15
Ago 12

 

 A Ana e a Inês entraram em casa perto da meia-noite. Por essa altura já tinha apanhado os cacos da chávena que o Jaime lançara ao chão, limpo o chão e bebido uns cinco chás de Camomila para ver se me acalmava. Estava neste momento sentada á mesa a ver coreografias pela net, tentando limpar da minha mente o episódio de algumas horas atrás. Sem sucesso. Devo ter olhado para a mesma coisa 8 ou 9 vezes seguidas, mas tudo o que retinha era a imagem do Jaime, da sua ira incontrolável e das suas duras palavras. Estava de tal modo ainda afectada que ao ouvir a porta abrir dei um salto da cadeira e mantive-me alerta. Por qualquer razão sem sentido achava a qualquer momento ele entraria pela casa adentro novamente, e começaria tudo outra vez. “É claro que não é ele, não tem a chave… não consegue abrir a porta. A menos que a arrombasse, mas aí ouviria um estrondo… “, pensava, sem tirar os olhos da entrada. Quando vi surgir duas figuras alegres e divertidas que eu tão bem conhecia, respirei de alívio.

- AH! Estou morta! – Disse a Inês, deixando-se cair para uma das cadeiras. – Doem-me tanto os pezinhos. Preciso que alguém me faça uma massagem…

- Não olhes p´ra mim. – Apressou-se a Ana a responder. – Eu estou tão dorida como tu, e nem penses que vou meter as minhas mãozinhas delicadas nesses teus… pés.

- Que me dizes, Mel? Tu farias isso por uma amiga?

- Hã?...

-Acorda!

- Estás melhor? – Perguntou a Ana. – Não precisavas de ter esperado por nós.

- Não tenho sono. – Respondi. – Dormi toda a tarde.

- O que estás a ver?

- Algumas coreografias. Amanhã começo os ensaios para o programa e pensei que encontraria alguma coisa de interessante…

- Mas tu vais amanhã?

- Claro, Ana. Começo amanhã e não posso já faltar.

- E achas que estás em condições de aguentar o dia?

Fiz silêncio. O problema não era aguentar o dia. Pelo menos, não da maneira que a Ana pensava. O problema era conseguir focar-me no que tinha para fazer.

- O Ruben hoje apareceu na “Catedral”. Esteve um tempão a falar com a Ana. - A Inês fez um gesto com a cabeça e um sorriso irónico. – Cá p´ra mim, passa-se ali qualquer coisa.

- Eu ouvi isso. – Gritou a Ana do outro lado da cozinha. – Fizeste chá, Mel?

- Fiz. Se quiseres acho que ainda há.

- Traz também para mim, se faz favor. – Pediu também a Inês.

Eu continuava de os olhos postos no computador. Tentava passar uma imagem calma, não queria que elas se preocupassem mais. O facto de estarem as duas na galhofa também ajudou a que não reparassem na minha cara ainda pálida. A Ana não demorou muito a voltar para junto de nós.

- Se queres saber, - Disse – O Ruben foi lá perguntar pela Mel.

- O Ruben? – A Inês estranhou. – Não era suposto ter ido o David?

- O David não pôde ir. Então o Ruben, que já estava no estádio, encarregou-se de saber notícias. Ele está preocupado mas não sabe se deve ligar.

- Ele que nem tente que eu não o atendo. – Apressei-me a responder. – Já chega de confusões…

- Foi o que eu lhe disse, para ele não ligar que tu já estavas melhor. Além disso tens o teu próprio Doutor particular a cuidar de ti.

Engoli em seco ao ouvir a Ana mencionar o Jaime. “ Será que ele cuida mesmo de mim?”, pensei.

- Partiste uma chávena?

- O quê? – Levantei a cabeça tão rapidamente, e com tal expressão de terror estampada na cara, que ela próprias estranharam.

- Calma. Vi os cacos no lixo, só isso. Não é o fim do mundo.

- Não é, mas ia sendo. – Disse baixinho.

- O quê?

Levantei-me e comecei a andar de um lado para o outro. A Inês e a Ana não percebiam nada do que se estava a passar, e eu já não consegui disfarçar mais.

- Foi o Jaime que partiu a chávena.

- Então ele conseguiu vir?

- Sim. Ele esteve aí por volta das oito, oito e meia. – E sem me aperceber levei as mãos á cara e senti as lágrimas a quererem rolar.

- Mel? – A Inês levantou-se e veio ter comigo. – O que foi? Falaste com ele? Ele acabou tudo?

- Não! – Respondi ao mesmo tempo que tentava aguentar a vontade enorme que tinha de chorar. – Eu não consegui falar com ele… ele já sabia de tudo.

- O quê? Como? E sabia do beijo também?

- Não, do beijo acho que não… sei lá. Só sei que ele se passou completamente. Disse-me coisas horríveis, mandou a chávena ao chão, gritou comigo. Acusou-me de ter dormido com o David e com ele não… Foi horrível.

Encarei as duas e vi a sua cara de estupefacção. Ambas não reagiram logo. Aliás, acho que nem sabiam o que dizer. Foi a Inês quem primeiro conseguiu dizer alguma coisa.

- Isso não parece nada dele…

- Eu nunca o vi assim. Parecia possuído. Agarrou-me de tal forma que nem sei como não fiquei com os seus dedos marcados.

- Mas ele bateu-te?

- Não, Ana. Não chegou a tanto eu consegui fugir e ameacei-o de gritar se ele não saísse daqui.

- Meu Deus, Mel… Porque é que não nos ligaste. Uma de nós teria cá vindo.

- Ligar-vos para quê? Para as deixar ainda mais preocupadas? Felizmente não se passou nada. Ele acabou por ver o que estava a fazer e saiu. Pediu-me desculpas vezes sem conta, mas eu não sabia o que pensar.

Novamente silêncio. Nenhuma de nós ainda acreditava no que se tinha passado. Eu própria que tinha estado presente já me perguntara se não teria sido uma alucinação. Dolorosa, mas ainda assim uma alucinação, parte daquelas que tive enquanto dormira à tarde.

- O pior ainda foi ouvir aquilo tudo. Ele falou de uma maneira tão… vulgar, asquerosa. Por momentos pensei que me ia fazer alguma coisa… sei lá.

- Tipo o quê? Violar-te?

- Não sei Inês. Eu ainda não sei o que pensar. O Jaime sempre foi tão correcto e compreensivo comigo. A atitude dele apanhou-me completamente de surpresa.

- Eu não quero defendê-lo, mas eu avisei que devias ter-lhe contado.

- Oh, Inês! Queres ver que a culpa é da Mel?

- Não! A atitude dele não tem justificação possível. Não é isso. Mas, se a Mel tivesse contado o que se tinha passado, e porque razão ficou tão magoada, as coisas não teriam chegado a este ponto. E depois há sempre o factor sexo. Eu sei que discordamos em relação a isso, mas tens de admitir que o sexo é parte fundamental numa relação. Vocês estão juntos à quase três meses, e nada… E não são propriamente adolescentes. É claro que o Jaime ia acabar por se passar completamente.

- Mesmo assim isso não o justifica, Inês…

- Parem! – Ordenei. O ambiente de discórdia que se estava a instalar entre as duas não me estava a ajudar em nada. – A última coisa que eu preciso agora é de as ouvir discutir. Meu Deus, será que eu nunca vou ter paz na minha vida. Eu saí de casa, de perto da confusão que era a minha vida, vim para Lisboa a pensar que ia ser tudo diferente, e as coisas estão a ficar ainda piores. Nunca tive tanta vontade de dar meia-volta e voltar para trás.

A Ana e a Inês entreolharam-se, envergonhadas. Reconheceram que não estavam a ajudar e pediram desculpas, quase ao mesmo tempo. Depois abraçamo-nos em conjunto, como tantas vezes já o havíamos feito.

 

  •  

 

Nos dias seguintes tentei concentrar-me na faculdade e no meu novo trabalho na produtora. O Jaime mandava-me flores todos os dias, mensagens e até tentou ligar, mas resolvi não atender. Na minha cabeça ainda estava tudo muito confuso e eu precisava de tempo para analisar o ponto da situação. E depois, não saberia o que dizer-lhe. Ficara tanto ainda por contar… mas agora não era o momento. E ele não desistiu. De um simples ramo de rosas no primeiro dia a seguir á cena que fizera, passou a enviar-me uma dúzia, duas, e até três dúzias de rosas para casa. Todas elas com um cartão a pedir que o perdoasse, que me amava, etc… A pouco e pouco fui reconhecendo o Jaime que eu conhecia, o meu Jaime. Mas isso ainda não era suficiente. Á media que o tempo ia passando, ia conseguindo analisar as coisas de outro ângulo. E ele teria de se esforçar muito mais se queria realmente resolver as coisas entre nós dois.

Havia ainda outra coisa que não me saía da cabeça, uma dúvida que nem eu, a Ana e a Inês ainda tínhamos percebido: Como é que o Jaime tinha descoberto sobre a minha relação com o David?

Segunda-feira. Levantámo-nos cedo, eu e a Ana. Eu tinha de apresentar um trabalho e ela preparava-se para ir visitar a sua família. Tínhamos sabido durante o fim-de-semana que a sua irmã estava grávida, e ela quis ir felicitá-la pessoalmente, e não era para menos. Assim aproveitava e matava saudades de toda a família.

- Confesso que estou com uma pontinha de inveja… mas é só uma pontinha.

- Oh, amiga! – Disse, abraçando-me. – Tu podias vir comigo. O pessoal lá de casa ia adorar ver-te também… e podias fazer uma visita à tua mãe…

- Não… Não vou voltar a discutir o mesmo com a minha mãe. E além disso, as frequências estão à porta, estou prestes a começar as gravações do programa. Não. Um dia quem sabe, mas agora não. E vamos deixar-nos de lamechices que tens um expresso para apanhares e eu tenho aulas depois de te deixar na rodoviária. Vou buscar as chaves.

Entrei no meu quarto e procurei com os olhos pelo pequeno porta-chaves vermelho. Tudo estava desarrumado, nem a cama tinha tido tempo de fazer. A roupa encontrava-se espalhada por todos os cantos e percebi que teria de começar a fazer uma busca mais intensiva. “ Tenho mesmo de dar uma arrumação a isto”, pensei. De repente vi algo a luzir debaixo de um cachecol azul e cinza, que eu usara no dia anterior. Levantei-o e lá estava a bendita chave. “Ah-a! Achei!”. O som do telemóvel que tocou logo a seguir fez-me dar um pequeno salto e voltar para a entrada onde a Ana me esperava com o mesmo na mão.

- É o Jaime. - Disse-me.

- Tão cedo?

- Vais atender?

Encolhi os ombros.

- Algum dia vais ter de falar com ele.

Concordei com a cabeça. Olhei para o visor do telemóvel. O nome “Jaime” piscava à medida que o “bip, bip” tocava. Respirei fundo e atendi.

- Sim…

Comecei a andar na direcção da cozinha. A Ana seguia-me atentamente, o casaco num braço e a mala pronta no chão, junto aos seus pés.

- Eu sei. – Respondi. – Não sei! – Entrei na cozinha e olhei para o relógio de parede. Tínhamos de sair agora ou a Ana iria perder o expresso. – Olha Jaime, eu agora não posso mesmo falar… não, a sério. Já estou atrasada… sim, podes. – E desliguei.

Apressei-me a ir ter com a Ana.

- E então?

- Falamos depois. Agora também não tinha tempo. Vamos?

Pegámos cada uma em suas coisas e saímos, trancando a porta atrás.

  •                                                                                                        

Jaime conduzia apressado. Tinha passado o dia todo a pensar e só lhe ocorrera uma solução. Já passara uma semana desde que tinha visto a Mel pela última vez, e não fora uma cena bonita. Estava na hora de resolver as coisas. A estrada estava ligeiramente molhada devido aos chuviscos que caíram durante o dia. Mas não era no piso molhado que estava a sua atenção. De minuto a minuto olhava as horas que marcava o relógio do carro. Tinha de se despachar se queria chegar a tempo. Em breve avistou o majestoso estádio cinza e vermelho. Abriu o pisca e dirigiu-se ao parque de estacionamento. Não ligava muito a futebol, mas o pai tinha-o feito sócio ainda pequeno e era figura conhecida por lá. Assim que o segurança se dirigiu a ele e viu o apelido no cartão, permitiu a sua entrada imediatamente. Parou o carro e esperou. Ainda tinha algum tempo de sobra. Encostou o banco e abriu ligeiramente o vidro. “Agora só tenho de esperar.”, pensou. Pegou na carteira que atirara para o banco do lado e abriu-a. Lá dentro, uma foto da Mel apareceu. Jaime olhou-a com ternura, beijou-a e voltou a guardá-la. De repente, começou a ouvir vozes. Enterrou-se um pouco no banco para não ser visto, deixando só o suficiente á mostra para ver quem se aproximava. “Não, não é ele!”. Respirou fundo e encostou-se novamente. Mais uma vez não teve de esperar muito até ouvir as próximas vozes. Eram dois… não, três jogadores que se aproximavam. Jaime ergueu-se um pouco mais para ter a certeza de que era quem estava á procura. Depois, saiu do carro e chamou: “David Luiz!”

publicado por nuncamaissaiodaqui às 01:01

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D