29
Set 10

Sentada na cama do David, enrolada num lençol, tentava clarear as ideias e acalmar-me.

- Faz tempo que você tem pesadelos?

- Não costumava ter, mas de há uns dias para cá, não sei que se passa. Deve ser dos estudos. Ando com trabalhos para fazer e ler, e a cabeça está cheia…

- Tem certeza que é só isso mesmo?

- Sim, é só isso. São sonhos, nada mais.

- Você é cheia de mistérios, sabia?

- Eu? Não tenho mistério nenhum. Porque é que dizes isso?

- Porque eu sempre sinto que fica alguma coisa por dizer entre a gente. E você também não fala muito sobre coisas da sua vida.

- Que coisas?

- Sobre a sua família, por exemplo. Você nunca me falou da sua mãe, do seu pai, se tem irmãos, irmãs… essas coisas?

- Tenho mãe, pai e uma irmã. Eles estão lá, na terrinha deles, na sua vida, e eu estou aqui na, na minha. Nem todos temos uma família perfeita David. Não é mistério nenhum, é só a vida.

- Te aborrece falar sobre isso?

- Não… Sim. A minha família não é fácil. Os meus pais estão separados, e eu não sei nada do meu pai desde os meus… 10 anos. A minha mãe não queria que eu viesse estudar para Lisboa e praticamente me renegou quando lhe disse que vinha. Nunca mais falei com ela. E a minha irmã… Bem a minha irmã é a filha perfeita. Eu sou a ovelha negra. Em todas as famílias há uma, sabias?

David olhava para mim sério, pensativo. Pegou na minha mão, beijou-a e apertou-a contra o seu peito.

- Desculpa se toquei num assunto delicado.

- Não faz mal. É melhor despachares-te ou vais chegar atrasado. Eu também me vou vestir e saio contigo.

- Não quer terminar o banho comigo?

- Assim é que chegas mesmo atrasado. Acho melhor não. Tomo em casa.

- Pô! Levar uma tampa dessas logo de manhã…

- Vai lá…

David beijou-me e foi terminar o seu banho. “ Podia ter sido pior, Mel”, Pensei.

  •    

Os dias estavam já mais pequenos e mais frios também. Entráramos em Novembro, e o tempo já pedia casacos, blusas mais quentes e por vezes até uma sombrinha por causa da chuva que ameaçava. Começava também a sentir-se o cheiro do Natal no ar. A iluminação das ruas já estava a postos, e as decorações também.  Adorava esta época do ano. Cheirava a Outono, com uma pitada de Inverno. Simplesmente maravilhoso.

Os ensaios para a peça de fim de ano tiveram de ser apressados. Estávamos a poucas semanas do espectáculo, e ainda havia muito trabalho a fazer. Os exames também estavam á porta. Curiosamente a vontade de estudar para eles fugira. Em vez dela surgiu a vontade de estar com o David, o que não era nada bom. Não a parte de estar com ele, que essa era óptima, mas a outra, a de não ter motivação nenhuma para pegar nos estudos. E eu não me podia dar ao luxo de ter negativas. Ou então lá se ia a bolsa e com ela, “Bye! Bye! Lisboa”. Com toda esta agitação o cansaço voltou a apoderar-se de mim. E isso eu também não podia permitir. Não só porque não podia faltar nesta altura á faculdade, mas também porque não queria que o David desconfiasse que eu não estava bem.

Uma noite, depois de terminar mais um ensaio no anfiteatro da faculdade, sai para o pátio que dava acesso a uma outra sala e deparei-me com uma rosa caída á entrada da porta. Peguei na rosa e notei que esta tinha algo preso ao pé, um pedaço de papel que dizia “ Segue-me, estou perto”. Olhei ao redor mas não vi ninguém. Entrei então na pequena sala e, uma vez lá dentro, encontrei nova rosa com a mesma mensagem da anterior. Depois mais uma na porta de saída, e mais adiante outra e mais outra. Ao todo encontrei trinta rosas, estando a última na mão do autor.

- David?!

David estava encostado ao jipe com o seu sorriso maravilhoso e uma rosa estendida na minha direcção.

- Gostou da surpresa?

- Tu és doido. O que é que estás aqui a fazer? E isto tudo…

- Normalmente são os homens que esquecem destas coisas, mas como eu sei que você é especial, nesta relação foi você que não lembrou…

Olhei para o David confusa. Este puxou-me para junto dele e prendeu-me nos seus braços. Encarei-o de baixo para cima, devido á diferença de altura, e perguntei:

- Eu sei que isto vai soar muito mal, mas do que é que me esqueci?

David deu uma gargalhada.

- Do nosso primeiro mês de aniversário, boba.

Corei até á ponta dos cabelos. Como era possível eu ter me esquecido completamente, que há precisamente um mês atrás vivera a noite mais maravilhosa e surreal da minha vida?

- David, eu… nem sei o que dizer. Não tenho desculpa. Esqueci-me…

- E você diz que gosta de mim…

- Gosto! Gosto muito. Não sei como isto me escapou.

- Então agora vai ter que me compensar.

- Sim, eu compenso. Faço tudo o que quiseres.

- Tudo, tudinho? E sem questionar?

- Tudo o que tu quiseres. Sem questionar é que já é capaz de ser mais difícil.

- Então p´ra começar, me dá um beijo.

Elevei-me em bico dos pés e uni os meus lábios aos dele, macios e quentes. Demorámos o nosso tempo, até estarmos saciados da nossa sede de um pelo outro. Que felicidade sentia nestes momentos.

- E aí, você ainda não me disse se gostou das rosas?

- Se gostei das rosas? Eu adorei as rosas. Como é possível que consigas ser tão perfeito?

- Eu já nasci assim… Vem, vamos sair daqui.

Acenei com a cabeça e saímos dali, abraçados.

O nosso próximo destino foi um restaurante com vista para o mar. O David tinha reservado a sala só para nós, por isso, e apesar da hora tardia, conseguimos jantar. Lá fora ouviam-se as ondas do mar e o vento a uivar. Era uma típica noite de Novembro. Felizmente o céu estava limpo e conseguíamos ver a lua cheia na perfeição, espelhada no mar imenso. Lá dentro, numa temperatura agradável, ele e eu, praticamente sozinhos num calmo e íntimo jantar de namorados.

- David, isto aqui é lindo. Olha-me só para esta vista. E com o Mar aqui tão perto...

- Não era bem isto que eu tinha em mente, mas p´ra já terá que servir.

- Então o que tinhas em mente?

- Pensei que a gente podia reviver todos os momentos especiais. O primeiro encontro, o primeiro beijo, o fim-de-semana lá em Espanha… Mas aí, com esse tempo era complicado né. A gente até podia dar uma escapada até ao balneário.

- Oh, nem me lembres disso. Que horror.

- Foi a primeira vez que eu vi você.

- Ai foi? Então apaga essa imagem da tua cabeça. Imagino o que tu deves ter pensado.

- Não imagina, não.

- Foi uma vergonha. Até hoje não consigo encarar alguns colegas teus. O estado em que eu estava.

- Eu achei você muito linda.

- Estás a gozar, certo?

- Não. Juro que quando você passou por mim eu pensei “ Quem é essa garota linda?”.

- David, eu estava encharcada dos pés à cabeça. O meu cabelo e a minha figura estavam uma lástima. Não sei como é que me reconheceram.

- Quando eu vi você no palco, passado uns dias, te reconheci na hora. Seus olhos não enganam. São os olhos mais lindos que eu já vi. Têm um brilho especial.

Corei novamente. Não sabia o que responder a esse comentário. Era ele que tinha um brilho especial, por ser uma pessoa maravilhosa e por me fazer sentir também maravilhosa.

- Uma artista sem palavras?

- Deixas-me sempre sem saber o que dizer.

- Bom, você pode sempre retribuir, falar que eu também sou lindo, o quanto você me adora, essas coisas.

- Não posso. Senão ainda ficas mais convencido.

- Você anda prestando muita atenção p´ro que o Ruben fala.

Comecei a rir. A noite estava a ser maravilhosa. Tudo estava perfeito, desde a comida, ao espaço, a conversa, o David, tudo. E para terminar, um passeio pela praia, apesar do frio que se fazia sentir. Mas isso era só mais uma desculpa para nos abraçarmos ainda mais. Ele mantinha-me bem junto a ele, e eu não reclamava. Ficava tonta com o turbilhão de sentimentos que aquele homem me fazia sentir ao mesmo tempo. Beijámo-nos uma e outra vez e, não fosse o frio, teríamos entrado naquela água escura e entregado os nossos corpos e as nossas almas um ao outro, encobertos pela noite.

  •   

Abandonámos o restaurante e a praia já um pouco tarde. O David estava de folga no dia seguinte e eu podia sempre faltar as primeiras horas da manhã na faculdade. Aquele momento era nosso e só nosso. Sem preocupações, sem complicações. Nada. Dirigimo-nos para casa dele, onde certamente terminaríamos aquela noite perfeita. Durante o percurso, tentei perceber até que ponto gostava dele, mas não fui capaz. E quanto mais pensava, menos conclusões tirava. Era algo completamente inexplicável. Depois tentei lembrar-me em que altura tinha perdido a noção dos sentimentos e começado a gostar dele. E novamente fui dar a um beco sem saída. Parecia que toda a minha vida tinha gostado dele, e tudo o que vivi não foi mais do que um caminho já predestinado a levar-me até ali.

- Você está muito calada agora. Aconteceu alguma coisa.

- Não. – Respondi. – Estava só perdida nos meus pensamentos.

- Pensando em mim?

- Sim. Pensando o quanto gosto de ti, de estar contigo, o quanto me fazes bem.

- Pôxa, agora quem vai ficar sem graça sou eu.

- É para que saibas como é.

Chegámos. Saímos do carro e entrámos no elevador, e mais uma vez entregámo-nos ao desejo que tínhamos um do outro. O David apertava-me bem forte contra ele e fazia-me desejá-lo ainda mais. As suas mãos tentavam explorar o meu corpo por cima das roupas quentes e eu sentia-as queimar em mim. Abracei-o e afaguei os seus caracóis lindos, macios, enquanto a minha boca fugia da dele, provocando ainda mais ansiedade de me beijar. Os seus braços envolveram-me por baixo da cintura, elevando-me e cruzei as pernas em volta do seu tronco, permitindo que finalmente me beijasse. O elevador parou e preparava-me para me recompor, mas ele impediu-me e saímos no mesmo estado de transe em que nos encontrávamos. Encostei a cabeça no seu ombro e deixei que me carregasse ao colo até á porta do seu apartamento. De repente o David parou e baixando os braços pousou-me no chão. Eu olhei para ele e percebi que estava demasiado quieto, de olhar pousado em alguma coisa. Virei a cabeça nessa direcção e tentei recompor-me no mesmo instante. Parada em frente à entrada, uma rapariga que eu nunca tinha visto, mas que com certeza o David conhecia, pelos olhares que trocavam.

- Carol? É você mesmo? – Perguntou o David.

“Carol? Quem diabos é a Carol?”, pensei.

Olhei novamente para aquela figura estranha e vi quando um sorriso apareceu no seu rosto.

 

publicado por acordosteusolhos às 16:04

comentários:
adorei
segue a minha fanfic
www.odestino23.blogspot.com

Continua a escrever
Sofia Mendes a 29 de Setembro de 2010 às 16:34

Ohh logo agora que as coisas estavam a correr tão bem, aparece alguem para estragar tudo.
Pelos vistos não é só a Pat que vai atrapalhar a relação dos dois.
Marisa a 29 de Setembro de 2010 às 16:50

Ai isto esta a ficar mesmo interesante e agora ainda mais essa carol quero +++++++++++++.BJS.
cristina a 30 de Setembro de 2010 às 00:39

Querida, eu queria seguir a tua fic antiga mas eu nao consigo. Como faço?
Annie a 2 de Outubro de 2010 às 18:37

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D