12
Ago 12

 

O Jaime não disse nada até chegarmos a casa, o que para mim foi um alívio. Tinha o estômago ainda às voltas, sentia-me fraca e bastante constrangida com o que acabara de acontecer. A última coisa que eu queria era falar, fosse ele qual o assunto. Felizmente, o Jaime não parecia ter reparado em nada e mesmo que tivesse notado algo, atribuíra-o ao facto de eu ter passado mal. O silêncio abundava só fora da minha cabeça. Por dentro os meus pensamentos estavam a mil. E pior. Apesar de me sentir culpada pelo beijo entre mim e o David, preocupava-me muito mais o facto de ele ter aparecido com a Pat. Os dois tinham chegado juntos e era óbvia a proximidade entre eles. Como é que ele podia sair com uma pessoa assim? Depois de todas as intrigas e humilhações que ela me causara, como é que ele teve a coragem de se tornar “amiguinho” dela? E era ele quem dizia que não gostava de pessoas assim, fúteis e falsas. Isso só provava o que eu desconfiava desde o princípio: ele nunca gostara de mim. Andara a passar tempo comigo, a divertir-se com a miúda que servia atrás do balcão. E quando descobriu que eu estava doente, pesou-lhe a consciência e tentou enganar-me novamente. Foi por isso que dissera que me amava. No fim das contas ainda andou metido com a sua ex, quando ela cá esteve. Senão, porque outro motivo ele a tinha convidado para ficar na casa dele? Devem ter rido bastante às minhas custas… Não! Será? Mas então e o seu olhar para mim sempre que nos encontramos? Ele pareceu ter ficado genuinamente incomodado quando me viu com o Jaime… Ai! E o Jaime. Ele era a última pessoa que eu queria magoar, e depois do que tinha acontecido alguns minutos antes a minha preocupação era com o David e com o que ele sentia ainda por mim. Interrogava-me que espécie de pessoa era eu, afinal.

Sempre cavalheiro, Jaime ajudou-me a subir as escadas, entrou comigo, fez-me um chá enquanto eu vestia um pijama e deu-me algo para me ajudar a melhorar do mau estar que ainda sentia. Não fez perguntas nem prolongou muito a conversa. Aconchegou-me na cama e depois de se certificar que eu ficaria bem, saiu.

- Falei com a Ana. Elas já não demoram muito. – Disse-me antes de sair. Mas a essa altura eu já estava bastante sonolenta e não respondi. Limitei-me a puxar o lençol mais para cima e apaguei logo de seguida.

 

  •  

Quando acordei de manhã ainda sentia uma certa agonia que não parecia ter nada a ver com o mal-estar que sentira na noite anterior. Era como se tivesse dormido demais, mas quando olhei para o relógio constatei que afinal dormira seis horas e alguns minutos. Nada que justificasse aquela sensação. A cabeça parecia querer explodir e o resto de corpo pedia mais descanso. Tentei levantar-me mas senti como se me tivessem dado uma pancada forte na nuca e voltei a deitar-me.  Fechei os olhos decidida a dormir mais um pouco mas um barulho vindo da cozinha fez com que os abrisse novamente. Parei a respiração e mantive-me imóvel á espera de ouvir algo. Felizmente não precisei esperar muito. A porta do quarto rangeu e dela surgiu uma cabeça a espreitar, seguida de uma segunda, esta um pouco mais abaixo.

- Achas que ainda dorme? – Ouvi sussurrar.

- Não sei. Ela ainda não se mexeu desde que a espreitámos a última vez. – Respondeu uma segunda voz.

- Se calhar era melhor irmos lá perto. Só para termos certeza…

Abafei uma pequena risada, mas não me contive mais.

- Se pensam que vão herdar alguma coisa estão muito enganadas.

- Mel! – Disseram em conjunto.

- Um pouco mais baixo, por favor. Tenho uma dor de cabeça terrível. Parece que estou de ressaca.

- Como se tu soubesses como é estar de ressaca. – Disse a Ana enquanto abria um pouco a janela.

- Não sei, mas tu sabes. E eu já te vi com muitas,  por isso acho que tenho uma ideia.

- Queres que te vá buscar qualquer coisa para comer?

- Não, obrigado. Eu como na cozinha. Só preciso de tempo para me levantar.

- Bem, pregaste-nos cá um susto…

- Não eras tu que achavas que aquilo estava morto? Então, eu fiz-te a vontade e dei-te um pouco de emoção. – Disse, tentando brincar com os acontecimentos da noite anterior. A Inês franziu o sobrolho e fez-me uma careta.

- Menos, por favor! Uma coisa é ter um serão emocionante, outra é estar a viver num autêntico filme de terror. Se bem que a parte em que um certo jogador de futebol, lindo por sinal, te carregou nos braços, foi simplesmente perfeita…

Por esta altura eu já me tinha conseguido sentar na cama e tentava arranjar posição para a almofada.

- Oh, claro! – Respondi – “Simplesmente perfeito”… Isto se não contarmos que eu estava mais para lá… Mas que importa? Eu até podia estar morta, mas desde que estivesse nos braços de um “certo jogador de futebol”, tu irias achar isso super romântico.

- Não sejas dramática. Foi só um desmaiozinho. Aliás, nem isso foi porque tu estiveste sempre consciente.

- Pois… e mais valia que não estivesse. – Disse em tom de desabafo.

- O David e o Jaime juntos… não deve ter sido nada fácil.

- O pior nem foi isso.

A Inês acomodou-se mais na cama para ouvir melhor. Como se 2 centímetros mais perto de mim fossem fazer diferença. Mas ela não queria perder pitada.

- Houve pior?

- O David e eu… nós a modos que … nos beijámos.

A Inês deu um salto na cama, e a sua reacção foi tão inesperada que a Ana e eu assustámo-nos.

- Pior? Espera, espera… O David aparece com a Pat numa festa de noivado que estava mais para festa de funeral… isto se fizessem festas nos funerais… Tu ias tendo um “piripaque” no meio da sala, e olha o embaraço que isso seria num meio daqueles. Mas, mal te apanhas sozinha com o David, e atenção que não é um David qualquer, é o DAVID LUIZ, vocês beijam-se… e essa é a tua parte pior? Esqueci-me de alguma coisa? – Perguntou, olhando directamente para a Ana. Esta respondeu:

- Não… acho que basicamente resumiste tudo.

- Óptimo! Então não percebo em que é que uma cena que mete beijos pode ser a pior parte. Mas, com certeza que tu tens uma explicação, que provavelmente não vai fazer sentido para mim, mas tudo bem. Eu estou disposta a ouvir de mente aberta.

Eu estava completamente atordoada com o que acabara de ouvir. Acho até, que de boca aberta…

- Eu já te disse que devias pensar seriamente em seguir uma carreira no teatro?

- Já! E eu já te respondi que isso não é para mim. Não mudes de assunto e responde á pergunta. – Disse, enquanto se sentava novamente na cama.

- O Jaime… eu namoro com o Jaime. O David é passado. Passou. Acabou. Eu não sei como é que aquilo foi acontecer. Num minuto eu estava prestes a desmaiar, sem forças, e no outro…

A Inês interrompeu-me novamente.

- … E no outro estavas nos braços de um deus brasileiro, num local isolado . Sim, realmente não dá para perceber como é que isso foi acontecer.

- Queres parar de fazer brincadeiras? Isto é sério. Quando o Jaime apareceu eu só queria desaparecer. Que vergonha.

- Olha, foi um momento de fraqueza. Tu não te sentias bem, O David ajudou-te. Vocês tiveram uma história que terminou há pouco tempo, é normal que uma coisa dessas tivesse acontecido. – Disse a Ana, mas o seu tom não me convenceu. Tinha a certeza de que só me dissera aquilo para não me sentir pior.

- Desculpa? – A Inês encarava a Ana de forma perplexa. – Mas tu ouviste a mesma história do que eu? Em que universo é que duas pessoas que terminaram uma relação, e que á partida não têm mais nada uma com a outra, Sempre que se encontram acabam aos beijos? Sim porque, desde que vocês terminaram encontraram-se o quê… duas vezes? E como é que isso terminou? No meu universo isso nunca aconteceu. Serei eu a única a achar que isso não é normal?

 A Ana ia responder, mas eu cortei-lhe a palavra.

- Tens razão. Isso não é normal acontecer. Não quando eu estou numa nova relação e ele… aparentemente também.

- Então, e agora?

- Agora? Agora vou ter uma conversa muito séria com o Jaime.

- Vais terminar com Jaime?

- Não. – Respondi de imediato. – Mas também não quero enganá-lo. Vou contar-lhe o que se passou e esperar que ele entenda.

 “Bip! Bip! Bip! Bip!”, o meu telemóvel tocou nesse instante. Era uma mensagem do Jaime.

“ Houve um acidente e fui chamado ao hospital. Assim que terminar aqui vou ter contigo. Entretanto descansa. Se precisares de mim telefona para cá e pede para me chamarem. Amo-te! Jaime”

- É o David? – Perguntou a Inês.

- Não. – Respondi. – É o Jaime. Teve de ir trabalhar, passa cá mais logo.

- Nós entramos á hora do almoço, mas se quiseres eu fico aqui contigo.

- Não Ana, não é preciso.

-Tens a certeza? Podes sentir-te mal outra vez…

- Eu estou bem. Vou passar o dia deitada a descansar e logo já vou estar melhor. Podem ir sossegadas.

- Ok, mas qualquer coisa apita. Agora vou buscar-te qualquer coisa para comeres. O melhor é nem te levantares.

A Ana saiu e a Inês aproximou-se de mim.

- Olha, Mel. Tu sabes que eu só digo estas coisas porque gosto de ti, não sabes?

 Sorri. No fundo a Inês não tinha dito nada que não fosse verdade. Eu ainda não tinha esquecido o David. Eu gostava do Jaime, mas enquanto houvesse uma lembrança dele, por mais pequena que fosse, eu nunca iria conseguir ser feliz.

 

  •  

O Jaime aproveitou um momento mais calmo para fazer um lanche. Tinha sido chamado de urgência ao hospital porque uma das suas pacientes estava envolvida num acidente de viação. E, enquanto o seu estado não estabilizasse ele não podia sair. E depois ainda havia toda a parte burocrática. Agora, que a senhora já estava medicada e sedada pensou em ir trincar qualquer coisa de fugida.  De repente lembrou-se que ainda não tinha avisado a Mel. Tirou o telemóvel do bolso e começou a escrever uma mensagem. Os seus pensamentos perdiam-se juntamente com as palavras. Estava tão absorvido pelos mesmo que nem reparou na rapariga que acabara de passar por ele.

- Dr. Jaime? – Ouviu. Levantou a cabeça e virou-se para ver quem era.

- É mesmo o senhor. Está lembrado de mim? De ontem da festa… Eu sou… bem, era a colega da Mel, Pat?

- Oh, sim… Claro! Como está?

- Vou ficar melhor se parar de me tratar por você. Afinal, ainda sou uma “criança”.

- Desculpe… Oh, desculpa! É o hábito. Mas, por aqui num dia destes?

- Vim visitar o meu avô. Ele é diabético e sofreu uma recaída.

- Oh, lamento. Espero que melhore rapidamente.

- Obrigado! O Dr. É tão simpático. E a Mel, como está?

- Bem…

- Ontem nem dei por terem saído.

- Pois, ontem… tivemos de sair mais cedo. A Mel sentiu-se mal, mas hoje já está melhor.

- Que bom. Por um momento pensei que tivessem saído mais cedo por causa… Bem, por causa do David.

- Do David? Está a falar do David Luiz?

- Sim. Eu entendo que o Jaime não se sinta ainda muito á vontade com a presença dele, afinal não foi assim há tanto tempo que eles terminaram e…

- Espere! Estás a dizer que a Mel e o David Luiz namoraram?

- Hum-hum! Oh, meu Deus! Acho que já falei de mais, não? Pela sua cara a Mel ainda não lhe tinha falado nada.

- realmente…

- Bom, com certeza que ela teve um bom motivo para esconder isso. Aliás, os dois namoravam escondidos. Acho que ele não devia querer que se soubesse que andava com uma empregada da “Catedral”. Eu avisei a Mel tantas vezes que isso não ia dar certo.  Mas o que é que se pode fazer? Uma mulher quando está apaixonada faz…loucuras.

- É…

- Bom, tenho de ir. O avô está á espera. Gostei de o ver. Ah, e por favor, não comente nada com a Mel sobre esta conversa. Eu tenho a certeza de que ela vai querer contar-lhe um dia… quando se sentir preparada.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 03:02

comentários:
Boa tarde,

Foi com imensa alegria que hoje ,quando aqui entrei , vi mais um capítulo desta tua fanfic que tanto admiro.
Espero que o meu comentário no último post tenha "contribuido" para tal, e lembra-te: estarei sempre cá a apoiar-te,e mesmo não te conhecendo sou tua seguidora assídua.
OBRIGADA e boas continuações de escrita fantásticas!
Maria João Rodrigues a 12 de Agosto de 2012 às 17:10

Olá!
Ainda bem que já voltaste a postar! Estava há tanto tempo à espera!
Adorei a continuação. Esta Pat é mesmo uma venenosa de todo o tipo... lol
Beijinhos!
Mary a 13 de Agosto de 2012 às 14:38

Oi eu queria muito ler a fic mas não consigo achar o capítulo 1 para começar a ler, poderia passar pra mim por favor?
Camila a 30 de Junho de 2014 às 02:43

Olá Camila. Infelizmente os primeiros capítulos, apesar de escritos por mim, não fui eu que os publiquei. Por isso não aparecem. Eu tenho-os guardados no PC, mas não tos consigo enviar por aqui. A única hipótese é se me enviares um endereço de e-mail válido e eu aí posso-tos enviar.

Você tem faceboook? Você poderia me enviar por lá. Se tem manda o link que eu te adiciono :))))
Camila a 22 de Julho de 2014 às 22:53

Meu email é: camilla_castoldd@yahoo.com.br poderia mandar ?? Por favor!! Obrigada!! :D
Camila a 23 de Julho de 2014 às 22:08

heey! também queria se possível os primeiros capítulos.. ou se pudesse mandar todos num arquivo pdf seria melhor.. pq acho melhor de ler do q em blogs!
meu email é melzinha1994@hotmail.com
obrigada!
Mel B. a 18 de Agosto de 2014 às 05:15

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D