03
Set 10

Cheguei a casa um pouco mais cedo do que era normal. À última hora um colega avisou que não podia ir ter connosco ao teatro da faculdade para mais um ensaio de grupo e por isso decidimos que o melhor era irmos todos para casa. Até calhou bem, pois isso significava que iria ter mais horas para dormir. Já se começava a notar o cansaço na minha cara, o que não era nada bom.

A Ana e a Inês estavam as duas na sala, cada uma deitada para seu lado a comer pipocas e a ver um filme que passava na televisão. Quando me viram entrar fizeram uma festa.

- Epá, pensava que era um ladrão a entrar-me porta adentro.

- Que milagre foi esse que te fez vir para casa mais cedo?

- Não houve ensaio hoje. O Miguel está doente e não pôde ir. Por isso viemos todos embora.

- Fixe, senta-te aqui connosco a ver o filme. Eu vou fazer mais pipocas.

- Acho que me vou deitar. Aproveitar para pôr o sono em dia.

- Eu logo vi. Já te disseram que pareces uma velha. Quer dizer, eu sei que tens um horário apertado, mas será possível que de vez em quando não podes mandar tudo à fava e divertires-te um bocado também?

- Vou tomar um banho…

Disse, dirigindo-me para a casa de banho, enquanto a Inês me chamava todos os nomes de que lembrava.

A água no meu corpo relaxou-me bastante e aliviou-me de algumas dores que começavam a surgir. Pensei que depois daquele banho iria cair na cama e dormir que nem uma pedra, mas estava demasiado agitada para isso acontecer. Por mais que tentasse, o encontro que tivera a seguir ao almoço não me deixava descansar. E nem sabia porquê, afinal não fora nada de especial, muito pelo contrário. O David lembrava-se de mim por causa da cena do balneário e agora porque fui direitinha de encontro a ele. E que encontrão aquele. Ora, dadas as circunstâncias dos nossos encontros acho que preferia que ele não se lembrasse de nada. Devia achar que eu era a maior naba ao cimo da terra.

Ao ver que não conseguia dormir, resolvi levantar-me e fui até á sala. Tinha de contar a alguém o que se tinha passado. Talvez depois acalma-se. Assim que me viram chegar, nova festa.

-Então, resolveste passar algum tempo de qualidade com as amigas?

- Mais ou menos. Cheguem para lá. – E sentei-me no meio delas. A Sónia passou-me as pipocas.

- Não estás pior pois não?

- Não.

- Ah, pensei…

- Ela está com cara de caso, não se vê logo. – Disse a Inês, perspicaz como sempre. Caramba, nada parecia escapar a esta miúda.

Não aguentei mais e abri um sorriso de orelha a orelha.

- Vá lá, desembucha. O que é que se passou.

- Ok, Isto não sai daqui está bem?

- Sim, sim, conta.

- Então, hoje quando fui á catedral, á saída encontrei uma pessoa…

- E nós vamos ter de adivinhar quem foi, ou vais dizer-nos?

- … Encontrei o David Luiz.

Elas olharam um para a outra sem perceberem onde eu queria chegar. Afinal á super comum encontrar-se um jogador de futebol quando se trabalha num clube.

- E?...

-  Esbarrei com ele á saída porque não o vi, e os dossiers caíram todos ao chão. Havia papeis espalhados por todo o lado. Baixei-me para os apanhar e nem reparei que era ele. Só vi quando falou comigo, muito simpático e ajudou-me a apanhar os papeis do chão.

- Sim, isso é mesmo do David. _ Disse a Inês que era quem o conhecia. Afinal era amiga do Ruben Amorim, melhor amigo dele. – Ele é sempre muito simpático com todos.

- E estás assim por causa disso?

- Não fazia ideia que gostavas tanto do David. Já podias ter dito que eu já to tinha apresentado.

- Não é nada disso. Eu não quero que mo apresentes. Aí então é que ia ser lindo, com o que ele já pensa de mim.

- Espera lá. O que é que ele pensa de ti?

- Não sei, mas não deve ser boa coisa. Ele reconheceu-me da cena no balneário. E hoje vou e espeto-lhe um encontrão. Ora se tu lhe vais dizer que o quero conhecer, então pensa o quê? Que eu não sou boa da cabeça. Às tantas ainda acha que eu ando a persegui-lo.

- O David não pensa nada disso. Ele é um querido. E não me admira que ele se lembre de ti. Todos se lembram.

- Obrigado. Estás a fazer com que me sintas cada vez melhor.

- Mas ele não te disse mais nada? Ajudou-te com os papéis e pronto?

- Sim, e no fim quando já me ia embora, perguntou-me o nome.

-Elá, isso já é outra coisa. Ele quis saber o teu nome? Não foste tu que lhe disseste, ou te apresentaste?

- Acabei de te dizer que não quero que mo apresentes e ia eu apresentar-me? Foi mesmo ele que me perguntou.

- Agora percebo porque estás assim.

- Olha não foi nada demais, eu sei, mas achei piada ele querer saber como me chamo.

- E tu disseste-lhe, certo?

- Claro. Então não lhe dizia nada. E depois ele disse-me como se chamava, como se eu não soubesse… Achei piada.

-Estou a ver…

Agora era a Inês que estava com cara de caso.

-Cada vez que fazes essa cara começo a assustar-me.

-Qual cara?

- Essa!

- Mas hoje deram para os mistérios. Desembucha tu também. – Disse a Ana sem paciência. – Irritam-me quando começam a rodear.

- Está bem, vou contar o que eu ouvi. Não prestei muita atenção ao início, mas com essa tua conversa já não sei.

- Não sabes o quê?

- Lembras-te na noite em que fomos ao bar, e tu deste aquele espectáculo? Então, vocês saíram logo a seguir mas eu ainda fiquei mais um pouco. Estive inclusive com o Ruben e o outro pessoal. Estava muito barulho e haviam uns já tocados, por isso não liguei muito à conversa, mas lembro-me quando alguém começou a falar de ti. Alguém se lembrava de ti do balneário e disse que eras tu. É claro que a maioria não acreditou e o Ruben quis confirmar comigo, mas eu não disse nada é claro. Fingi que não ouvi a pergunta. Então ouve outro que disse ao David para fechar a boca que o espectáculo já tinha acabado. Não reparei quem foi porque como te disse não estava a ligar nenhuma ao que eles diziam. Mas  agora começa a fazer sentido. Alguém deixou o menino de ouro muito impressionado.

- Inês, aquilo era um palco aberto. Nessa noite passaram por lá carradas de raparigas.

- Sim, é verdade. Mas que eu saiba só houve uma que para além de ter estado naquele palco também esteve no balneário dos rapazes… e alguém te reconheceu.

- Hum, amiga. Já começas a fazer sucesso…

- Sucesso nenhum. E se é para estarem com essas conversas, vou-me deitar. Adeus.

Levantei-me e fui para o quarto novamente. Elas ainda tentaram convencer-me a ficar, mas a verdade é que aquela conversa tinha-me deixado ainda mais agitada. Se antes precisava de falar, agora precisava ficar só com os meus pensamentos.

“ Seria possível o David ter ficado impressionado comigo, como dissera a Inês”.

- Acorda Mel. Isto não é nenhum conto de fadas. – Disse para mim. – Isto é a vida real. E na vida real amanhã tenho que me levantar bem cedo, por isso toca a dormir.

Fechei os olhos e adormeci num instante. A última imagem de que me recordo antes de adormecer foi a cara dele, do David, a olhar para mim e a perguntar o meu nome.

No dia seguinte acordei tarde. Era o que dava ficar na conversa fiada com duas amigas cuscas. Levantei-me á pressa e tentei engolir o pequeno almoço ao mesmo tempo que me vestia. A Ana ainda dormia, por isso tentei não fazer muito barulho. Arrumei as coisas que me faziam falta na mala e estava já prestes a sair quando me lembrei da minha Agenda. Não podia sair de casa sem a minha agenda. Tinha todos os meus compromissos lá. E não só. Horários de trabalho, aulas e treinos, contactos, consultas médicas, enfim. Podia-se dizer que toda a minha vida estava anotada naquelas folhas. Eu sabia que a moda agora são os note book, mini computadores e agendas electrónicas. Mas para além de serem mais caros, para mim nada substituía uma boa e velha agenda manual. Eu adorava escrever e apontar tudo. E personalizar as páginas também. Voltei atrás para ir buscar a minha adorada agenda, mas não a encontrei. Procurei no quarto, sala, até na casa de banho e nada. Comecei a desesperar. Sem a minha agenda não fazia ideia das aulas que tinha nem dos horários. Isto sem contar que todo o meu historial médico se encontrava lá descrito. Quem a encontrasse podia ficar a saber tudo sobre mim. Tudo aquilo que eu não queria que se soubesse. Tentei lembrar-me onde a tinha visto a última vez, mas era inútil. Quanto mais me esforçava, menos me lembrava. Por fim cheguei à pior conclusão.

“Perdi a minha agenda!”

publicado por acordosteusolhos às 23:03

comentários:
Mais uma vez gostei muito :) parabéns tens talento... E não faças como as outras, cria um clima de atracção entre O David e a Mel e não os unas já lol assim a expectativa vai ser maior.
Anónimo a 3 de Setembro de 2010 às 23:35

a historia esta mto boa continua assim :D. Espero a continuaçao.
rute a 3 de Setembro de 2010 às 23:39

muito bom. Para quando outro capitulo :D?
mia a 4 de Setembro de 2010 às 22:30

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D