05
Set 10

Inês olhava pela janela da sala do nosso apartamento com um ar assombrado.

- Não fazia ideia. Como é que eu não percebi antes…

- Ninguém percebe, ela não deixa.

Ana e Inês haviam conseguido levar-me para casa. O pior fora subir as escadas, mas nessa altura eu já estava consciente e dera uma ajuda. A Ana já sabia o que fazer nestas situações e por isso conseguiu acalmar a Inês que queria a todo o custo levar-me até ao hospital. Deitada na cama, esperava que as dores acalmassem e as forças regressassem. Infelizmente tinha envolvido mais uma pessoa nesta minha história e isso não me agradava nada. Mexi-me com dificuldade e a cama rangeu. A Ana apareceu à porta do quarto a espreitar para ver como estava.

- Então, estás melhor?

- Mais ou menos. Mas já começo a sentir o efeito do comprimido. Onde está a Inês?

- Na sala, a tentar digerir tudo. Tive de lhe contar, não havia como explicar uma coisa destas.

Nesse momento a cabecinha da Inês aparece por detrás da porta.

- Então, como te sentes? Oh, espera. Que pergunta mais idiota, não?

- Não, não é. Ao princípio sim, não sabia como responder quando me perguntavam isso, mas agora já não me faz confusão nenhuma.

- Eu acho melhor ligares ao Dr. Barros logo de manhã. – Disse a Ana, enquanto procurava o termómetro. – Vamos tirar a febre.

- Eu não tenho febre.

- Como é que sabes? Podes ter. Ainda á pouco tapada até ás orelhas que eu vi.

- Isso foi por causa das dores. Sabes que o quente as acalma. Tira daqui esse termómetro.

Inês olhava para nós sem saber o que pensar. Eu e a Ana já estávamos tão acostumadas a isto que brincávamos com a situação. E eu tinha mesmo de brincar ou então não aguentaria…

- Não sei como consegues… Quer dizer, como tu estavas à uma hora atrás, e agora…

- Eu compreendo que isto seja um pouco estranho para ti, mas acredita, amanhã já não vou sentir nada. Só preciso de uma boa noite de sono. Este até não foi dos piores.

- Há piores?

- Se há. Mas poucas pessoas o presenciaram. Aliás, eu agradeço que não comentes nada com ninguém, por favor. Não quero que isto se saiba.

- Claro Mel, podes ficar sossegada. Ninguém sabe… disso?

- Aqui não. Só o Jorge. Contei-lhe quando fui á entrevista, mas ele foi um querido e mesmo assim deu-me o emprego.

- O Jorge tem aquele ar sério, mas no fundo é um coração de manteiga derretida.

- Sim, ele tem-me ajudado imenso. Até me sinto mal quando tenho de tirar dias. Eu sei que ele precisa de empregados que aguentem o ritmo.

- Pois, mas eu avisei-te. Aliás, admira-me isto ainda não ter acontecido à mais tempo. Com tanta coisa em mãos. Mel, tu vais ter de te organizar. Sabes que tens de deixar coisas para trás.

- Não, não vou deixar nada para trás Ana. Eu estudo, preciso do Trabalho para me sustentar e em relação aos treinos sabes que isso me valoriza.

- Mas tu sabes que tens limites. Não podes…

- Chega! Eu vim para Lisboa para ter uma vida normal, com uma rotina igual á de tantas outras e é isso que vou fazer.

A Ana amuou. Ela tinha largado tudo e vindo comigo para Lisboa, e fizera-o não só por ela, mas por mim também. Mas eu sabia que no fundo ela concordava com todos os que tinha deixado para trás.

- Desculpa, não queria gritar-te. Eu sei que tens as tuas razões, mas sabes que também tenho as minhas. Prometo que amanhã bem cedo vou falar com o médico e fazer umas análises, só para ver como estamos, ok?

- Ok. E nem penses em ir trabalhar amanhã. Eu aviso o Jorge. Ah, e nada de faculdade também.

- Sim, mãe. – Respondi.

Fiz-lhes sinal a ambas para se deitarem junto comigo na cama, e passámos assim o resto da noite, na conversa e na risota. De vez em quando dava pela Inês a olhar para mim com ar confuso. E eu apesar de ainda não me sentir totalmente bem, disfarçava o melhor que podia para a sossegar. Quando adormecemos os primeiros raios de sol já despontavam no horizonte.

  •   

Estávamos na última semana de Agosto e, de vez em quando o tempo já começava a dar sinais de mudança. Isto apesar de ainda faltar um mês para o fim do Verão. Levantei-me já tarde, pois também adormeci tarde. A Ana e a Inês já tinham saído para o trabalho. Tomei um banho, comi qualquer coisa e lá fui eu até ao hospital Curry Cabral ver se o Dr. Barros me podia atender. Não é que estivesse com muita vontade, mas tinha prometido à Ana e sabia que ela ia confirmar a minha presença lá. Haviam algumas nuvens no céu que por vezes tapavam o sol, mas o dia estava bastante quente. Por isso cheguei ao hospital mais cansada. “Que chatice”, pensei, “ agora vai achar que eu estou a morrer”. Não tinha consulta marcada, mas conhecia bem o Dr. Barros, era ele o meu médico e estava familiarizado com o meu caso. Subi ao segundo piso e pedi para falar com ele. Que sorte! Ele estava de serviço. Estávamos já na hora do almoço, mas eu sabia que ele nunca saía antes das 3h da tarde. A questão era saber se estava ou não disponível. Esperei alguns minutos na sala de espera até o Dr. terminar a consulta e depois fez-me sinal que entrasse. Expliquei-lhe o que se tinha passado na noite anterior e ele mandou-me fazer umas análises. Isso queria dizer que ia ficar um bom tempo por ali, até os resultados saírem.

Resolvi sentar-me perto da janela. O sol não se via tapado pelas nuvens, mas sentia-se o calor vindo do vidro. Mentalmente fiz uma revisão da minha nova vida. Já estava em Lisboa à quase dois meses mas parecia que já tinha passado muito mais tempo. A noção de tempo é muito relativa. Considerava que durante esse período já tinha vivido mais do que em dois anos. E as emoções também se tornaram muito mais fortes. Tinha um trabalho, que por acaso era no estádio do meu clube de coração, estava no curso que sempre ansiei para mim, e tinha conhecido pessoalmente o David Luiz. Meu Deus, pensando bem, isso era o sonho de qualquer rapariga. E eu até já tinha dançado com ele. Com toda aquela confusão nem me tinha mais lembrado da festa na casa do Ruben. O que inicialmente parecia ir ser uma seca acabou por se transformar numa das noites mais emocionantes da minha vida. Já era óptimo ser convidada por um jogador conhecido a frequentar a sua casa, e conviver no meio de todos eles. Mas ter um contacto directo com um deles, principalmente porque esse era o David Luiz, era qualquer coisa de surreal. Fechei os olhos e tentei lembrar-me de todos os pormenores em relação a ele. O sorriso, o cabelo, as mãos ao tocarem nas minhas enquanto dançávamos. Parecia um sonho. Abri os olhos. Sabia que este era um sonho que podia sair-me caro, ou até mesmo transformar-se em pesadelo.

Finalmente os resultados chegaram e fui novamente chamada ao consultório do Dr. Barros.

- Estive a ver os resultados Mel. Nada que não se esperasse já. Tens tomado alguma coisa?

- Só o essencial para conseguir ir andando.

- Há realmente uma quebra nos valores, mas como paraste com o tratamento já se sabia. E vai piorar ainda mais.

- Eu sei. E com esses valores ainda não há hipóteses de entrar na lista?

- Lamento Mel, mas não é assim tão simples. E foste tu que decidiste parar. Isso não é um bom estratagema para obteres o teu fim.

- Talvez, mas para mim é o único.

- Já sei. Bom não há nada que eu possa fazer aqui. Podia-te passar umas receitas, mas sei que te recusas a tomar mais medicamentos, por isso está fora do meu alcance. Se entretanto te sentires pior já sabes o que fazer.

- Sim, sei. Obrigado Dr.

Saí do hospital já ao fim da tarde. Tinha demorado mais do que quisera, ainda tinha esperança de conseguir passar na faculdade, mas àquela hora era escusado. Lembrei-me então do trabalho que o professor de escrita dramática me tinha incumbido de fazer. “Bom, o melhor é ir para casa e começar a escrever”.

  •   

Nos dias seguintes cumpri com os meus horários normais. Tentei não faltar nem uma hora no trabalho, assisti a todas as aulas da faculdade e até os treinos da claque levei até ao fim. Á noite deitava-me tarde, a tentar terminar o trabalho de escrita dramática, e ao fim de semana encontrava-me com o grupo do curso para ensaiarmos a peça de fim do ano. Quem não andava nada satisfeita com o regresso á minha rotina era a Ana. Não mo dizia directamente mas eu podia ver claramente que não concordava. Nesses dias também não vi o David. A equipa andara ocupada com a champions e partira a meio da semana para um jogo no exterior. Empataram. No entanto a Inês fazia questão de me pôr a par das novidades. Ela falava muito com o Ruben através do Messenger, e de vez em quando sondava-o em relação ao David. Claro que eu lhe pedira mil vezes que não tocasse no assunto, mas isso era impossível para ela.

- Sabes que o David estranhou não teres vindo trabalhar no dia a seguir á festa do Ruben. – Dizia-me com um sorriso que trazia água no bico.

- E como é que ele soube que eu não vim trabalhar?

- Porque esteve cá nesse dia. Eu não o vi, mas o Ruben contou-me. E ele perguntou por ti.

Não respondi.

- A Patrícia também esteve por aí. É detestável aquela rapariga.

Continuei sem responder. Preferia ouvir falar do David…

- Já se deve ter atirado a todos os jogadores do plantel. Casados, comprometidos e solteiros. Acho que já os passou todos.

- A sério? – Perguntou a Ana com ar admirado.

- Estás admirada porquê? Não se nota logo pelo estilo? Nem o Nuno Gomes escapou. A mulher dele até cá veio e tudo, para uma conversa…

- Meu Deus. Sabia que ela não prestava mas nunca imaginei isso.

- Sim. E adivinha quem é a próxima vítima dela? Nada mais, nada menos que o menino de ouro do Benfica: David Luiz!

- Está explicado porque é que ela tem um ódio de morte à Mel.

-oh, não. Ela não gosta de ninguém. A história com a Mel é anterior ao David, desde o momento que ela viu o que a Mel valia. Aquela não suporta concorrência. Acha-se melhor que as outras. Mas a história com o David também não ajuda.

“História com o David? Mas qual história com o David?”

- Mas vocês querem parar com isso. Não há nenhuma história com o David.

- Claro que não há!

Estávamos as três na hora de almoço, e conversávamos animadamente. Melhor dizendo, elas conversavam animadamente. Começava a ficar farta das suas piadas em relação ao David. E também não me interessava se a Patrícia andava ou não atrás dele. Felizmente a hora acabou e voltámos ao trabalho.

  •   

A Equipa  regressou e o movimento no restaurante também. Era incrível como o facto de  os jogadores já estarem de volta agitava as coisas no clube. Isso era óptimo para o negócio, mas para mim esses dias eram desgastantes.

Havia algumas noites que mal me deitava para conseguir terminar e entregar o trabalho de escrita dramática a tempo. Finalmente terminei-o. Imprimi tudo e coloquei-o numa pasta de cartão, temporariamente. Saí da faculdade e dirigi-me para o estádio. A Ana estava de folga nesse dia e eu tinha levado o jipe. Mandei a mala e o trabalho para o banco de trás e lá fui eu. Algumas nuvens começavam a aparecer no horizonte, mas o calor não cedia. Ainda bem que o jipe era descapotável, ou seria quase insuportável conduzir àquela hora. Estacionei no sítio de sempre e entrei apressada. Já passava um pouco da minha hora por isso fui directamente trocar de roupa. A Inês e o Bruno lá estavam nas suas discussões. Ás vezes achava que aquilo era atracção física pura. Se conseguissem descomprimir de outra maneira tinha a certeza que as discussões paravam. Mal me viram dirigiram-se a mim como já era hábito. Tive alguma dificuldade em afastá-los, mas eram uns queridos. A Inês chegou-se mais a mim e disse-me baixinho:

- Tens uma surpresa lá dentro. – E instantaneamente meteu-me uma bandeja nas mãos. – Mesa 5.

Saí com o prato sem perceber aquilo da surpresa. Mal entrei na sala do restaurante fez-se luz. Na  mesa 5 estava o David e o Ruben. Nunca mais o tinha visto desde aquele dia da festa. Parei, respirei fundo, endireitei-me e preparei-me para os servir. Assim que me viu deu-me um dos seus sorrisos.

- Mel! Já estava me perguntando cadê você.

Pousei a bandeja na mesa e cumprimentei-os.

- E então, como correu a viagem?

- Tudo bem. E você? Saiu da festa do Ruben sem se despedir de mim. Pisei seu pé quando dançámos?

Eu ri-me.

- Não, claro que não. É que eu não me senti á vontade… - Menti – não sabia como… enfim. Não levem a mal.

Olhei para a bandeja.

- Só vão comer isso?

- Só. Vamos ter treino daqui a pouco. – Respondeu o Ruben. – E mesmo assim acho demais.

- Quer sentar aí com a gente?

- Não, estou de serviço, obrigado. E também já almocei. O que é isto? Este barulho…

Levantei a cabeça e olhei pela janela. Lá fora começara a chover torrencialmente. As nuvens finalmente tinham cedido, e uma daquelas enormes chuvadas começara a cair.

- Meu, está a cair uma tromba de água daquelas. Parece que vamos ter treino molhado.

“Molhado”, Pensei. E de repente a luz atingiu-me novamente

- Molhado! Oh Meu Deus! O Jipe!

publicado por acordosteusolhos às 23:19

comentários:
alguem que me mate a curiosidade. que doença é que a Mel tem?
S. a 6 de Setembro de 2010 às 00:19

Olá

A cada novo capítulo gosto mais da tua fan fic. Adoro a personagem principal feminina e adoro o mistério que colocas em torno da doença dela. Embora já tenho alguns palpites, espero que me surpreendas quando revelares .

Parabéns e boa escrita.

Passa na minha fanfic e deixa a tua opinião
http://ladoaladofanfic.blogspot.com
Ana M. a 6 de Setembro de 2010 às 12:25

Amo a fic, estou ansiosa por mais!
Mariana a 6 de Setembro de 2010 às 12:58

amooo deixas-me ansiosa por mais!! está lindo, mistério o.o quero mais!
Anónimo a 6 de Setembro de 2010 às 18:46

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D