09
Dez 12

Abril chegou num piscar de olhos. Andara tão ocupada e feliz durante todo o resto do mês de Março que nem dera pelo tempo passar. No meio de tudo isto só uma coisa me aborrecia: O mediatismo que ganhara depois que assumira a minha relação com o David. Os colegas da Faculdade perguntavam-me coisas sobre ele. Onde quer que fosse ouvia pelo menos uma pessoa comentar “ Olha, aquela é a namorada do David Luiz!” No estádio passei a assistir aos jogos nas bancadas destinadas aos Vips e familiares, coisa que não me agradava muito. Gostava de comemorar os golos á minha maneira e lá nunca me sentia á vontade para o fazer. Preferia mil vezes juntar-me á algazarra dos comuns mortais nos piores lugares dos sectores. Mas o pior de tudo era quando dava com uma foto minha numa dessas revistas cor-de-rosa, tirada por algum fotógrafo armado em paparazzi, ou pela câmara do telemóvel de alguém que simplesmente me viu passar. Nestas situações só a Inês delirava. Costumava comprar toda e qualquer revista ou jornal onde eu aparecesse. Mesmo que a cara mal se reconhecesse e a qualidade de imagem fosse péssima. Certa vez julguei que lhe fosse dar um ataque de coração quando ela própria se viu estampada numa foto ao meu lado, à saída do Estádio da Luz. Apressou-se a comprar duas revistas, recortou o artigo das duas e emoldurou-os. Quando cheguei a casa tinha uma moldura nova pendurada na sala, sendo que a outra ficara pendurada na sala dela. Aí, quem ia tendo um ataque era eu. Já o David ria de tudo isto, e às vezes até a encorajava a fazer algo mais estapafúrdio. Cheguei a duvidar da sanidade dos dois… Mas é claro que também me divertia. E depois, todos os momentos que passava com ele compensavam em dobro.

E assim foram os dias passando, e eu não dei conta…

- Se calhar é melhor fazer mais pipocas. – Inês olhava indecisa para um pacote de milho que tinha nas suas mãos.

- Mais pipocas? Mas já encheste três tigelas grandes…

- Sim, mas somos muitos e  só eu como uma dessas tigelas.

- Ok! Faz como quiseres, mas acho que já não temos mais nada onde as meter.

- Porque é que não deixas para fazer depois?

- Depois quando? Quando estiver a dar o programa e eu ter de interromper? E depois perco algum grande plano da Mel.

- Inês, é por isso que nós temos aquilo a gravar. – A voz da Ana soou num tom irónico.

- Mas não é a mesma coisa.

- Como é que não é a mesma coisa se está gravado?

- Ora… porque não é! Assistir a gravações é o mesmo que comida aquecida de há um dia. Não tem o mesmo sabor.

Ana e eu entreolhámo-nos atarantadas. A Inês sempre arranjava maneira de nos confundir.

“Trim! Trim!”

- A campainha! Deve ser o Bruno.

Era a estreia em televisão do programa no qual eu participava como uma das vozes de coro, apresentado pelo João Manzarra. Eu, a Ana e a Inês tínhamos convidado o David, o Ruben, o Gustavo e o Bruno para jantarem em nossa casa, e assistirmos depois todos juntos. A Ana e a Inês encarregaram-se da comida, ficando uma responsável pelo jantar enquanto a outra tratava dos aperitivos, sobremesas e afins para mais tarde. As pipocas eram para mais tarde. Eu tratei de arrumar a casa e pôr a mesa. O Bruno, que acabara de chegar, traria as bebidas.

- Por favor, diz-me que não te esqueceste.

- Mas tu pensas que eu sou o quê?

- Queres mesmo que te responda?

O Bruno fez-lhe uma careta.

- Trouxe vinho, cervejas, espumante…

- Espumante? – Interrompi.

- A Inês disse-me para trazer.

Virei-me na direcção desta franzindo o sobrolho.

- Espumante?

Inês encolheu os ombros.

- Então, temos de comemorar a tua primeira aparição na TV.

- Mas esta não é a minha primeira aparição na TV. – Disse.

- Ai não? – Perguntou o Bruno confuso.

- Não! – Respondi. – A primeira foi há uns anos atrás, num outro programa em que eu participei.

- Ora, mas esse não conta.

Suspirei. Com a Inês não valia a pena discutir. Ela ganhava sempre.

- Estás bem Mel?

- Hum-hum! – Disse, encostando-me à bancada ao sentir uma ligeira tontura. – Estou só um pouco cansada e maldisposta.

- Vou abrir a janela para entrar o ar. – Disse a Ana. – Aqui dentro está muito abafado.

- E eu vou tomar um duche rápido e trocar de roupa. O David e os outros devem estar por aí a chegar.

  •  

Deixei-me ficar ainda alguns minutos debaixo do chuveiro. A água quente a cair-me na pele sempre me relaxava. Sentia-me bem, despreocupada. Parecia que as coisas estavam finalmente a entrar nos eixos. Sem me aperceber deixei-me invadir por lembranças de como era a minha vida há um ano atrás, e de como as coisas mudaram desde que chegara a Lisboa. Acontecera tudo tão rápido, e no entanto todas as memórias anteriores a isso pareciam-me tão distantes… como se tivesse vivido numa outra vida. Apesar de tudo o que tinha acontecido já não me imaginava sem toda aquela agitação que tomara de assalto a minha nova vida. Não me imaginava sem a Ana a viver debaixo do mesmo tecto. Sem a Inês e a sua grande boca e imenso coração. Sem a Faculdade e os ensaios. E principalmente, já não me imaginava sem o David. Ele era parte de mim, como se estivesse impresso em todo o meu ser. Era impossível separar-me dele. Mesmo que um dia nos voltássemos a afastar, eu sabia que ele sempre ficaria em mim, marcado, tatuado no meu coração e na minha alma.

- Mel?

A voz da Ana despertou-me.

- Sim!

- O David já chegou.

- Eu vou já. Estou a acabar de me vestir.

Despachei-me o mais depressa que pude e fui ter com o resto do pessoal. Andavam todos num entra e sai da cozinha, carregando qualquer coisa e tropeçando uns nos outros. “ Estamos a precisar de mudar para uma casa maior!”, pensei.

- Ah! Aí está a estrela da noite! – Disse o Ruben, estendendo-me uma travessa com carne assada. – Toma! Não quero que te acostumes á boa vida.

Fiz-lhe uma careta. David veio por trás e tirou-me a travessa da mão.

- Não senhor! Hoje essa garota aqui não vai fazer mais nada a não ser se divertir, e levar muitos beijos do seu namorado.

Todos riram e alguns até assobiaram. Eu devo ter corado até á ponta dos cabelos.

- Isso, habitua-a mal. Quando deres por isso estás na cozinha a fazer o jantar. – Brincou o Ruben.

- Tá com ciúmes, tá nenem?

- Ai, mas isso sem duvida que vai acontecer. A Mel não gosta de cozinhar. Só vejo duas soluções. Ou contratam uma cozinheira ou passam a ir jantar fora todos os dias. – A Inês completou.

Quando finalmente nos sentámos á mesa e eu pude ver tantas caras sorridentes, agradeci por ter tanta gente amiga e amada á minha volta.

- Mel?

- Hum?

- Você tá bem? Está me parecendo um pouco pálida. Mal tocou na comida.

- Eu estou bem. Só estou um bocado enjoada e não me apetece comer. Acho que foi de toda a tarde só ter visto comida.

- Tem certeza que é só isso?

- Tenho!

- Não te preocupes, David. Assim que a sobremesa vier passa-lhe logo o enjoo.

Esbocei um sorriso amarelo. A verdade é que tinha passado todo o dia com o estômago embrulhado e com um ligeiro mau-estar. Mas optei por não dizer nada para não preocupar ninguém. E também não queria estragar o jantar. Aquela era a primeira vez que estávamos todos juntos em convívio. E estava a ser um serão bastante agradável e animado.

Após o jantar, resolvi eu lavar a loiça para que ninguém perdesse o inicio do programa. O David protestou mas eu mostrei-me irredutível, e ele não teve outro remédio senão conformar-se e oferecer-se para me ajudar. Da cozinha ouvíamos as conversas e os risos que vinham da sala e aproveitámos também para namorar um bocado. É claro que várias vezes fomos apanhados pela Inês, que nessa noite de tudo fazia uma desculpa para ir á cozinha. O David ficava sempre um bocado atrapalhado. Acho que ainda não recuperara da cena do banho. A Inês também não lhe dava uma folga. Eu limitava-me a franzir a testa e a disfarçar um sorriso. Conhecia a Inês bem demais e sabia que quanto maior importância desse ao caso, pior ela iria fazer.

- Vai começar! – O Bruno gritou da sala.

Pousei o pano da loiça, Virei-me de frente para o David que até então havia estado abraçado a mim por trás, beijando-me o pescoço e dificultando-me o trabalho, subi o máximo que pude em bicos dos pés para ficar da sua altura, beijei-o e agarrando-lhe nos braços arrastei-o para a sala.

- Essa foi a lavagem de loiça mais longa de toda a história.

David e eu trocámos um olhar de cumplicidade entre nós e sentámo-nos abraçados.

  •  

Ao final da noite, David tentara convencer-me a passar a noite na sua casa, mas recusei. Estava a pouco mais de um mês do inicio dos exames e precisava começar a estudar. Dentro em breve iria começar também novo trabalho para a produtora e isso limitava-me muito o tempo de estudo. Logo, tinha de aproveitar ao máximo todos os minutos, e por muito tentadora que a sua proposta me parecesse, tive de recusar. Em vez disso pensei em ter uma boa noite de sono que me fizesse recuperar algumas energias. David saiu um pouco contrariado, mas entendeu porque o fiz. Ele também era um profissional e sabia que para tudo havia um tempo certo.

No dia seguinte, e ao contrário do que tinha pensado, acordei com mais sono ainda e cansada. O estômago continuava embrulhado e uma sensação de sonolência minava-me completamente os sentidos. Só a muito custo consegui abrir os olhos e convencer-me de que tinha de me levantar. Quando o fiz, a Ana já estava levantada e numa roda-viva pela casa.

- Bom dia! – Disse com um bocejo.

- Credo! Que cara de sono é essa? Não dormiste?

- Dormi, mas não sei porquê dormia ainda mais.

- Ai, também eu. Deixei-me dormir e já vou apanhar transito até ao trabalho. O David vem-te buscar? Sempre posso levar o Jipe?

- Sim, podes! Ele deixa-me na faculdade. Vais ter comigo ao almoço?

- Sim. Eu dou-te um toque quando chegar e almoçamos juntas. Tenho de ir. Até logo.

A Ana saiu a correr pela porta e eu dirigi-me para a cozinha no mesmo passo pesaroso com que me levantara. O cheiro a café intensificou-se mal meti um pé dentro da mesma, e tive de conter um vómito tapando o nariz e a boca com as mãos. Dei meia-volta e sai, desta vez muito mais rápido do que quando entrara.

- Que horror! – Disse para mim mesma.

Resolvi não tomar o pequeno-almoço, não fosse ficar ainda mais maldisposta. Fui directamente para a casa de banho lavar a cara para ver se acordava de uma vez. O David devia estar a chegar e se queria estar pronta teria de apressar o ritmo. Vesti qualquer coisa á pressa e apanhei o cabelo para não demorar muito mais tempo. A seguir arrumei o que precisava levar para a faculdade e desci para baixo na altura exacta em que chegava a minha boleia.

- Bom dia! – Disse com um sorriso. David não respondeu. Em vez disso deu-me um beijo de tirar o fôlego e arrancou.

Na primeira aula que tive mal consegui manter os olhos abertos. De dois em dois minutos estava a bocejar e comecei a sentir-me um bocado mal, visto que o professor começara a reparar.

- Foi boa a noite de ontem, Mel? – Perguntou sarcasticamente.

- Desculpe?

- Se calhar é melhor ir um pouco lá fora apanhar ar. Volte quando estiver acordada.

Levantei-me mantendo os olhos no chão, e saí da sala em direcção á rua. As manhãs ainda estavam frescas e corria uma brisa que me pareceu bastante agradável. Encostei-me á parede, fechei os olhos e inspirei fundo. O Sol a bater-me na cara fez-me ter consciência de que a Primavera havia chegado, apesar do frio que ainda se fazia sentir e dos dias chuvosos teimarem em aparecer. De repente senti qualquer coisa a vibrar no bolso de trás. Tirei o telemóvel e vi que tinha nova mensagem. Era do Jaime. Senti algumas das minhas forças abandonarem-me quando vi o seu nome. Desde a ultima vez que faláramos no hospital nunca mais soubera nada dele. Fiquei na dúvida se havia de ler ou não e resolvi apagar. Fosse o que fosse preferia não saber. Voltei a guardar o telemóvel e saí em direcção á aula.

  •  

A Ana já me esperava na entrada quando saí. A última aula da manhã era prática e atrasara-me um bocado. Como a hora do almoço era apertada, decidimos comer na cantina da faculdade.

- … e quando o Jorge chegou estavam os dois quase pegados. Eu sei que ele é muito boa pessoa, mas não sei como é que ele aguenta aqueles dois. A Inês ás vezes… estás-me a ouvir?

- Diz? Desculpa!

- E eu estou a falar para o boneco. O que é que se passa? Ainda mal tocaste na comida. Já ontem também não comeste nada ao jantar.

- Não sei. Não tenho andado muito bem-disposta.

- Sentes-te pior?

- Não… O Jaime mandou-me uma mensagem hoje.

- O Jaime? O que é que esse quer?

- Não sei! Não li a mensagem, apaguei-a!

- Fizeste bem. Quanto menos souberes, melhor. Ele que se convença de que já não há nada entre vocês.

- Sim! – Disse levantando-me da mesa, mas nesse momento senti uma tontura tão forte que tive de me sentar logo de seguida.

- Mel? Que foi isso?

- Uma tontura, mas já passou.

-Olha bem para ti. Estás pálida! Mel, há quanto tempo andas assim?

- Eu estou bem, a sério.

- Não, não estás! Estás prestes a ter outra crise que te leve à cama, ou pior.

Ana tinha razão. Há já alguns dias que me sentia estranha e sabia bem o que isso significava, mesmo que não o quisesse admitir.

- Não era melhor falares com o Dr. Barros? Fazeres umas análises, pelo menos. Ouve, este último mês foi uma coisa atrás da outra. Tu não paras. Eu levo-te até ao “Curry Cabral”, falas com o médico, e logo se vê o que ele diz. Sabes que se deixares adiantar vai ser pior.

Fui obrigada a concordar. Tinha demasiados projectos em mão para me permitir ter uma recaída neste momento. Assim concordei que a Ana me levasse até ao hospital. O Dr. Barros ainda andava pela enfermaria quando cheguei. Assim que o informaram de que eu lá estava e a razão, pediu de imediato umas análises ao sangue e que eu aguardasse até ele acabar a ronda para falarmos. Eu assim fiz e felizmente não precisei esperar muito. No entanto, mal entrei na sua sala reparei no ar sério que tinha. “ Não acredito que os resultados estão assim tão maus.”, pensei.

- Sente-se Mel! – Disse no mesmo tom grave. – estive agora mesmo a ver as suas análises.

- E…? – perguntei a medo.

- E… Temos um problema.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 00:21

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D