21
Set 10

Contar à Inês o que se tinha passado não era a mesma coisa que contar à Ana. Não que eu não confiasse nela. Já me tinha provado, e mais do que em uma só ocasião, que podia contar com a sua amizade. Mas o problema da Inês era a língua. A Inês era uma daquelas pessoas que falava sem pensar, dizia a primeira coisa que lhe passava pela cabeça. E se por um lado isto demonstrava bem a pessoa sincera que era, por outro podia causar graves transtornos. E era essa a minha dúvida. Contar ou não à Inês. Mas se não o fizesse já sabia que me iria massacrar tanto, que o mais provável era ter um esgotamento. Já o fizera antes de termos viajado para Espanha, e continuaria a fazê-lo, a menos que a pusesse a par das novidades. Nessa manhã preparei-me psicologicamente para o que aí vinha. A Inês tinha ligado a avisar que iria ter connosco ao apartamento para tomar o pequeno-almoço e algo mais. Esse “algo mais” era para mim.

-Alô “muchachas”. Ui, que coradinhas que nós estamos. E que cheirinho bom. Isso é o quê?

- Pergunta à Ana. Ela é que é a cozinheira. Eu detesto cozinhar.

- Hoje temos ovos mexidos com torradas, panquecas e mel para acompanhar.

-Uau! Vocês tratam-se bem. Tenho de começar a vir aqui mais vezes.

Sentámo-nos à mesa e começámos a comer. Ainda tínhamos tempo até à hora de entrada ao serviço.

- Então contem lá como foi o Fim-de-semana. Não posso crer que foram sem mim, amigas da onça.

- Estavas a trabalhar…

- Desculpas, desculpas. E isso agora não interessa nada. Eu sei como passei o Fim-de-semana. Só não sei como é que vocês o passaram.

- Oh, nós passámos muito bem. Aquilo era lindo, uma praia fantástica, o Hotel onde ficámos super confortável…

- Eu não quero saber isso. Quero saber se houve alguma acção.

A Ana olhou para mim e tentou esconder um sorriso. Não valia a pena estar a rodear o assunto. Até porque a Inês percebeu logo os olhares entre mim e a Ana.

- Ok, há aqui qualquer coisa que não me estão a contar. O que se passa?

- Nada de especial. – Disse, já meio envergonhada. – Foi só… uma coisa.

- Coisa? Que coisa? Tem a ver contigo e com o David não tem? Não vale a pena mentires que eu sei. Ele beijou-te outra vez?

Aqui a Ana não conseguiu controlar uma gargalhada sonora.

- Opá, parem lá com isso e contem de uma vez.

Não sabia bem como contar à Inês, por isso a Ana adiantou-se.

- Digamos que houve beijos… e não só.

- Oh, Meu Deus! Tu e o David Luiz?

Corei. Até tinha medo do que ia sair dali.

- Vocês?... Não! E eu enfiada naquele restaurante, a perder toda a diversão.

- A diversão foi só para algumas.

Lancei um olhar furioso à Ana. Ela não estava a ajudar.

- Estou a ver que sim. Eu não disse? Eu sempre soube qual era o vosso problema. Eu devia abrir um consultório sentimental. Ia fazer uma fortuna.

- Inês, acho que nem é preciso pedir-te para não contares nada.

- Claro que não. – Disse de boca cheia. – Achas que eu ia andar por aí a espalhar que tu e o David tinham-se entregado aos prazeres da carne. Se bem que era engraçado de ver a reacção de uma ou duas pessoas.

- Não! – Ordenei. – Nem penses Inês. Juro-te que nunca mais te falo.

- Calma rapariga. Ninguém vai saber que vocês já passaram á fase seguinte. Se bem que eu quero estar presente quando uma certa chefe de claque vos vir juntos e aos beijinhos.

- Pois, isso também ninguém pode saber.

- Hã?!

- Eles não querem que se saiba que estão juntos. – Explicou a Ana.

- Porquê? O que é que tem as pessoas saberem. Não me digas que ele tem vergonha de ti, o sacana. E eu a pensar que o David era diferente…

- Não é nada disso. Fui eu que pedi para mantermos isto em segredo, por enquanto.

- Mel, sinceramente tu não existes. Que mal tem vocês namorarem? Devem alguma coisa a alguém? Pareces uma miúda de 15 anos com medo de contar aos pais que já namora.

- Eu tenho os meus motivos, mas um deles é por acaso a minha mãe. Imagina, ela abrir uma revista e dar de caras com a filha, namorada do David Luiz.

-E então?

- Então que a minha mãe não me fala á meses, não sabe nada da minha vida, e eu preferia que continuasse assim.

De repente o ambiente tornou-se pesado.

- Desculpa. Não me tinha ocorrido esse pormenor. Mel?

- Sim?

- Sabes que vais ter de lhe contar, não sabes? Quer dizer, não me parece que vás conseguir esconder a tua situação durante muito tempo.

- Eu sei, eu vou contar. Mas ainda não. Primeiro vou esperar a ver o que isto dá. Depois, quando for a altura certa eu conto-lhe tudo.

- Eu acho que lhe devias dizer já. Para quê esperar? Quem sabe até ele te possa ajudar. Ele é uma figura pública e a presença dele sempre pesa mais…

- Não Ana. Já falámos sobre isso e está fora de questão.

- Ás vezes és tão casmurra. Acho que não conheço ninguém tão teimosa como tu.

- Pois eu conheço. TU!

Levantei-me da mesa e vesti o casaco. As manhãs de Outubro notavam-se bem frescas. Peguei na minha mala e nos apontamentos que precisava de levar para o faculdade e preparei-me para sair.

- Então ficam?

E saímos todas juntas.

  •   

Guardar segredo sobre um namorado era mais difícil do que imaginara. Primeiro porque a toda a hora levava com os olhares irónicos de duas supostas amigas. E depois porque cada vez que me cruzava com o David tinha de fingir que nada se tinha passado entre nós, e isso não era fácil. Ele não era um daqueles homens que desse para esquecer facilmente, e ainda só tínhamos estado uma noite juntos. E depois nunca dava para falarmos à vontade. Havia sempre mais alguém. Mas de uma maneira ou de outra lá conseguíamos enviar sinais um ao outro. Aproveitando que o Bruno estava longe, o David veio ter comigo ao balcão e num volume quase inaudível perguntou-me:

- A que horas você sai?

- Daqui a pouco tenho de ir para a faculdade. – Disse, olhando em redor.

- Então eu pego você lá.

Sorri e baixei a cabeça em afirmação. Depois fiz sinal com a mão “7”. A partir dessa hora estaria livre. Ele deu-me a entender que percebera e afastou-se. Voltei para a cozinha. Assim que lá entrei dei de caras com a Inês encostada ao frigorífico e com um sorriso de orelha a orelha.

- Então, já mataram saudades?

-Não! – Respondi a rir.

- Pois, imagino que não dê para matar saudades assim com um homem daqueles. E por falar nisso, ainda não ouvi pormenores sobre essa… noite.

- Desculpa?

- Vá lá, não precisas de contar tudo exactamente, mas um pormenorzito assim por outro…

- Inês, esquece.

- Está bem, mas responde-me só a uma coisa.

- Depende da pergunta.

- Ele é aquilo tudo que imaginamos?

Fiquei parva com a pergunta da Inês, mas não levei a mal. Era típico dela. Voltei-me para trás e respondi-lhe:

- Não!

- Não? – Disse com ar desapontado.

- Hã-hã! É muito mais do que se possa imaginar.

A Inês soltou uma gargalhada e eu continuei o serviço, leve como uma pena.

  •   

Dei muito pouca atenção às aulas da tarde. Também tinha ensaios marcados que consegui adiar. Eu sabia que estava a atrasar-me, mas não conseguia pensar em mais nada a não ser no David. Tentei concentrar-me mas foi inútil. A única coisa que me interessou durante a tarde foram as horas, que demoraram séculos a passar. Queria aproveitar ao máximo todos os momentos com ele, e estar sem ele parecia-me agora uma perda de tempo. Que estranha é a noção que temos do tempo, quando estamos apaixonadas. Bem como a noção que temos do que é ou não importante. Não que as aulas o tivessem deixado de ser. Mas de repente era como se tudo fizesse mais sentido, e aquilo para o qual eu estava disposta a viver passou a ser secundário.

Quando saí da última aula, e antes de sair para a rua, o telemóvel tocou. Era uma mensagem do David.

“ Estou esperando você no parque de estacionamento”.

Apressei o passo em direcção à rua. Só tinha uma coisa no pensamento, e nem reparei que àquela hora já tinha escurecido. Dirigi-me ao parque onde o David estava já á minha espera, e de repente algo me fez deter o ritmo. Parecia-me ter ouvido um ruído por detrás de um dos veículos. Resolvi continuar, pois já não estava longe do carro dele. Mas no momento em retomei o caminho alguém me agarrou por trás levantando-me no ar.

- AI! – Gritei.

- Estava me procurando?

Reconheci aquela voz e virei-me no mesmo instante.

- Assustaste-me.

- Estava com saudades… - E baixou-se para me beijar, mas eu impedi-o.

- Psiu. Aqui não, estamos muito expostos.

Ele agarrou na minha mão e levou-me até ao carro.

- Que tal jantar?

- Sim, mas antes tenho de passar por casa para um banho e trocar de roupa. – Disse.

O David riu-se e arrancou com o carro. De inicio não percebi o porquê daquele riso, mas quando o vi tomar a direcção oposta à minha casa comecei a suspeitar. Ele levou-nos directamente para a sua casa.

- David, eu estou mesmo a precisar de um banho.

- E então? Na minha casa também tem banheira, sabe? – Disse enquanto trancava o carro. Depois dirigimo-nos para o elevador.

- Eu sei que tens banheira, mas eu preciso de rou…

Não cheguei a terminar a frase. Estávamos dentro do elevador, sozinhos, e o David acabara de me agarrar e de juntar os seus lábios aos meus. Senti o coração a disparar novamente, e as forças abandonaram-me.

-…pa.

- Se ficar insistindo vou ter que calar você outra vez.

Encolhi os ombros à espera de mais um beijo, mas a porta do elevador abriu nesse momento, e nós saímos.

- Bem-vinda à minha casa.

Fiquei parada à porta enquanto o David fazia sinal para eu entrar.

- Pode entrar. Não tem nenhum bicho aqui não. Bom, de vez em quando tem um cabeludo andando por aí, mas ele não morde.

Eu ri. O David tinha esse efeito em mim. E acalmava-me também. Meio envergonhada, entrei. Ele levou-me até à sala e aí sim eu ia tendo um ataque. A mesa estava posta para duas pessoas. No centro um bonito arranjo de rosas brancas davam o toque final, e por toda a casa velas acesas.

- David…

- Vai tomar seu banho e se trocar. O jantar está esperando.

Foi o duche mais rápido que eu tomei. Sentia-me a mulher mais feliz do mundo. O David tinha pensado em tudo. Bem, em tudo não. Terminei o banho mas continuava sem roupa limpa para vestir. “ A que trazia terá que servir”. Fui até ao quarto dele mas aí tinha outra surpresa. Em cima da cama estava o vestido mais lindo que eu já tinha visto em toda a minha vida. O corte era tão elegante e o tecido tão fino que tive medo de o estragar ao vestir. Voltei para trás á procura do David para lhe agradecer e encontrei-o na sala, perto da varanda.

- David! Já vi o vestido. É lindo.

- Ué? Pensei que já tinha vestido ele.

- Não, primeiro quis agradecer.

Aproximei-me dele e desta vez fui eu que dei o primeiro passo. Enrolei os braços em volta do seu pescoço e lentamente comecei a beijá-lo. Ele retribuiu, e quase sem dar por isso, a toalha que tinha enrolada ao corpo caiu. Mas desta vez não me importei. “ O jantar está esperando”. E continuou a esperar.

 

publicado por acordosteusolhos às 20:23

comentários:
está muito gira, estou a adorar lê-la!
Continua assim!
Beatriz a 21 de Setembro de 2010 às 21:28

Amo a tua fic! Ta linda!
Catia a 21 de Setembro de 2010 às 22:05

Que lindo o capitulo!
Amor ás escondidas, que romantico :P
Lisa a 21 de Setembro de 2010 às 22:06

Amei sandra! Isto ta a ficar tao giro oh
O david e um querido :D
Martinha a 21 de Setembro de 2010 às 22:18

Ai Sandrinha

cada vez gosto mais da tua fic e, muito muito, da Inês.

Numa situação destas até eu deixava o jantar à espera ;)

Bela escrita, bela história, tanta realidade numa só fic.

Amo. Foi a minha preferida desde que a conheci e continuará a sê-lo certamente.

beijinho
Ana M. a 21 de Setembro de 2010 às 22:48

Ai que romântico, até um vestido lhe comprou :)
Marisa a 22 de Setembro de 2010 às 11:06

Amei!!!
Liliana a 22 de Setembro de 2010 às 16:31

Amo isto sandra! O david é tao querido *.*
Sara a 22 de Setembro de 2010 às 16:33

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D