05
Jan 11

A Ana, Inês, o Bruno e o Jaime esperavam-me cá fora, todos encolhidos mas com um sorriso de orelha a orelha. A noite estava gelada, típica do mês em que nos encontrávamos, mas felizmente não chovia. Assim que me viram a sair explodiram em histeria e gritos, braços no ar e pulos á minha volta. Só o Jaime se mantinha quieto, um pouco á distância. Era a primeira vez que estava no meio do grupo e dadas as actuais manifestações perguntei-me o que pensaria de tudo aquilo. Quanto a mim, tinha tentado recompor-me o melhor que podia, pois não queria demonstrar o tamanho do peso que me ia na alma depois do que se passara no corredor. “Adeus”, fora a última palavra que ouvira do David, e apesar de já estarmos separados há algum tempo, nunca tinha sentido tanto essa separação como naquele momento. O pessoal continuava eufórico á minha volta, e eu sorria. Será que mais alguém o tinha visto? Ou tudo não passaria de um sonho, uma alucinação da minha mente que agora se começava a perturbar ao dar-se conta da falta que ele me fazia?

- Parabéns! Disse-me o Jaime ao aproximar-se de mim.

- Obrigado! – Respondi meio tímida.

- Foste fantástica Mel! Já te estava a imaginar na Broadway.

- Não sejas parvo. O Bruno sempre teve muita imaginação.

- Vamos. Chegou a hora de comemorar.

Por muito que eu tentasse não conseguia acalmar os ânimos. O Jaime lá se ia rindo de vez em quando. Não fazia ideia do que ele estava a achar de tudo aquilo, e comecei a ficar um pouco envergonhada. Dirigimo-nos para os carros e sem estar á espera, este puxou-me pelo braço enquanto informava os restantes membros do grupinho;

- Se não se importam, a Mel vai comigo! Encontramo-nos no bar.

E sem esperar qualquer resposta arrastou-me com ele na direcção do seu carro.

- Espero que não te importes de vir comigo.

- Claro que não.

- Os teus amigos estavam um pouco… bem, na verdade estavam bastante entusiasmados. Vê-se que gostam muito de ti.

- Eu também gosto muito deles. São os melhores amigos que eu poderia pedir. Tenho muita sorte em tê-los sempre presentes na minha vida.

- Não é sorte. És tu, Mel. Ter amigos assim tem a ver com as pessoas. Tu és especial, e por isso as pessoas admiram-te e gostam de ti.

Olhava abismada para o Jaime, sem saber o que lhe responder. Ele percebeu.

- Não me olhes assim, não estou a dizer nenhuma mentira. Tu és mesmo uma pessoa única. E não deixes que ninguém te diga o contrário.

- Acho que todos somos únicos e especiais, cada um á sua maneira, claro. – Respondi, por fim.

- Vês? É essa tua ingenuidade, esse teu respeito por todos que te faz ser quem és. Não tenhas ilusões Mel. Infelizmente nem todos são assim tão magnânimos.

Seguimos o resto da viagem em silêncio. Estava a ser uma noite cheia de emoções, e eu começava a interrogar-me o que mais estaria reservado para mim nessa noite.

Eu e o Jaime fomos os últimos a chegar ao bar onde tínhamos combinado comemorar. Como ainda não tinha jantado, optei primeiro por pedir qualquer coisa que me restituísse minimamente as forças. Não devia passar tantas horas sem comer, mas no caso de ter uma recaída podia sempre contar com o meu médico de serviço. Sorri sozinha diante dos meus pensamentos, para no segundo seguinte esmorecer ao lembrar-me das palavras do David. A Ana e a Inês encontravam-se um pouco afastadas de mim. Por alguma razão pareciam querer dar-me espaço, por isso ainda não tivera tempo de pô-las a par do sucedido.

- Espero fazer parte dos teus pensamentos.

- O quê? – Disse, surpreendida.

- Estás tão longe daqui…

- Não estou nada! – Disfarcei.

- Ok, vou fingir que acredito.

Nessa altura o resto do pessoal aproximou-se e eu agradeci. Não estava preparada para mais investidas por parte do Jaime, por muito que me agradassem. Aproveitei o facto de estarmos todos juntos, e puxei-os para dançar. Precisava tirar os meus pensamentos do David, do beijo que me dera, da despedida… Tentei saborear ao máximo o facto de estar no meio de pessoas que me eram queridas, e que me queriam também. E depois o espectáculo havia sido um sucesso. Conseguira, apesar de tudo, desempenhar o meu papel na perfeição e isso era o grande acontecimento da noite. A minha primeira vitória!

  •   

Quando saímos do bar os primeiros raios de Sol já se começavam a sentir. Ia ser um dia de muito frio, mas o céu estava limpo. Mais uma vez foi o Jaime quem me levou até casa. Eu estava completamente de rastos, pronta a chegar a casa e ir direitinha para a cama. Pensava que ia ser simples, mas afinal… enganei-me.

- Chegámos! Já dormes?

- Quase. Mas acho que ainda aguento até a casa. – Disse em tom irónico.

- Mel, antes de ires, eu gostava… queria falar contigo.

“Falar comigo sobre o quê?”, pensei. “ E isto lá são horas de conversar?”

- Claro…

- Bom… Tu sabes que eu… enfim… eu gosto muito de ti. Acho que és uma pessoa fantástica.

“ Outra vez a mesma conversa de como sou especial…”

O Jaime continuou a falar e eu ouvia-o muito longe. Estava de tal forma dormente que nem conseguia dizer se mantinha os olhos abertos ou fechados. Só a última frase me chamou a atenção.

- … quero ser mais do que teu amigo.

As palavras proferidas pelo Jaime fizeram-me despertar e pela primeira vez desde que começara a falar, olhei-o directamente. Ele não hesitou e no momento seguinte tinha os seus lábios colados aos meus. A surpresa foi tal que não reagi. Ele viu isso como um sinal de aprovação e, o que deveria ser um beijo rápido, tornou-se num beijo mais longo e elaborado. Fechei os olhos e deixei-me ir. O meu último beijo tinha sido á apenas 12 horas atrás, e fora tão diferente deste como a noite é do dia. Não que o Jaime não soubesse beijar. Na verdade, o toque dos seus lábios era até muito agradável. Mas era… diferente. E as borboletas que sentia a bailar-me pelo estômago sempre que o David me beijava, não estavam lá. De repente dei comigo a recriminar-me por estar a pensar no David, em vez de estar a desfrutar o momento. O Jaime era um homem bastante atraente, bonito até. Qualquer outra rapariga iria sentir-se orgulhosa de ter um homem assim interessado nela. E eu, que era essa pessoa, o que fazia? Comparações estúpidas com outro que acabara de me dizer adeus.

Por fim, O Jaime afastou-se. “ Que beijo atribulado”. Vi pela sua expressão que esperava qualquer reacção da minha parte, mas fosse pelo sono que tinha ou simplesmente pelo choque que apanhara, não consegui articular palavra. Nem sequer o conseguia olhar directamente. Fiquei imóvel, e a única coisa que mexia eram as pálpebras, que abriam e fechavam com tal velocidade que pareciam estar a falar numa espécie de código.

- Mel? – A sua voz despertou-me.

- Hã?

- Diz alguma coisa.

- Eu… Tenho de ir. Obrigado por tudo. Gostei imenso. – E saí do carro o mais rápido que consegui, entrando em casa á mesma velocidade.

A Ana e a Inês preparavam-se para se deitar, quando ouviram o bater da porta.

- Ah, finalmente chegaste. Já nos começávamos a perguntar durante quanto tempo iriam ficar ali em baixo, parados.

- Miúda, que se passa? Estás com uma cara…

- É a única que tenho. – Respondi. – Ai, estou super cansada. Preciso de dormir um bocado e pôr as ideias no lugar.

- Acredito que essas ideias estejam mesmo desalinhadas. Depois da cena do David…

Detive-me e voltei-me para a Inês.

- Tu viste-o lá?

- Amiga, mesmo que eu não soubesse que ele ia, adivinhava. Aquela pausa interminável no inicio da segunda parte foi o quê? E depois os teus olhinhos não paravam senão lá ao fundo…

- Se sabias porque não me disseste?

- Porque não tinha a certeza se ele ia aparecer. O Ruben não me disse que sim nem que não. Não ia estar a massacrar-te sem saber ao certo.

Apeteceu-me tanto gritar com a Inês. Se me tivesse avisado eu iria estar preparada e nada daquilo teria acontecido. Que rica amiga! Mas o cansaço era mais que muito, e começava a sentir-me zonza. Optei por deixar o assunto assim mesmo e fui finalmente deitar-me.

  •   

Acordei por volta das duas horas da tarde. Tinha dores em todo o corpo e parecia ter levado uma valente pancada na cabeça. Os acontecimentos dessa noite pareciam distantes, surreais. Levantei-me, lavei a cara na esperança de que me despertasse, e fui até á sala. A Ana e a Inês já estavam acordadas, apesar de ainda estarem deitadas. Comiam torradas e eu aproximei-me e sentei-me no chão comendo também uma. Reparei então que sentia um ligeiro mal-estar por causa da fome, e aquela torrada soube-me melhor que um farto prato de comida. A Inês olhava para mim com cara de quem esperava qualquer coisa, mas optei por não voltar ao assunto anterior. Provavelmente até fora melhor ficar na ignorância. Saber que o David ia estar presente no teatro só teria contribuído para uma maior ansiedade da minha parte, e não sei se teria conseguido lidar com ela. Assim fui obrigada a reagir e as coisas acabaram por correr bem melhor.

- Então, estrela da Broadway, não tens nada para nos contar? – perguntou a Ana.

- Tenho! Tenho bastantes coisas para vos contar. – Respondi de boca cheia.

- Então…

- Então, vejamos. Depois da peça terminar, tive um encontro com o David no corredor. Ele beijou-me e a seguir disse-me adeus.

- Hã!? – Olhavam as duas para mim, surpreendidas.

- Depois, no carro do Jaime, este começou com uma conversa de que eu era especial e tal… e quando me deixou lá em baixo, beijou-me também.

Desta vez não emitiram nenhum som, mas a expressão manteve-se. Foi a Inês quem primeiro reagiu.

- Bem, tens de começar a moderar. O resto da malta também precisa de rapazes. Vê lá se deixas alguns para nós.

- Pois, - Concluiu a Ana, no mesmo tom. – Umas com tantos e outras sem nenhuns.

Agora era eu que olhava para elas, incrédula.

- Mas vocês sentem-se bem?

- Claro que não nos sentimos bem. Numa só noite és beijada por dois homens, e qual deles o melhor. E eu ando na fominha á… já lhe perdi a conta.

- Desculpa?

- Estamos a brincar contigo. Caramba Mel, já não entras no espírito da coisa. Costumavas ser mais divertida.

- E achas que tenho cabeça para diversões?

- Ora, não é assim tão mau. Olha, se queres a minha opinião, não é segredo para ninguém que o Doutor estava de olho em ti. E tu também gostas dele. Vocês têm passado muito tempo juntos, e isso tem tido um efeito muito bem em ti. Se estão os dois livres e descomprometidos, então qual é a dúvida vai em frente.

Continuei a mastigar a torrada, muito lentamente. Ouvira atentamente tudo o que a Inês me dissera e não me surpreendeu. Mas não me convenceu totalmente. Foi então a vez da Ana falar.

- Pois eu acho que sem amor não vale a pena tentar. O David disse-te adeus e eu não acredito que tu tenhas ficado sem sentir nada. Olha, eu concordo que o Jaime tem-te feito muito bem, mas tu não gostas dele. Não dessa maneira. Mas tu é que sabes. Se achas que pode dar certo, vai em frente.

O toque do meu telemóvel veio interromper a nossa reunião. Levantei-me para atender. Sem qualquer surpresa, era o Jaime. Retirei-me da sala e atendi a chamada no meu quarto. Esta era uma conversa que eu tinha de ter em privado.

Estive quase uma hora a falar com o Jaime. A Ana e a Inês esperavam-me, impacientes. Olhei-as directamente, primeiro muito séria… até não conseguir esconder mais, e sorri.

- Ele vem buscar-me para jantar.

 A explosão das duas foi imediata. Quanto a mim, fiquei encostada á parede, o telemóvel ainda na mão. Tentava convencer-me que tomara a decisão certa.

“Então porque raios não me sai da cabeça?”

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 00:46

comentários:
Adorei o capítulo!!!

Será que isto é uma reviravolta na história??? Será que é desta que a Mel vai ser feliz??

Continua… quero mais…

Beijocas
caty_silva a 5 de Janeiro de 2011 às 14:06

Que saudades que já tinha desta fic!
Adorei, continua! :)
Fabi a 5 de Janeiro de 2011 às 17:39

Adorei o capítulo!
Oh!!! Mas ela escolheu o Jaime...
E o David??
Ele é fofinho, lindo, amoroso e não fez nada de propósito...
Kiss
Mary a 5 de Janeiro de 2011 às 18:55

quero mais...

a mel tem que ficar com o David...

continua...

tou a adorar
branquinhosdoscachosdourados a 5 de Janeiro de 2011 às 21:59

Adorei o novo capitulo! Já tinhas saudades de um capitulo teu! Continua!
Beijinhos
Catia a 6 de Janeiro de 2011 às 20:42

Minha linda, que saudades eu tinha desta história, da tua escrita, da magia com que transmites as emoções...
Muitos Parabéns!
Espero que esteja tudo bem contigo!
Fico ansiosamente à espera de mais capítulos...
Beijinho grande*
BS a 11 de Janeiro de 2011 às 00:49

A Fanfic da Marie, que outrora estava a ser publicada no seguinte blog : www.david--luiz.blogspot.com , já se encontra online no blog " Baunilha & Chcolate".

Visita e deixa a tua opinião, não irás ficar indiferente :')

www.baunilha--chocolate.blogspot.com
Marie a 16 de Janeiro de 2011 às 12:20

Olá.

Eu queria saber se vais continuar a postar ou se encerras-te a fic, é que eu gosto mesmo da tua fic e se ela acabasse seria uma grande pena.

Fico á espera da respostas (;

Nii'i
fanficsomething a 17 de Janeiro de 2011 às 22:03

Olá a todas as leitoras!
Têm sido muitas a perguntarem se a fic continua ou se terminei. Como já disse, a fic vai até ao fim. Infelizmente o tempo que tenho para escrever é que não tem sido muito. Se tudo correr bem, espero terminá-la no final de Fevereiro. Peço desculpa mais uma vez pela demora de capítulos novos, mas se tiverem um pouco de paciência, eles vão chegar ;) Quanto a mim, faço o que posso e também lamento não conseguir postar mais rápido. Em breve terão um novo, prometo!
Mais uma vez obrigado pelo carinho e apoio.
Beijos
A Autora
sandra a 18 de Janeiro de 2011 às 00:12

olá! eu gostava de saber quando vais postar o proximo capítulo! sei que disseste que no final de fevereiro já acabavas a história mas como ainda nao publicaste nenhum resolvi perguntar! eu adoro a tua história e já estou com saudades de um noco capitulo!
beijinhos
Diana Ferreira a 30 de Março de 2011 às 17:19

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D