09
Set 10

A semana passou mais rápido do que imaginara e ainda bem. Não tinha paciência nenhuma para estar em casa. No dia em que pude finalmente sair, apressei-me a ir á faculdade imprimir de novo o trabalho, e deixei-o no gabinete do professor. Não queria mais surpresas. De seguida dirigi-me para o estádio, com a nota de alta do médico que atestava que podia regressar ao trabalho. À medida que me aproximava sentia um nó cada vez maior no estômago. Desde o dia em que apanhei chuva que não regressara mais. Nesse dia aconteceu algo, uma coisa que não conseguia explicar. E também ainda não tivera oportunidade de o fazer. Eu e o David fomos interrompidos logo a seguir ao beijo, e se por um lado serviu para aliviar a tensão que se começava a formar entre nós, por outro muita coisa ficou por dizer. E eu detesto assuntos mal resolvidos. O nó no estômago devia ser isso mesmo. Um assunto que precisava ser resolvido, e eu fazia todas as intenções de o resolver. Só não sabia como.

O Jorge pôs-me a fazer trabalho no armazém de novo, apesar de lhe garantir que já estava boa. Ele não aceitou e lá fui eu. Para mim era um trabalho mais leve, mas tinha esperança de conseguir ver o David e no armazém era mais difícil. O pessoal ia ter comigo sempre que podia, e nesse dia conseguimos ter todas a hora de almoço livre.

- Então, de volta á origens? Olha trouxemos almoço.

- Finalmente. Estava a ver quando apareciam.

Carne grelhada e salada para mim ( A Ana conhecia-me demasiado bem), e Carne de porco à alentejana para elas.

- Hum, vais falar com o David? – Perguntou a Inês enquanto limpava o canto da boca.

- Estou a pensar nisso.

- Acho que esta tarde eles têm treino aqui no estádio. Ele sabe que já voltaste?

- A menos que tu tenhas dito ao Ruben, não.

- Eu não disse nada. Fiz o que tu me pediste. Nem uma palavra. Se bem que o Ruben também deve saber o que se passou. Aqueles dois andam sempre juntos. Excepto quando estão aos beijos às raparigas, é claro.

- Pronto, já cá faltava. Eu até andava admirada…

- opa, foi só um bocadinho.

- Eu vou falar com o David quando entender e depois não te conto nada.

- Não faz mal. A Ana conta.

- Eu? Não me metas nisso, senão nem a mim me conta.

- Vocês não têm mais nada para fazer? Metam-se na vossa vida.

- Oh, mas a tua é tão mais interessante.

- Vão trabalhar!

Mandei-lhes com os guardanapos acima e voltei ao trabalho. Estava a conferir as entregas e as saídas do armazém e reparei que alguns produtos não tinham nota de chegada mas encontravam-se em stock. Tinha de ir falar com o Jorge e confirmar. Cheguei à “ Catedral” e dei logo de caras com a minha amiga, Patrícia. A seu lado estava a D. Mariza, sempre muito elegante. Esta mal me viu entrar fez-me imediatamente sinal.

- Mel, Já voltou. Que bom. Soube que teve com um resfriado.

- Sim, mas já estou boa. E sim, voltei.

- Cedo demais! – O tom de voz usado pela Patrícia foi mínimo, mas consegui ouvir o que disse. Preparava-me para lhe responder quando esta retorquiu. – Porque ainda te acho mal encarada, sei lá. Com as gripes não se brinca. E depois se não ficam bem curadas…

- Garanto-te que estou óptima.

- Ainda bem. Tem tempo? Preciso falar com você.

- Sim, D. Mariza. Vou só entregar estes relatórios para o Jorge confirmar, mas não demoro.

- Então eu espero. Mas vê se não demora.

Fui até ao escritório do Jorge e bati. Ele estava sentado à sua secretária, metido nos seus papéis. Pensei o quão horrível devia ser passar um dia inteiro enfiado num escritório. Eu enlouquecia. Depois de acabar de assinar uns recibos, perguntou-me se me sentia mal. Respondi-lhe que não, que me sentia muito bem até. Expliquei-lhe o que se passava e deixei os documentos em cima da secretária dele. Prometeu conferi-los o mais rápido possível, e eu saí. Quando entrei novamente na sala do restaurante já não encontrei a D. Mariza. O Bruno estava atrás do balcão e virei-me para ele com ar de interrogação. Ele percebeu.

- A D. Mariza saiu. O telemóvel dela tocou e ela foi atender lá fora.

- Ok. Nesse caso vou esperar um bocadinho.

E preparava-me para me sentar quando ouvi vozes a entrarem no restaurante. “ Eu conheço estas vozes”, pensei. Voltei para a porta e vi meia dúzia de jogadores do Benfica a dirigirem-se para o interior da sala, entre eles o David e o Ruben.

Não sei o que me passou pela cabeça, mas acho que bati todos os recordes de salto e rapidez. Consegui em menos de 3 segundos chegar ao balcão e literalmente saltei lá para dentro. Depois escondi-me o melhor que pude a um canto. Olhei para cima e vi um Bruno, de ar assombrado a olhar para mim. Com certeza que ele não devia ter entendido nada, e eu não estava em posição de lhe explicar. Só podia rezar e esperar que ele não me denunciasse.

- E aí cara, tudo bem?

Era a voz do David. “ Raios, o que é que eles estão aqui a fazer?”

- Me dá uma água aí, para levar paro o treino, por favor.

- Duas! – Era a voz do Ruben.

Franzi a testa e mordi o lábio. E o Bruno que não se mexia. Só olhava para baixo e assim eles iam desconfiar. Fiz-lhe sinal com a mão para que fosse buscar as águas. Ele obedeceu-me. “ Pode ser que se vão embora logo a seguir”. Mas as coisas estavam só a começar. A D. Mariza acabara o telefonema e voltara a entrar. Olhou em redor e como não me encontrou dirigiu-se ao balcão.

- Onde está a Mel? Ela disse que não demorava.

O Bruno ficou pálido. Sabia que ele era uma excelente pessoa, mas ás vezes atrapalhava-se tanto que com certeza ia meter os pés pelas mãos.

- A Mel? A Mel está ai? – Perguntava o David.

Cerrei os olhos e os dentes. A última coisa que eu queria era que ele soubesse que eu já tinha voltado. Sim, eu sei, tinha de falar com ele, mas não sei porquê a coragem fora-se toda embora. E aquele também não era o local indicado para falarmos. Entretanto, o Bruno começou a gaguejar. Acho que por esta altura começou também a suar por todos os poros.

- E-eu… A Me-Mel? Eu… E-ela…

Deixei cair a cabeça para trás, “ pronto. Acabou-se”. Mas para minha grande alegria a Ana chegou e assim que me viu agachada por trás do balcão percebeu logo o que se passava. Encolhi os ombros o melhor que pude na sua direcção e fiz-lhe um sinal com a cabeça. “ Salva-me! “.

- A Mel teve de ir entregar umas coisas ao Jorge. Deve-se ter demorado. Mais um bocadinho.

Estava Safa. Falava com a D. Mariza mais tarde. Esta saiu logo de seguida, não sem antes dizer á Ana que precisava falar comigo e para eu a procurar. A Ana assentiu com a cabeça. Agora só já faltava o David. Mas no meio de toda aquela confusão estava ainda o Bruno com as garrafas de água na mão.

- Dá cá isso. – Disse a Ana, tirando-lhe as garrafas da mão.

Ouvi um deles tirar umas moedas para pagar. O David perguntou se mais ninguém queria água, e os restantes recusaram. Suspirei de alívio quando ouvi cadeiras a arrastar e passos a afastarem-se. No entanto o David mantinha-se ao balcão.

- Ana, você pode fazer um favor p´ra mim?

- Claro!

- Pede p´ra Mel me esperar aqui logo mais. ´Tou precisando falar com ela.

- Eu digo sim. Podes ir sossegado.

E quando tudo parecia estar resolvido, eis que o inesperado acontece.

- Ana, a Mel ainda está por… Mel?

O Jorge apareceu, vindo quase do nada, pois ninguém dera por ele ter entrado e, passando por trás do balcão, encarou comigo naquela posição menos própria.

- Mel? O que é que tu estás a fazer aí em baixo?

Não sei qual de nós três ficou mais branco, se o Bruno, se a Ana ou se eu. Infelizmente não havia mais nada que eu pudesse fazer. O David já sabia que eu tinha estado o tempo todo escondida atrás do balcão. E o que era pior, tinha praticamente obrigado os meus amigos a mentirem também. Quase em câmara lenta saí do meu esconderijo mas ficando sempre de costas para o David. Se antes a coragem de o encarar não era muita, agora era nenhuma. Tentei desculpar a minha posição com o Jorge dizendo que a porta frigorífica que ficava perto do sítio onde estivera escondida, encravou e tivera de me agachar para tentar abri-la. Mas isso não explicava ao David porque razão não anunciara a minha presença.

- Tudo bem Mel?

“Bolas. Agora tenho mesmo de me virar.”

- Tudo…eh… Tenho de ir.

E saí tão á pressa que nem dei tempo ao Jorge de dizer porque razão andava á minha procura. Não olhei para trás, mas imagino a cara de todos, principalmente do Bruno. Ele não fazia ideia do que se passava.

Voltei para o armazém agradecida pela insistência do Jorge em manter-me ali. Assim tinha menos hipóteses de o encarar. Já tinha mudado a minha disposição não sei quantas vezes durante o dia. Primeiro estava convicta de que falar com ele. Depois já não tinha tanta certeza se devia. Por fim perdi a convicção toda e agora não queria nem vê-lo. Tentei manter a cabeça ocupada no trabalho para não pensar na vergonha que tinha passado no restaurante. O Jorge apareceu mais tarde com os mesmos papéis que lhe levei. Afinal estava a conferir os papéis errados, e por isso as coisas não batiam certo. “ Boa”, pensei, “Isto hoje está tudo a correr bem”. Por isso é que foi á minha procura. Que cabeça a minha, Se tivesse olhado para a data teria visto que não podia ser e assim poupava-me à cena triste em frente ao David. Mas andava com o pensamento longe…

  •    

Antes de sair resolvi passar no escritório da D. Mariza. Afinal desde a hora do almoço que ela me esperava. A cada escada que subia, a cada corredor que atravessava, o medo de encontrar o David era maior. E parecia que estava a adivinhar. Mal entrei no último piso, vindo mesmo de frente, aquele que era considerado por muitos o melhor defesa central do mundo. Hesitei e pensei em voltar para trás, mas ele já me tinha visto e achei melhor não repetir a cena dessa tarde.

- Oi…

-Olá…

- Já está de saída?

- Mais ou menos. Primeiro ainda tenho de ir falar com uma pessoa.

-Me disseram que você teve doente. Está melhor?

- Sim, já estou boa. Andar á chuva com este tempo é no que dá.

Parei de repente e vi o que tinha dito. Não fora nada de especial, mas sem querer fui mencionar o dia em que tudo aconteceu. Corei.

- Eu tenho de ir David. A gente depois fala.

E tentei seguir o meu caminho, mas ele barrou-me.

- É impressão minha ou você está fugindo de mim?

- Eu? Claro que não. Fugir para quê? Isso cansa muito.

Ele sorriu. Ainda não tinha sorrido para mim desde que nos encontrámos de novo, mas também não era de admirar.

- Ainda bem.

- Mas é que eu tenho mesmo de ir. Daqui ainda vou para a faculdade ensaiar. Tenho de recuperar tempo perdido.

- Está bom, eu deixo você ir.

E fez um gesto com o braço, dando-me a entender que podia passar. Olhei para ele mas sem o encarar directamente, e segui finalmente o meu caminho.

  •    

Depois de sair do estádio tive de ir até á faculdade. Durante os dias que ficara em casa o grupo adiantara bastante o trabalho de fim de ano, e eu precisava pôr-me a par das novidades.  Passava pouco das dez horas quando terminámos. Saí da Sala de ensaio e dirigi-me para o parque de estacionamento. A Ana fizera questão que ficasse eu com o Jipe. Ela iria de boleia com a Inês, apesar de sair mais cedo. Ao chegar ao local, e surgindo de repente, as luzes de um carro apontaram-se na minha direcção. Virei-me assustada. Uma forma destacava-se no meio da luz, mas não conseguia distinguir quem era. Á medida que se aproximava, em determinado ponto, a luz era mais fraca e reconheci finalmente a pessoa…

publicado por acordosteusolhos às 02:33

comentários:
Podes fugir mas não te podes esconder :D. Esta muito bom o capitulo. Continua :). Parabens
lolaa a 9 de Setembro de 2010 às 08:31

Este capitulo esta excelente.
Marisa a 9 de Setembro de 2010 às 12:04

sandra adorei este capítulo....
Que pensa ser só um por dia...
Bj
sp a 9 de Setembro de 2010 às 12:48

Sandra, amei este capitulo

juro que chorei a rir com a cena da mel estar escondida no bolcão. hilariante.

muito, muito, muito, muito bom...

sem dúvida, a minha fic favorita

bjo
Ana M. a 9 de Setembro de 2010 às 13:45

ai ri-me tanto com a cena do balcãom tanto que nem imaginas.


Podes por mais um capitulo hoje, POR FAVOR *-*? (puppy eyes)

sim?
por favorrrrrrrrrrrrrrrrrrr :3

beijo
Jane a 9 de Setembro de 2010 às 14:10

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D