13
Ago 12

A Ana e a Inês almoçaram cedo e saíram logo a seguir. Eu, tal como tinha prometido, comi qualquer coisa e deitei-me novamente. Com o cansaço que ainda sentia não foi difícil adormecer. Caí num sono pesado, quase delirante. Sonhos interponham-se uns a seguir aos outros. Sonhei que estava em casa da minha mãe e que o Jaime era meu irmão ou algo assim. Depois já estava numa praia, bem parecida aquela onde estivera em Espanha com o David. Mas aí encontrava-me sozinha. Pessoas tão diferentes e que faziam parte da minha vida iam entrando e saindo neste labirinto de sonhos, tão confusos como o meu estado de espírito. De vez em quando abria os olhos e parecia ver vultos ou ouvir pessoas a falar. Era como se a fantasia se misturasse com a realidade. E sentia as pálpebras tão pesadas que pensava em acordar, abrir os olhos e sair de tanta confusão mental, mas era-me impossível. Voltava a cair no sono outra vez. Quando finalmente acordei já passava das oito da noite. “Acho que dormi demais.”, pensei. Saí da cama muito a custo, vesti uma t-shirt e umas calças de algodão confortáveis e fui até á cozinha. A Ana tinha deixado tudo preparado para o caso de eu ter fome, mas a verdade é que não me apetecia comer. Resolvi fazer um chá. “Sim”, pensei, “um chá é o ideal. Qualquer coisa quentinha e que me acalme”. Enquanto a água fervia voltei ao quarto a buscar o telemóvel. Talvez o Jaime já me tivesse tentado contactar e eu não dera por nada. “Não, ainda não disse mais nada. O acidente deve ter sido sério”. Sentia um nó no peito e no estômago um pequeno formigueiro. Queria, precisava falar com o Jaime para deixar de me sentir assim… mas ao mesmo tempo temia magoá-lo, e ele não merecia.

O chá finalmente estava pronto e eu preparava-me para o beber na sala quando tocaram á campainha. Pousei o chá em cima da mesa e fui abrir a porta. Do outro lado, um Jaime um pouco sisudo aguardava, encostado á parede.

- Jaime! – Exclamei com um sorriso um pouco forçado. – Estava mesmo a pensar em ti.

- Ah sim? – Disse, passando por mim como um bloco de gelo.

“Parece abatido. Se calhar aconteceu alguma coisa no trabalho… Talvez não seja boa ideia falarmos hoje.”

- Acabei de fazer um chá, e tu estás com cara de quem precisa de um também.

- Pode ser. – A mesma frieza na resposta.

Dirigi-me á cozinha e quando voltei para a sala trazia duas chávenas fumegantes na mão. Entreguei uma a Jaime e sentei-me no pequeno cadeirão de frente para ele. Limitei-me a observá-lo durante algum tempo a ver se conseguia decifrar o seu estado de espírito, mas as suas feições permaneciam inalteráveis. Por fim, perguntei:

- O que aconteceu? Estás pálido e quase não disseste nada desde que chegaste. Nem sequer um beijo quando entraste. Houve complicações no acidente? É por isso que estás assim?

- Não é nada… eu… Isto já passa. – E levou a chávena aos lábios.

- Não gosto de te ver assim. Se foi alguma coisa que eu possa fazer…

Jaime continuou imóvel. Os seus olhos estavam fixos na televisão. Os únicos movimentos que fazia eram os de  quando se preparava para beber da chávena o chá que lhe trouxera. Optei por não insistir mais. Também eu tinha momentos em que não tinha a mínima vontade de falar. O melhor era deixá-lo quieto. Recostei-me e tentei abstrair-me com a televisão. Os meus pensamentos ainda estavam a mil. Olhava para as imagens que passavam mas não retinha nada. Não fosse o barulho da tv e os únicos sons seriam os da nossa respiração.

- A paciente acabou por morrer. – Disse por fim Jaime, quebrando o silêncio que se instalara entre nós. – Houve uma complicação já no quarto e ela não resistiu.

- Oh, Jaime… Sinto muito. Eu… não sei o que dizer.

Jaime bebeu mais um pouco antes de voltar a falar.

- Podes dizer-me sobre a tua relação com o David Luiz.

Aquela frase caiu como uma bomba. A princípio nem queria acreditar no que acabara de ouvir. Pensei que estava novamente a delirar, que o sentimento de culpa tomara finalmente conta da minha mente e me fazia ouvir frases.

 - Como? – Perguntei.

- O que aconteceu entre ti e o David Luiz? – Voltou a perguntar, desta vez olhando-me nos olhos.

- Eu não sei o que queres dizer…

- Então é mentira que tu e ele tiveram uma relação?

Permaneci em silêncio por alguns segundos, engoli seco, respirei fundo, e sem nunca desviar o meu olhar do seu, respondi:

- Não!

O Jaime virou-se novamente para a televisão e eu achei que era melhor levar aquilo até ao fim.

- É verdade que nós namorámos durante um tempo, mas foi algo muito breve, nem chegou a sair cá para fora. Nós mantivemos segredo.

- Pelos vistos não souberam esconder muito bem. Até eu acabei por descobrir.

- Bem, é que… aconteceu algo e… algumas pessoas vieram a saber…

- E eu posso saber porque é que não me disseste nada?

- Jaime, o David faz parte do meu passado. Foi uma relação que terminou, tal como tu deves ter tido antes de me conheceres. Não tem nada a ver connosco.

- Mas ontem quando o conheci… podias ter dito alguma coisa.

- Para quê?

Jaime voltou a olhar-me directamente nos olhos. A sua voz, calma e fria no início da conversa, começava a ficar mais trémula e o tom aumentou ligeiramente.

- Para quê? Para eu não me ter sentido tão idiota hoje quando descobri que a minha namorada teve um caso com um jogador de futebol, e que este mesmo jogador de futebol foi quem a carregou ontem ao colo enquanto ela se sentiu mal.

Olhei para as suas mãos e estas tremiam. As veias do seu pescoço começaram a sobressair e os seus olhos começaram de repente a parecer-me um pouco vermelhos ao redor. Tentei acalmá-lo mas ele cortou-me a palavra.

- Diz-me uma coisa. Quando eu te conheci tu disseste-me que estavas a passar por uma fase difícil… que uma pessoa te tinha magoado muito. Essa pessoa foi ele?

Limitei-me a abanar a cabeça que sim. O Jaime estava a ficar bastante alterado e eu, ainda não recuperada da noite anterior, comecei a sentir-me pior novamente.

- Então, toda aquela conversa sobre irmos devagar, precisares de tempo… Tudo aquilo foi por causa dele?

- Jaime… - Tentei mais uma vez explicar-me mas apercebi-me de que seria impossível. Jaime já se levantara e andava agora às voltas pela sala, de chávena ainda na mão, tirando as suas próprias conclusões.

- Eu apaixonei-me por ti desde que te vi naquela cama de hospital. Tu estavas um farrapo, mas eu olhei para ti e vi qualquer coisa… vi-te um brilho especial. Vi para além da tua aparência. Sempre te tratei com respeito, fui sempre carinhoso. Mostrei-me disponível para ti e fui mais do que tolerante quando tu disseste que não te sentias preparada para fazeres amor comigo… ainda. E afinal, isso tudo por causa de um patife que te seduziu, que não merece nada… NADA! – Gritou!

Eu dei um pequeno salto do cadeirão e mantive os olhos no chão. Nunca tinha visto o Jaime tão alterado e pensei que talvez aquela reacção fosse resultado, também, do mau dia que tivera no hospital. Tinha esperança que ele se acalmasse para que eu pudesse explicar. Mas foi precisamente o contrário que aconteceu. Numa atitude completamente inesperada, vejo a chávena do chá voar por cima de mim e sinto  ele agarrar-me pelos braços e levantar-me de uma só vez, dando-me algumas sacudidelas. O tom de voz alterado e elevado mantinha-se.

- Quantas vezes, Mel? Quantas vezes quando eu te beijei tu pensaste nele? Quantas vezes te deixaste levar para a cama dele, enquanto a mim me negaste o maior acto de amor que se pode esperar daquele que amamos? Acaso eu não mereço a mesma consideração?

- Pára, Jaime. Estás a magoar-me.

- E tu? Não me magoaste a mim também? Sabes quantos homens teriam aguentado o que eu aguentei por ti, Mel? Quantos te teriam arrastado ao ouvir “ NÃO”! RESPONDE MEL!

 Nesse momento consegui desprender-me e corri para fora da sala. Jaime seguiu-me até à cozinha e eu parei do outro lado da mesa.

- Pára ou eu juro que começo a gritar! – Disse. A sua expressão ainda era de raiva, mas por qualquer motivo desistira de me perseguir. A minha respiração era cortada e irregular. Senti mais uma vez perder as forças, apesar dos nervos. – Sai daqui, Jaime!

As minhas palavras pareciam ter surtido efeito e Jaime mudou radicalmente de expressão. Era como se finalmente caísse me si.

- Oh! Meu Deus! O que é que eu fiz. Mel…

Eu mantinha-me do outro lado, protegida pela mesa que se interpunha no nosso caminho.

- Mel!... Perdoa-me. Eu… perdi a cabeça. O dia de hoje foi… Perdoa-me. – e as lágrimas começaram a rolar-lhe pela face. Senti o quão envergonhado estava, mas apesar de tudo eu continuava assustada.

- Jaime… É melhor que te vás. Falamos depois, quando estiveres mais calmo.

- Antes diz que me perdoas, Mel… por favor! Eu jamais faria algo que te magoasse. Tu sabes o quanto te adoro… Mel!

Os soluços cortavam-lhe as frases pelo meio. A cara tapada pelas mãos e o corpo caído, derrotado. Fiquei sem saber o que dizer. O Jaime sempre fora um autêntico cavalheiro. Nunca o pensei capaz de se irritar a tal ponto. E as coisas que me dissera, apesar de algumas serem verdade, foram no entanto ditas de forma rude, ordinária até. No entanto percebi que a única maneira de conseguir que ele saísse era dizendo-lho o que queria ouvir.

- Eu… Perdoo. – Respondi – Mas estou muito magoada. Falamos depois. Sai… Por favor.

Ele levantou a cabeça e encarou-me durante alguns momentos. Reconheci nele o Jaime que sempre conhecera, mas numa expressão sofrida. Por fim deu meia volta e dirigiu-se para a porta. Quando lá chegou deteve-se. Eu continuava no mesmo sitio, seguindo-o com o olhar. Ele voltou-se novamente para mim e disse-me:

- Eu amo-te, Mel! Nunca te esqueças disso!

 E saiu finalmente, fechando a porta atrás de si. No mesmo instante em que ouvi o “clicK” da fechadura deixei-me cair na  cadeira, completamente sem reacção.

 

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 04:33

comentários:
Olá!

Ainda bem que voltaste a escrever já tinha saudades destes magnificos capitulos.

Continua esta fic é linda

Beijinhos
Maria
Maria a 13 de Agosto de 2012 às 10:34

Poça! Que grande "discussão"! Até fiquei com algum receio que o Jaime fizesse alguma coisa à Mel...
Continua!
Quero ler o próximo.
Beijinhos!
Mary a 13 de Agosto de 2012 às 14:52

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D