28
Ago 12

 

Inês mantinha-se de boca aberta á minha frente, o garfo onde enrolara a massa chinesa pendia da sua mão. Esta tinha sido a sua postura durante quase toda a nossa conversa.

- … e agora estão a investigá-lo. Imagina a minha cara quando o Dr. Barros me contou isto.

- Devia ser um pouco parecida com a minha neste momento, não?

- Sim! – Disse, olhando-a directamente. – Acho que era tal e qual.

- Hum...! – Inês levou finalmente o garfo á boca.

- Durante todo este tempo eu andava a sair com um…

- Psicopata?

- Não. Quer dizer, não sei que nome lhe dão…

- Psicopata! – Repetiu a Inês. – Uma pessoa que sofre de depressões, tem dupla ou tripla personalidade, mata uma paciente propositadamente porque sabe que a namorada teve outros namorados antes dele, ameaça as pessoas, é agressivo… Que nome é que tu dás a uma pessoa assim?

- Mas o Jaime … Ele sempre foi tão educado e cavalheiro… excepto estas últimas vezes.

- Não vale a pena pensares mais nisso.

- Inês, eu namorei com este tipo quase três meses.

- Bom, pensa assim: Vocês saiam juntos, davam uns beijinhos e tal mas, nunca passaram disso. Tecnicamente não pode ser considerado um namoro.

- Queres parar de fazer brincadeiras?

- Mel, esquece! Já passou. Foste lá e acabaste tudo, não foi? Então esquece. Concentra-te em coisas mais importantes, como o teu futuro daqui para a frente… com um certo rapaz de cabelos aos caracóis.

Fiz-lhe uma careta.

- Já conversaram?

- Ainda não. Ele vai amanhã para a Itália e eu achei melhor falarmos depois.

- Oh, Mel! És sempre a mesma. O que foi desta vez? Não se tinham já entendido?

- Mais ou menos.

- Mais ou menos? Ele passou cá a noite e tu dizes-me “mais ou menos”?

- Ele passou cá a noite porque estava com a mão magoada e era tarde… Primeiro eu fiquei de resolver esta história com o Jaime. Depois, quando ele voltar, nós logo vemos.

- Ok. Tu é que sabes. Mas queres um conselho? Não penses demais. Tu gostas dele, ele gosta de ti. Vocês foram feitos um para o outro. Aproveita. Nem toda a gente tem segundas oportunidades, muito menos quando envolve homens como o David.

  •  

 

David esteve fora três dias, mas para mim pareceram mais três meses. Ao fim de 24 horas já estava mais do que arrependida de não ter estado com ele na véspera da partida. Infelizmente, a chegada também não foi fácil para a equipa. A derrota em Itália eliminou o Benfica da Champions e nestes casos o ambiente era sempre pesado.

O jogo começara já tarde, e apesar de terem saído assim que este terminara, a chegada a Lisboa estava prevista já de madrugada. Não sabia portanto quando o iria voltar a ver. Pensei ligar-lhe, mas não sabia a hora exacta a que aterrava. E depois, devia estar cansado e desiludido. O melhor seria esperar até ao dia seguinte… Mas é claro que não iria conseguir adormecer tão facilmente. Resolvi então adiantar alguns trabalhos que tinha para entregar. Mantinha-me distraída e punha em dia a parte teórica da faculdade que, entre as práticas e o meu trabalho, ficava sempre para trás. Acendi a lareira da sala e em meia hora tinha todos os livros e folhas espalhados pelo chão. Mantive a televisão ligada para “companhia”, mas sem som. De vez em quando, olhava para o telemóvel e via as horas. Pensava nele e onde estaria… Depois voltava aos estudos. Em cima da mesa, um pacote de bolachas que eu “assaltava” de tempos a tempos. E, sem dar por isso, deixei-me dormir em cima da carpete. Á minha volta parecia que um furacão tinha passado e deixado tudo de pernas para o ar…

Acordei com o telemóvel a tocar. Era a Inês. Atendi com a voz ensonada.

- Inês… passou-se alguma coisa?

-“ Não. É só para te dizer que já chegaram.”

- Quem? – Perguntei meio a dormir.

- “Quem é que havia de ser, rapariga… A equipa acabou de aterrar.”

- E como é que tu sabes isso? – Disse, levantando-me e tentado pôr o cérebro a funcionar.

-“ Porque acabei de ver as notícias.”

- E então?

- “ E então? Então que o David já cá está. Mas tu estás a dormir ou quê?”

- Por acaso…

- “ Oh, rapariga! Acorda de uma vez. Ele já chegou.”

- Sim, já sei… E deve estar cansado e a precisar de descanso.

- “ Ai! Estás-me a dar nervos… Queres que eu vá aí?”

- Vens aqui fazer o quê?

- “Sei lá. Abanar-te para ver se acordas de uma vez. Posso ir buscar-te e levar-te a casa dele.”

- Mas nem pensar. Deixa-te de ideias, Inês. Está tarde. É hora de dormir que amanhã é dia de levantar cedo. Beijo!

- “ Mas, Mel…”

Desliguei antes que a Inês começasse com as suas teorias. “ É bem capaz de me aparecer aí á porta e arrastar-me daqui, só para ir ter com ele…”. E não é que eu não quisesse ir. Mas não ia forçar nada. Aproveitei antes que já estava acordada e comecei a organizar os papéis espalhados pela sala. A Ana chegava no dia seguinte e era capaz de ter um ataque se desse com a casa naquele estado.

“Trimmm – Trimmm!”

Fui interrompida pelo som da campainha. “ Não acredito que aquela maluca veio até cá!”, pensei. Pousei um volume enorme de livros em cima da mesa e apressei-me a abrir a porta. Mas não era quem eu esperava. Em vez da Inês, foi com o David que encarei, e o sermão que lhe tinha preparado ficou pendente no ar.

- Falei que eu vinha encontrar você! – Falou com a voz mais suave do mundo e um sorriso nos lábios. Eu continuei imóvel e calada. Ele esperou alguns segundos e entrou, fechando a porta atrás de si. Eu dei dois passos para trás e deixei-me ficar, novamente quieta e ainda sem acreditar que ele estava mesmo á minha frente. Pensara que ele iria chegar cansado demais para vir aquela hora ter comigo. Pensara que só o iria ver de manhã. Mas ele viera! Estava ali, naquele momento. Nem a derrota e o facto de provavelmente estar aborrecido o haviam feito desistir. E eu fui invadida por uma felicidade imensurável.

David olhava-me directamente nos olhos. Havia muito a dizer, a esclarecer. Mas era como se nada tivesse importância. Com a mão direita acariciou-me a face e eu retribui aconchegando-me no seu peito. Cheirava tão bem… Abracei-o pela cintura e deixei-me ficar. Muito lentamente, ele começou a tentar despir-me o casaco que eu tinha vestido, ao mesmo tempo que a sua boca procurava a minha. No momento em que eu esperava sentir o toque dos seus lábios, desviou-os. Um arrepio de frio subiu-me pela espinha quando a camisola de alças abandonou o meu tronco, deixando-me descoberta para ele. David continuou a tirar, peça por peça, o que me cobria. Levou o seu tempo. Sentia os seus olhos postos em mim, a percorrerem cada canto do meu corpo como se procurassem algo. As suas mãos deixavam um rasto de fogo por onde passavam. Fechei os olhos e tentei abstrair-me de tudo o resto. Não sei como aguentara ficar tanto tempo sem sentir o seu toque, o seu cheiro… “Se calhar ainda estou a dormir e isto é só um sonho.” Mas os beijos de David despertaram-me, trouxeram-me de volta á vida, apurando todos os meus sentidos e tornando-me uma das pessoas mais felizes do Mundo nessa noite.

  •  

Deitada ao lado de David, de frente para ele, sorria inconscientemente. O sol já nascera há horas, e tinha perdido as aulas da faculdade, mas não estava minimamente preocupada. Podia começar a 3ª Guerra Mundial que eu continuaria calma e serena ao lado do homem que amava. Ambos tínhamos dormido muito pouco essa noite, o David tinha treino só á tarde, por isso todos os segundos contavam.

- Pensei em você o tempo todo.

- Lamento que tenham perdido.

- Nem me fala. Meu único consolo foi saber que você tava aqui me esperando.

- Estava… - Suspirei! David notou que algo me perturbava e aproximando-se mais perto de mim, perguntou:

- Conheço essa cara. O que foi dessa vez?

- Sabes, isto tudo… o que eu estou a sentir… Tenho medo de acabar… como da primeira vez.

David sorriu.

- Eu sei. Mas desta vez é diferente.

- Diferente como?

- Eu não vou deixar ninguém atrapalhar nosso namoro.

- Namoro? – Perguntei um pouco admirada. – Então já namoramos?

- E o que foi que a gente ficou fazendo a noite toda?

Corei. David olhava-me com um sorriso matreiro. Baixei o olhar, meio envergonhada.

- Ei! Mas tem uma condição.

Franzi o sobrolho desconfiada. David continuou.

- Nada de namorar escondido. A gente tentou isso uma vez, não deu certo.

- Mas, David…

- Eu não tou dizendo p´ra gente ficar gritando por aí que estamos juntos. Mas sem essa de segredos. Eu quero poder passear com você sem ter medo que alguém possa ver a gente juntos. A gente não é mais criança, Mel.

Respirei bem fundo. Namorar e assumir uma relação com o David parecia ser uma coisa complicada. Mas eu sabia que ele tinha razão. Estava na hora de assumir o que nos unia. Só assim nós iríamos conseguir ficar juntos. Olhei-o nos olhos, beijei-o e a seguir repousei a minha cabeça no seu peito.

- Está bem! Eu confio em ti. – E foi como se um peso saísse de cima de mim.

  •                                                                

Passava pouco da hora do almoço quando o David se levantou e foi tomar um banho. O chuveiro da casa de banho que dava para o meu quarto estava sem água quente, por isso disse-lhe que utilizasse a banheira do quarto da Ana. Enquanto isso, eu fiquei deitada mais um pouco. As poucas horas de sono que tinha em cima começavam a fazer-se sentir, e fui invadida por uma sonolência tal que nem dei por fechar os olhos e adormecer. Não dormi durante muito tempo, mas foi o suficiente para acordar em sobressalto…

Ana tinha ligado á Inês para que a fosse buscar á rodoviária. Pensava que a essa hora eu estaria nas aulas. Eu ainda não lhe tinha contado sobre os últimos acontecimentos, por isso ela nada sabia sobre mim e o David. Quando entrou em casa de mala na mão e extremamente cansada de subir as escadas com a mesma, só pensava num bom banho de espuma e quentinho. Inês foi para a cozinha preparar algo para comerem e Ana correu para o seu quarto. Mal entrou ouviu o barulho da água a correr e pensou que fosse eu quem lá estava. Pousou a mala e dirigiu-se á casa de banho, chamando por mim.

- Mel? Estás em casa a esta hora? … AHHHH!

Eu estava completamente envolvida na terra dos sonhos quando fui arrancada da mesma. Reconheci imediatamente a voz e levantei-me num salto. Enfiei a primeira coisa que me veio á mão e saí disparada em direcção ao quarto da Ana. Quando lá cheguei deparei-me com a Ana e a Inês em modo “frozen”, as duas de frente para um David Luiz completamente embaraçado e nu, meio escondido atrás da cortina do banho e tentado explicar o que fazia ali aquela hora.

- Ana! – Gritei! – Chegaste! – Disse tentando amenizar a situação.

Esta pareceu acordar do transe e saiu para o quarto.

- Oh! Meu Deus! Mel, desculpa! – Disse ao passar por mim. Segui-a.

- Eu é que te peço desculpa. Não sabia a que horas vinhas e o David precisava de … - Olhei para trás e vi que a Inês ainda não tinha saído. Fiz sinal á Ana que esperasse e voltei a entrar na casa de banho. A Inês não se tinha movido um milímetro. Acho que nem sequer tinha piscado os olhos. David continuava atrás da cortina, cobrindo com as mãos o que podia.

- Inês! – Chamei, mas sem resultado. Tive de a agarrar por um braço e arrastá-la dali para fora. A seguir pedi desculpa ao David e fechei a porta.

- Porque é que não me disseste que estavas em casa? E com… ele?

- Desculpa, mas eu não adivinhava a que horas é que tu chegavas.

-O que é que… ele… está aqui a fazer? – A expressão da Ana estava cada vez mais confusa.

- A tomar banho, não é óbvio… - Disse por fim Inês, em tom irónico.

- É melhor irmos até á sala. Eu já te explico tudo.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 02:32

comentários:
Brutal!!!!
Fartei-me de rir :D :D
Beijinho.
Elsa
Elsa a 28 de Agosto de 2012 às 22:40

Isto é que é um capítulo Lindo, Divertido, FANTÁSTICO!
Lol
Ri-me tanto na última parte do capítulo...
Continua!
Beijinhos! :)
Mary a 28 de Agosto de 2012 às 23:13

Oh está lindo.
O que me fartei de rir...
Quando voltas a postar?
Beijinhos *
Anónimo a 29 de Agosto de 2012 às 13:13

quando postas?
Anónimo a 29 de Agosto de 2012 às 22:20

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D