05
Set 10

Tive de tirar alguns dias do trabalho por causa das aulas da faculdade. Estava atrasada na entrega de trabalhos e o facto de ter faltado essa semana também não ajudou. O horário começava a pesar-me e começava a ter de redefinir as minhas prioridades. As actividades extra curriculares eram óptimas para o currículo, mas sentiam-se nas notas dos exames. Se o curso fosse só prática, fazia-o com uma perna ás costas. Infelizmente não era, e tinha de apressar os estudos ou corria o risco de ficar pelo caminho. Para piorar as coisas, vim a saber que teríamos de ensaiar algo para o fim do ano. Os grupos eram definidos pelos professores, mas cada um ficava com uma tarefa específica. Nós decidíamos o que queríamos fazer, distribuíamos o trabalho e na data marcada o palco estava por nossa conta. Eu adorava esse tipo de trabalhos, o problema era mesmo a disponibilidade.

A última aula da manhã tinha sido de escrita Dramática. Apesar de gostar de escrever, tenho de admitir que esta tinha sido uma grande desilusão para mim. Actualmente a matéria era sobre a história da escrita. “Boring”. No fim da aula o professor veio ter comigo.

- Senhorita Mel Andrade. Preciso falar consigo um minuto.

Parei diante da sua secretária e mordi o lábio tentando disfarçar o nervosismo. Geralmente quando um professor nos pedia para ficarmos depois das aulas, nada de bom vinha a caminho.

- Reparei que a nota do último exame foi consideravelmente mais baixa que a nota anterior. Sabe, para uma aluna que veio transferida, e que trazia tão boas referências, devo dizer que estou um bocado desapontado.

“Já somos dois”, pensei.

- No entanto acredito que tudo não passe de uma má fase, e que irá recuperar. E eu vou ajudá-la a recuperar.

Abriu a gaveta da secretária e tirou de lá uma folha que me entregou.

- Aqui tem! Nessa folhinha tem a informação que precisa para o trabalho que lhe estou a dar.

- Trabalho?

- Sim. Você precisa levantar a nota, ou corre o risco de perder créditos. Sendo aluna com direito a bolsa, calculo que essa situação não lhe será favorável. Por isso estou a destinar-lhe um trabalho. Aí tem no que consiste, o que é obrigatório conter e a data limite. Boa sorte.

Não sabia bem se havia de agradecer ou mandá-lo passear. É certo que eu precisava de levantar a nota, e o professor estava a dar-me uma segunda oportunidade, mas eram tantas as exigências que tinha preferido fazer um teste surpresa naquele momento. Eu sabia que isto não iria terminar bem. Não me enganei.

  •      

- Queres o quê?

- Tu ouviste. Estou a convidar-te para ires á minha nova casa no Domingo, e quero que leves as tuas amigas.

O tom de voz da Inês tornou-se irónico.

- Hum, hum. Acabaste a mudança e lembraste-te, “olha vou convidar a minha amiga Inês, que aliás nunca mais tinha convidado para nada desde que me tornei um conhecido jogador, para ir até lá conhecer a minha nova toca”. Ah, e de caminho posso levar as minhas amigas. Não, não, espera. Tenho de levar as minhas amigas.

- Vá lá Inês, não sejas assim. Tu sabes bem que eu gosto muito de ti. Eu lembrei-me mesmo de te convidar, a sério.

- Sim, e o facto da Mel ter um convite na sua agenda não tem nada a ver com o caso…

- Está bem, eu confesso. Mas se  ela não for o David vai-me dar cabo do juízo.

- Foi ele que te pediu para vires aqui convidar-me?

- Mais ou menos. Eu disse que te convidava e ele achou melhor eu certificar-me de que tu levavas a Mel e a…

- Ana?

- Sim.

- Ok, Ruben. Eu aceito o teu convite. Sabes que em matéria de festas eu não me nego a nada. Mas em relação á Mel eu não te posso dar garantias. Ela tem os estudos e é toda empenhada nisso. Eu bem a tento puxar para a farra, mas ela é difícil.

- Tudo bem Inês. Tenta. Se der dá. Senão, o mano vai ter de se aguentar com a nega.

- Olha lá, qual é a dele com a Mel?

- Não sei de nada.

- Pois, e eu ainda acredito no pai natal.

- A sério, ele ainda não comentou nada comigo. Mas sabes que ele é mesmo assim. Acho que simpatizou com ela desde a cena do balneário. E escusas de dizer que não era ela porque eu sei que era.

- Eu não disse nada.

- Pois não, mas já te conheço. Desde o tempo que usavas fraldas… Tenho de ir. Aparece no Domingo.

- Ok, lá estarei.

  •  

A Inês apareceu por nossa casa e resolvemos encomendar o jantar. Chinês para variar um pouco.

- Hum, estava com vontade de comer um crepe chinês à que tempos.

- Acho que devíamos ter mandado vir mais.

- Onde é que tu enfias tanta comida Mel?

- Devias ver ao almoço.

- Eu não como muito. A comida chinesa é que não enche. Não tenho culpa se tenho de repetir.

Estávamos sentadas no chão da sala, com a televisão ligada, e comíamos descontraidamente. Gostava de estar na companhia das minhas amigas. Faziam-me esquecer um pouco as saudades que tinha de casa. A Inês e Ana juntas podiam elas próprias montar o seu espectáculo de comédia. Que dupla. Eram estes os momentos que me faziam sentir feliz e pensava na sorte que tinha por poder partilhá-los com pessoas que eu adorava.

- O Ruben esteve hoje lá na  “Catedral”.

- Ai sim. – Respondi de boca cheia.

- Foi convidar-me para a tal festa em sua casa.

Desta vez não respondi. Continuei a mastigar.

- Eu quero ir mas não me apetece ir sozinha. Vocês também foram convidadas, certo? Podemos ir todas.

- Eu vou contigo. – Disse a Ana imediatamente.

- Boa, mas era mais divertido se fossemos as três.

Vi que as duas olhavam para mim á espera de uma resposta. Acabei de engolir e disse:

-Não estejam a olhar para mim assim. Eu tenho carradas de coisas para fazer ,não sei se vai dar.

- Oh, vá lá. Tu tens sempre coisas para fazer. Não podes deixar pôr essas coisas de parte durante uma hora ou duas.

- Não sei. E depois não conheço ninguém, vai ser como quando fomos ao bar.

- Claro que não vai. O Ruben é super porreiro, e o pessoal que o acompanha também. Vais ver, vai ser uma coisa fantástica com pessoas fantásticas.

  •   

- Disseste que isto ia ser uma festa só com gente fantástica.

Estávamos as três á entrada que dava para o jardim da nova casa do Ruben. A casa  tinha uma fachada linda e o jardim era enorme. Já toda a gente parecia ter chegado. Trabalhei de manhã no restaurante e depois de horas a ouvir a Inês a chatear-me por causa da festa, resolvi adiar os estudos que tinha planeado para mais tarde. Mas assim que entrámos arrependi-me imediatamente. A primeira pessoa que tinha encarado fora a Patrícia.

- Então, não fui eu que fiz a lista. Não sabia que ele ia convidar o clube em peso.

Lancei-lhe um olhar de fúria. Naquele momento só me apetecia esganá-la, mas dado o número de testemunhas resolvi fazê-lo mais tarde.

- Então, ficamos pela entrada?

Nesse momento o Ruben viu-nos e veio ter connosco. Agora não havia volta a dar-lhe.

- Olá, ainda bem que vieram. Estejam á vontade. Temos comida lá ao fundo. Divirtam-se.

- Bem, já que aqui estamos… Vá lá não te zangues comigo.

- Eu vou ver o que há para comer.

Estava mesmo chateada, mas não podia culpar a Inês. A verdade é que desde que o David tinha escrito o convite na minha agenda, ficara com vontade de vir. Só não esperava encontrar a Patrícia e a sua trupe. Não a suportava. Já bastava ter de a aturar durante os treinos.

A Ana acompanhou-me até ás mesas onde algumas carnes, marisco, saladas e batatas faziam um convite a quem para elas olhasse. Quanto á Inês foi circular entre o pessoal. Ela conhecia a maior parte daquelas pessoas e estava á vontade ali. Ao contrário de mim. A última vez que olhei estava com um grupo de jogadores e ria.

- Inês, veio sozinha?

- Olá David. Não, trouxe companhia. – E apontou na nossa direcção.

Estava a tentar chegar á salada quando senti uma mão forte nas minhas costa.

- Você veio. Que bom.

Virei-me e quase ao mesmo tempo o David cumprimenta-me com dois beijos na cara. Fiquei zonza. Não estava nada á espera que me falasse assim. Depois quase me empurrou para uma das mesas. Virei a cara para a Ana, e a minha cara de súplica disse tudo. Ela seguiu-nos. Logo depois chegou a Inês e o tal rapaz amigo do David.

- Esse daqui é o Gustavo, meu irmão.

- Olá.

- Você é que é a famosa Mel…

- Famosa?

- Me disseram  que você tem muito jeito pra cantar. E dançar também.

Baixei a cabeça e fixei a comida do prato. Envergonhava-me quando as pessoas me elogiavam. Uma voz vinda de trás porém, fez-me levantar  novamente. Patrícia.

- E se tem Gustavo. A nossa Mel é uma caixinha de surpresas.

Sempre o mesmo tom de superioridade. Era intragável esta rapariga. Fazendo-se convidada, puxou de uma cadeira e sentou-se entre o David e eu.

- E então David, preparado para o jogo desta semana? Ouvi dizer que os seus pais chegam amanhã, mesmo a tempo de assistir não é?

- É, meus pais estão vindo.

Olhei para a Inês e fiz uma careta. Esta riu-se. “ Será possível que esta criatura não se toca?”, pensei. Olhei depois para o David e vi o quanto estava entediado. Acho que só lhe respondia para não ser mal criado com ela. A música mudou e mais uma vez a Patrícia fez-se convidada.

- Adoro esta música. Danças comigo David?

- Desculpa, Pat. Eu já tinha prometido para a Mel.

E, levantando-se da cadeira puxou-me até á pista onde várias pessoas dançavam.

- Graças a Deus. Não aguentava mais tanta “abobrinha”.

Tive de me rir. Afinal não era a única a não gostar da Patrícia. Mas também não me admirava. Começamos a dançar uma música brasileira. Para jogador de futebol o David até se safava muito bem. Via-se que já estava familiarizado com aquele género de músicas. De repente a música mudou e começou a tocar uma mais lenta. Parei sem saber o que fazer. Pensei em sair da pista mas o David continuava á minha frente, por isso não podia deixa-lo ali sozinho. Ele pegou-me na mão e aproximou-se de mim. Com o braço, rodeou-me a cintura e recomeçámos a dançar. Tentei fixar um ponto para não ver o quão embaraçada eu estava. Olhei para a mesa onde estávamos anteriormente e, apesar da distância, pude perceber o olhar de raiva que a Patrícia me lançava. Isso fez-me sentir vitoriosa. Voltei novamente o rosto para o David. Ele sorria, como sempre. Que estranho. O seu sorriso acalmava-me e eu não sabia porquê. Perdi-me naquele sorriso não sei quanto tempo, mas quando voltei a ter noção de mim a música tinha terminado. Desta vez larguei a mão dele e fui para perto da Ana e da Inês. Péssima ideia.

- O que foi aquilo? A dança do amor?

- Não sejas parva Inês. Ele só me levou a dançar porque já estava farto de ouvir a Pat.

- Sim, pois. Claro.

Olhei para a Ana e esta também se estava a rir.

- Mas o que é que se passa com vocês as duas?

- Nada. Já com vocês.

- Oh, por favor. Parecem umas gaiatas. Acham mesmo que com todas as raparigas que andam atrás dele, algumas modelos e lindas de morrer, ele vai olhar para mim? Logo para mim?

- Já olhou, amiga. Já olhou.

  •  

A noite já tinha avançado um bom bocado, quando olhei para as horas. Afinal até tinha sido divertido. A mesa onde estávamos era no mínimo a mais animada, com as brincadeiras do David e do Ruben. Tinha dançado mais, mas já não o voltar a fazer com o David. Travei conhecimento com outros jogadores e apercebi-me da união entre eles. Ainda bem. Meio caminho andado para ganharmos o campeonato outra vez. Infelizmente, o cansaço começou a apoderar-se de mim e senti as forças a abandonarem-me. Fiz sinal á Ana, e ao ouvido disse-lhe que era melhor irmos embora. Ela percebeu logo o motivo, e muito discretamente ajudou-me a levantar. O David não estava na altura, mas até foi bom. Como era com quem tinha mais confiança teria de me despedir dele, e não queria que percebesse que não me estava a sentir bem. A Inês percebeu qualquer coisa e veio ter connosco.

-Que se passa?

- Nada de mais. Estou um pouco cansada e mal disposta. Nós vamos andando, ok?

- Estás pálida. Precisas de ajuda.

- Não a Ana ajuda-me. Fica e diverte-te.

-Nem penses. A Ana quase que tem de te carregar. Eu ajudo.

Por mais que eu não quisesse, a verdade era que a Ana não podia comigo sozinha, e eu sentia-me cada vez mais fraca. Resolvi então aceitar a ajuda da Inês. Perto da porta de casa olhei para trás e vi o David. Pelos vistos andava á minha procura. Avisei a Ana para que se apressa-se. Quando chegámos ao carro a Inês perguntou novamente o que se passava. Tentei disfarçar mas de repente senti-me mais tonta ainda e o chão começou a rodar. Ouvi a Ana a chamar-me muito ao longe e não resisti. Apaguei completamente.

publicado por acordosteusolhos às 00:42

comentários:
Olá

Adoro, simplestemente, a tua fan fic.

Que história maravilhosamente bem contada. Tens aqui uma admiradora. Já agora deixo o convite para leres a minha, que é bem mais recente.

http://ladoaladofanfic.blogspot.com

Parabéns.
Ana M.
Anónimo a 5 de Setembro de 2010 às 03:05

A história está tão brutal!
Ainda bem que nao paraste de escrever! teria sido um grande desperdicio!
parabéns, perfeito!
estou ansiosa pelo proximo!
xoxo
Beatriz a 5 de Setembro de 2010 às 12:36

Esta historia esta simplesmente fantastica :D. Diferente das outras que logo nos primeiros capitulos eles ja se beijam e tal. Esta sim da hipoteses de eles estabelecerem uma relaçao normal :D . Parabens. Já tou a espera do proximo capitulo.
bia a 5 de Setembro de 2010 às 14:02

Olá Sandra
Ainda bem que não paraste de escrever.... estou a adorar, continua.
Estou ansiosa pelos proximos capítulos ;)
Bj
sp a 5 de Setembro de 2010 às 14:04

Continuo a adorar a minha história preferida sem sombra de duvidas, escreves muito bem e a história é deliciosa PARABéns
Liz a 5 de Setembro de 2010 às 18:16

Já deixei aqui alguns comentarios a felicitar te pela tua fanfic, muito bem escrita e original, também decidi iniciar a minha historia, se quiseres dá la um saltinho :)
http://vendoteativejoomundointeiro.blogspot.com/
Ana Mar
Anónimo a 5 de Setembro de 2010 às 22:43

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D