20
Set 10

Quando finalmente regressei á minha cabana era já hora de almoço. O Ruben já saíra e a Ana estava deitada no sofá com ar ensonado. Tentei não dar muito nas vistas, mas era impossível evitá-la. Espreitei e disse Bom Dia.

- Bom dia desaparecida! Então isso são lá horas de vir para casa? – Disse-me com um sorriso rasgado. – A noite deve ter sido boa…

Disfarcei a minha satisfação o melhor que pude, mas era a Ana que estava ali. Eu e ela conhecíamo-nos desde a escola primária e conseguíamos ver o estado de espírito de cada uma só de olhar. Ao mesmo tempo pensei na Inês e no que me diria se fosse ela que me visse entrar.

- Desculpa, deixei-me dormir. Quando acordei era tarde e o Ruben já se tinha apoderado do meu espaço. A propósito D. Ana Nogueira, quem foi que lhe mandou dar ordem para o Ruben trocar de cabana comigo?

- Olha, eu estive lá ao pé de ti a chamar-te, mas o que tomaste deve ter-te dado cá uma pedrada que tu nem te mexeste. E depois tivemos pena de te acordar e o Ruben também estava cansado da viagem. Dormir no sofá não dá jeito nenhum por isso achei que ele podia vir dormir aqui. Os quartos são individuais… Mas não estejas a querer mudar de assunto. Algo me diz que não passaste a noite só a dormir. Começa a contar.

- Não te vou contar nada. Primeiro porque estamos atrasadas e ainda tenho de ir tomar um banho e vestir-me. E depois porque não te vou dar pormenores do que se passou.

- CHATA! – E atirou-me com a almofada enquanto eu fugia direitinha para a casa de banho.

Tomei um duche rápido. Estava mesmo a precisar de um bom banho. De vez em quando a imagem dele surgia na minha mente. Ainda estava em êxtase com a noite passada. E depois lembrava-me novamente do que a Inês me dissera. “Arranjem um quarto e resolvam-se”. Sim, eu e ele tínhamo-nos entendido. E que entendimento… Mas apesar de toda a alegria que me invadia, não conseguia parar de sentir medo do que se iria seguir. E se fora cedo demais para o que aconteceu? E agora, o que é que ele ia pensar? E se agora ele já não olhasse para mim da mesma maneira? Um turbilhão de perguntas bailava na minha cabeça. “Caramba, ainda tenho mais dúvidas agora  que antes”.

Saí do banho, vesti-me, fiz a mala pois combinámos sair logo a seguir ao almoço, e fui ter com a Ana que me esperava na sala.

- Vamos? – Perguntei.

- Não vais mesmo contar-me nada?

- Vou, mas não agora que estamos atrasadas. Quando estivermos em casa. Fazes-nos um chazinho e falamos melhor. Agora vamos que já deve estar tudo á nossa espera.

- Opá, não sei se aguento até logo sem saber nada. Diz-me só se…

Não respondi. Abri a porta, virei-me para trás e mordi o lábio a rir. Não precisei dizer mais nada.

- Yes! – Gritou a Ana.

  •    

O resto do pessoal já estava á entrada do hotel à nossa espera. O David brincava com o Ruben perto do balcão de chegada enquanto os restantes membros do grupo estavam perto da janela em jeito de despedida à praia que se avistava dali. Quando nos viram chegar Juntaram-se a nós perto do balcão. Ninguém tinha certezas de nada, mas todos podiam adivinhar o que se tinha passado entre mim e o David. Isso deixava-me ainda mais nervosa perto deles. O David viu-me chegar e deu-me um daqueles sorrisos que sempre me fazem ganhar o dia. Não tínhamos falado muito sobre o assunto porque acordámos já bastante tarde, mas sabia que podia contar com a sua descrição. Mantive-me quieta atrás dele enquanto o via liquidar a conta da nossa estadia. Também não me sentia à vontade com isso, mas por agora não podia fazer nada. E duvidava que ele me deixasse fazer alguma coisa mais tarde. Quando passou por mim deu-me um beijo na cara e tirou-me a mala das mãos, carregando ele com a mesma. Segui-o sem protestar. Cá fora já tínhamos o nosso transporte á espera. Mais uma vez tinha sido organizado pelo hotel. O David entregou a bagagem ao motorista e agarrou-me pela mão.

- Nós vamos caminhando até ao restaurante.

Senti um risinho abafado percorrer os restantes membros do grupo, e fiquei um pouco envergonhada. O David nem se apercebeu, ou fingiu que não…

- Você se incomoda se formos andando até lá? Não é muito longe daqui, e assim a gente aproveita p´ra namorar mais um pouco.

- Não, não me incomodo nada. – Respondi. Afinal, namorar era sempre bom.

Seguimos de mãos dadas pelas ruas da Pequena e pacata Vila. Sentia-me bem a passear com o David e passarmos despercebidos, sem ninguém nos conhecer. Em Lisboa não poderíamos fazê-lo.

- Você não gostou quando eu peguei na sua mão na frente de todo o mundo…

- Claro que gostei… Oh, está bem. Não sei como mas pareces a Ana. Adivinham sempre o que estou a pensar. Não é que eu não tivesse gostado. Só acho que era melhor não divulgarmos o que se passa, percebes?

- Mais ou menos. Você quer namorar escondido, é isso?

- Sim… Não…

- Em que é que ficamos então?

Parei e encarei o David bem de frente. Os olhos dele estavam particularmente brilhantes nesse dia. O vento soprava leve e ondulava aqueles caracóis onde me tinha perdido há umas horas atrás.

- David, nada me daria mais prazer do que puder andar assim contigo e gritar aos quatro cantos o quanto gosto de ti. Mas tu és o David Luiz, toda a gente te conhece. Eu estou a tirar o meu curso e, espero sinceramente conseguir vingar no meio da música, ou do teatro. Mas quero vingar por mim mesma, não porque conheço ou namoro com o David Luiz.  E se isto se sabe, é o que vai acontecer. Não fiques chateado comigo, por favor.

- Não estou. Pelo contrário. Cada dia você me surpreende mais.

Retomámos o caminho.

- Eu? Porquê?

- Porque se fosse outra pessoa iria com certeza aproveitar o facto de estar junto comigo p´ra se promover.

- Não acredito que outra pessoa fizesse isso. Só se andasse contigo por interesse.

- Aí é que está. Tem muita gente se fazendo passar por amigo, mas que na verdade só quer se aproveitar de você.

- Isso deve ser horrível. Ser traído por aqueles que pensamos conhecer.

- É, mas com o tempo a gente aprende a ver quem de facto gosta de nós.

- E eu gosto? – Perguntei em tom provocador.

- Você? Você me adora! – Disse rindo. O Sorriso do David tinha mil e uma expressões. Ora era um sorriso tímido, ora descarado. Ora era aberto ou disfarçado. Enfim, com um sorriso conseguíamos sempre adivinhar o seu estado de espírito.

- Ás vezes és mesmo convencido, sabias.

Travou o passo e sem estar à espera puxou-me para ele. Fiquei presa nos seus braços, a cara a poucos milímetros da minha, e senti novamente a pulsação a aumentar.

- Vai dizer que não é verdade?

Não consegui pronunciar mais nada. Limitei-me a abanar a cabeça e a fechar os olhos enquanto sentia os lábios macios do David nos meus. Era como levantar voo. Cada vez que me tocava, cada vez que me beijava era como se o resto do mundo deixasse de existir. Não pensava em mais nada. Era a felicidade pura, sem artifícios, aquela que me invadia. E o coração disparava de tal maneira que às vezes tinha medo que parasse de bater. E se isso acontecesse eu podia dizer com toda a certeza que partira feliz, pois alcançara em poucos minutos o que muitos sequer conseguem vislumbrar durante uma vida inteira.

O almoço decorreu com a mesma animação do dia anterior. E pela primeira vez senti-me feliz por não perceber espanhol. Isto porque pelas caras dos membros latinos, estes tentaram várias vezes “tirar nabos da púcara” sobre o que se passava entre nós. Pela cara do David eu ia apanhando umas ou outras, mas este conseguia sempre esquivar-se. O David era mestre em transformar uma pergunta em piada e fintava os seus colegas de trabalho tal como fintava os adversários. Voltámos para Lisboa logo a seguir ao almoço. Desta vez o David ficou ao meu lado e curiosamente a viagem correu melhor, mais calma. Quando finalmente chegámos, o David ofereceu-se para nos levar a casa. A Ana subiu primeiro e deixou-nos entregues à despedida.

- David, o que aconteceu ontem à noite… Eu não costumo… Não quero que penses que…

Ele beijou-me. Um beijo doce e terno, para me impedir de continuar.

- Eu nunca pensei… -E beijou-me outra vez, e depois outra, e mais outra ainda. Não sei se podia dizer que nos amávamos, ainda era muito cedo para adjectivar o que sentíamos. Mas de uma coisa eu tinha a certeza. Não havia lugar no mundo onde eu desejasse estar mais, do que ali com ele.

  •      

Tal como prometido, o serão foi passado em conversas e actualizações sobre o que se tinha passado durante o Fim-de-semana, tudo acompanhado com um delicioso chá de camomila.

A cada pormenor uma expressão diferente surgia na cara dela, e eu tinha obrigatoriamente de me rir. Fomos para a cama tardíssimo, mas apesar do cansaço e do sono estava feliz. Era como se de alguma maneira tivesse cumprido um qualquer propósito que me estivesse destinado. Antes de adormecer pensei que ainda há poucos meses atrás tinha chegado a Lisboa, cheia de sonhos e expectativas. Mas nenhum deles me transportara tão alto como a realidade que estava a sentir. E ao fechar os olhos, o sorriso do David apareceu-me, acompanhado pelo brilho dos seus olhos esverdeados.

publicado por acordosteusolhos às 23:51

comentários:
Amei!
Ai que queridos *.*
Catia a 21 de Setembro de 2010 às 00:11

Continua!
Esta linda a fic!
Lisa a 21 de Setembro de 2010 às 00:12

Adorei!!!
Quero mais :D
Eles sao tao queridos!
Martinha a 21 de Setembro de 2010 às 00:13

Adorei.
Marisa a 21 de Setembro de 2010 às 10:41

Adrorei a tua fic, comecei a lê-la ontem e amei mesmo, nao consegui parar de ler :D
Continua!

Beijinho
Angela a 21 de Setembro de 2010 às 18:59

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D