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Dez 12

- Não! Não… Não! Não… N-não! – A única palavra que me vinha á cabeça era… - Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não… Não!

- Mel! – O Dr. Barros tentava fazer-me voltar á realidade, mas o choque inicial fora tão grande que a negação parecia ser o meu único escape.

- Não!...

- Mel! Sente-se e vamos conversar, com calma.

Sem me aperceber começara a andar às voltas por toda a sala do Dr. Barros, ainda em negação, e a tentar perceber como fora uma coisa destas acontecer.

- As análises não estão boas… Enganaram-se! Não são minhas! Não podem ser minhas… - Disse desesperada e deixando-me cair finalmente na cadeira.

- As análises não estão enganadas, mas podemos repetir se quiser. Mas antes, pense comigo. A Mel é uma pessoa inteligente. Acha mesmo que iríamos cometer tal erro?

- Não! Mas, pode acontecer…

- Há quanto tempo tem esses enjoos?

- Não são bem enjoos, é mais uma má disposição. Às vezes…

- Eu sei que não quer reconhecer, mas é o que aí está.

- Não, eu cuido-me sempre…

- Tem a certeza?

- Sim! Quer dizer… Houve uma vez que… Mas foi só uma vez.

- É quanto baste.

- Não! Não! Como…?

- Então, Mel? Não quer agora que eu lhe explique como é que se faz. Você há-de saber melhor do que eu como é que engravidou.

Cruzei os braços sobre a mesa e encostei a cabeça aos mesmos. “ E agora? O que é que eu faço? O que é que eu vou dizer ao David?”. Percorri todos os momentos em que estivera com o David na esperança de encontrar uma resposta que mostrasse que o Dr. Barros estava enganado, mas apenas consegui provar que nem sempre tivéramos tanto cuidado…

- Mel! A sua situação neste momento é muito delicada. Uma gravidez numa altura destas tem de ser muito bem avaliada. Mas eu estou a ver que neste momento não está com cabeça para pensar muito nisso. Aconselho-a a ir para casa descansar. Eu vou-lhe passar umas vitaminas para tomar que não afectam em nada o seu problema de saúde. Fale com o pai da criança e depois venha falar comigo. O mais breve possível. A Mel sabe porquê.

Abanei a cabeça num gesto afirmativo. As implicâncias de uma coisa destas dada a minha situação clínica, podia ser desastrosa. Saí do consultório do Dr. Barros a tremer. O meu cérebro tentava processar ainda toda a informação. “ Como é que tu foste tão estúpida…”. O telemóvel tocou no instante em que entrei no elevador. Era a Ana. Recusei a chamada e esperei até chegar á rua. Depois liguei-lhe de volta.

- E então, como é que estás? O que disse o médico?

- Estou… - Nem sabia o que dizer. Não me sentia pior, mas depois de uma “bomba” destas me cair em cima também não me sentia melhor. - Olha, eu logo falo contigo. Agora não dá.

Desliguei antes que a Ana me fizesse mais perguntas ou notasse algo na minha voz que a fizesse ver o quão perturbada eu me encontrava. Decidi apanhar um táxi do hospital e regressar a casa. Não estava com cabeça para mais nada. Quando cheguei, segui o conselho do Dr. Barros e deitei-me. Mas não consegui adormecer. As palavras do que me dissera repetiam-se constantemente e eu não tinha forma de as calar. Senti o meu corpo todo a tremelicar. Como é que eu ia contar uma coisa destas ao David? E se ele pensasse que a culpa era minha?

Agarrei na almofada e tapei a cabeça com a mesma, na esperança que fosse capaz de calar todas as vozes que soavam e me transtornavam cada vez mais. Inútil! Em vez disso, os pensamentos pioraram, tornaram-se mais altos até não conseguir suportá-los mais. Levantei-me de rompante e procurei pelos sapatos. Calcei-os á pressa, olhei para o relógio em cima da mesinha do meu quarto, ajeitei o cabelo com as mãos, peguei na mala e saí disparada para a rua. Tinha de provar a todo o custo que desta vez o médico se enganara. Eu não estava grávida! Com um passo mais apressado do que o normal, dirigi-me á farmácia mais perto de casa e entrei. Estavam lá três ou quatro pessoas e mantive-me a um canto, á espera da minha vez. Enquanto esperava, dispersei o olhar pelo interior e deparei-me com uma secção de produtos para bebés. Não pude deixar de sentir um aperto no coração. Naquele momento, uma vida pequena e frágil crescia dentro de mim, dependia do ar que eu respirava e dois corações uniam-se num único batimento. Sem que me apercebesse, levei a mão á barriga em forma de protecção e mantive-a lá. Nunca me imaginara numa situação tal. Sim, a dado momento acho que iria querer ter filhos, constituir família. Mas nunca pensara bem no assunto, em parte devido á minha situação clínica. Sabia bem qual o significado das palavras do Dr. Barros. Não era fácil conviver com algo assim. A qualquer momento eu podia ir parar a uma cama de hospital, as crises sucediam-se cada vez com mais frequência. Não me tinha sido ainda permitido pensar em ter filhos, não na minha condição. E mesmo que nada disso se passasse comigo, havia ainda a questão dos meus estudos, o meu trabalho que estava ainda no início… e a carreira do David. Nós tínhamos reatado há muito pouco tempo. Tal assunto nunca tinha surgido, nem de brincadeira. Fechei os olhos e tentei pensar em coisas positivas. “O teste! O teste de gravidez vai provar que os resultados estavam errados. As análises não eram minhas! Eu não estou grávida! Eu não estou…”

- Seguinte, por favor!

A voz da farmacêutica despertou-me. Olhei em redor, chegara a minha vez. Aproximei-me timidamente do balcão e pedi, numa voz trémula e sumida:

- Boa tarde! Eu queria um teste de gravidez, se faz favor!

- Desculpe? – Voltou a perguntar. A frase saíra-me num tom tão baixo que mal se ouvira.

- Um teste… de gravidez.

- Ah! Um teste de gravidez. Falou tão baixo á pouco que não a percebi.

Retribui com um sorriso amarelo. Era escusado ter repetido o pedido, pensei.

- Aqui tem! – Disse, estendendo-me uma caixa pequena em tons rosa e roxo. Parei uns segundos a olhar para ela. – Mais alguma coisa?

- Não! É só!

Saí da farmácia como quem sai de um assalto a um banco. Olhava com desconfiança para todos os que passavam por mim. “ Que estupidez, Mel! E então? Compraste um teste de gravidez! E o que é que isso tem? Hoje em dia é a coisa mais normal.” Respirei fundo e voltei a fazer o caminho que fizera, em sentido contrário mas no mesmo passo apressado.

Mal entrei em casa, joguei a mala para o chão e corri para a casa de banho. Tranquei a porta, abri o pacotinho e li atentamente as instruções. “ Esperar cinco minutos até o resultado aparecer”, dizia quase no fim. “ cinco minutos”, pensei, “Não podiam ser antes 5 segundos?”. Fiz o que tinha de fazer e coloquei o teste em cima da bancada. “ Agora é só esperar”. Foram provavelmente os cinco minutos mais longos da minha vida. De vez em quando era assaltada por uma vontade quase incontrolável de espreitar, mas tinha medo do que iria ver. Olhei as horas no telemóvel e constatei que finalmente o tempo já tinha passado. A medo, peguei novamente no teste e confirmei o resultado: Positivo!

Deixei-me estar muito quieta a fixar os dois tracinhos avermelhados que apareceram no mostrador. Era escusado. Por muitos testes que comprasse, por muito que o quisesse negar, já não havia nada a fazer. Sai da casa de banho em direcção á sala, sem me aperceber que levava ainda o teste na minha mão. Depositara todas as minhas esperanças naquele pequeno pauzinho, e todas elas caíram por terra. Nesse instante a porta abriu-se e a Ana entrou seguida pela Inês. Eu virei-me num impulso, alertada pelo barulho, mas a minha cabeça estava bem longe dali.

- Ah, cá estás tu. Mel, o que é isso aí na tua mão?

A Ana olhava-me com ar interrogativo. Eu apercebi-me do que ainda carregava e instintivamente levei o braço para trás das costas.

- Nada! – Respondi de forma nada convincente.

- Isso é… - A Inês aproximara-se mais… - Isso é um teste de gravidez?

Vi a Ana franzir a testa enquanto o queixo lhe caia e ela exclamava:

- Mel!?

  •  

- E agora, o que é que eu faço?

Ana e Inês mantinham-se em silêncio á minha frente. Foi a Inês quem primeiro se levantou e veio ter comigo.

- Calma! A primeira coisa a fazer é contares ao David. Eu tenho a certeza que ele vai entender. E além disso, não fizeste isso sozinha. Ele tem metade da responsabilidade do que aconteceu.

- Eu sei… Mas como é que eu lhe digo que “isto” aconteceu? Nós sempre tomamos cuidado, nunca…

- Nunca? Não me parece que tenha sido bem assim. Em algum momento baixaram a guarda.

- Tens ideia de quando aconteceu? – A Ana perguntou.

- Acho que sim… Sim. Quando ele chegou de Itália e veio ter comigo. Eu não estava á espera, e ele veio directamente para cá… Nós estávamos a ponto de reatarmos e acho que nenhum pensou… Não sei…

- Ah, pois... Estiveram tanto tempo separados que acabou por dar nisso.

- Inês! – Ana chamou-lhe a atenção. – Não é hora para isso agora.

- Eu sei… Desculpa.

Eu continuava sentada no sofá, ainda em choque pelo que me estava a acontecer.

- Olha, eu tenho a certeza de que o David vai apoiar-te. Ele é uma pessoa ás direitas e gosta de ti. Bastante… E depois, um filho não é assim tão mau. Já imaginaste? Um rapazinho a correr pela sala de caracolinhos dourados como os do pai? O máximo…

Levantei-me num salto.

- Não! Não! Não e não! Recuso-me a estar nesta situação.

- Ah, Mel… Já está feito… Isso não é uma encomenda que possas recusar porque não gostaste. A menos que estejas a pensar…

Parei no meio da sala e encarei-as directamente. Pôr um fim á causa da minha aflição era coisa que ainda não me tinha passado pela cabeça. Por muito desesperada que estivesse.

- Não! – Gritei! – É claro que não estou a pensar nisso. Mas a verdade é que também não sei se posso levar isto adiante. A minha saúde...

Rodopiei nos calcanhares e deixei-me cair novamente no sofá. Fechei os olhos e soprei.

- Sinto-me tão perdida.

Ana e Inês abraçaram-me.

- Nós sabemos, amiga! Mas nós estamos aqui. E não vamos a lado nenhum até que encontres o caminho de volta.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 03:01

comentários:
fabuloso...

tou super curiosa para ver o proximo... quero mais...

continua...
branquinhosdoscachosdourados a 12 de Dezembro de 2012 às 15:53

Amei... ja tinha saudades dos teus capitulos.
continua rapido rapido :)
Sofia a 13 de Dezembro de 2012 às 19:15

adorei... estou ansiosa pelo o proximo capitulo.
espero que no final da fic, metas a Mel e o David, e o bebe juntos. xD
nao os separes :)

continua...
Cristina a 13 de Dezembro de 2012 às 19:20

Ai!
Que saudades!
Continua que isto está mesmo mesmo mesmo muito bom!
Beijinhos
Mary a 12 de Fevereiro de 2013 às 02:46

OI, eu quero muito ler a fan fic. Mas não consigo achar o capítulo 1 para começar :( poderia mandar para mim, por favor?
Camila a 30 de Junho de 2014 às 02:48

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D