentei concentrar-me e perceber onde estava. Não fazia ideia do caminho que tinha tomado, ou do quanto tinha andado. Precisava de me orientar. Tinha de regressar. Levantei-me e voltei para trás, tentando recriar o caminho que tinha feito até ali, na esperança de encontrar algo me reconhecesse e me ajudasse a voltar para casa. Caminhava lentamente, e o peso que sentia na alma, sentia-o também no meu corpo. Finalmente encontrei uma placa que me indicava um local conhecido, e segui-a.

  •   

Abri a porta de casa e acendi a luz. Olhei para o relógio, marcava três horas da manhã. A Ana ainda não chegara, e pela primeira vez lembrei-me que deviam estar preocupadas comigo, sem saber onde estava. Mas também não tinha como avisá-las. Saí tão atarantada que me esquecera de tudo. Deixara tudo para trás, incluindo os documentos e o telemóvel. Ficara tudo no Jipe. Olhei á minha volta, e continuava sem perceber o sentido das coisas. Encostei-me á parede e deixei-me cair, lentamente, até ficar de cócoras. O chão formava uma pequena mancha molhada, por baixo dos meus pés, e o vestido estava completamente arruinado. Abracei-me a mim própria, como que tentando consolar-me e senti finalmente as lágrimas caírem-me pela face. Não tentei segurá-las. Chorei. Chorei como chora uma criança quando lhe é negado algo que quer muito. Chorei alto, gemi, solucei. Desabafei! E quando as lágrimas se acabaram, continuei a chorar, em seco. E era assim que eu estava. Seca, derrotada. Deixei-me cair no chão por completo, e assim  fiquei, imóvel. Um ser que respirava, mas sem vida. Uma massa ali plantada, esquecida. E queria esquecer tudo o que vira, o que passara. Mas a dor não deixava. E olhei para o infinito, limpei a minha mente e ali procurei a minha paz.

- Mel! Mel?

Acordei do meu sono acordado e olhei para cima. A Ana e a Inês estavam ambas debruçadas na minha direcção, tentando levantar-me. As suas caras denunciavam cansaço e angustia.

- Mel, amiga, onde é que tu estavas? Olha para ti? Olha só para o teu estado. Mel, responde, por favor.

Ergui-me com alguma dificuldade e encarei a Ana. Os seus olhos estavam rasos de água. Queria dizer-lhe o quanto lamentava tudo aquilo, por tê-las preocupado, saído sem avisar. Queria conforta-las, mas não conseguia articular palavra. Limitava-me a olhá-las.

- Onde é que tu foste, Mel. Nós procuramos-te por toda a cidade. Esta era a nossa última tentativa, depois chamávamos a polícia. Mel?

- Vou tentar pô-la na banheira. – Disse a Ana.

- Eu ajudo-te. Vou só lá abaixo avisar o Ruben que ela está em casa.

- Sim, mas não lhe digas como a encontrámos. Diz que ela já dorme. Não queremos que apareça por aí nós sabemos quem. Chega de surpresas. Ela precisa descansar.

Ouvia tudo o que diziam, apesar do tom baixo que utilizavam. Mas as suas palavras pareciam-me distantes, levadas por um estranho vento. Não sabia em qual me concentrar.

A Inês saiu e desceu as escadas o mais rápido que pôde. Lá fora, o Ruben aguardava dentro do carro, esperando notícias. Ela fez como a Ana indicou, e não o alarmou. Disse-lhe somente que já estava deitada, e que o melhor seria esperar pelo amanhã para ver como as coisas se iriam passar. Era demasiado tarde para falar sobre o que quer que fosse. Depois subiu e foi ter com a Ana, que tentava com muita dificuldade despir-me e enfiar-me na banheira. A água quente caiu na minha pele e ao mesmo tempo que me aquecia o corpo, parecia aquecer-me a alma também. Consegui perceber o quão desconfortável estava, molhada e deitada no meio do chão.

- Ai Mel! Tu sabes que não podes apanhar chuva. E ainda por cima com o frio que está. Estás a querer o quê, matar-te? Responde, diz qualquer coisa.

Virei a cabeça na direcção delas e finalmente consegui falar.

- Não consigo…

- Consegues sim amiga. – Disse a Ana, chorando também. – Sempre conseguiste…

- Já não consigo… Não tenho forças… Não quero…

- Queres sim! Tu é que és a forte, lembraste?

Abanei a cabeça. Eu era tudo menos forte. Se fosse realmente forte nunca me teria deixado arrastar para uma situação daquelas. Se fosse forte, teria reagido ás palavras da Pat naquela noite. Uma pessoa forte jamais deixaria que uma paixão decidisse o rumo da sua vida.

Saí do banho, um pouco mais confortada, e elas deitaram-me na cama. A Inês fez um chá, que bebemos, e que me acalmou bastante. Não se falou mais nessa noite. O assunto morreu afogado com a água que desceu da banheira. Não havia necessidade de mais palavras, de relembrar aquilo que já iria levar tanto tempo  a esquecer. Deitei-me na minha cama, os lençóis aconchegados pelas minhas duas amigas, as únicas que sobreviviam a tudo comigo. E depois de tudo apagado, senti o quente e forte abraço delas, cada uma do seu lado. Chorámos em silêncio, com o som da chuva a abafar o nosso desgosto. Porque elas dividiam o meu sofrimento. E isso fez-me sentir novamente amada. E consegui por fim, adormecer.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 20:01

comentários:
Capitulo triste :( mas ainda assim com todo o sentido! Agora quero saber o que vai acontecer...

Adoro a tua fic, a história está "real", bem escrita, transmite sentimentos... enfim está excelente!!

Continua... estou curiosa...

Bjs6
caty_silva a 20 de Outubro de 2010 às 20:19

Só tenho uma palavra para esa fanfic...EXCELENTEEEEEEEE xD

Por favor, posta mais um, pelo menos amanhã...tenta 1 por dia!Não tens postado muitos :S
Anónimo a 20 de Outubro de 2010 às 21:12

Olá Sandra:
A tua fic é muito boa, mesmo muito, amei este capitulo transmite mesmo a emoção, até chorei.
Não vou perder um capitulo.
Já estou ansiosa pelo próximo capitulo.
Beijo
Anónimo a 20 de Outubro de 2010 às 23:34

Magnifico...

Quero mais... Tou muito curiosa...

Continua... Se poderes posta mais hoje... por favor...
branquinhosdoscachosdourados a 21 de Outubro de 2010 às 08:57

Ai que tristeza vai no coração da Mel.
Vamos lá ver se tudo ficará resolvido e que a Pat leve uma grande lição
Marisa a 21 de Outubro de 2010 às 11:17

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D