09
Set 10

- O que é que estás aqui a fazer?

O David encontrava-se em frente ao seu carro, meio escondido pelas luzes do mesmo. Embora tivesse tido alguma dificuldade em reconhecê-lo de início, a sua silhueta era inconfundível.

- Preciso falar com você, mas você me evitou o dia todo. E não vale dizer que não.

- Como é que sabias a que horas saía?

- Falei com a Ana. Ela estava se sentindo meio culpada por ter mentido no restaurante, e me falou onde você estava. Mas me disse também que você nunca tem hora p´ra sair dos ensaios. Por isso eu vim mais cedo e fiquei esperando.

- Tu estiveste aí á minha espera?

- Sim. Assim você não vai se recusar a falar comigo, vai?

Olhei para o David enternecida. Uma pessoa como ele, com horários rigorosos, uma agenda super preenchida e ele vai , e fica á minha espera, sem saber o tempo que terá ainda pela frente. Achei uma atitude tão querida que não tive coragem de recusar. Voltei a trancar o meu jipe e entrei no carro do David.

- Você já jantou? – Perguntou.

- Comi uma sandes á chegada. Quando chegar a casa como mais qualquer coisa.

- Nada disso. Vai comer agora.

- Mas a esta hora já não servem jantares. E pensava que íamos para um sítio sossegado para falarmos.

Ele começou a rir.

- Deixa isso comigo.

E arrancámos. Saímos da faculdade e não demorámos muito até chegar ao nosso destino. Ou pensava eu. Como não conhecia bem Lisboa e também porque a noite estava um pouco escura, não sabia dizer onde estávamos. Sei que o David parou o carro, saiu e atravessou a estrada até ao outro lado. Era uma praça pequena, muito iluminada e mais ou menos ao centro estava uma barraquinha de cachorros. Quando voltou ao carro, trazia um em cada mão. Passou-me os cachorros para eu segurar e voltámos á estrada. Desta vez o caminho tornou-se-me familiar.

- Espero que você goste de cachorro quente.

- Por acaso… E se eu não gostar.

- Como? Todo o mundo adora cachorro quente.

-Eu não sou “todo o mundo”.

- Eu sei.

- Mas por acaso gosto muito.

Seguíamos assim em conversa agradável sem mencionar uma única vez o episódio do beijo. Quando olhei tínhamos o estádio do meu glorioso à nossa frente.

  •   

A noite estava realmente muito boa. Apesar de não haver luar, o céu estava muito estrelado. Corria uma brisa leve, pois já estávamos em Setembro, mas quase nem a sentia. Caminhava ao lado do David pelo campo do Estádio. As luzes iluminavam-nos na perfeição e eram tão fortes que, ali no meio quase pareciam dia.

- Como é que conseguiste que entrássemos aqui a esta hora?

- O Faria já me conhece muito bem. Eu costumava vir de noite treinar alguns passes de bola, logo no inicio, e ele sempre me deixava entrar.

- São os benefícios de ser um dos melhores jogadores no melhor clube do mundo. – Disse, dando uma dentada no meu cachorro quente. – Hum! Isto é mesmo muito bom.

- Falei p´ra você. Os cachorros do seu António são os melhores. Eu mais o Ruben e o Gustavo vamos muito ali.

De repente lembrei-me de uma coisa.

- Tu… por acaso…Costumas vir aqui muitas vezes? Com raparigas…

O David começou a rir. O vento leve que soprava, batia nos seus caracóis loiros deixando a sua cara mais à mostra. Não sei porquê, mas achava-o perfeito.

- ´Tá com ciúmes?

Abri e fechei a boca várias vezes sem saber o que dizer. Como é que eu lhe fui fazer uma pergunta dessas?

- Não. Nem tenho nada a ver com isso, desculpa. Não devia ter perguntado nada.

Ele parou e puxando-me pelo ombro pôs-me frente a frente com ele.

- Você á a primeira garota que eu trago aqui.

Fixei o olhar no dele e perdi-me por um momento. Aqueles olhos, aquele sorriso, Meu Deus. Não queria admitir mas a verdade é que estava a ficar completamente apanhada por tudo isso. E depois o David tinha uma maneira tão especial de ser. Sempre amável e querido. Isso agradava-me mais que tudo.

Voltei á terra e retomei a caminhada.

- E não faz mal estarmos a comer aqui? A relva está tão bem cuidada que até me dói a alma dos miolos que estou a deixar cair. Imagina quando amanhã vierem jogar e alguém escorrega num bocado de ketchup.

Gargalhada geral dos dois. É claro que isso era impossível de acontecer, mas estava tão bem cuidada aquela relva, que mais parecia estarmos em cima de uma carpete gigante.

Continuámos o nosso passeio á volta do campo. Até agora só tínhamos falado de coisas banais. Nada de conversas sobre o que se passara á uma semana.

- Mel?

- Sim?

- A gente precisa conversar. Você sabe, eu não quero que você fique com a ideia errada do que aconteceu.

- Sim, eu concordo. Também não quero que fiquem más impressões…

- “Más impressões”? Você ficou com mal impressão do meu beijo?

Olhei para ele meio atrapalhada e apressei-me a dizer:

- Não! Claro que não. Do beijo não. O beijo foi óptimo. Foi até mais que óptimo, foi perfeito.

O David tinha aquele sorriso de quem acabara de fazer uma partida, e eu caíra na perfeição. Calei-me e desviei o olhar.

- Ok. Eu admito.

- Desculpa, achei que fazendo piada quebrava o gelo.

- Claro. Se eu já estava á vontade antes, agora… - Disse em tom irónico. – A falar a sério, eu não sei bem o que se passou, mas não quero confusões nesta altura da minha vida.

- Eu também não.

- Ao menos nisso estamos de acordo.

- Mas não vejo como pode isso criar confusão. Eu gosto de você, e pelos vistos você também gosta de mim.

- Convencido!

-Vai dizer que não?

- Admito que gosto de estar contigo. Sinto-me bem, fazes-me rir e isso não é fácil. Também não vou dizer que não gostei do beijo, porque a verdade é que adorei. Mas não sei onde isso nos pode levar. Olha David, nós pertencemos a mundos muito diferentes e no meu mundo não existem príncipes encantados. Quer dizer tu és o David Luiz, jogador de futebol, que em português é o equivalente a seres uma estrela de cinema em Hollywood. E eu… bem eu sou só uma pessoa que trabalha para se sustentar e tirar o seu curso, e depois talvez quem sabe, agarrar uma oportunidade.

- Você não é tão diferente de mim assim. Somos ambos pessoas e a diferença é que eu tenho um trabalho que mexe com o mundo. Mas não ligo a mínima p´ra isso.

- Oh, sim, claro. Até porque o que se vê mais são pessoas do teu nível a casarem com empregadas de mesa.

- Não fazia você tão preconceituosa assim.

- Não é preconceito. É a realidade.

Parámos novamente e desta vez olhámo-nos mais do que esperava. Ele ergueu a mão e desviou uma madeixa do meu cabelo. Ao mesmo tempo tocou na minha bochecha e eu senti um arrepio, mas não era de frio. Pelo contrário. O toque da sua mão queimava na minha pele. Fechei os olhos, mas tentei não perder o raciocínio.

- Neste momento não me posso desviar dos meus objectivos. – Disse muito a custo. – Uma relação agora pode ser desastroso para mim, e eu não me posso desconcentrar. E tu também não. – Ele concordou. – Acho que devemos ir com calma. Devagar, sabes. E depois o resto logo se vê, até onde nos levará.

  •   

Saímos do estádio já passava da meia-noite. Era tarde para ambos, principalmente para o David. O Benfica tinha jogo no dia seguinte e ele já devia estar a dormir á horas. Fizemos o trajecto de regresso à faculdade, onde tinha deixado o Jipe, e despedimo-nos com dois beijos na cara, como dois bons amigos.

Entrei em casa e a Ana ainda estava acordada.

- Então, só agora? Já estava a ficar preocupada.

- Sim o ensaio demorou mais que o normal.

- Só o ensaio.

- Sabes bem que depois estive com o David. Foste tu que lhe disseste onde eu estava.

- E…

- E estou muito cansada e vou dormir. Amanhã falamos. Até amanhã.

Entrei no meu quarto e fechei a porta. Mudei de roupa e fui sentar-me no parapeito da janela. A noite continuava agradável, mas o vento corria mais forte. Olhei lá para fora onde as luzes da cidade se confundiam com as estrelas e fui invadida por um sentimento inexplicável. Tantas coisas estavam a acontecer na minha vida. Era bem mais do que esperara quando me mudei para Lisboa. Fechei os olhos e o rosto do David apareceu na minha mente. Seria possível? Tantas perguntas e nenhuma resposta ainda.

publicado por acordosteusolhos às 18:28

comentários:
quero mais :$
Jane a 10 de Setembro de 2010 às 23:36

ONE MORE? TODAY? PLEASEEEE
Jane a 11 de Setembro de 2010 às 18:19

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D