28
Set 10

A Felicidade quando é demasiada é algo que assusta. Costuma dizer-se que depois da tempestade vem a bonança. Mas e depois da bonança, o que vem?

- Tive um pesadelo horrível esta noite.

- Credo Mel. Detesto pesadelos.

- E quem gosta?

O jantar que a Ana fizera estava delicioso, e tanto eu como a Inês tínhamos já repetido mais do que uma vez. Estivera um dia chuvoso, e a noite não se adivinhava melhor. Aproveitando uma folga dos ensaios, eu e a Ana convidamos a Inês e juntámo-nos ao serão, para jantar e conversar como há muito não o fazíamos.

- Mas este foi diferente. – Disse. – Pareceu tão real.

- Então é melhor contares. Dizem que se contarmos os sonhos eles já não se realizam.

- Foi estranho. Era noite e estava a chover. Eu andava pelas ruas completamente desorientada, sem encontrar o caminho… sem ver sequer o caminho.

- Credo Mel, que raio de sonho. Devias era sonhar com o David.

- Para que é que ela vai sonhar com ele se o tem na vida real?

Todas rimos. O que tornava a Inês única era isto mesmo: a capacidade de dizer sempre o que não devia, ou devia, em alturas impróprias, ou próprias, dependendo do ponto de vista.

- E hoje não temos namoro?

- Não. Ele tem andado muito cansado, entre os jogos do campeonato e da champions, anda de rastos.

- Mas tu podias ter ido ter com ele.

- Por acaso não há muito tempo ele falou-me disso. Quer-me dar uma chave de casa para que eu possa ir ter com ele depois da faculdade. Mas não sei. Acho que ainda é cedo…

- Cedo? Amiga, tu já viste tudo o que havia para ver nele. Tens medo do quê? De entrares em casa e de o encontrares a sair da casa de banho enrolado na toalha.

- Para ti tudo se resume a isso. Para mim é muito cedo. Não me parece que seja altura de ter uma chave. Ainda não sabemos o que vai acontecer. Temos de ter calma.

- Ah pois claro, porque vocês até tiveram muita calma em Espanha…

Olhei a Inês de lado e fiz-lhe uma careta. Era melhor não aprofundar muito mais o assunto. Ela nunca iria compreender.

Depois do jantar sentámo-nos a ver um filme. Ou pelo menos tentámos. Mas quando nos juntávamos era difícil concentrar-nos no que quer que fosse. A conversa era mais que muita, não sei onde íamos buscar tanto assunto. De repente o telemóvel toca. Fui ver, era o David. Saí da sala consciente do que me esperava quando voltasse. Elas adoravam meter-se comigo por causa do David. A Ana dizia que era porque a minha vida era muito mais interessante do que a delas. Por isso tinham de me gozar um bocado.

- Então como vai o menino de ouro?

- Tu não fazes ideia Inês. Se ele não lhe ligar todas as noites acho que nem dorme.

- Não sejam parvas. Parecem daquelas velhas que só estão bem a coscuvilhar a vida dos outros.

- Por este andar é isso que nós vamos ser. E solteironas...

- Credo Ana, fala por ti. Eu ainda tenciono namorar muito.

- Oh, meu Deus! Será que não conseguem falar em mais nada que não seja rapazes?

- Dizes isso porque já tens o teu. Mas se queres vamos mudar de assunto. Quando pensas contar ao David?

Calei-me. Eu e a minha grande boca. Porque é que não as deixei continuar com o mesmo tema? A verdade é que não tinha resposta para a pergunta da Inês.

- Ainda não é o momento. – Disse.

- E quando vai ser o momento Mel? Quando ele te vir prostrada numa cama de hospital? Ou talvez quando tiveres uma crise à frente dele. Sabes que não podes controlar isso.

- Eu sei. Mas ainda não consegui contar-lhe. Tenho de me sentir segura em relação ao que ele sente por mim. Depois, conto-lhe tudo.

- Tens dúvidas sobre o que ele sente por ti?

- Ás vezes…

- Olha, eu conheço o David há mais tempo do que tu e posso dizer-te que ele não é rapaz para se envolver com alguém se não gostar dessa pessoa.

- Eu sei. Só não tenho a certeza se o que ele sente é forte o suficiente, entendes.

- Entendo. Mas não acredito que ele te vá largar por causa disso.

- Largar não. Mas também não quero que continue comigo por pena…

- Hum… Não acredito que ele o faça. Enfim, tu é que sabes, mas quanto mais tempo adiares pior Mel. Pensa bem.

  •    

No dia seguinte estávamos as três completamente desnorteadas no trabalho. Tínhamos tido assunto para toda a noite, e quando demos conta já o sol nascia. Conclusão: Fomos trabalhar com uma directa em cima. Elas beberam um café e conseguiram recuperar um pouco as forças. Mas café e eu não combinamos. Ainda ficava pior. O remédio foi mesmo um comprimido dos meus e aguentar-me à brava. Mas o cansaço começava a pesar. À hora do almoço tive de pedir ao Jorge que me dispensasse de servir. Custava-me ter de lhe pedir isso, mas se queria aguentar o resto do dia tinha de ser. O Jorge foi como sempre muito compreensivo e amável. Por ele eu tinha tirado o resto das horas, mas não vi necessidade disso. E depois sabia que ele precisava do pessoal ali. A equipa ia treinar à tarde no próprio estádio e isso significava mais movimento da parte da tarde.

Durante a hora do almoço a Patrícia apareceu pelo restaurante. Olhou em volta do espaço, como se procurasse alguém e por fim aproximou-se do balcão.

- A Mel não está por aí? Preciso de falar com ela.

- Eu já a chamo.

A Inês veio ter comigo e disse-me:

- Tens a anti-cristo a perguntar por ti, lá fora.

- Quem?

- A anti-cristo? A Pat, quem é que havia de ser. Rapariga tu estás a dormir de olhos abertos.

- Nem me fales. O que é que essa quer?

- Eu sei lá. Mas vem muito mansinha hoje.

Franzi a testa. A Pat? Mansinha? Nunca vi. Por onde passava mais parecia um tornado de indelicadezas e arrogância. Ordenei ás pernas que andassem, e fui ter com ela. Encontrei-a com o mesmo ar de superioridade de sempre. Curiosamente quando me viu, a sua expressão mudou.

- Querias falar comigo?

- Sim Mel, queria. Vim avisar-te que o treino de amanhã passou para hoje. Logo às 18 horas no campo.

- Hoje? Mas o plantel hoje não tem treinos também no campo?

- Sim, e por isso é que achei boa ideia fazermos tudo junto. Precisamos de ensaiar passos novos e com os rapazes ali é mais fácil. Entramos melhor no espírito sabes. Mas tens aulas logo é isso? Não podes vir? Ultimamente não te tens esforçado muito Mel, e se continuares assim podes ter de sair. A D. Marisa esforçou-se tanto por fazeres parte da claque. E eu também tenho de admitir que és muito boa no que fazes. Deste um novo ânimo a todas nós.

Olhei para ela espantada. “Quem és tu, e o que fizeste à Pat?”. Era a primeira vez que me elogiava, e falava num tom normal, simpático até.

- Bem eu… Não tenho aulas logo, mas…

- Então se não tens aulas podes vir. Óptimo. Os rapazes vão adorar terem todas nós a torcer por eles. Nem que seja só n o treino. Vemo-nos logo. Tchauzinho.

Era suposto eu ter recusado, dito que não me sentia muito bem e que o melhor era fazer um treino extra mais tarde. Mas a Pat não me deu hipótese e, sem querer fui arrastada para um treino que nem programado estava. E como dizer ao Jorge, depois de lhe ter pedido dispensa doa hora do almoço, que tinha treino à tarde.

- Então, o que queria a indigesta? Ainda bem que ainda não almocei, mou parava-me a digestão já aqui.

-Queria avisar-me que logo temos treino.

- Hoje? Mas a equipa vai treinar também.

- Eu sei, eu disse-lhe. Mas parece que a inspiração das miúdas é maior quando treinam com eles.

- Bem, isso até faz sentido. A tua vai ser com certeza.

- Inês, eu mal me aguento de pé. Não sei como vou conseguir mover um músculo logo. E imagina, ela hoje até estava simpática. Elogiou-me e tudo.

- A Pat? A coisa mais irritante à face da Terra? A que só sabe dizer mal de toda a gente, porque ela é que é boa?

- Sim, essa mesmo.

- Tu estás com febre?

- Juro-te que ela foi super simpática.

- A Pat simpática? Não me agrada nada. Prefiro a velha Pat. A Pat só é simpática por duas razões. Ou quando quer alguma coisa, ou quando está a tramar alguma. E como não me parece que ela queira alguma coisa de ti, só te resta a segunda hipótese. Cuidado Mel. Ela não é de fiar.

  •   

Cheguei um pouco atrasada ao treino da claque. Já todos se encontravam no campo a fazer aquecimento, com as meninas ao centro nos alongamentos. Depressa reconheci o David, de costas em corrida, no meio dos outros jogadores. Não podia dar muito nas vistas, por isso limitei-me a desviara o olhar e segui o meu caminho.

- Mel, pensava que já não vinhas. – Disse-me a Pat, e o seu tom continuava agradável. – Era uma pena perderes isto… - E apontou na direcção dos jogadores, com um sorriso malicioso.

- Sim, era… - Limitei-me a dizer. Na realidade a vista não era nada má. Eu é que não estava com disposição para treinos. O cansaço mantivera-se durante todo o dia, e as forças começavam a abandonar-me. “ Espero aguentar-me até ao fim.”, pensei.

Juntei-me ás restantes raparigas e tentei acompanhá-las. O David passou por mim nesse instante e perdi-me a contemplá-lo. Resultado, falhei logo no primeiro movimento.

- Então Mel, passa-se alguma coisa? – Perguntou a Pat.

- Não, desculpem. Distaí-me.

- Pois, é muito fácil distrairmo-nos hoje, mas tenta não o fazer. Precisamos que todas dêem o máximo.

Acenei com a cabeça. A Pat estava realmente muito estranha. Num dia normal teria começado a gritar comigo, logo porque cheguei atrasada. Lembrei-me das palavras da Inês e subitamente fiquei desinquieta. Tentei concentrar-me ao máximo nos passos que ensaiávamos, mas era difícil. Não só porque tinha a cabeça longe, do outro lado do campo, mas também porque estava realmente a sentir-me mal. Num dos exercícios ficámos viradas de frente para os rapazes. Pela primeira vez reparei que os calções que usavam eram um pouco justos, marcando as formas de alguns. Pisquei os olhos e abanei a cabeça várias vezes, tentando mais uma vez focar-me no que estava a fazer. Mas o pior ainda estava para vir. Uma noite sem dormir, aliada ao cansaço do dia e de repente o chão começou a girar. Era suposto agarrar-me à colega do lado, mas perdi completamente o ângulo de visão, e estatelei-me ao comprido no chão. O estrondo foi tal que se fez ouvir junto do plantel. O David reparou que algo se passava e correu imediatamente na minha direcção. Tentei levantar-me para que não notasse o quão mal me sentia, mas era inútil. Estava esgotada.

- Mel, querida, tu estás bem? – Perguntava-me a Patrícia.

- Estou… eu só… - Levantei a cabeça e vi o David já perto de mim.

- Você se machucou?

- Não. Foi só uma tontura. Já passou. Volta para o treino.

- David, ela está tão pálida. Se calhar é melhor chamar o médico.

O que se passava com a Pat? De repente estava preocupada comigo?

- Não! – Gritei. – Não é preciso médico. Eu só estou cansada.

- Vem, eu levo você lá p´ra dentro.

O David fez sinal ao mister e pegou em mim, levantando-me e carregando-me ao colo. Baixei a cabeça, envergonhada, sem querer mostrar o quanto me sentia mal com tudo o que se estava a passar. Saímos pelo túnel até ao corredor dos balneários e, quando finalmente estávamos longe dos olhares alheios, o David disse-me:

- Você tem certeza que não se machucou?

- Sim, tenho.

- O que aconteceu?

- Aconteceu uma directa que tenho em cima. – Menti. Sabia bem que o que se tinha passado não era só por culpa da noite anterior.

- Não posso deixar você sozinha com elas por uma noite, que já vão aprontando.

Sorri. Só pelo facto de estar nos braços dele já me sentia melhor. David pôs-me no chão, perto da porta dos balneários femininos, e no momento em que se preparava para me beijar, eis que aparece a Pat.

- Estava preocupada, vim ver como estás Mel.

- Estou melhor, só um pouco dorida.

- Acho melhor você não treinar mais hoje. – Disse o David.

- Concordo Mel. Tu és muito boa, vais apanhar os passos novos num instante. Podes ir David, eu cuido dela.

- Tá bom, então eu vou.

Com a presença da Pat não conseguimos falar mais. O David voltou para o campo e eu entrei no balneário com ela. No entanto consegui perceber nos gestos dele que me queria dizer algo, e como que adivinhando, resolvi esperar que o seu treino terminasse. Não me enganei. Voltei com ele para casa.

  •   

 De manhã senti o lençol que o David puxou para me tapar as costas desnudadas. O treino dele começava às 10 horas. Eu também tinha aulas de manhã na faculdade, mas estava tão cansada que não me consegui levantar há hora marcada. Deitada de barriga para baixo, dormia agarrada à almofada. O cansaço levou-me para muito longe dali, e entrei num estado de puro delírio. De repente já não estava no quarto do David, deitada na sua cama. Estava na rua, e pelo frio que sentia devia estar nua. Enrolei os braços á volta do corpo numa tentativa patética de me aquecer, mas sem efeito. Olhei ao redor, tentando achar um ponto de referência que me guiasse, mas não vi nada. Escuridão total e absoluta. Comecei a andar, sem rumo, se visão. O frio era cada vez maior e eu não conseguia encontrar nada que me ajudasse a regressar para perto dele. Tentei gritar por ajuda, mas a voz não saiu. Nada, nem um único som. Estava perdida mas sentia que algo ou alguém me observava. Gritei mais alto, e mais alto, e mais alto ainda e vindo do nada senti uns braços fortes que me seguravam e tentavam puxar-me de volta.

- MEL! – Acordei sentada na cama, segura pelo David. O seu rosto molhado pela água do banho olhava para mim, assustado.

- Mel, o que aconteceu? Você está chorando?

- Eu? – Perguntei atarantada, e senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto. – Eu não sei…

- Você estava sonhando. Ouvi os seus grito lá do banheiro e com a água correndo. Foi só um pesadelo.

“ Só um pesadelo!”.

- Sim. Devia estar a sonhar. Desculpa, não te queria assustar.

- O que você estava sonhando?

- Não sei, não me lembro.

O David abraçou-me e o seu corpo molhado fez-me estremecer.

- Eu estou aqui com você. Nada vai te acontecer.

Sabia que estava a ser sincero. Mas no íntimo do meu ser, a dúvida pairava.

publicado por acordosteusolhos às 17:27

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D