02
Set 10

- Eu mato a Patrícia. Eu avisei para teres cuidado com ela.

Ana e Inês estavam as duas ao meu lado, cada uma com uma tarefa. A Ana estava com uma toalha a secar-me o cabelo, enquanto a Inês ajudava a secar a roupa.

- Como é que tu também não viste onde estavas?

- Eu nunca lá tinha ido, e com a pressa sei lá… Nem me apercebi. Que vergonha Meu Deus.

- Deixa estar que eu trato da Pat. Desta vez ela passou todos os limites. Se não aguenta a concorrência retire-se que não faz falta nenhuma.

. Não Inês, deixa estar. Chega de confusões. Agora só quero esquecer isto.

- Mas tu não podes deixar uma tipa daquelas ficar a rir-se. E ainda por cima deu cabo da tua exibição com a D. Marisa. É uma invejosa, é o que é. Não suporta ver ninguém melhor que ela.

- Inês, a sério. Eu trato disto á minha maneira.

Inês fez uma careta.

- Ok, mas se precisares eu conheço uns tipos que conhecem outros tipos que podem…

Comecei a rir-me. Era incrível como uma pessoa que me conhecia á tão pouco tempo tinha aquela capacidade de me pôr bem disposta.

- Olha acho que esta roupa já está boa. Eu vou agora, para não levantar suspeitas. Tu descansa mais um pouco. Todos acham que tu estás no campo, portanto não tens de ir agora.

Agradeci mais uma vez à Inês. Assim que ela saiu pedi à Ana que me trouxesse a caixinha azul pequena que andava sempre dentro da minha mala. Ela assim fez e quando ma deu abri-a e retirei de lá um comprimido.

- Estás pior? – Perguntou-me.

- Ainda não, mas a qualquer momento sinto que as dores vão começar. E ainda tenho umas horas de trabalho. Por isso mais vale prevenir.

- Eu já sabia que isto não era boa ideia. Se calhar até foi melhor assim.

Olhei-a sem resposta. Não sabia ao certo como é que toda aquela situação tinha sido melhor, mas também não queria pensar nisso.

Quando o jogo acabou voltei ao trabalho na “ Catedral”. O Jorge queria que eu tirasse o resto da noite, mas a verdade é que eu não tinha participado nos exercícios da claque e por isso não estava assim tão cansada. E o dinheiro fazia-me falta. Por outro lado, passei o resto da noite com medo de entrar algum jogador no restaurante que me reconhecesse e fizesse queixa de mim. Mas se se desse o caso, pedia para trocar com alguém da cozinha. Felizmente o único jogador que entrou foi o Ruben e não passou da entrada. Veio dizer qualquer coisa á Inês e saiu logo em seguida.

- Pronto, não te preocupes. – Disse-me a Inês mal o Ruben saiu. – Eles não ligaram nenhuma ao caso.

- Como é que sabes?

- Porque o Ruben não comentou nada comigo. Acredita, se fosse algo “big” ele tinha feito uma das suas piadas.

- Espero que tenhas razão.

O resto da noite decorreu sem problemas. Mal cheguei a casa tomei um banho e fui-me deitar. Geralmente eu e a Ana ficávamos sempre na conversa mais um bocado, antes de adormecer, mas dado os recentes acontecimentos a Ana adivinhou que eu não estava para grandes conversas. Aquela rapariga conhecia-me bem demais, e eu adorava-a por isso. Agora só queria dormir, e dormir, e dormir. E esquecer.

Esquecer o que se passara no fim de semana não era tarefa fácil. Até porque ouviam-se alguns comentários sobre a adepta fanática que invadira os balneários dos jogadores antes do jogo de apresentação. Felizmente, ninguém sabia quem era. Afinal, enquanto empregadas do restaurante ninguém olhava para nós. E, curiosamente a Patrícia também não tinha dito nada. A Inês achava que era porque ela tinha o rabo preso. Se me denunciasse eu podia fazer o mesmo. E a D. Marisa sabia quais as ordens, por isso era fácil provar que tinha sido ela a armar tudo aquilo. Mas eu também não queria saber nada disso. Nunca mais tido contacto nem com uma, nem com outra. E rezava para que nunca mais viesse a ter.

A Inês achou que eu precisava de sair, divertir-me, pensar noutras coisas. Por muito trabalho que tivesse, nessa semana fui obrigada a concordar com ela. Precisava de sair, espairecer a cabeça e as ideias. E além do mais, desde que me mudara para Lisboa ainda não tivera tempo de conhecer a tão famosa noite lisboeta. Então a Inês tratou logo de organizar a nossa saída. Ou não fosse ela quem era.

 

- Não tenho nada que vestir para ir a um sítio desses. Mas porque carga d´água é que a Inês foi escolher este bar? Não havia mais nada em Lisboa?

- Calma Mel. A stressada sou eu, lembraste? Quando a Inês chegar a gente já vê o k faz.

Há horas que não fazia mais nada a não ser mexer e remexer nas roupas do meu armário. Já tinha tirado e experimentado todos os conjuntos possíveis e imaginários e continuava sem saber o que vestir. Quando aceitei sair com elas nunca, em tempo algum, me passou pela cabeça que a Inês fosse escolher precisamente esta noite, neste sítio, com essas pessoas. Mas, conhecendo a Inês com já conhecia, não sei porque me admirara tanto.

- É escusado. Não tenho roupa para isto. O melhor é não ir. – Dizia, enquanto despia mais uma blusa.

Nesse momento tocaram á porta. Era a Inês. Tínhamos combinado de nos encontrar ao princípio da noite no nosso apartamento.

- Meninas, CHEGUEI!

- E ainda bem, que a Mel está prestes a passar-se. Está a querer desistir de sair.

- O QUÊ? Fazes ideia dos favores que tive de pedir para conseguir entrar neste bar? Só se consegue entrar num sitio destes com convite ou a menos que sejas uma figura pública.

- Pois, mas eu queria sair para um lugar normal. Não te pedi que nos enfiasses numa lista onde só consta gente fútil e cheia de manias. Era suposto irmos divertir, não ir para um sítio onde as pessoas nos olham de alto e onde até para limpar o rabo é preciso etiqueta.

- E quem disse que não nos vamos divertir? Gozar com esta gente é sempre uma risota pegada. E acredita que eles fazem cada figurinha…

- Mas eu não tenho nada para vestir.

- Isso nós vamos ver. Anda, mostra-me o que tens.

Entrámos as três no meu quarto e a Inês começou imediatamente a vasculhar tudo o que eu já tinha vasculhado.

- Hum. Só tens isto?

- Tenho mais uns vestidos no roupeiro, mas não me parece que sirvam. São demasiado clássicos. Quero ir à vontade.

- Olha esta saia é bem gira.

-Achas? Não é muito provocante?

- Provocante? Querida se eu tivesse o teu corpinho não vestia nada que fosse abaixo dos joelhos.

- Mas ainda falta a parte de cima.

- Sai um top num instante…

 

Continuámos nestas trivialidades ainda um bom bocado. Tenho que admitir que já sentia falta de só me preocupar com o que vestir. E com a ajuda da Inês, o que demorou horas e me deixou de mau humor, passou num instante e foi bastante divertido.

Por fim estávamos prontas, lindas e maravilhosas. A Ana tinha optado por levar umas calças justas e um top rosa. A Inês levava um vestido sem alças e com um certo brilho. E eu vesti a saia de folhos e um top preto que atava ao pescoço. Resolvemos ir no carro da Inês uma vez que o nosso jipe era duvidoso que pegasse á volta para casa. A noite aguardava-nos.

Ainda não tínhamos chegado á porta do bar, e já avistávamos a fila enorme da entrada.

-Não se preocupem, nós estamos na lista.

A Inês tinha-nos conseguido meter num dos bares mais procurados de Lisboa, só entrava quem constasse da lista. A verdade é que nessa noite um dos sócios vips do SLB fazia anos e a festa era em sua honra. O clube em peso iria lá estar. Eu pessoalmente tinha preferido ir a outro sítio, mas a Ana adorou a ideia e eu fiquei em minoria. Por isso ou aceitava, ou passava mais uma noite sozinha em casa.

Conseguimos entrar mal chegámos. A Inês também conhecia o segurança que estava à porta, e eu perguntei-me se haveria alguém que esta rapariga não conhecesse. Lá dentro a decoração estava fantástica, toda em vários tons de vermelho. Olhei para o fundo da sala onde estava um grande palco, e por cima uma cabine onde os DJ´s metiam as músicas. Quando olhei para dentro da cabine tive de piscar os olhos várias vezes para me certificar que não estava a ter visões. Lá dentro estava o próprio Javi Garcia a meter músicas com vários arranjos próprios. A Inês deve ter visto a minha cara de espanto, pois esclareceu-me de imediato.

- Aposto que não sabias que o Javi é DJ nos seus tempos livres.

“Não fazia a menor ideia”, disse. Aliás não fazia ideia de nada. Toda aquela gente, apesar de serem caras conhecidas, não me diziam absolutamente nada. Mais à frente avistei a Patrícia encostada a um dos muitos balcões do bar. Estava acompanhada da sua trupe. Nunca mais lhe tinha posto a vista em cima, desde o dia do jogo, e sinceramente não me apetecia vê-la. Voltei a cara para outro lado e de repente dei um salto para trás. À minha frente estava a D. Marisa.

- Mel! Não esperava ver você aqui. Que aconteceu no outro dia? Estava esperando ver você com o resto das meninas…

- Olá D. Marisa. Pois, nesse dia houve um emprevisto…

- Com o seu trabalho? Falei que o trabalho ia atrapalhar, mas pensei que fosse bom pra você ter alguma actividade mais de acordo com as suas competências.

Baixei a cabeça. Não tinha coragem de lhe contar o que se tinha passado na realidade.

- Olha Mel, eu não costumo perder meu tempo com as pessoas a menos que eu veja algo nelas. E eu vi algo em você. Mas você tem que me ajudar. Eu vou circular por aí. Daqui a pouco o palco vai abrir e quem quiser pode subir e actuar. Eu espero ver você lá em cima, cantando, dançando, fazendo o pino, o que você quiser. Me surpreenda…

Fiquei parada a ver aquela mulher afastar-se. Ela estava a dar-me uma segunda chance, mas será que eu queria uma segunda chance?

- Olha, olha, quem ela é.- Virei-me e á minha frente estava a última pessoa que eu queria encarar. Patrícia.

- Realmente este bar está a perder qualidades. Já deixam entrar qualquer uma.

Ia responder mas ela desapareceu tão depressa como tinha vindo. Procurei pela  Ana e pela Inês, mas ambas já estavam ao fundo perto de um grupo de jogadores, entre eles o Ruben. Decidi então sentar-me numa mesa discreta. A noite não estava a começar nada bem. Tudo o que eu tinha previsto estava a acontecer. Só me apetecia sair daquele lugar, mas olhando para elas parecia que estavam mesmo a divertir-se. E eu sabia que se me fosse embora iria acabar com a noite delas.

Finalmente o palco “abriu” tal como disse a D. Marisa. As actuações eram quase todas de membros da claque, que cantavam músicas em Karaoke ou hinos benfiquistas com muito ritmo á mistura. A Patrícia estava no seu ambiente. Ela era daquele tipo de raparigas que adorava dar nas vistas. Apesar da voz não ser grande coisa, a maneira de dançar era excelente. No fim da sua actuação ela fixa o seu olhar em mim, e sem que eu estivesse á espera, desafiou-me. Em pleno palco, aquela figura patética termina a sua actuação medíocre e anuncia-me como o próximo número.

Fiquei para morrer. Não tinha nada preparado, e todos se viraram para mim. A Inês e a Ana vieram ter comigo rapidamente.

- Mel, ela chamou-te ao palco. Não vais?

- Eu não sei o que hei-de fazer. Não preparei nada, nem conheço o DJ.

- Faz karaoke. Vais lá acima e escolhes uma música. Vá lá. Está tudo à tua espera.

Levantei-me hesitante e dirigi-me para o palco. Ao subir passei pela víbora que me tinha posto naquela situação, que me disse:

- Vamos ver se és tão boa como dizem. – E sorria triunfante.

Subi ao palco e um rapaz veio entregar-me o microfone ao mesmo tempo que me perguntava que música iria cantar. Olhei em frente e vi toda a gente na expectativa. Não sei como nem porquê mas, de repente perdi todo o medo que sentia. Não era a primeira vez que isso acontecia. Adorava estar em cima do palco, só não gostava de ser o centro das atenções. Mas isso era contradizer-me. Peguei no microfone e perguntei se tinham alguma música da Rihana. O rapaz acenou-me que sim e mandei seguir. No momento em que a música “rockstar 101” começou a tocar abstraí-me completamente de tudo e soltei-me completamente. Dei por mim a cantar quase sem olhar para o ecrã, pois já havia cantado esta música outras vezes, e a improvisar uma coreografia que pôs toda a gente a dançar. Não sei como mas o palco á minha frente encheu de gente a cantar comigo e a dançar. No fim tive direito a ovações de pé, e a Ana e a Inês pulavam de contentamento. Ao sair do palco dirigi-me à Patrícia. O seu sorriso tinha desaparecido e era eu que sorria agora. Parei diante dela, entreguei-lhe o microfone e disse:

- Isto foi suficientemente bom para ti?

De seguida procurei pela D. Marisa. Não precisei procurar muito, pois ela veio ter comigo. Mas desta vez fui eu que falei.

- As minhas competências são superiores a pular e gritar num grupo de miúdas mimadas. Não gosto de ultimatos. È isto que eu sou e se servir, óptimo, eu estou aberta a novas experiências. Se não, não sou eu perco.

- Passa no meu escritório amanhã. Precisamos tirar as medidas…

Não sei bem o que aconteceu, mas acho que acabara de passar no teste da tão influente senhora. Nesse momento elas vieram ter comigo ainda em estado de euforia.

- Meu Deus! Não fazia ideia…

- Eu Fazia. - Respondeu a Ana.

- Fazes ideia do que acabaste de fazer? Assim que começaste a cantar toda a gente se virou para ti. Que grande lição para a Pat.

- Inês, se não te importas eu vou-me embora.

- Mas agora que isto está a aquecer?

- Vocês fiquem. Eu já fiz o que tinha a fazer.

- Eu vou contigo. – Disse a Ana.

- Mas eu é que trouxe o carro…

- Não te preocupes. Nós vamos de táxi.

- Nem pensar. Olhem levem o meu carro. Eu vou de boleia com o Ruben.

Nessa noite adormeci com um largo sorriso nos lábios. Não fora só pela reacção das pessoas, mas também pela cara da Patrícia. Muito pior do que a que eu tinha no balneário, quando os jogadores começaram a chegar. Nunca me considerei uma pessoa vingativa, mas admito que me senti bem. E o ditado fala a verdade. A vingança é um prato que se serve frio…

publicado por acordosteusolhos às 19:45

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D