02
Set 10

No dia seguinte chegámos um pouco atrasadas. O jipe resolvera que não queria pegar logo pela manhã, mas quem o poderia censurar? Era um Suzuki Samurai já muito velhinho, mas mesmo assim era grande máquina. Excepto quando não pegava de manhã. A nossa única alternativa foi chamar um táxi.

Mal entrei no restaurante, a Inês veio ter comigo.

- Então?

-Então o quê? – Fiz-me de desentendida.

- Já foste falar com a D. Marisa?

- Não sei se reparaste mas acabei de chegar e atrasada ainda por cima.

- Mel, esta é a tua oportunidade. Acredita que quando uma pessoa como a Marisa nos diz para a procurarmos nós não pensamos duas vezes. Fazes ideia do quão difícil é marcar uma hora com ela?

- Não faço ideia de nada. Aliás nem sei quem é ou o que faz… Tenho de me mudar. Não gosto de me atrasar.

- Ok, tu é que sabes. É o teu futuro.

Voltei costas à Inês. Estava super atrasada e não tinha tempo para as suas tagarelices. Mas a verdade é que a visita daquela estranha mulher me deixara curiosa. Passei toda a manhã a pensar na conversa que tivera com ela no dia anterior. E ter a Inês constantemente a vir ao armazém para me aguçar mais a curiosidade também não ajudou. Finalmente decidi-me e quando faltava meia hora para a saída do almoço, dei uma escapadela até ao piso superior, ao escritório da tão influente D. Marisa.

Ainda nunca tinha subido àquele piso, mas não foi difícil encontrar o departamento de Marketing onde ficava situado o escritório. A secretária já tinha sido avisada por isso assim que disse o meu nome ela ligou imediatamente para a D. Marisa. Pediu-me que aguardasse um momento e perguntou-me se queria algo. Recusei, e sentei-me na pequena cadeira almofada. Não tive de esperar muito. A D. Marisa saiu do seu escritório quase logo de seguida. Estava ainda mais elegante que no dia anterior. Já devia ter entrado na casa dos quarenta, mas a sua aparência punha muitas de trinta a um canto. Vinha a acompanhá-la uma outra rapariga vestida com uma roupa desportiva e algo estranha. Parecia saída de um filme americano.

Quando me viu dirigiu-se a mim com a mesma postura com que já o tinha feito.

- Olá Mel, tudo bom? Pensei que não vinha mais. Demorou…

- É que tive muito que fazer no trabalho hoje, e só consegui sair agora.

- Hum, isso é problema prós meus planos pra você. Mas vem. Vamos lá para dentro falar. Deixa só te apresentar a Patrícia.

-Olá! – Disse á rapariga que se encontrava do seu lado. Esta lançou-me um olhar de alto a baixo, sem mexer a cabeça. Depois, um pouco entre dentes acabou por retribuir a saudação.

- Eu falo com você depois Pat. Vamos? – E entrei atrás daquela figura ainda estranha para mim, sem saber o que quereria comigo.

- Então Mel. Está gostando seu curso?.

- Sim…

- Você tem uma voz magnífica. Tem aulas?

- Sim.

- E presumo que também tem aulas de dança, certo?

- Sim.

- Olha, nós aqui no clube temos uma formação feminina, tipo claque, que costuma entrar antes dos jogos, pra puxar pelos adeptos. Eu acho que você seria perfeita para essa formação. Está interessada.

- Eu… não sei. Nunca fiz nada assim, e não faço ideia do que fazer.

- É muito simples. A pat, que saiu agora é a capitã da claque. Ela pode te dar alguns toques pra você ver.

Fiquei sem saber o que dizer. Não fazia a mínima ideia de que existisse um grupi assim. Estava explicada a roupa da tal Patrícia. A D. Marisa percebeu o meu ar confuso e por isso adiantou-se aos meus pensamentos.

- Vamos fazer o seguinte. Eu preciso ver se você leva jeito pra coisa, e você precisa ver como é que a claque funciona. Você vai com a Patrícia e ela te dá os passes básicos, e no próximo jogo você entra, faz o a Pat te instruiu, eu vejo, avalio e aí agente decide, tá bom pra você?

Não sabia se estava bom para mim, mas acabei por aceder. Mal sabia eu no que me ia meter…

- Ui! – A Inês torcia o nariz. – Trabalhar com a Patrícia… Isso não é nada bom.

- Mau! Foste tu que passaste o dia inteiro a chatear-me para ir falar com a mulher, e que era uma oportunidade única. Agora já dizes k não é bom?

- Não é isso. A claque é óptima para ti, mas a Patrícia.

- Eu também não sei se é boa ideia. – Dizia a Ana, enquanto olhava para mim com uma expressão que eu tão bem conhecia.

- Eu também não gostei do ar dela, mas para fazer parte da claque tenho de passar por ela. Ela é a capitã.

- Ok. Mas tem cuidado. A Patrícia não é flor que se cheire.

No dia seguinte a tal Patrícia mandou dizer para ir ter com ela aos balneários femininos ao final da tarde. Tive de alterar alguns planos, mas por volta das 6h da tarde, lá estava eu. Ela olhou-me com o mesmo olhar de desprezo, mas tentou disfarçar. Toda ela era uma simpatia, mas daquela que a gente consegue ver, perfeita demais. Apresentou-me ás restantes raparigas da claque e seguimos depois até ao ginásio. Lá mostrou-me alguns passos básicos, tal como a D. Marisa lhe havia pedido. Eu tentava acompanhá-la o melhor que podia, também não eram passos muito difíceis. Mas a forma como ela continuava a mirar-me começava a incomodar-me. Comecei a achar que se pudesse matava-me com aquele olhar. Ou no mínimo dava-me uma sova tão grande que me deixava incapacitada para o resto da vida.

No fim, pediu a uma das raparigas que me tirasse as medidas, por causa da roupa, e despediu-se de mim. Combinámos no dia do jogo de encontrar. Ela trataria de ir ter comigo. Aceitei, agradeci e saí. Ainda tinha de ir até à faculdade, por isso, quando me lançou mais um daqueles olhares mortais, ignorei.

Sábado, dia de jogo. O estádio andava completamente agitado, como se tivesse vida própria. Seguranças por toda a parte, adeptos, sócios dirigentes, encontrava-se de tudo. Esperava-se um total de 55 mil espectadores. Era quase uma casa cheia num jogo amigável, mas se algum clube conseguia chamar público, esse clube era o Benfica.

Eu andei todo o dia numa roda viva, a tentar deixar o meu trabalho completo, porque durante o jogo teria de estar no campo com o resta das miúdas da claque. E não queria deixar o Jorge pendurado. Ele tinha sido mais que um amigo para mim, e eu não iria abandoná-lo num dia de tanto movimento. Tratei então de deixar tudo organizado, e á hora marcada estava pronta. Depois do jogo voltaria para ajudar no restaurante. Com certeza, ninguém iria comer durante o jogo.

Eram sete hora quando a Patrícia chegou e veio ter comigo, com a mesma simpatia do dia do treino.

- Olá Mel. Tudo bem por aqui?

- Tudo. – Respondi.

- Que bom. É sempre bom sabermos que temos pessoas competentes para nos servir.

Esbocei um sorriso amarelo. Era típico de pessoas como elas tentarem rebaixar os outros, mas a mim passava-me ao lado.

- Olha, o teu fato está no balneário, ainda não é o definitivo, mas tu também ainda não sabes se vais ficar, não é? Vamos.

Segui-a por entre os corredores e descemos até ao piso dos balneários. Ainda nunca tinha andado por ali, afinal era uma área reservada aos jogadores e atletas do SLB. Atravessámos mais um corredor e parámos.

- Olha Mel, o resto das raparigas já está vestida. Só faltas mesmo tu. Este é o balneário. O teu fato está lá dentro, na zona dos banhos. Achei que era melhor tomares um antes de ir, por causa do cheiro da comida do restaurante, percebes não é?

- Claro! – Respondi, esboçando novo sorriso. Esta não perdia uma…

- Nós vamos andando para cima, fazer alguns alongamentos e exercícios. Quando terminares vais ter connosco. É só seguires por este corredor e vais lá ter. Alguma dúvida?

- Não!

-óptimo. Então até já!

E virando-se seguiu com as restantes raparigas para o campo, cochichando e rindo. Quanto a mim, entrei no balneário com tanta pressa e ansiedade que não reparei nos nomes dos cacifos por onde ia passando. Atravessei a divisão dos chuveiros e foi quando comecei a estranhar o aspecto, mas como era a primeira vez que estava num balneário do clube, e não me queria atrasar, mais uma vez acabei por ignorar. Apesar do tom superior na voz de Patrícia, esta tinha razão numa coisa. Era melhor um banho antes de entrar, não só pelo cheiro mas porque tinha passado o dia inteiro de cabelo apanhado e se o fosse soltar não tinha aspecto nenhum. O meu cabelo era muito seco, e forte e ondulado. Assim que o soltei, ficou estático. Estiquei no braço de forma a abrir a água e aconteceu o inesperado.De repente, e sem ter tempo de reagir, o chuveiro começou a deitar água. O susto foi tanto que nem pensei em sair dali, mas sim em encontrar a torneira e fechar a água. É claro que isso era inútil, pois o chuveiro era automático, estava programado para abrir ou fechar conforme o movimento da pessoa. Tentei ficar quieta, mas era inútil, a água continuava a cair. Acabei por desistir e saí do cubículo onde estava, molhada dos pés à cabeça. Olhei em volta á procura de uma toalha com que me pudesse secar, mas não encontrei nada. “Caramba”, pensei “Será possível que não encontre nada? Onde é que esta gente tem as coisas…”  Por essa altura comecei a ouvir vozes vindas do corredor, e a tornarem-se cada vez mais altas. “Meu Deus, será…” E era. A Patrícia havia-me mandado para o balneário dos jogadores. A hora do jogo aproximava-se e a equipa dirigia-se nesse momento para os balneários. Tentei manter a calma, mas o barulho das vozes e dos passos cada vez mais perto não me permitia sequer pensar em nada. Procurei em vão por uma saída, mas a única que havia levava-me directamente ao encontro da equipa do Benfica. Não tinha outro remédio senão sair dali o mais depressa possível, passando ou não por eles. Saí então da zona dos chuveiros e mesmo quando ia a atravessar o vestiário começaram a entrar os primeiros rapazes. Gelei completamente. Fiquei estática e sem reacção. Se naquele momento se abrisse um buraquinho á minha frente, tinha certamente aproveitado e saltado lá para dentro. O primeiro a entrar foi o Nuno Gomes seguido do Moreira e do César Peixoto. A surpresa deles ao ver-me ali foi quase tão grande como o susto que eu levei assim que os vi entrar. Depois disso acho que deixei de ver quem entrava ou deixava de entrar. Queria correr dali para fora mas as pernas não me obedeciam. Ali estava eu, completamente molhada, no balneário dos jogadores do Benfica, com a equipa toda a preparar-se para se trocar e entrar em campo. Depois vieram os comentários.

- Epá. Mas quem é esta?

- O que é que fazes aqui? Tu não podes estar aqui?

- Onde está o segurança?

A cada jogador que entrava um comentário novo. E eu continuava sem conseguir reagir. De repente, um braço esticou-se na minha direcção. Não fazia ideia de quem era, talvez o segurança, só sei que foi o suficiente para que as pernas e o meu cérebro entrassem em sintonia e consegui finalmente dar o primeiro de muitos passos dali para fora. Sem olhar para lado nenhum, saí dali completamente envergonhada. Acho que nunca tinha passado tamanha vergonha na minha vida. Apesar de não conseguir encarar nenhum deles, conseguia sentir todos os olhares postos em mim. Ao aproximar-me da porta, tive de me desviar de alguns e fui obrigada a levantar a cabeça, sem no entanto atrasar o passo. Encarei então com os últimos jogadores a entrar: Javi Garcia seguido de Ruben Amorim e David Luiz. Os meus olhos fixaram-se neste último, mas só por breves instantes. Parei por um segundo, baixei novamente a cabeça e atravessei a porta. Alguns jogadores ainda não tinham entrado, mas a surpresa por me verem sair dali e naquele estado, foi igual à de todos os outros. Continuei em frente e assim que virei no corredor desatei numa correria como nunca antes tinha feito. Corri até chegar ao vestiário da “catedral”. A Ana viu-me passar e estranhando o meu aspecto foi ter comigo. Encontrou-me a mudar de roupa rapidamente.

- O que aconteceu? Porque é que estás toda molhada? Não era suposto estares no campo com as outras?

Estava tão desconcertada com tudo o que tinha acontecido que não consegui falar. Limitei-me a olhar para a Ana e sem me aperceber as lágrimas começaram a cair.

publicado por acordosteusolhos às 15:11

comentários:
coitada da rapariga :) mas continua a historia agora sim está a começar a aquecer . Parabens.
lolaa a 2 de Setembro de 2010 às 18:47

Olá olha eu queria falar contigo em privado porque é um assunto delicado e não quero falar por aqui.
Já falei com a Catarina podes me dar o teu mail.Dizes-lhe e ela manda-me porque eu tenho o face dela.
É urgente ok?
Pipa a 2 de Setembro de 2010 às 19:36

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
Visitas
Real Estate
Contador gratuito
Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D