04
Set 10

Fora uma manhã perdida. Para além de acordar tarde ainda perdi imenso tempo a tentar encontrar a minha agenda. Os dois primeiros tempos de aulas foram-se completamente. Perdidos. Aproveitei que já não ia a tempo de assistir ás aulas para procurar na faculdade. Fiz o mesmo percurso do dia anterior, fui ao anfiteatro, perguntei nos vários gabinetes, salas de aulas mas nada. Ninguém tinha achado ou visto nada que se parecesse com a minha agenda. Por fim, cedi ao cansaço e desisti. A única solução era comprar uma agenda nova e começar a apontar tudo de novo. E isso iria dar trabalho. Sentei-me num dos bancos cá fora, debaixo de uma árvore e peguei numa folha de papel. Comecei então a anotar aquilo de que me lembrava. Não era muito, mas para agora era o suficiente. Mais tarde no estádio confirmaria o horário de trabalho. Tinha ainda de ligar para o Hospital e confirmar as consultas que tinha. Sabia que não eram muitas, mas não podia faltar. • Quando cheguei ao estádio nessa tarde, o meu humor não era dos melhores. À conta de não saber bem a quantas andava já tinha faltado de manhã e trocado outra aula. Considerava-me uma pessoa bastante organizada, e detestava não saber o que tinha marcado a seguir. E andava metida em tanta coisa que o tempo em que decorava as tarefas já lá ia. Mal entrei na “Catedral”, a Ana reparou logo que não estava muito bem. - Então, não encontraste? - Não! – Respondi amuada. - Mas viste bem lá em casa? Se calhar anda por lá caída e tu não viste. Logo ajudo-te a procurá-la. - Não é preciso. Já procurei, não está lá. Vou trocar de roupa. Não estava para grandes conversas. Troquei de roupa e voltei para o restaurante. Ainda não estava muita gente àquela hora, mas daí a nada começariam a chegar para o jantar. Fui arrumar loiça. Não era boa companhia por isso fui fazer o trabalho mais afastado do resto do pessoal. Ainda bem que a Inês estava de folga, se não, não ia parar de me chatear. E eu não queria ser mal criada com ela. Quanto á Ana já não me perguntou mais nada. Conhecia-me o suficiente para saber quando deveria manter a distância e não me dizer nada. Cada uma tinha o seu feitio e respeitávamo-nos a ambas. Sem problema. Finalmente o início da noite chegou e com ela chegaram também os primeiros clientes para jantar. Calhava-me a mim servir ás mesas mas da maneira como estava pedi ao Bruno se podia trocar comigo. Eu ficaria atrás do balcão. O Bruno era um querido, nunca recusava nada. Ainda não tinha acabado de lhe falar e já me estava a empurrar para o outro lado do balcão. Agradeci-lhe. Não fazia ideia do favor que me estava a fazer. Felizmente a noite fora calma e antes das 11 horas da noite já só haviam duas mesas ocupadas. Comecei novamente a arrumar algumas coisas, pensando onde estaria a minha agenda e se alguém a teria lido. Isso parecia-me uma ideia tão aterradora que nem queria imaginar… Perdida nestes pensamentos não reparei quando entraram três figuras muito mediáticas no restaurante. Só quando me virei e dei de caras com o David Luiz me apercebi da agitação que se fazia sentir pelas poucas pessoas ainda presentes. Tinha passado o dia todo tão preocupada em achar a agenda que nunca mais me lembrara do encontrão do dia anterior. Ele sorria encostado ao balcão, descontraído e tranquilo. A seu lado estavam o Ruben e um outro rapaz que eu não conhecia. Pelo menos não do clube. - E aí, tudo bom? Respirei fundo e recompus-me do susto que apanhei ao vê-lo ali, tão perto de mim. - Sim, mais ou menos. Se vêm jantar, não sei se a esta hora ainda servem alguma coisa. Vou ter de confirmar. - Não, não. Já jantámos, mas obrigado por perguntar. - Ok. – Respondi sem saber o que havia de dizer mais, e rezando para que ele não voltasse a tocar no assunto do balneário. E porque é que mais ninguém vinha para ao pé de mim? - Olha, eu estou com uma coisa aqui comigo, você pode me ajudar? - Se for alguma coisa que eu possa fazer, com prazer. Ainda antes de terminar a frase, vi-o tirar debaixo do balcão um pequeno caderno azul, em formato A5. - Será que podia me ajudar a achar o dono deste caderninho aqui? - A minha agenda! – Exclamei, num tom de voz superior ao que queria. - Ah, então é sua… - Claro que é minha. Onde é que a encontraste? - Você perdeu ela ontem de tarde, quando esbarrou comigo. Eu achei ela junto da porta da entrada. Está aqui p´ra você. Quase lhe arranquei das mãos a minha preciosa agenda, e apertei-a contra o peito. - Nem imaginas as voltas que já dei á procura desta coisa. - Estou vendo. Isso é amor mesmo hein? Comecei a rir. Depois de um dia inteiro mal disposta, só o David Luiz me podia plantar um sorriso. Mas de repente lembrei-me de uma coisa. - Não a leste pois não? - Claro que não. Não ia mexer em algo que não me pertence. - Desculpa, não te queria ofender. - Tudo bem, mas agora me deixou curioso. Que você tem aí que não pode ser lido? As combinações do seu cofre forte? Aproximei-me do balcão, debrucei-me sobre ele e quase sussurando disse: - Os planos de um assalto ao SLB… Ele riu. - O que é que achas? – Disse num tom de voz já normal – Este trabalho aqui é só fachada, para conseguir informações. E rimos os dois. O Ruben e o outro rapaz que os acompanhava olhavam para nós sem perceber nada da conversa. Um rapazinho de uma das mesas chegou então muito timidamente perto dos seus ídolos e pediu-lhes um autógrafo. Eu aproveitei e afastei-me. Tinha de ir guardar a minha agenda antes que esta desaparecesse outra vez. Entretanto a Ana chegou e eu pude ir para dentro. Antes porém despedi-me dos rapazes e agradeci mais uma vez ao David. • - Cabeça de vento. Como é que não te lembraste que a tinhas junto dos dossiers? - Não me lembrei, pronto. Que queres que te diga. Até parece que te lembras de tudo. A Ana e eu preparávamo-nos para nos deitar. Já estava tarde, e tinha sido um dia bem cheio, pelo menos para mim. Mas como sempre, comentávamos os acontecimentos. - Oh, pois! Claro! Ontem estavas toda derretida porque ele te tinha perguntado o nome, passaste o dia nas nuvens e agenda…nem lembrança. - Não sejas parva. – e dei-lhe com a almofada. – Bom vou-me deitar. Amanhã tenho de compensar as faltas de hoje. Cheguei á cama e puxei os lençóis para baixo. Estava mesmo a precisar de dormir uma boa noite de sono. Antes, porém fui buscar a minha adorada agenda e abria-a. Pus-me a folheá-la e a rever alguns compromissos próximos. Passei página por página, por página. De repente detive-me. Voltei atrás algumas folhas e comecei a ler as anotações da página onde estava. No fim da página tinha algo escrito que não me lembrava de ter anotado. Aliás, Aquela nem sequer era a minha letra. “ Festa na nova casa do Ruben Amorim, a partir das 8h da noite. Não Faltar” Eu não tinha escrito aquilo. Não conhecia o Ruben e não sabia onde era a casa dele. Só havia uma pessoa que podia ter escrito aquilo: O David Luiz. • Não consegui descansar nada durante a noite. Estava pior que no dia anterior. Acho até que preferia que a agenda tivesse continuado perdida, noutro sítio qualquer. Como é que ele tivera coragem de fazer aquilo? Eu perguntei-lhe se ele a tinha lido e na minha cara ele dissera-me que não. Até tinha ficado ofendido, e eu senti-me mal por ter feito tal observação. Mas então e depois faz anotações? Passei toda a manhã totalmente a leste das aulas. Tive uma aula de dança e consegui falhar todos os movimentos. Só queria chegar ao estádio e confrontar o David. Não fazia ideia onde o encontrar ou como abordá-lo mas tinha de esclarecer tudo ou não iria conseguir sossegar. À hora do almoço mal consegui comer. Arrumei as coisas dentro da mala e pus-me a caminho do metro, em direcção ao estádio. Cheguei e mais uma vez a Ana adivinhou o meu estado de espírito. Desta vez optou por não me perguntar nada. Infelizmente para mim, a Inês já não estava de folga e por isso tive de fazer um esforço enorme para não revelar o quanto estava aborrecida. Mais tarde, o Jorge encarregou-me a mim e ao Bruno de irmos atestar de bebidas as várias máquinas espalhadas pelo estádio. Agradeci mentalmente, pois já não aguentava mais a voz da Inês. Adorava-a, mas falava pelos cotovelos. Perto dela, até os meus pensamentos eu tinha dificuldade em ouvir. Já o Bruno era mais reservado, como eu. Podia-se brincar e depois podia-se parar. E ele continuava com o mesmo jeito e disposição. Era fantástico. Subimos os dois até ao segundo piso e começámos, cada um numa ponta a abastecer as máquinas de bebidas. Não era um trabalho que eu gostasse particularmente de fazer, mas como pertenciam à “Catedral”, tinha de ser feito. Pousei o saco térmico no chão e comecei a tirar garrafas. Quando me levantei olhei para o lado e vi ao fundo do corredor vários jogadores a vir na minha direcção. Entre eles reconheci o David Luiz. Parei de frente para o corredor e esperei que eles passassem. Tal como esperava, o David deu-me um pequeno aceno e eu aproveite e chamei-o. - Oi, como está você hoje, Mel? - Não muito bem. Preciso de falar contigo, pode ser? - Se for rápida, tenho treino agora. Mas diz aí. - É rápido. Posso saber como é que um convite para uma festa na casa do Ruben Amorim veio parar á minha agenda? Ele coçou a cabeça e fez um ar um pouco atrapalhado. - É… não sei… eu… - Olha David Luiz, tu garantiste-me que não tinhas lido nada e eu chego a casa abro a agenda e dou de caras com um compromisso que não foi, de maneira alguma, marcado por mim. Queres explicar? - Tudo bem, eu marquei na sua agenda a festa do Ruben. - Então mentiste-me? - Claro que não. Eu juro que não olhei nada do que estava escrito lá. Eu só quis fazer um convite p´ra você, e achei que você ia gostar. Olhei-o nos olhos. Não me parecia que estivesse a mentir. - ok, acredito em ti. - Então não ficou chateada? E vai na festa do Ruben? - Não, não fiquei chateada. E não, não vou á festa do Ruben. Ele franziu o sobrolho. - Porquê? Eu convidei você… - Aí é que está. É a festa do Ruben, que eu não conheço e não foi ele que me convidou. “Touché”, pensei. David virou a cara e procurou pelo Ruben. - Manz, vem aqui, vem. Ruben aproximou-se com um largo sorriso. Era evidente a cumplicidade entre os dois. - Que se passa mano? - A Mel está duvidando do seu convite pra ela ir lá na sua casa nova. O sorriso do Ruben desapareceu e este franziu a testa numa expressão de dúvida. “hã!” - É fala p´ra ela que eu só escrevi na agenda dela lá, porque você me pediu. Você vai convidar a Inês e fazia questão que a Mel viesse também. Eu estava a adorar. Olhava para a cara do Ruben e voltava a olhar para o David. E o Ruben não sabia bem quem encarar. Era evidente que ele não sabia do que o David estava a falar, mas o David pôs uma expressão tão séria que a certa altura até eu fiquei na dúvida. Por fim conseguiu olhar-me e dizer-me: - Claro… Mel! Eu ia convidar a Inês e falei com o mano e pedi-lhe que dissesse também a ti. Afinal vocês andam muitas vezes as duas. - As três. – Respondi. – Andamos as três juntas. - Três???? - Yeap. Eu, a Ana e a Inês. – Teria desatado a rir naquele momento, mas não queria ofender o pobre Ruben, que como era óbvio, tinha sido apanhado na teia do seu “mano”. - Então, é isso. – Disse o David – Ele quis dizer as três. Olha aí Mel, nós temos que ir mas já sabe. Domingo, na casa do Manz. E agora não tem desculpa para não ir. O Ruben te convidou. E deu-me mais um daqueles sorrisos. Fiquei parada a vê-los desaparecer na próxima curva do longo corredor. Pareciam duas crianças. Quanto a mim, não queria acreditar que acabara de ser convidada para uma festa na nova casa do Ruben Amorim.

publicado por acordosteusolhos às 23:53

comentários:
entao o menino David a andar a escrever nas coisas dos outros. Nao tem e coragem para convidar cara a cara :D. Gostei deste capitulo. Continua :P Parabens.
pia a 5 de Setembro de 2010 às 00:15

a minha fanfic favorita sem duvida :D
camila a 5 de Setembro de 2010 às 00:35

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D