16
Ago 12

 

Quando o despertador tocou Jaime já se encontrava acordado há duas horas. Deitado na sua cama, mirava o tecto do seu quarto, e via nele pedaços de um filme mental que durava desde que saíra da casa de Mel. Precisava vê-la, falar-lhe, tocar-lhe… “Mas ela continua sem atender os meus telefonemas”. Olhou para o cimo da mesinha de cabeceira onde um pequeno aparelho digital mostrava vermelho números. Eram 7h30 da manhã. Estendeu o braço e alcançou o seu telemóvel. Hesitou. “ Já deve estar acordada. Tem aulas de manhã…”, pensou. Carregou na tecla de marcação rápida e o nome “Mel” apareceu no visor. Posicionou o dedo polegar na tecla de “chamar” e… hesitou novamente. Desviou o olhar. O sofrimento, os remorsos, os ciúmes, tudo parecia enlouquecê-lo. Levantou-se da cama sem largar o telemóvel e, consciente ou inconscientemente, carregou por fim na tecla. Do outro lado começou a chamar. A espera pareceu eterna. Cada toque soava como uma sentença de morte, uma, e outra, e outra vez. Estava prestes a desligar quando por fim ouviu a voz que há tanto tempo ansiava ouvir.

- Mel?... Desculpa ligar-te a esta hora, mas… Bom, nós temos de falar, não achas?... Então concordas que nos encontremos hoje?... Por favor, Mel! Dá-me uma hipótese de me explicar, de me redimir. Eu… Não podes ou não queres? … Então posso ligar-te mais tarde?... Obrigado!

Do outro lado um “clic”, e a voz desapareceu.      

  •  

O Doutor Jaime passara o dia no gabinete dele. Só saíra para fazer a ronda na enfermaria e comer qualquer coisa na cantina. Os seus pensamentos estavam longe. Mal podia esperar pela hora de falar com Mel. Ela não lhe dissera que não. E tinha finalmente atendido uma chamada sua. Não era muito, mas dadas as circunstâncias ele considerava isso uma vitória. E estava certo de que a iria reconquistar. Eram já quatro da tarde. Resolveu ligar-lhe outra vez para combinarem a que horas se poderiam encontrar. Talvez ele pudesse ir buscá-la… talvez pudessem ir jantar. Ligou. Desta vez não demorou tanto tempo a atender.

- Mel!...

- “Sim, Jaime!”

- Não estou a atrapalhar-te, estou? É que… Disseste para ligar mais tarde, então…

- “Não, já não estou em aulas.”

- Óptimo. Então… a que horas posso ir ter contigo? Eu sei que andas atarefada com o emprego novo, por isso tinha pensado que talvez pudéssemos ir jantar?

- “Pois, em relação a isso… Desculpa Jaime, mas hoje não vai dar. Cheguei agora ao estúdio, eles querem começar já as gravações e não sei a que horas vou sair daqui.”

- Mas, tu disseste que nós podíamos falar. Eu pensei que…

- “ Eu sei, e peço imensa desculpa por isso. Nós temos mesmo de conversar, e vamos fazê-lo. Mas hoje é impossível. Olha, eu depois ligo-te, ok? “

- Mas, Mel…

Desligou. Durante alguns segundos Jaime permaneceu imóvel, o telemóvel ainda junto á orelha. Não podia, não queria acreditar que ela acabara de o dispensar, assim. Ele passara o dia todo a pensar no momento em que iria estar finalmente com ela. O momento em que resolveriam as coisas e tudo ficaria bem. O momento em que a teria nos braços e entre beijos lhe diria o quanto a amava. Como é que, de um momento para o outro, perdera tudo isso. “ Passou-se alguma coisa. De manhã as coisas iam ficar bem, e agora já não dava? Passou-se alguma coisa.” Jaime levantou-se da cadeira e começou a andar de um lado para o outro. Os seus pensamentos estavam a mil. Ele precisava de perceber o que raio se tinha passado. Ninguém muda de disposição de repente. A não ser… Parou. Olhou pela janela. O silêncio que se fazia sentir dentro do gabinete foi quebrado por um avião que acabara de levantar voo. Ao mesmo tempo uma imagem acabara de surgir na sua mente. Como é que ele não tinha percebido. Só podia ser isso… Só podia haver um culpado. Jaime deu meia-volta e saiu da sua sala dirigindo-se à administrativa.

- Susana, Tenho alguma coisa marcada para esta tarde?

Susana confirmou num pequeno calendário que tinha mesmo há sua frente antes de responder:

- Não, Doutor Jaime.

E tão rápido como surgira, desapareceu pelo corredor de volta ao gabinete. Arrumou algumas coisas dentro da sua pasta, pegou no casaco se voltou a sair, desta vez em direcção ao elevador. Enquanto esperava que este chegasse olhou para o relógio. Passava pouco das quatro e meia. Numa hora estaria praticamente de noite. Ele sabia que tinha de se despachar.

  •  

Jaime conduzia apressado. Tinha passado o dia todo a pensar e só lhe ocorrera uma solução. Já passara uma semana desde que tinha visto a Mel pela última vez, e não fora uma cena bonita. Estava na hora de resolver as coisas. A estrada estava ligeiramente molhada devido aos chuviscos que caíram durante o dia. Mas não era no piso molhado que estava a sua atenção. De minuto a minuto olhava as horas que marcava o relógio do carro. Tinha de se despachar se queria chegar a tempo. Em breve avistou o majestoso estádio cinza e vermelho. Abriu o pisca e dirigiu-se ao parque de estacionamento. Não ligava muito a futebol, mas o pai tinha-o feito sócio ainda pequeno e era figura conhecida por lá. Assim que o segurança se dirigiu a ele e viu o apelido no cartão, permitiu a sua entrada imediatamente. Parou o carro e esperou. Ainda tinha algum tempo de sobra. Encostou o banco e abriu ligeiramente o vidro. “Agora só tenho de esperar.”, pensou. Pegou na carteira que atirara para o banco do lado e abriu-a. Lá dentro, uma foto da Mel apareceu. Jaime olhou-a com ternura, beijou-a e voltou a guardá-la. De repente, começou a ouvir vozes. Enterrou-se um pouco no banco para não ser visto, deixando só o suficiente á mostra para ver quem se aproximava. “Não, não é ele!”. Respirou fundo e encostou-se novamente. Mais uma vez não teve de esperar muito até ouvir as próximas vozes. Eram dois… não, três jogadores que se aproximavam. Jaime ergueu-se um pouco mais para ter a certeza de que era quem estava á procura. Depois, saiu do carro e chamou:

- David Luiz! – O seu tom era firme e ameaçador.

David acabara de sair acompanhado por Ruben e Carlos Martins. Tinham vindo do consultório médico onde tinham sido submetidos a exames de rotina. Ao ouvir o seu nome virou-se para ver quem era. A princípio não reconheceu Jaime. Só quando este se aproximou um pouco mais viu que não era uma cara estranha. Jaime andava acelerado e mostrava uma expressão pesada, irada até. Com certeza não andava há procura de autógrafo nem de tirar fotos. David perguntou-se o que faria ele ali.

- David Luiz! – Voltou a chamar.

- Sim?

- Tu e eu precisamos ter uma conversa muito séria.

Ruben mantinha-se perto de David mas, tal como ele não percebia o que se estava a passar.

- Manz, quem é este tipo?

David inclinou um pouco a cabeça e sem desviar o olhar da figura do médico, respondeu num tom audível apenas para Ruben:

- Namorado da Mel.

- Quem? – Tornou a perguntar Ruben, convencido de que não tinha ouvido bem. Mas David já não teve tempo de responder novamente. Jaime estava já bastante próximo. David deu dois passos na sua direcção de braço estendido, como para cumprimentá-lo. De repente lembrara-se de que poderia ter acontecido alguma coisa a Mel. Ia perguntar-lhe quando foi apanhado completamente de surpresa pelas mãos do seu rival no colarinho da sua camisa.

- Desgraçado! – Gritava Jaime enquanto se lançava a um David apanhado desprevenido. E foi tal a força que o obrigou a andar para trás, lançando-o contra uma coluna. – Quem é que tu pensas que és? É por tua causa! És tu o culpado!

Ruben e Carlos correram em auxílio do seu companheiro de equipa e amigo. Tentavam afasta-lo de David, mas era impossível. O homem parecia possuído por qualquer demónio que lhe dava uma força sobre-humana. Por esta altura também David tentava soltar-se.

- Que é que cê tá fazendo, Cara? Me solta! – Gritava David, conseguindo fazer com que Jaime desprende-se uma das mãos. Aproveitando a pressão que agora era menor, empurra-o para trás. Ruben e Carlos interpõem-se entre os dois. Este continuava a gritar e tentava a todo o custo alcançar David novamente.

- Palhaço! És um Desgraçado. Afasta-te da Mel ou eu dou cabo de ti!

Ruben percebeu que iria ser difícil mantê-lo afastado e pediu a Carlos que fosse chamar os seguranças. Este correu sem hesitar.

- ´Cê tá maluco! Eu só encontrei com Mel no outro dia que ela quase desmaiou.

- Tu és o culpado de tudo!

- Este tipo é o namorado da Mel? – Ruben havia finalmente entendido o que David lhe dissera. – Do que é que ele está a falar? O Gajo é louco. Onde é que a Mel foi encontrar isto?

Jaime ferveu ainda mais ao ouvir estas palavras.

- E quem é você? Outro Filho da P*** como esse?

Tinha sido a gota de água. David não percebia de onde tinha surgido aquela figura nem aquela conversa, mas não estava para o aturar mais.

- Opá, peraí ó… camarada. Cê tá querendo o quê? Comprar briga. Então me deixa sair daqui que a gente conversa de outro jeito. – E agora era ele quem se dirigia na direcção de Jaime.

Ruben começou a ficar preocupado. Se era difícil segurar um, dois então…

- Calma, David! – Dizia. – Não faças asneiras. Este tipo só pode estar bêbado.

- Problema dele!

- Eih! – Gritou um dos seguranças para alívio de Ruben. – Qual é o problema aí?

Este apressou-se a explicar o que se passava, mas quase nem valia a pena. Jaime continuava a gritar e era bastante fácil adivinhar a situação.

- O senhor vai ter de sair daqui. – Disse o segurança enquanto arrastava Jaime por um  braço. Este Gritava cada vez mais alto.

- Largue-me! Não se meta nisto. Sabe quem eu sou? Isto não acaba aqui, rapazola. Tu e eu… Eu acabo contigo. A Mel…

Os seguranças acabaram por conseguir tirar Jaime do edifício. David, Ruben e Carlos Martins olhavam estupefactos para a cena lamentável. David tinha ficado bastante agitado com aquilo tudo. Tivera vontade de bater em Jaime mas conseguira manter a calma. E só lhe ocorria uma razão para toda aquela fúria. Jaime descobrira que ele tinha beijado Mel. Era a única coisa que fazia sentido.

- Aquele era o namorado da Mel? – perguntou Ruben outra vez, pousando uma mão no ombro de David.  

publicado por nuncamaissaiodaqui às 03:24

comentário:
fantastico...

quero mais... tou super curiosa para ver o proximo...

continua...
branquinhosdoscachosdourados a 16 de Agosto de 2012 às 11:19

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
Visitas
Real Estate
Contador gratuito
Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D