13
Set 10

Após o jogo no Estádio da Luz, em que o Benfica ganhou, a equipa partiu para fora, para mais um jogo a contar para a Champion. Fiquei portanto sem ver, ou ter qualquer outro tipo de contacto com o David durante alguns dias. No entanto, desta vez, senti bastante a ausência dele. Tanto, que comecei a duvidar de ter tomado a melhor decisão quando pedi para termos calma. Não tinha nenhum contacto dele, pelo menos nenhum que fosse directo ou pessoal. Por isso não podia enviar-lhe sequer uma única mensagem a desejar-lhe sorte para os jogos. E se inicialmente pensei que ao afastá-lo estaria a preservar-me de bastantes dores de cabeça, totalmente dispensáveis nesta altura, as saudades que senti fizeram-me pensar o contrário. Não tinha tido oportunidade de me despedir dele, de lhe dizer que pensaria nele todos os dias, enquanto estivesse fora e que no dia do jogo toda a minha energia estaria concentrada nele. Isso estava a deixar-me louca. Queria paz  e a única coisa que consegui foram uns dias agitados em que tudo corria ao contrário. Primeiro no trabalho. Parti mais loiça num dia que em 3 meses de casa. Depois na faculdade. Tive problemas de concentração e nem as peças mais simples eu conseguia decorar. Nem a claque escapou. Falhei todos os movimentos que podia falhar. Conclusão? Um valente trambolhão que me valeu uma entorse. E pior: aulas de dança de pé ligado, nem pensar. Isso iria atrasar-me ainda mais. Enfim, um completo desastre.

No fim da semana chegaram finalmente e o movimento na “catedral” tornou a aumentar. Infelizmente não pude assistir ao retorno dos filhos pródigos à casa porque o Jorge pusera-me novamente no armazém, graças ao tornozelo inchado. Mas é claro que as minhas boas amigas trataram de me manter a par das novidades. E eu tentava disfarçar a minha ansiedade com completa indiferença, mas nesta altura já era quase impossível de esconder o que me ia realmente na alma.

- Um empate num jogo destes não é mau. E viste, os adeptos vieram em massa saudar os “heróis”.

- Pois, não ganhem em casa que logo vêm.

Á Ana tanto lhe dava se o Benfica ganhava ou perdia. Aprendera a gostar das pessoas, jogadores, do estádio, mas continuava “verdinha”.

- O David quando saiu do autocarro parecia estar à procura de alguém. Reparaste Ana? A cabecinha dele a espreitar por cima dos adeptos?

Inês olhara para mim quando fizera a observação. Estava claramente a analisar-me, por isso optei por não dizer nada.

- E tu Mel? Não tiveste pena de não ires dar uma espreitadela á chegada dos rapazes?

- Não. Deve ter sido uma chegada como as outras, portanto não vejo qual o motivo de tanta agitação.

- Ora, vá lá. Não te faças de desentendida. Passaste estes dias todos de cabeça no ar e agora é que te armas em esquisita.

-Eu já vos disse que entre mim e o David não há nada. Não percebo porque continuam a insistir numa coisa que não existe.

- Não existe porque foste idiota o suficiente para lhe pedires calma, paciência, vamos devagar. Oh, por favor Mel. Um homem daqueles… se fosse comigo agarrava-o e já não o largava mais.

- Pois, mas eu não sou como tu.

- Não és, mas é melhor que abras os olhos. È o que não faltam por aí são raparigas a jogarem-se aos pés do loirinho.

Encolhi os ombros em sinal de indiferença, mas a verdade é que aquela última afirmação da Inês tinha-me deixado apreensiva. Tudo o que ela dissera era verdade. Eu sabia que o David tinha muitas pretendentes ao seu coração. Muitas delas eram raparigas do mesmo círculo dele. Muito diferentes de mim. E tanto eu como o David tínhamos chegado à conclusão que o melhor era ficarmos só pela amizade. Não fora só eu a ter a ideia. Se ele realmente estivesse interessado, teria dado mais luta, e não o fez. Por isso o melhor era mesmo esquecer.

  •    

Hora de saída. Arrumei tudo e preparei-me para ir ter com a Ana ao restaurante. A entorse não tinha sido grave, mas dava-me algumas dores se abusasse. Por isso tinha de esperar pela Ana para voltarmos as duas para casa. Mal entrei na “catedral”  percebi que a sala estava animada. A maior parte da equipa e outros atletas estavam lá. Espreitei pela porta de acesso à sala do restaurante e com o olhar procurei o David. Após alguns segundos encontrei-o sentado numa mesa junto á janela, com um grupo em que faziam parte, para além de três ou quatro jogadores, as meninas da claque. Entra elas, é claro, estava a Patrícia muito junta ao David e por vezes até em posições menos próprias. “ Aquela rapariga não dá uma folga”, pensei, “ Mas também, não tenho nada a ver com isso. Ele é maior e vacinado, não me deve nada, por isso se quiser estar ali rodeado daquelas oferecidas, que esteja”. Amuei. Sabia que não devia, era uma estupidez pegada, mas ver o David a conviver com outra – principalmente porque essa outra era a Pat – incomodava-me. Resolvi ir para a cozinha esperar pela Ana. A hora de saída dela já não demorava muito. E ainda bem. Estivera tantos dias sem vê-lo e agora era preferível ter continuado assim. Na cozinha decorria uma grande azáfama, com um entra e sai de bandejas , tudo para agradar aos meninos bonitos do clube. Sentei-me num canto para não incomodar ninguém quando entrou a Inês.

- Já estás aí? Não te tinha visto ainda, pensava que estavas no armazém.

- Cheguei agora mesmo.

- Já viste quem está lá dentro?

- Não! – Menti. Não estava com paciência para as ironias da Inês.

- Não? Não acredito que não deste nem uma espreitadela. Pensava que estavas ansiosa para pores os olhos num certo jogador, de quase um metro e noventa… - E suspirava ao dizer isto.

- Tu devias ir para teatro. Já te disseram que tens jeito para representação?

- Sim, mas não tenho paciência para decorar textos. E depois olho para ti, só estudo, sem diversão e a pouca vontade que tenho de retomar os estudos desaparece. Volto já.

Agarrou numa bandeja e desapareceu também ela. Voltei aos meus pensamentos. Queria tanto ir falar com o David, perguntar-lhe como tinha corrido tudo, estar com ele. Mas ali não me perecia ser o local mais indicado. Quando o encontrasse sozinho, logo falava com ele. Mas raramente o encontrava sozinho. Que seca. Precisava mesmo de me ir embora para ver se não pensava mais em coisas sem importância. Porque essas coisas estavam a tornar-se importantes e eu não queria.

- Voltei! – A Inês regressara. – E trouxe uma visita.

Um vulto apareceu á porta e aqueles cabelos não deixaram margem de dúvida.

- David!

- E aí Docinho, me falaram que você se machucou durante os ensaios.

“Docinho?”. Nunca me tinha chamado docinho. Aproximou-se de mim e baixou-se para me falar.

- Foi só um mau jeito. Daqui por uns dias já estou boa.

- Andar de cabeça no ar é o que dá. – Disse a Inês. Olhei para ela com um olhar fulminante. Já estava a adivinhar que dali não ia sair boa coisa. – Tu estavas fora e ela foi contigo.

E saiu tão rápido que nem tive tempo de lhe responder. Olhei para o David envergonhada. Ele ria. Já tinha saudades daquele sorriso.

- Desculpa lá isto. A Inês fala demais.

- Tudo bem, eu tenho o mesmo problema com o Ruben. Mas diz aí, o que ela falou é verdade? Você pensou em mim?

Corei. Ia matar a Inês da próxima vez que a visse.

- Não…

- Então, você não pensou em mim nem um pouquinho?

- Quer dizer, pensei, mas a Inês exagerou. Eu só… pensava de vez em quando…

- Ainda bem, porque eu também pensei em você.

Levantei a cabeça e olhei-o nos olhos. Cada vez achava-o mais perfeito. Sorrimos os dois e percebi, naquele momento da cumplicidade que nos unia. A cozinha continuava movimentada, mas ali éramos só nós os dois. O David Luiz e a Mel. Havia algo que nos unia, algo que eu ainda não conseguia explicar, mas que era só nosso e imperceptível para todos os outros.

- Vem, vou levar lá para fora.

- Não! – Gritei. – Eu estou bem aqui. E além disso estou à espera da Ana para irmos. Agora não convém andar muito de metro, por causa do pé.

- Então eu levo você.

- Nem pensar. Vai ter com os teus amigos, divertir-te.

- Eu já estive com eles muito tempo. Agora eu quero estar com você.

E dizendo isto pegou-me ao colo e levantou-me.

- David, não. Que vergonha.

- Vergonha porquê? Você não está com o pé dorido?

- Sim, mas consigo andar. Só não posso abusar.

- Mas assim é tão melhor.

“Pois é!”

- Está bem. Mas só se sairmos pelos fundos. Não vais carregar comigo à frente de toda a gente.

- ´Tá bom.

 

Deixei um recado à Ana a avisar que o David me levava e saímos. Levou-me ao colo até ao carro dele. E parecia que não era nada com ele. Nem uma única vez senti a sua respiração alterar ou os braços vacilarem. Nada. “Que forte que é este rapaz!”. E cavalheiro também, uma vez que me abriu a porta do carro para eu entrar.

- Muito bem. Só tem que me dizer p´ra onde e eu levo você.

- Segue em frente e eu depois já te digo onde virar.

E lá seguimos viagem. O David sempre na brincadeira, e eu sempre na retaguarda. Falámos de tudo um pouco. Coisas banais na sua maioria, mas com ele até as coisas mais simples se tornavam especiais. Convidou-me para jogar bowling, gozou comigo quando lhe disse que nunca tinha jogado. Em troca convidei-o para assistir ao espectáculo de fim do ano da faculdade. Ele prometeu ir. E assim, entre conversas e brincadeiras, chegámos a minha casa.

- É aqui que moro. Não é nenhum palácio, mas gosto do apartamento e a zona não é pior.

- Parece simpático. Você mora lá em cima?

- No 1º andar. Aquela janela ali é a do meu quarto. – Disse apontando com o dedo.

Nesse momento o David tinha-se aproximado para ver e ficámos quase colados um ao outro. Mais uma vez senti o seu perfume. Cheirava sempre tão bem… Cada momento que passava com ele tornava-se mais difícil de lhe resistir. Desviei-me muito calmamente e fiquei frente a frente com ele.

- Obrigado pela boleia.

- Eu é que agradeço pela companhia. – E beijou-me no canto da boca.

Não sei como consegui manter o sangue frio. Tinha mais vontade de o beijar que outra coisa. E estávamos tão próximos. Bastava virar a cara na sua direcção. Mas não é isso que os amigos fazem, por isso desviei-me para o lado contrário.

- É melhor ir andando. Até amanhã.

Tirei o cinto e sai o mais rápido que consegui. Sabia que se ficasse ali muito mais tempo não iria conseguir resistir-lhe, e acabaria nos seus braços. E que braços, meu Deus. Fui tão rápida que quase nem lhe dei tempo de se despedir. Acho até que lhe fechei a porta quando ainda ia a meio da frase “ Até amanhã”.

Atravessei a estrada e parei á porta a tempo de o ver partir. Acenei-lhe e por fim entrei em casa.

 

  •    

No dia seguinte, o assunto no restaurante eram os jogos de fim de verão, que pelos vistos eram organizados pelo clube e toda a gente que trabalhava no estádio, ou para uma instituição pertencente ao Benfica, podia participar. Era uma espécie de reunião entre empregados e dirigentes. Há mais de 15 anos que o Clube fazia essas reuniões e sempre no fim do Verão. O local escolhido era a praia, e durante todo o dia haveria jogos e actividades para todos. O pessoal da “Catedral” andava entusiasmadíssimo. Não só porque era um dia diferente, mas porque já era habitual os empregados do mesmo inscreverem-se numa partida de vólei de praia contra outra equipa participante. Até agora não tinham sido muito felizes com os resultados, mas o Jorge empenhava-se a sério nisso. Era como se fosse ele próprio o presidente de um clube. Acho que nunca o tinha visto tão entusiasmado com alguma coisa. Aliás, andava tudo tão entusiasmado que até eu, ao fim do dia estava ansiosa que chegasse a tão falada “reunião de pessoal”.

publicado por acordosteusolhos às 17:38

comentários:
EU ADORO ADORO ESTA FIC.


ai eles tem que ficar juntos e ela tem de parar de lhe resistir...

quero mais um pouquinho pode ser? por favorrrrrrrrrrr.
Jane a 13 de Setembro de 2010 às 22:20

Continua . Estou a adorar seguir esta historia :D.
mila a 14 de Setembro de 2010 às 00:59

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
Visitas
Real Estate
Contador gratuito
Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D