07
Set 10

“ Fui beijada pelo David Luiz! Meu Deus, o David Luiz!”

Por mais que tentasse, não conseguia afastar da minha mente o que se tinha passado nessa tarde, no parque do SLB. Depois da “Grande Molha” fiquei de serviço num dos mini-bares da “catedral” espalhados pelo estádio juntamente com a Inês. Mas os resultados de ter andado à chuva não foram muito bons, e antes do final do jogo comecei a sentir os primeiros sintomas de febre. A Inês teve de pedir ajuda para fechar o bar. Quanto a mim, saí mais cedo, enquanto ainda conseguia conduzir, mas verdade seja dita  vi-me “grega” para chegar a casa. E os bancos ensopados do Jipe pela chuvada que caíra também não ajudaram em nada. Entrei em casa ainda molhada e fui imediatamente para o banho. A Ana chegou quando eu estava a terminar de me lavar e notou logo que algo se passava. Contei-lhe do Jipe e de ter ficado demasiado tempo à chuva, mas omiti o que se passara entre mim e o David. Naquele momento não me apetecia ouvir bocas irónicas em relação ao que se tinha passado, nem estava com paciência para grandes explicações. Até porque não saberia fazê-lo. O facto de reviver a cena vezes e vezes sem conta na minha cabeça ainda não fora suficiente para me convencer de que havia sido real. Enrolada numa manta e a bater o dente, lá tomei um comprimido para a febre e deite-me na esperança de que não demorasse muito a fazer efeito. Mas o corpo já demonstrava que não iria ser fácil, e daí até as dores começarem a aparecer foi um instantinho. Regressei à terra e comecei a ouvir a voz de Ana lá longe.

- … Febre. Mas o que é que te deu para te pores à chuva assim? Mel?! Estás a ouvir-me?

- hum… O quê? Desculpa não te estava a ouvir.

- Mas o que se passa? Estou eu aqui a gastar o meu latim e tu nem me estás a ouvir. Não sei porque me dou ao trabalho.

- Esqueci o trabalho de escrita dramática no Jipe. Quando lá cheguei estava todo molhado. Tenho-o em cima da mesa a ver se seca e consigo pelo menos copia-lo, senão estou feita. Duvido que o professor caia na conversa de que apanhou chuva.

- Esse não é o problema maior. O trabalho que se lixe. Sabes bem que não podes apanhar chuva, não te podes constipar e correr o risco de apanhares uma infecção. Mas onde raio é que tu tens a cabeça? Andas a ver se te matas mais depressa?

O tom de voz da Ana aumentava e tornava-se cada vez mais zangado. E eu sabia que ela tinha razão. Não pensei em nada quando saí para a rua. Tinha esse hábito. Queria fazer uma vida normal, esse tinha sido o principal objectivo da minha vinda para Lisboa. Mas por mais que eu quisesse sabia das minhas limitações. E a Ana tinha largado tudo para vir comigo, para que eu não ficasse sozinha. E eu estava a deixa-la mal.

- Olha, quiseste vir para Lisboa estudar, aproveitar a vida e fazer coisas que tiveste de adiar por causa da tua condição. Eu compreendo isso e estou contigo. Uma coisa é quereres ter uma vida o mais normal possível. Outra coisa é fazeres coisas sem pensares nas consequências que isso poderá trazer para ti. Não é assim que vais aproveitar a vida.

Escutava-a sem ter coragem de lhe responder. E as dores, agora piores também não estavam a ajudar. Mas não me queria queixar muito. Não queria dar mais um motivo de preocupação à Ana. Já bastava o sermão que me estava a passar. Por fim disse-lhe que me ia deitar.

A noite já ia avançada e a febre ainda não tinha passado, pelo contrário estava pior. Não podia tomar mais nada, pois sabia que isso não era a solução. Comecei a perder cada vez mais as forças e tive que me decidir. Acordei a Ana e disse-lhe que tinha de ir para o hospital. Aguentei o máximo que pude, mas já conhecia os sintomas o suficiente para saber quando já nada mais estava ao meu alcance de resolver. Vesti umas calças e uma blusa de malha fininha, calcei os ténis e lá fomos nós. Tinha o número do Dr. Barros no telemóvel e ele tinha-me dito para lhe ligar em caso de emergência, mas àquela hora não queria incomoda-lo. Dirigi-me portanto ás urgências. A sala estava um bocado cheia, mas felizmente não tive de esperar muito. Bastou mostrar a carta passada pelo médico onde explicava qual a minha situação e fui chamada quase de imediato. O médico de serviço fazia parte da equipa do Dr. Barros e isso também ajudou. Tirou-me a febre, fez-me umas perguntas de rotina e deu ordem para que ficasse internada naquela noite para controlar-mos a febre. Disse à Ana antes de entrar que podia voltar para casa, não havia nada ali a fazer, mas ela não arredou pé da sala de espera. De manhã bem cedo a Inês juntou-se a ela.

O Dr. Barros chegou por volta das nove horas e, informado da minha presença lá, foi imediatamente ter comigo.

- Mel, então que aconteceu?

- Foi uma chuvinha de nada…

- Já devias saber que para ti nada é muito. Estive a ver o teus exames. Os pulmões parecem um bocado afectados. Tens febre ainda?

- Penso que não. Mas como é que passou logo para os pulmões?

- Paraste o tratamento, as defesas estão em baixo. Já te tinha avisado para teres cuidado com o sol, a chuva, diferenças de temperatura, etc. Uma “chuvinha de nada” é o suficiente para apanhares uma broncopneumonia.

- Isso quer dizer que vou ter de ficar internada?

- Não. Sabes que não te posso internar contra tua vontade. Mas vais ter de fazer antibiótico. Nada muito forte para não interferir com o resto, mas durante esse tempo vais ter de ficar em casa, em repouso. E  cuidado com as correntes de ar.

- Ah, ainda bem…

- Mel, estou a falar muito a sério. Vais parar durante uma semana. Depois vens ter comigo e fazemos novos exames para ver se está tudo limpo. E se houver indícios de alguma coisa, garanto-te que, contra ou a favor, eu vou internar-te e retomo o tratamento enquanto aqui estiveres.

Olhei para o Dr. Barros. Eu sabia que ele estava a falar muito a sério. E ele sabia que essa ameaça era uma garantia de que iria ficar em casa durante o tempo que ele me ordenasse. À hora de almoço estava a entrar no meu pequeno apartamento acompanhada Pela Ana e pela Inês.

  •   

O Jorge ligava-me duas vezes por dia para saber como estava. Parece que toda a gente tinha decidido ameaçar-me agora. Primeiro fora o Dr. Barros com a história de me internar. Depois a Ana fez-me jurar que não saía nem á janela, ou quem me levaria de volta para casa era ela. Finalmente, o Jorge informado do meu estado pela Ana disse-me que nem pensasse em regressar antes de estar completamente em condições, ou começaria a descontar-me as horas que tirava para a faculdade. Ah, e queria uma carta do médico a atestar que a broncopneumonia já tinha passado. A verdade é que me sentia tão mal que nem me passou pela cabeça contestar fosse o que fosse. Era só um princípio de, mas era o suficiente para me deixar de rastos. Sentia constantemente a cabeça a girar e o peito pesado. Tinha inclusive alguma dificuldade em respirar, principalmente nos dois primeiros dias. Depois, para meu alívio, comecei a sentir as primeiras melhoras.

Pedira á Ana que passasse na faculdade a avisar do meu estado e que teria de faltar durante uma semana. Dadas as circunstâncias, o professor de escrita tinha acordado em prolongar o prazo de entrega do trabalho. Menos mal, pois este precisava de ser totalmente passado a limpo.

A Inês vinha todos os dias, e quando podia ficava para jantar. Aproveitávamos a pôr a conversa em dia. Depois de passar a maior parte do tempo sozinha durante o dia, achava aquelas nossas reuniões mais deliciosas.

- O Bruno é que não achou muita piada, mas enfim. Às vezes é tão atrapalhado aquele também.

- Eu acho que vocês os dois fazem um belo casal.

- Hã! Estás a gozar não Mel.

- Não. Andam constantemente a chocar um com o outro. Para mim passa-se aí qualquer coisa.

- Não digas disparates. Deve ser da febre. Agora eu e o Bruno. Nem em sonhos. Tu é que andas toda misteriosa. Sabes quem esteve á tua procura na “Catedral”? O David Luiz. Aliás, tenho estranhado muito estas frequentes idas ao restaurante do Sr. David.

Pousei o garfo e fixei o olhar na mesa. Ainda não tinha contado nada sobre o beijo a ninguém, e não sabia se deveria fazê-lo.

- Escusas de fazer essa cara. Eu sei que se passou alguma coisa. Só ainda não disse nada porque tens estado doente. No dia em que o David perguntou por ti e eu lhe disse como estavas, ele ficou preocupado. Tenho recebido mensagens do Ruben a perguntar por ti, mas imagino que não seja ele o interessado.

- Há uma coisa… que ainda não contei. Mas não quero piadas nem comentário, senão nuca mais vos conto seja o que for.

- Ui, novidades. Eu sabia. Conta, conta.

- No dia em que fiquei doente, quando saí para tapar o jipe, e ele foi ajudar-me… Houve um beijo…

- Beijaram-se? A sério? – Perguntou Ana, incrédula.

- Eu sabia. Eu bem notei qualquer coisa quando chegámos ao pé de vocês.

- Tu beijaste o David Luiz. E não nos disseste nada?

- Ainda não tinha tido oportunidade. E depois não queria que começassem com as vossas coisa.

- Queres dizer quando te dizemos, há não sei quanto tempo, que existe um interesse dos dois.

- Pois. Não existe interesse nenhum.

- E continuas a negar, mesmo depois do que se passou?

- Olhem, eu não sei o que se passou. Mas também não quero mais falar sobre isso. Nem uma palavra.

publicado por acordosteusolhos às 22:59

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D