21
Mai 11

 

 

- Eu não sabia que você tava namorando.

- Eu também não sabia que tu e a Pat eram assim tão amigos.

David riu.

- Ela não é tão ruim assim…

Fiz um sorriso irónico.

- Claro que não é.

- Parece que tá com ciúmes.

- Eu? Ciúmes? Não sei do quê.

- De mim…

- Tu realmente deves-te achar o máximo, não? Deve ser bom viver no teu mundo.

- Você deve saber. Já viveu nele…

- E devia de estar era parva.

- É, devia mesmo. Mas por mim.

- És tão engraçado. Não sei porque é que ainda não estou a rebolar no chão de tanto rir.

Subitamente, tudo no David me começava a irritar e aquela conversa estava claramente a afectar-me.

- Está tudo bem aqui? - Pat aproximara-se de nós com dois copos na mão. – Desculpa Mel, não trouxe para ti. Queres que te vá buscar alguma coisa.

Semicerrei os olhos. Que diferente era aquela Pat que estava ali na minha frente. Mas não era por estar ao pé de mim, mas sim do David. Era tão óbvio. Como é que ele não via aquilo?

- Não, obrigado Patrícia. Servir as pessoas não é bem a tua vocação. Vou andando para perto dos meus.

E afastei-me. Não suportava a Pat, e cada vez se tornava mais evidente que começava a não suportar o David. Que raiva!

Quando o Jaime me viu chegar, reparou que algo não estava bem.

. Mel, Que se passa? Pareces agitada.

- Agitada, eu? Não! Porque é que eu havia de estar agitada?

- Aconteceu alguma coisa, sim. Eu já te conheço um bocadinho. Tu não tens jeito para mentir.

“ Bolas!”, pensei. “ Como é que tu estás num curso que te dá aulas de teatro, e depois não consegues disfarçar nada, Mel Andrade. Tenho de começar a praticar mais.”

- Não foi nada. Foi só um encontro desagradável. Prefiro não falar disso.

- Tudo bem, se não queres falar não falamos.

- Obrigado. A Inês está a chamar-me. Volto já.

Do outro lado da sala, a Inês levantava o seu braço e rodava-o várias vezes no ar para me chamar a atenção. O pior foi que chamou várias atenções…

- Que é isso Inês? Parece que estás a ter um ataque de qualquer natureza desconhecida.

- Estavas a falar com o David? O que é que ele te disse?

- Inês! Fazes-me atravessar a sala de uma ponta à outra só para matares a tua curiosidade?

- Claro. Depois da cena de há bocado achei que te ias estatelar ao comprido no chão se o David se aproximasse de ti outra vez, e no fim não aconteceu nada. Nem um desmaiozinho…

- Tu ias adorar que se desse aqui uma cena, não ias?

- Ai, só tu para me dares um pouco de emoção. A minha vidinha anda tão sem sal…

Rimos as duas. Realmente a festinha de noivado estava um bocado parada. Um pouco de emoção não ia fazer mal a ninguém… desde que não fosse eu a dá-la. Olhei em volta e vi o Jaime ainda de conversa com um dos seus colegas. Dei um suspiro e desejei que terminasse logo o assunto para podermos ir embora. Encostei-me ao balcão e observei os meus antigos colegas de trabalho numa azáfama que me era bastante familiar. Pus-me então a recordar os tempos em que trabalhava na “Catedral”. Apesar de tudo foram bons tempos, em que conheci pessoas incríveis e que me ajudaram muito. Subitamente fui invadida por um cansaço extremo e uma leve tontura que demorou apenas alguns segundos. Pensei que não estava no local indicado para ter mais uma crise e procurei pelo Jaime. Mal levantei a cabeça dei novamente de caras com o David que se encontrava do outro lado do bar, mesmo na minha direcção. Desviei imediatamente o olhar.

- Já viste quem está ali?

A voz da Inês pareceu-me distante e assim que me pôs os olhos em cima percebeu que algo não estava bem.

- Mel? O que é que tu tens?

- Acho que vou… Chama o Jaime…

- Oh, Meu Deus! Mel? Sabes que eu estava a brincar em relação a desmaiares, não sabes?

Tentei sorrir mas cada vez me sentia mais fraca. Não sei como ainda conseguia manter-me de pé. O chão começou a andar sem que eu me mexesse e tudo á minha volta girava cada vez mais depressa. A música, as vozes, tudo se misturava dentro da minha mente e eu não distinguia formas ou sons. Por fim deixei-me cair mas fui imediatamente amparada por alguém que me segurou por trás. Tentei levantar a cabeça mas não consegui. E também não precisei. Reconheci imediatamente os braços que me seguraram. Era o David. A Inês tinha-o chamado porque ele estava mais perto de mim. Ele agarrou-me pela cintura e, muito discretamente afastou-me do local. Eu tentava com todas as minhas forças manter-me acordada mas acabei por ceder. Foi então que ele me pegou ao colo.

  •  

David levou-me para dentro, seguido pela Inês.

- Vou chamar o Jaime.

David olhou para ela e assentiu. Eu continuava sem forças mas as tonturas tinham passado. Respirei fundo e endireitei-me o mais que consegui.

- Tu também podes voltar para dentro. – Disse. Não me sentia nada á vontade na presença dele.

- Eu não vou deixar você aqui sozinha. Fico até chegar ajuda.

- Mas não é preciso. E a Pat pode não gostar de saber que estás aqui comigo.

- Eu e a Pat somos só amigos. Já o Doutor…  esse sim, pode não gostar.

- E porque é que não haveria de gostar? Nunca lhe fizeste mal.

- Você sabe muito bem porquê ele pode não gostar de me ver aqui sozinho com você.

- Isso pertence ao passado. E além disso o Jaime não sabe …

Detive-me. O David não precisava de saber que eu não contara nada sobre nós. Isso era invadir um espaço que já não lhe dizia respeito. Infelizmente, parei a frase tarde demais.

- Você não contou a ele sobre nós?

- Eu também não te contei muita coisa a ti. Os meus ex, por exemplo…

- Mas eu pensei que você tivesse dito a ele… Tá com medo de alguma coisa?

- Não, não estou com medo de nada e sinceramente esta conversa não me agrada. Já estou melhor. Acho que vou eu á procura do Jaime.

Tentei levantar-me, mas tive novamente uma vertigem. Só não me estatelei ao comprido porque o David me amparou… mais uma vez.

“ Bolas outra vez!”

Quando olhei para cima a minha cara estava quase colada á dele. Os olhos dele estavam fixos em mim. E que olhos, Meu Deus. Era capaz de ficar horas a olhar para eles. Perdia-me completamente.

- Tá vendo no que dá você ser casmurra… mas continua linda.

Corei. Estremeci. Perdi o chão. A voz dele, o cheiro, o seu abraço forte. Estávamos tão perto que conseguia sentir o seu hálito. Há tanto tempo que não estava assim tão perto dele. Sem querer, comecei a tremer. Mas não porque me sentisse mal disposta ou doente. Porque o seu toque, a sua voz, ainda me afectavam. Não sei como, mas num segundo fechei os olhos e senti os seus lábios junto aos meus. Continuavam macios, quentes. Estremeci novamente e ele sentiu. Apertou-me mais nos seus braços e beijou-me. Senti-me levitar. Foi como se saísse do meu corpo e voasse com ele dali para fora. Foi como… Foi como fora sempre. Mágico! Surreal! Lindo!

Despertei ao ouvir as vozes que se aproximavam, e num impulso, empurrei o David e caí novamente. Quando O Jaime e a Inês entraram depararam comigo estendida no chão e o David debruçado, a tentar levantar-me.

- Mel! O que é que aconteceu?

Jaime correu para mim, e inconscientemente afastou o David. Este deu dois passos para trás e encostou-se á parede oposta, enquanto olhava para mim. Quanto a mim tentava disfarçar o meu embaraço, e pedia a Deus que conseguisse representar melhor do que há pouco.

- Foi só uma vertigem. Já passou.

- Não passou nada. Agora mesmo você quis se levantar e acabou se estatelando no chão.

Olhei para cima, para o David. Notava-se o seu constrangimento.

- Mel, não brinques com coisas sérias.

- Não estou a brincar. Já me sinto melhor.

- De qualquer forma é melhor eu levar-te a casa. Preciso de te medir a tensão e auscultar, e este não é o local indicado. Vamos.

Jaime ajudou-me a levantar e eu apoiei o meu braço á volta do seu pescoço. Dando meia volta, ficámos ambos virados para o David, e eu baixei a cabeça.

- Muito Obrigado por ter ajudado a Mel, David.

- Não foi nada de mais. Ela sabe que pode contar sempre comigo.

Fixei-o. Não sabia que dizer. Só queria sair dali. Acabara de beijar o homem que fora meu namorado, e estava agora agarrada ao meu actual… que situação. Podia esperar tudo menos terminar a noite assim. Ainda meio atarantada, segurei-me ao Jaime com a força que tinha e saímos finalmente, deixando o David e a Inês parados no meio do corredor a ver-nos desaparecer.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 14:06

13
Mai 11

 

Em meados de Fevereiro, numa noite em que acabara de actuar e quando me preparava para ir directo para casa, sou abordada por um homem moreno de olhos e cabelos escuros, alto, na casa dos seus trinta e muitos anos. A cara dele não me era estranha, e comprovei que era cliente habitual naquele bar. Veio ter comigo mal acabámos de tocar e disse-me que trabalhava na televisão e que procuravam gente com algum talento na área da música, e não só, para um novo programa televisivo. Deixou-me o seu cartão e disse-me que me esperava na próxima semana para uma audição. De início pensei que fosse alguma brincadeira. Podia lá ser uma pessoa ligada á televisão frequentar logo o bar onde eu tocava há 2 meses e reparar em mim. Pareceu-me uma história demasiado fantasiosa, daquelas que ouvimos dizer que aconteceu com esta ou aquela pessoa famosa, mas nunca achamos que vá acontecer connosco. Mas o João, um dos membros da banda já o conhecia e confirmou-me que era verdade. Olhei várias vezes o cartão que me dera, ainda incrédula e para me certificar de que realmente o tinha na mão, que não era ilusão nem sonho. Depois fiz um esforço enorme para me controlar até chegar ao Jipe e começar a pular de braços no ar. O mais provável era estar mais alguém no parque de estacionamento mas já nem pensei nisso. Só pensava na audição que iria fazer e que me poderia levar á televisão. Entrei finalmente no Jipe mas mantive-me sentada o tempo suficiente até as minhas pernas deixarem de tremer e eu achar que era seguro conduzir. Mal podia esperar para contar à Ana e à Inês. Elas iam pular tanto ou mais do que eu. Durante todo o caminho não parei de pensar. A atenção à estrada era mínima, mas naquele momento não conseguia concentrar-me em mais nada. Cheguei a passar um sinal vermelho e só mais tarde me apercebi do que tinha feito. Por sorte o transito não era muito, e carros da polícia também não. Pelo menos não encontrei nenhum até chegar a casa. A Ana estivera de folga nesse dia mas no seguinte teria de se levantar cedo, por isso já estava deitada à hora que entrei em casa. Espreitei e vi que já dormia. A minha ansiedade era tanta que pensei em acordá-la, mas decidi-me a não fazê-lo. De certeza que a Inês iria tomar o pequeno-almoço connosco como quase sempre fazia e, nessa altura aproveitava e contava logo a novidade às duas. Resolvi então ir dormir, tarefa que se tornou mais difícil do que eu esperava. A minha mente vagueava em mil e uma fantasias e já me via a actuar num espectáculo do La Féria, ou num filme português de cinema. De vez em quando voltava à realidade e fazia mais uma tentativa para adormecer, mas sem sucesso. Foi quando deixei de tentar que o sono veio e os sonhos de olhos abertos misturaram-se com os sonhos de olhos fechados…

Ao fim de pouco mais de duas horas acordei com o barulho das vozes da Ana e da Inês na cozinha. Levantei-me e parei no mesmo instante. Tinha a cabeça pesada, o corpo mole e sentia o cansaço apoderar-se de mim. Mas a ansiedade era tal que ignorei a vontade que o corpo tinha em voltar a deitar-se e levantei-me num ápice. Com a mesma ligeireza cheguei á cozinha e não consegui esconder um sorriso.

- Ah! Bom dia Mel! – A Inês aproximou-se e beijou-me a bochecha. – Que cara é essa? Espera não me digas, eu adivinho. Tiveste uma noite de amor selvagem com o teu doutor pessoal…

- Hã? – Interroguei. – Mas será possível que a para ti tudo se resuma a sexo?

- É inevitável, que queres que te diga. Eu, com um sorriso desses, é porque alguém me fez a mulher mais feliz do mundo.

- Pois, mas a mim alguém me fez feliz e não precisou de ir tão longe.

- Vá, conta lá quem foi que nós estamos atrasadas. – Retorquiu a Ana.

- Foi… um produtor de televisão.

-????

- Então agora andas metida com gente dessa. E o Doutor? Caramba Mel que tu não fazes a coisa por menos. Ele é jogadores de futebol, Médicos e agora produtores… Decide-te de uma vez rapariga.

- Inês, importas-te de me ouvir até ao fim, sem gracinhas?

Esta acenou com a cabeça enquanto bebia uma chávena de café com leite.

- Ontem á noite foi ter comigo um tipo que trabalha em televisão. Acho que vai estrear um programa novo e eles precisam de pessoal que cante e dance. Deu-me o cartão dele e disse-me para eu lhe ligar e marcar uma audição.

Tal como eu esperava as duas desataram aos berros e pulos por toda a casa. Eu tentava acalma-las, mas em vão.

- É só uma audição, ainda não estou lá.

- Oh rapariga, e tens dúvidas que te escolham? Tu sabes que eles vão buscar essas pessoas a agências, ou profissionais do ramo. Se ele foi ter contigo é porque ficou impressionado, porque gostou do que ouviu. É como se já lá tivesses.

- Eu já pensei nisso, mas prefiro fazer a festa depois… quando lá estiver.

- E o Jaime? Já lhe contaste a novidade?

- Não. Na verdade ainda nem tinha pensado nele. Foi tudo tão rápido que eu só pensava chegar a casa e contar-vos…

- Ele vai ficar radiante também. Devias contar-lhe o quanto antes.

- Hum, não sei. Acho que vou á tal audição primeiro e depois… faço-lhe uma surpresa.

- Isso quer dizer que acreditas que vais ser escolhida?

- Isso quer dizer que prefiro contar ao Jaime depois… independentemente do resultado.

 

  •                                                                                

Dois dias depois de ter ligado ao Sr. Francisco Nobre, como se chamava o tal produtor, apresentei-me numa produtora de televisão para fazer a tão ansiada audição. Era a primeira vez que fazia tal coisa e estava completamente às escuras sobre o que me seria pedido para fazer. Comecei por fazer um teste de câmara onde disse o meu nome, idade, etc, e fiz várias poses e sorrisos conforme o que me iam pedindo. Depois pediram-me que cantasse algo em português e inglês, fiz alguns passes de dança e por fim uma pequena entrevista onde entreguei também o meu currículo. Todos foram extremamente simpáticos, mas saí sem saber a resposta à minha prestação. Felizmente, não tive de esperar muito para saber que tinha conseguido o lugar e nessa noite mesmo contei ao Jaime a minha nova actividade artística, durante um jantar organizado pelos meus sempre leais amigos. A Ana cozinhou, a Inês levou sobremesa, o Jaime o vinho para brindarmos e o Bruno levou a sua boa disposição.

- Nunca pensei vir a ser amigo íntimo de uma estrela de TV!

- Oh Bruno, amigo não me importo que sejas, agora íntimo…

O Bruno corou quando todos rimos do comentário do Jaime.

- Por enquanto não é nada demais. Mas temos de começar por algum lado. – Disse.

- Exacto! Só espero que não te suba a fama à cabeça, como acontece a uns e outros.

- Não sejas parva Inês.

- Acho que não tens de te preocupar com isso. – Respondeu o Jaime. – A Mel é a pessoa mais doce e generosa que eu conheço. – E beijou-me suavemente os lábios. – A propósito, tenho um convite para te fazer.

- A mim? – Perguntei, surpreendida.

- Sim. Na próxima semana vai haver uma festa… vocês já devem ter ouvido falar. Afinal trabalham na “ Catedral”. Vai ser uma festa benfiquista no…

Levantei a cabeça mal ouvi a palavra benfiquista. Deduzi que nada de bom viria por aí, e não me enganei. O Jaime continuou sem dar pela minha reacção, mas vi que todos os outros olhavam directamente para mim.

- … e o pai dele foi colega do meu pai, aqui em Lisboa. O rapaz trabalha num departamento qualquer da SAD e resolveu fazer ali a festa de noivado. Enfim, há gostos para tudo.

- Desculpa, - consegui dizer por fim. – Não percebi qual a tua ligação a tudo isto.

- A minha ligação é que sou filho de um homem cem por cento benfiquista, amigo pessoal do Filipe Vieira e que me fez sócio muito antes de eu saber o que era futebol. E o rapaz que vai casar é filho de um médico que trabalhou com o meu pai e que anda a convidar meio mundo para a festa. Normalmente não ligo muito a estas coisas, mas sei que tu gostas muito de futebol e os teus amigos trabalham lá. Então aceitei o convite em nome de nós os dois. – Neste momento o Jaime fez uma pausa e olhou confuso para todos os presentes à mesa. – Fiz mal?

Tentei disfarçar o meu constrangimento e respondi o mais animada que pude.

- Nã-não! Claro que não Jaime. Eu só não sei se posso ir, o trabalho…

- Vai ser no próximo sábado e tu estás de folga esse dia. Foi a primeira coisa que fiz antes de aceitar, confirmei no calendário.

“Claro!”, pensei, “ O Jaime é a pessoa mais organizada que eu conheço. Ele nunca iria confirmar uma coisa se visse que tinha já outro compromisso.”

- Então… acho que não há problema. Vamos…

Escusado será dizer que não me consegui abstrair da bendita festa o resto da noite. Para além das pessoas que não queria encontrar, ainda ia voltar ao malfadado Bar onde se dera a maior vergonha da minha vida.

Depois do jantar a Inês alongou a sua estadia mais tempo e eu agradeci. Ela lia os meus pensamentos. Assim que fechei a porta ao Jaime e ao Bruno interroguei-as.

- Vocês sabiam disto?

- Claro que sabíamos, Mel. Somos nós, p´ra variar, que vamos servir.

- Não dissemos nada porque nunca imaginámos que o Jaime conhecesse o noivo, e muito menos que fosse convidado.

Eu andava de um lado para o outro a tentar organizar as ideias.

- E agora? O que é que eu faço?

- Ora Mel, também não precisas de ficar assim. Não é o fim do mundo.

- A Ana tem razão. Além disso, nesse tipo de eventos os jogadores raramente aparecem, por isso não me parece que corras o risco de encontrar… pessoas que não queiras encontrar.

Parei e olhei directamente a Inês. Esperava sinceramente que ela tivesse razão.

 

  •  

A semana passou rápido demais. Eu desejava ter uma crise e ficar doente nesse dia, mas infelizmente isso não aconteceu. Sábado ao inicio da noite, o Jaime parou o seu carro á porta da minha casa, apitou, eu desci as escadas a meio a tremer e entrei no carro. O Jaime parou um momento a olhar-me.

- O que foi? – Perguntei.

- Cada vez te acho mais linda.

E beijou-me.

- Mel, estás a tremer?

- Tenho um pouco de frio, mas já passa.

O Jaime arrancou e foi num instante que chegámos ao local do evento. Saí do carro e olhei a entrada do Bar. Nunca mais tinha lá voltado, e já se tinham passado alguns meses desde a noite em que saíra a correr dali. Mas parecia que tinha sido apenas ontem. A mágoa que a lembrança me trazia era ainda muito forte. A ferida continuava aberta e ardia… muito. Lá dentro a decoração estava diferente devido á natureza do festejo. Mas o resto mantinha-se igual. Olhei em volta e reconheci alguns membros da direcção, mas tirando o Nuno Gomes e a esposa não vi mais jogadores. Respirei aliviada mas ainda não totalmente tranquila. Afinal, a noite só estava a começar.

O Jaime apresentou-me aos noivos e a outras pessoas suas conhecidas. Foram todos muito simpáticos mas curiosamente achava que ele não se enquadrava ali, no meio deles. É claro que eu sempre que podia esquivava-me até junto dos “meus”. Começava a ficar farta de só ouvir falar em medicina de um lado, e preparativos de casamento do outro. O Bar começava a ficar mais cheio, as pessoas não paravam de chegar. Felizmente a certa altura convenci-me de que não iria encontrar mesmo o David e consegui abstrair-me a ponto de esquecer essa minha preocupação.

- É impressão minha ou estás a divertir-te? – Perguntou-me a Ana.

- Não, estou mesmo a divertir-me. É uma pena o local mas, o que é que se pode fazer?

- Eu disse-te que ele não vinha.

- Pois foi, disseste.

- Andas-te a martirizar-te à toa toda a semana. O David não…

Ao mesmo tempo que a Inês se calou, ouvi uma voz tão bem conhecida atrás de mim.

- Melzinha? Estou a sonhar ou és mesmo tu?

A voz da Pat era inconfundível. Virei-me com cara de muito poucos amigos.

- Patrícia! Sou eu mesma, mas se quiseres podes fingir que estás a sonhar.

Preparava-me para lhe virar costas mas nesse momento chegou o Jaime.

- Ah, aqui estás tu. Já pensava que me tinhas deixado aqui sozinho…

- Dr. Jaime? – Perguntou a Pat.

- Sim? – Respondeu o Jaime.

- Oh, mas que prazer imenso em conhecê-lo. Patrícia Rebocho. Sou filha do engenheiro Rebocho que operou á 2 anos atrás.

- Claro, o engenheiro Rebocho. E como está ele?

Parada ao lado do Jaime, olhava incrédula para um e para outro á medida que iam falando. Mas como é que eu tinha mais uma vez esta cobra no meio da minha vida pessoal?

- E estou a ver que conhece a nossa Mel.

- A Mel? Vocês também se conhecem?

- Se nos conhecemos? A Mel era uma das empregadas na “Catedral”, até á bem pouco tempo. Ah, e fez parte da claque feminina também. Nós éramos um tanto… chegadas.

“ Chegadas?”, pensei. A única maneira de me chegar à Pat era quando a minha mão fosse na direcção da sua cara. Mais chegado do que isso, impossível. “ Esta gaja tem cá uma lata!”

- A sério? Nunca me contaste nada disso, Mel!

- A Mel é muito tímida. Mas e vocês, como é que se conhecessem?

- Nós temos de… - tentei fugir da questão, mas sem sucesso. O Jaime foi mais rápido que eu a responder.

- A Mel é minha paciente… e não só. – Disse, agarrando-me pela cintura.

A cara da Pat abriu-se num sorriso que tinha tanto de grande como de falso.

- A sério? Mas… isso é fantástico. Parabéns Mel. Tu mereces.

Esbocei o que me pareceu ser um sorriso e baixei a cabeça. Já não adiantava nada querer sair dali por isso o melhor era fixar um ponto no chão e esperar que um deles se cala-se e se afasta-se.

- Fico mesmo muito feliz por vocês. Ah, cá estás tu. Dr. Jaime, não sei se já conhece o… David!

Não demorei um segundo a levantar a cabeça mal ouvi o nome do David. Encarei directamente com ele. Os caracóis, os olhos esverdeados, o mesmo sorriso, tudo. Era mesmo ele ali, na minha frente. E ele fixou o seu olhar em mim também. Gelei! “ E agora?”, pensei.

- Oi, prazer! David Luiz! – Disse, enquanto estendia a mão ao Jaime. Depois virou-se novamente para mim. – Tudo bem Mel?

Abri e fechei a boca várias vezes. Eu queria falar mas o som não saía. Era como se nada me obedecesse mais. Nesse momento a Pat aproximou-se mais do David e abraçou o seu braço.

- Imagina o que eu descobri? A Mel e o Dr. Jaime estão juntos! Não é maravilhoso?

A expressão do David manteve-se inalterada. Já eu fazia uma força sobre-humana para me aguentar de pé. O meu coração batia a mil á hora e eu tinha a sensação de que todos naquela sala o conseguiam ouvir. Principalmente o Jaime.  Esquecera-me completamente da Ana e da Inês que se mantinham ao meu lado, tão assombradas quanto eu. E foi a Inês que me salvou daquela situação.

- Mel, acho que o Jorge queria ver-te. Estou a vê-lo a fazer sinais. Com licença.

E, agarrando-me por um braço afastou-me do David e do Jaime.

- Amiga, reage. Mais um minuto e o Jaime ia pensar que estavas a ter um ataque de qualquer espécie.

- Tu disseste-me que o David não vinha a este tipo de festas.

- E não vem. Deve ter sido a Pat que o convenceu, aquela caça fortunas. Mel, desculpa. Se eu soubesse…

- Tu não tens culpa. Eu sabia que era um risco vir aqui. Eu é que não devia ter vindo.

- Mas vieste. E agora nada de fraquejar. Não dês esse gostinho à Pat.  Eu tenho de ir trabalhar. Ficas bem?

Abanei a cabeça que sim. O Jaime veio ter comigo pouco depois.

- Nunca me tinhas dito que conhecias o David Luiz. É bem alto o rapaz.

- Hum-hum!

- Essa cara não me engana. Estás aborrecida com alguma coisa.

- Não.

- Mel… eu sei que estas pessoas não te dizem muito. Prometo que já não demoramos muito mais.

Sorri. Mal podia esperar por chegar essa hora.

- Ah, o Faria está a chamar-me. Vens?

- Se não te importas vou ficar por aqui.

- Ok. Não demoro.

Encostei-me a um canto meio escondida. Olhei em volta mas nem sinal da Pat ou do David. Melhor assim. Ainda não me tinha recomposto do inesperado encontro. Sentia as pernas sem forças, a garganta seca. Do outro lado da sala avistei o Jaime que conversava animadamente com um colega. Atrás do balcão a Ana tentava atender todos os pedidos com boa cara. Se bem a conhecia devia ter vontade de gritar com todos eles. Sorri. De repente senti alguém ao meu lado e virei-me imediatamente. Olhei para cima e no alto do seu quase metro e noventa reconheci o David. Tinha o mesmo ar afável de sempre, e foi no mesmo tom que me falou.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 21:01

19
Abr 11

 

Queria pedir a todos os seguidores desta Fan fic desculpas pelo tempo imenso que estive sem postar. Juro-vos que não tenho tido tempo nenhum. Mas, tal como já disse, a Fic continua até ao fim. Obrigado pela vossa paciência e lealdade á história. E agora, Divirtam-se com este novo capítulo.

 

 

 

 

 

 

O Natal e o Ano Novo foram passados de forma discreta. Tal como o início da minha relação com o Jaime. Ele, seguindo uma tradição familiar, passou as festividades natalícias em Coimbra, perto da família. Já o Ano Novo passou no hospital, de serviço. Quanto a mim, o meu Natal foi passado em casa da Inês, com alguns familiares e amigos, uma vez que a Ana regressou a casa para passar algum tempo com os seus familiares. Já o Ano Novo, optei por não sair de casa, e á meia-noite abria uma garrafa de champanhe com os meus amigos de um lado e o Jaime no telemóvel, do outro. Tudo bastante calmo… Este começo deu-me alguma segurança e tranquilidade – algo que nunca senti na minha relação com o David – e a pouco e pouco fui-me apercebendo do quanto gostava da companhia do Jaime. Ele fazia-me bem, em todos os aspectos. Fazia-me rir, sentia-me bonita e inteligente perto dele. Levava-me a sítios aos quais eu fazia cara feia, e surpreendentemente dava por mim a adorar o tempo que ali passava. E como o tempo voava… Era também uma pessoa muito culta e interessante. Conseguia estar horas a ouvi-lo. É certo que também passava muito tempo a conversar com o David, mas eram assuntos totalmente diferentes. O Jaime era mais sério, mas misteriosamente achava que essa seriedade lhe dava um certo charme. Principalmente quando punha os óculos para me ler alguma citação de alguma revista sobre medicina. Aí não conseguia resistir e poucas vezes consegui controlar uma gargalhada. Ele percebeu qual o efeito que me provocava desde a primeira vez que o fez, e acho que começou a fazê-lo propositadamente, só para me fazer rir. E entendia-me. Parecia ler-me de uma ponta á outra.

Certa noite levou-me a jantar num desses restaurantes em que nunca pensei entrar. Inicialmente não me senti nada á vontade, mas o Jaime reservara para nós uma mesa bastante acolhedora, num cantinho longe dos olhares mais curiosos. Quanto á ementa, resolvi deixar a cargo de quem já era conhecedor. Não me arrependi. Mais uma vez, ele adivinhou que eu seria bem esquisita a uma opção de jantar mais arrojada, e decidiu-se por algo mais simples, mas delicioso. Prometia ser mais um serão agradável quando de repente, dei por mim a olhar pela janela. Ao fundo via-se o Mar, e sem saber como fui transportada para o restaurante á beira-mar onde o David me levara apenas uns meses antes para celebrarmos o nosso primeiro mês de namoro. Essa noite fora mágica. Nunca ninguém me tinha feito tal surpresa, e apesar de não ser uma pessoa melosa a verdade é que adorei tudo quanto o David tinha preparado para mim. Desde o caminho de rosas ao jantar no restaurante, reservado só para nós nessa noite. Infelizmente, fora também nessa noite que tudo começara com a chegada da Carolina. O que adivinhava ser mais uma noite fantástica acabou de forma repentina e com uma sensação de agonia no peito. Fora o princípio do fim…

- Mel? Estás a ouvir?

- Hã?...

- Está tudo bem?

- Sim, porque é que não haveria de estar?

- Não sei. De repente ficaste distante… Bem distante.

- Desculpa, estava só… a pensar nos exames que aí vêm.

- Hum, a sério? Pensava que já tinhas passado essa fase.

- Qual fase?

- A dos exames! Tu não estás mesmo cá, pois não? Mel?...

Fixei os olhos na mesa. Não gostava de mentir ao Jaime, mas também não queria contar porque motivo ficara distante. Não ia parecer nada bem contar ao meu namorado que estava a pensar no meu ex…

- Desculpa! É algo pessoal, eu prefiro não falar disso, se não te importas….

- Tudo bem. Mas promete que vais manter-te aqui comigo.

Sorri.

- Prometo!

E cumpri a minha promessa. Tudo aquilo já tinha passado. Desde a noite do espectáculo nunca mais vira o David. Lá em casa esse assunto também já não era mencionado. Cada um seguira com a sua vida. Para quê relembrar algo que me magoava profundamente? Sentia-me bem com o Jaime. Para quê estragar tudo?

O jantar correu maravilhosamente bem. Consegui esquecer o assunto “David” e diverti-me imenso. Era o que mais gostava no Jaime. Conseguia sempre pôr-me bem disposta, com um astral e humor em alta. Quando saímos do restaurante demos umas voltas de carro por Lisboa. Levou-me a sítios por onde ainda não tinha passado e dei conta que estava quase há um ano naquela cidade e ainda não conhecia nem metade. Todo o meu trajecto se resumia a casa, faculdade, trabalho. Primeiro para o estádio da Luz, agora para o bar onde actuava algumas vezes por semana. Ah, e é claro, de vez em quando fazia um desvio até ao hospital ou até á casa do Jaime. Mas fora isso, conhecia muito pouco da Capital. Finalmente parámos em frente á casa do Jaime. Ele morava num prédio perto do Hospital que pertencia a um amigo que estava fora do País. Era um daqueles médicos sem fronteiras. Era bem simpática a casa dele. Via-se que ali morava um homem, médico ainda por cima. Mas mesmo assim estava sempre tudo muito bem organizado e a decoração era bastante acolhedora. Tinha uma mistura de culturas interessante, visto que o dono sempre que vinha a casa fazia questão de trazer algo do sítio onde estivera. Parece-me que a única peça de mobília que realmente pertencia ao Jaime era um cadeirão antigo, que pertencera ao seu avô, e era onde ele gostava de se encostar a ler os seus artigos ou a estudar casos de doentes mais complicados. Já tinha lido o meu processo todo do princípio ao fim, contara-me ele. Aliás, foi naquele cadeirão que tomou conhecimento do meu caso e isso tornou-o ainda mais especial. O Jaime gostava de me fazer sentir especial, e eu gostava quando ele o fazia. Naquela noite, não sei bem porquê, mas ele parecia mais concentrado em mim. Olhava-me de maneira diferente, atento a todos os meus movimentos como se me quisesse ler o que me ia na alma. Pensei que seria por causa do meu momento de distância ao jantar, mas em breve percebi que não era isso. Aproveitando um momento de distracção, surgiu por trás de mim e agarrando-me forte pela cintura puxou-me para ele. Foi tal a intensidade com que me puxou que me desequilibrei e agarrei-me a ele com força. Acho que interpretou isso como um qualquer sinal e beijou-me apaixonadamente. Nunca antes me tinha beijado assim, desesperado, quase em fúria. Tentei afastá-lo um momento e respirar, mas a minha resistência só fez com que me segurasse com mais força ainda. Desisti de o fazer e resolvi esperar que parasse. Mas não parou. As suas mãos começaram a estar em todo o lado. Depois segurou-me pelo pescoço e beijando-me o mesmo desceu até ao início do meu ombro e tentou puxar a manga para baixo. Começava a sentir-me desconfortável com tudo aquilo, principalmente porque percebera finalmente o que ele esperava que acontecesse nessa noite. Discretamente, tentei desprender-me e meter uma qualquer conversa.

- Aquele quadro é novo? – Perguntei, olhando na direcção da parede onde estava pendurado uma pintura que nunca tinha visto. Ou pensava eu nunca ter visto.

- O quê? – Perguntou o Jaime meio atarantado, como se tivesse acabado de acordar.

- O quadro? Nunca o tinha visto ali.

- Mel, aquele quadro está ali há bastante tempo.

- Ah! Nunca tinha reparado. – Respondi, corando.

Nesta altura o Jaime aproximou-se de novo e instintivamente eu afastei-me. Preparava-me para iniciar outro assunto, já que o do quadro me saiu furado mas ele percebeu.

- Mel, o que é que se passa?

- Nada! – Respondi imediatamente.

Ele pegou-me na mão e conduziu-me até ao sofá. Sentámo-nos os dois.

- Mel, eu preciso que sejas sincera comigo. Que se passa?

- Nada, só estou um bocado cansada.

- Não, não é isso. Há pouco no restaurante ficaste distante, melancólica. E sempre que eu tento aproximar-me mais de ti tu foges.

- Jaime, eu…

- Mel, existe outra pessoa?

- Desculpa? Claro que não.

- Mas já existiu, certo? E aposto que até há bem pouco tempo.

Os olhos de Jaime pousavam calmamente em mim, numa expressão que me tentava confortar mais do que pressionar. Decidi que não valia a pena esconder nem mentir. Afinal toda a gente tem relações que nem sempre terminam bem.

- Houve uma pessoa. Nós terminámos há quase dois meses, e não temos qualquer tipo de contacto. O que se passou é que as coisas não correram muito bem e…

- Ele magoou-te?

Hesitei.

- Bastante. A nossa situação era complicada. Ele tem uma vida muito agitada, vivemos em mundos completamente diferentes.

- Hum! Será que eu o conheço?

Aqui perdi-me um bocado. É claro que ele o devia conhecer, nem que fosse da televisão. Toda a gente conhecia os jogadores do desporto mais popular deste País.

- Não, - Respondi! – não me parece.

- Esse assunto ainda te perturba…

- Um pouco. Mas ao pé de ti eu sinto-me bem. Bastante, até. Eu sei que ando um bocado esquiva, mas prometo que vai passar. Só preciso de algum tempo. Prefiro ir com calma, entendes?

Jaime beijou-me a mão e apertou-a contra o peito.

- Claro. Não se fala mais no assunto. A última coisa que quero é pressionar-te. Avançamos quando estiveres pronta. E eu vou estar aqui e espero o tempo que for preciso.

Aquela conversa tranquilizou-me bastante. Mais uma vez o Jaime mostrara-me o grande homem que era, e fiquei feliz por tê-lo a meu lado. Depois disso levou-me a casa.

 

 

  •    

- Que cena Mel! O Jaime deve ter ficado para morrer. Coitado…

- Não! O Jaime é uma pessoa muito compreensiva. Ele percebeu que eu ainda não estou preparada.

- Oh Mel, por favor! Essa tua ingenuidade às vezes faz-me aflição. – Inês levantou-se e começou a andar de um lado para o outro. – é claro que ele tem de fazer o papel de namorado compreensivo e paciente, mas no fundo ficou magoado. É homem. Os homens não gostam quando lhe negamos alguma coisa, muito menos sexo. E não é parvo. Ele já percebeu que é por causa de outro que tu não queres seguir em frente.

- Não é nada disso, Inês. Eu só não me sinto preparada, é só. Mas um dia destes vai acontecer.

- Ai vai? Quando?

- Sei lá! Essas coisas não se programam. Acontece quando tiver de acontecer.

- Tal como aconteceu com o David?

A Ana empalideceu ao olhar para a Inês. O assunto “David” era quase um assunto tabu naquela casa. Eu própria fui apanhada de surpresa.

- Isso foi diferente. –  respondi baixinho, de olhos no chão.

- Diferente porquê? Porque tu gostavas dele?

- Eu também gosto do Jaime.

- Talvez… mas não como gostavas do David.

- Inês… - A Ana tentava fazer sinal á Inês para esta acabar com o assunto, mas ela não seria a Inês se não dissesse tudo o que tinha a dizer.

- Olha Mel, tu desculpa lá mas eu acho que isto já está um bocadinho avançado demais. Tu não gostas do Jaime, admite. Se gostasses não tinhas tantos problemas em ires p´ra cama com ele. Com o David não tiveste metade das dúvidas que tens agora, e vocês ainda nem namoravam. Bastou passarem uma noite juntos e… Pimba! Aconteceu. Tu e o Jaime estão juntos há quase um mês e ainda não houve nada mais para além de uns beijinhos e amassos. Agora imagina como é que o teu doutorzinho se sente.

- É precisamente por isso que eu quero esperar mais um tempo. Com o David foi tudo tão rápido que acabou da maneira que acabou. Desta vez eu quero que as coisas corram bem. E não vou cometer o mesmo erro duas vezes. Isso não quer dizer que não goste do Jaime, pelo contrário. Se não gostasse não estava tão empenhada em fazer a coisa certa.

- Isso não é amor, Mel! Isso é medo, é insegurança. Tu dizes que não queres cometer o mesmo erro duas vezes, mas é isso mesmo que estás a fazer. Deixaste o David ir embora porque tiveste medo do que sentias por ele, e do que ele sentia por ti. Estás com o Jaime porque te é confortável, é previsível. Sabes o que podes esperar dali e isso é-te conveniente. Isso não é amor. É egoísmo.

- Então agora sou egoísta? Tem piada Inês… para quem achava que eu tinha toda a razão em dispensar o David, agora defende-lo com tanta convicção…

- Em castigar o David, sim. Não em dispensá-lo. Isso só aconteceu porque ele disse-te o que sentia por ti, e tu não aguentaste.

- Ele disse-o por pena. Se realmente gostasse de mim não tinha feito o que fez.

Levantei-me do sofá e dirigi-me para o meu quarto. Pressentia que a conversa ia azedar me breve, e era a última coisa que queria era terminar a noite chateada com a Inês. Já bastara a situação toda com o Jaime.

- Vou-me deitar. Estou cansada. Até amanhã!

Ouvi a Inês ainda dizer “ Foge! Tu és boa nisso, a fugir às verdades!”.

Entrei no meu quarto e fechei a porta com toda a força que tinha. Estava irritada, mas não com a Inês. Estava irritada comigo mesma, porque no fundo sabia que a Inês tinha razão. Eu passava a vida a fugir. Fugi da minha cidade para uma outra desconhecida. Fugi do David o tempo que consegui até finalmente ceder e iniciar uma relação com ele. E fugi quando as coisas deram para o torto. Não enfrentei as adversidades, as diferenças. Preferi ignorar e por causa disso perdera-o. Agora fugia do Jaime porque tinha medo do próximo passo da nossa relação. Mas eu gostava dele. Sentia-o. Não da maneira como gostara do David, mas ainda assim achava que era suficiente. Por outro lado as dúvidas envolviam-me a cada instante. Se o que sentia pelo David era tão forte e não fora suficiente para as coisas darem certo, então como era possível darem certo com o Jaime?

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 20:49

05
Jan 11

A Ana, Inês, o Bruno e o Jaime esperavam-me cá fora, todos encolhidos mas com um sorriso de orelha a orelha. A noite estava gelada, típica do mês em que nos encontrávamos, mas felizmente não chovia. Assim que me viram a sair explodiram em histeria e gritos, braços no ar e pulos á minha volta. Só o Jaime se mantinha quieto, um pouco á distância. Era a primeira vez que estava no meio do grupo e dadas as actuais manifestações perguntei-me o que pensaria de tudo aquilo. Quanto a mim, tinha tentado recompor-me o melhor que podia, pois não queria demonstrar o tamanho do peso que me ia na alma depois do que se passara no corredor. “Adeus”, fora a última palavra que ouvira do David, e apesar de já estarmos separados há algum tempo, nunca tinha sentido tanto essa separação como naquele momento. O pessoal continuava eufórico á minha volta, e eu sorria. Será que mais alguém o tinha visto? Ou tudo não passaria de um sonho, uma alucinação da minha mente que agora se começava a perturbar ao dar-se conta da falta que ele me fazia?

- Parabéns! Disse-me o Jaime ao aproximar-se de mim.

- Obrigado! – Respondi meio tímida.

- Foste fantástica Mel! Já te estava a imaginar na Broadway.

- Não sejas parvo. O Bruno sempre teve muita imaginação.

- Vamos. Chegou a hora de comemorar.

Por muito que eu tentasse não conseguia acalmar os ânimos. O Jaime lá se ia rindo de vez em quando. Não fazia ideia do que ele estava a achar de tudo aquilo, e comecei a ficar um pouco envergonhada. Dirigimo-nos para os carros e sem estar á espera, este puxou-me pelo braço enquanto informava os restantes membros do grupinho;

- Se não se importam, a Mel vai comigo! Encontramo-nos no bar.

E sem esperar qualquer resposta arrastou-me com ele na direcção do seu carro.

- Espero que não te importes de vir comigo.

- Claro que não.

- Os teus amigos estavam um pouco… bem, na verdade estavam bastante entusiasmados. Vê-se que gostam muito de ti.

- Eu também gosto muito deles. São os melhores amigos que eu poderia pedir. Tenho muita sorte em tê-los sempre presentes na minha vida.

- Não é sorte. És tu, Mel. Ter amigos assim tem a ver com as pessoas. Tu és especial, e por isso as pessoas admiram-te e gostam de ti.

Olhava abismada para o Jaime, sem saber o que lhe responder. Ele percebeu.

- Não me olhes assim, não estou a dizer nenhuma mentira. Tu és mesmo uma pessoa única. E não deixes que ninguém te diga o contrário.

- Acho que todos somos únicos e especiais, cada um á sua maneira, claro. – Respondi, por fim.

- Vês? É essa tua ingenuidade, esse teu respeito por todos que te faz ser quem és. Não tenhas ilusões Mel. Infelizmente nem todos são assim tão magnânimos.

Seguimos o resto da viagem em silêncio. Estava a ser uma noite cheia de emoções, e eu começava a interrogar-me o que mais estaria reservado para mim nessa noite.

Eu e o Jaime fomos os últimos a chegar ao bar onde tínhamos combinado comemorar. Como ainda não tinha jantado, optei primeiro por pedir qualquer coisa que me restituísse minimamente as forças. Não devia passar tantas horas sem comer, mas no caso de ter uma recaída podia sempre contar com o meu médico de serviço. Sorri sozinha diante dos meus pensamentos, para no segundo seguinte esmorecer ao lembrar-me das palavras do David. A Ana e a Inês encontravam-se um pouco afastadas de mim. Por alguma razão pareciam querer dar-me espaço, por isso ainda não tivera tempo de pô-las a par do sucedido.

- Espero fazer parte dos teus pensamentos.

- O quê? – Disse, surpreendida.

- Estás tão longe daqui…

- Não estou nada! – Disfarcei.

- Ok, vou fingir que acredito.

Nessa altura o resto do pessoal aproximou-se e eu agradeci. Não estava preparada para mais investidas por parte do Jaime, por muito que me agradassem. Aproveitei o facto de estarmos todos juntos, e puxei-os para dançar. Precisava tirar os meus pensamentos do David, do beijo que me dera, da despedida… Tentei saborear ao máximo o facto de estar no meio de pessoas que me eram queridas, e que me queriam também. E depois o espectáculo havia sido um sucesso. Conseguira, apesar de tudo, desempenhar o meu papel na perfeição e isso era o grande acontecimento da noite. A minha primeira vitória!

  •   

Quando saímos do bar os primeiros raios de Sol já se começavam a sentir. Ia ser um dia de muito frio, mas o céu estava limpo. Mais uma vez foi o Jaime quem me levou até casa. Eu estava completamente de rastos, pronta a chegar a casa e ir direitinha para a cama. Pensava que ia ser simples, mas afinal… enganei-me.

- Chegámos! Já dormes?

- Quase. Mas acho que ainda aguento até a casa. – Disse em tom irónico.

- Mel, antes de ires, eu gostava… queria falar contigo.

“Falar comigo sobre o quê?”, pensei. “ E isto lá são horas de conversar?”

- Claro…

- Bom… Tu sabes que eu… enfim… eu gosto muito de ti. Acho que és uma pessoa fantástica.

“ Outra vez a mesma conversa de como sou especial…”

O Jaime continuou a falar e eu ouvia-o muito longe. Estava de tal forma dormente que nem conseguia dizer se mantinha os olhos abertos ou fechados. Só a última frase me chamou a atenção.

- … quero ser mais do que teu amigo.

As palavras proferidas pelo Jaime fizeram-me despertar e pela primeira vez desde que começara a falar, olhei-o directamente. Ele não hesitou e no momento seguinte tinha os seus lábios colados aos meus. A surpresa foi tal que não reagi. Ele viu isso como um sinal de aprovação e, o que deveria ser um beijo rápido, tornou-se num beijo mais longo e elaborado. Fechei os olhos e deixei-me ir. O meu último beijo tinha sido á apenas 12 horas atrás, e fora tão diferente deste como a noite é do dia. Não que o Jaime não soubesse beijar. Na verdade, o toque dos seus lábios era até muito agradável. Mas era… diferente. E as borboletas que sentia a bailar-me pelo estômago sempre que o David me beijava, não estavam lá. De repente dei comigo a recriminar-me por estar a pensar no David, em vez de estar a desfrutar o momento. O Jaime era um homem bastante atraente, bonito até. Qualquer outra rapariga iria sentir-se orgulhosa de ter um homem assim interessado nela. E eu, que era essa pessoa, o que fazia? Comparações estúpidas com outro que acabara de me dizer adeus.

Por fim, O Jaime afastou-se. “ Que beijo atribulado”. Vi pela sua expressão que esperava qualquer reacção da minha parte, mas fosse pelo sono que tinha ou simplesmente pelo choque que apanhara, não consegui articular palavra. Nem sequer o conseguia olhar directamente. Fiquei imóvel, e a única coisa que mexia eram as pálpebras, que abriam e fechavam com tal velocidade que pareciam estar a falar numa espécie de código.

- Mel? – A sua voz despertou-me.

- Hã?

- Diz alguma coisa.

- Eu… Tenho de ir. Obrigado por tudo. Gostei imenso. – E saí do carro o mais rápido que consegui, entrando em casa á mesma velocidade.

A Ana e a Inês preparavam-se para se deitar, quando ouviram o bater da porta.

- Ah, finalmente chegaste. Já nos começávamos a perguntar durante quanto tempo iriam ficar ali em baixo, parados.

- Miúda, que se passa? Estás com uma cara…

- É a única que tenho. – Respondi. – Ai, estou super cansada. Preciso de dormir um bocado e pôr as ideias no lugar.

- Acredito que essas ideias estejam mesmo desalinhadas. Depois da cena do David…

Detive-me e voltei-me para a Inês.

- Tu viste-o lá?

- Amiga, mesmo que eu não soubesse que ele ia, adivinhava. Aquela pausa interminável no inicio da segunda parte foi o quê? E depois os teus olhinhos não paravam senão lá ao fundo…

- Se sabias porque não me disseste?

- Porque não tinha a certeza se ele ia aparecer. O Ruben não me disse que sim nem que não. Não ia estar a massacrar-te sem saber ao certo.

Apeteceu-me tanto gritar com a Inês. Se me tivesse avisado eu iria estar preparada e nada daquilo teria acontecido. Que rica amiga! Mas o cansaço era mais que muito, e começava a sentir-me zonza. Optei por deixar o assunto assim mesmo e fui finalmente deitar-me.

  •   

Acordei por volta das duas horas da tarde. Tinha dores em todo o corpo e parecia ter levado uma valente pancada na cabeça. Os acontecimentos dessa noite pareciam distantes, surreais. Levantei-me, lavei a cara na esperança de que me despertasse, e fui até á sala. A Ana e a Inês já estavam acordadas, apesar de ainda estarem deitadas. Comiam torradas e eu aproximei-me e sentei-me no chão comendo também uma. Reparei então que sentia um ligeiro mal-estar por causa da fome, e aquela torrada soube-me melhor que um farto prato de comida. A Inês olhava para mim com cara de quem esperava qualquer coisa, mas optei por não voltar ao assunto anterior. Provavelmente até fora melhor ficar na ignorância. Saber que o David ia estar presente no teatro só teria contribuído para uma maior ansiedade da minha parte, e não sei se teria conseguido lidar com ela. Assim fui obrigada a reagir e as coisas acabaram por correr bem melhor.

- Então, estrela da Broadway, não tens nada para nos contar? – perguntou a Ana.

- Tenho! Tenho bastantes coisas para vos contar. – Respondi de boca cheia.

- Então…

- Então, vejamos. Depois da peça terminar, tive um encontro com o David no corredor. Ele beijou-me e a seguir disse-me adeus.

- Hã!? – Olhavam as duas para mim, surpreendidas.

- Depois, no carro do Jaime, este começou com uma conversa de que eu era especial e tal… e quando me deixou lá em baixo, beijou-me também.

Desta vez não emitiram nenhum som, mas a expressão manteve-se. Foi a Inês quem primeiro reagiu.

- Bem, tens de começar a moderar. O resto da malta também precisa de rapazes. Vê lá se deixas alguns para nós.

- Pois, - Concluiu a Ana, no mesmo tom. – Umas com tantos e outras sem nenhuns.

Agora era eu que olhava para elas, incrédula.

- Mas vocês sentem-se bem?

- Claro que não nos sentimos bem. Numa só noite és beijada por dois homens, e qual deles o melhor. E eu ando na fominha á… já lhe perdi a conta.

- Desculpa?

- Estamos a brincar contigo. Caramba Mel, já não entras no espírito da coisa. Costumavas ser mais divertida.

- E achas que tenho cabeça para diversões?

- Ora, não é assim tão mau. Olha, se queres a minha opinião, não é segredo para ninguém que o Doutor estava de olho em ti. E tu também gostas dele. Vocês têm passado muito tempo juntos, e isso tem tido um efeito muito bem em ti. Se estão os dois livres e descomprometidos, então qual é a dúvida vai em frente.

Continuei a mastigar a torrada, muito lentamente. Ouvira atentamente tudo o que a Inês me dissera e não me surpreendeu. Mas não me convenceu totalmente. Foi então a vez da Ana falar.

- Pois eu acho que sem amor não vale a pena tentar. O David disse-te adeus e eu não acredito que tu tenhas ficado sem sentir nada. Olha, eu concordo que o Jaime tem-te feito muito bem, mas tu não gostas dele. Não dessa maneira. Mas tu é que sabes. Se achas que pode dar certo, vai em frente.

O toque do meu telemóvel veio interromper a nossa reunião. Levantei-me para atender. Sem qualquer surpresa, era o Jaime. Retirei-me da sala e atendi a chamada no meu quarto. Esta era uma conversa que eu tinha de ter em privado.

Estive quase uma hora a falar com o Jaime. A Ana e a Inês esperavam-me, impacientes. Olhei-as directamente, primeiro muito séria… até não conseguir esconder mais, e sorri.

- Ele vem buscar-me para jantar.

 A explosão das duas foi imediata. Quanto a mim, fiquei encostada á parede, o telemóvel ainda na mão. Tentava convencer-me que tomara a decisão certa.

“Então porque raios não me sai da cabeça?”

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 00:46

01
Jan 11

 

 

Cheguei quase uma hora atrasada á faculdade. Além da visita surpresa do Doutor Jaime, o tempo não estava para ajudar e o trânsito estava um caos. Pior que o costume. Assim, acabei por andar atrasada o resto do dia. Pensei em saltar a hora do almoço e ir directamente para o bar, para a tal audição, mas lembrei-me do que me dissera a Ana e achei melhor não abusar. A última coisa que queria era voltar para o hospital. Assim, tive um bom almoço na cantina da faculdade, o que fez com que me atrasasse mais uma vez para o meu próximo compromisso. Felizmente não fui a única a chegar tarde. O rapaz do baixo também teve um contratempo, e chegou depois de mim, o que me deixou aliviada. Não queria causar má impressão logo no primeiro encontro.

Eram três os rapazes que compunham o resto da banda. O Zé tocava guitarra eléctrica, o João estava no baixo e por fim o Miguel, que tocava bateria. Todos muito simpáticos e puseram-me imediatamente á vontade. Se havia algum receio da minha parte foi  esquecido com tão calorosa recepção que me deram. Quase nem foi preciso cantar. Afinal, o Zé, que era uma espécie de líder da banda, já ouvira falar de mim através do primo, e confiava no juízo deste. Passei o resto da tarde á conversa. Esta foi tão agradável que mal dei pelas horas passarem. Quando cheguei a casa já estava noite, e a Ana já tinha chegado. Ela e a Inês andavam a sair mais cedo para passarem o máximo de tempo comigo. Nenhuma me queria deixar sozinha. O Jorge tinha sido mais uma vez muito flexível nesse aspecto. Também ele ligava todos os dias para saber como eu estava, como me sentia. Parecia um irmão mais velho. Tudo isto me fazia esquecer um pouco os últimos acontecimentos. Parecia que todos me carregavam ao colo, e a verdade é que neste momento estava a gostar bastante que o fizessem.

- Vou ficar uma insuportável com tanto mimo. – Disse, enquanto saboreava o delicioso frango que a Ana tinha preparado para o jantar.

- Espero bem que não. Detesto gente mimada. Mais depressa volto para casa.

Ri-me.

- Tenho novidades… - Disse a Ana com cara de caso.

- Hum! Que tipo de novidades?

- Do tipo estranhas, no mínimo.

- Que aconteceu? – Perguntei já curiosa.

- A Soraia despediu-se.

- Hã?

- Sim. Hoje já não foi trabalhar.

- Mas assim, sem mais nem menos?

- Sim. O estranho disto tudo é que a semana passada tudo era rosas e sorrisos. O habitual, sabes. Ela e a Pat muito amiguinhas, cheias de segredinhos. Esta semana, carrancuda como só ela sabe ser. Nada de grandes falas, nem sequer mandava mais aquelas indirectas que ela adorava mandar com ares de superioridade. E depois, houve lá um almoço com as meninas da claque e ela nem sequer se aproximou da mesa.

- Problemas no paraíso? – Disse, em tom irónico.

- Não sei. Só sei que nunca mais ninguém a viu com a Pat. E depois o D…

Ana deteve-se com o garfo no ar e a boca meio aberta. Percebi que a frase devia meter o David pelo meio, mas optei por não perguntar nada.

- O… Ruben… esteve lá e olhava para ela com cara de poucos amigos.

Percebi que por Ruben, ela queria dizer David. Apesar de estranhar a relação entre ele e o súbito mau humor da Soraia resolvi não perguntar nada, mais uma vez. A última coisa que queria era iniciar uma conversa sobre o David. A Ana continuou.

- Até que ontem, vindo assim do nada, o Bruno disse-nos que era o último dia dela na “catedral”, e que o Jorge já tinha a carta de despedimento dela em cima da secretária.

- Menos uma cobra… - Sussurrei. A Ana ouviu e começou a rir. – Sinceramente, não estou minimamente interessada no que se passa na vida da Soraia, mas se ela e a Pat estão de costas viradas alguma coisa deve ter sido. Mas cada um tem o que merece.

Soei um pouco fria quando disse isto, mas a verdade é que me era indiferente qualquer sofrimento que viesse da Soraia ou qualquer outro membro do clube de fãs da Pat. Depois de tudo o que se passara, era algo que me passava completamente ao lado. E depois não me ia preocupar com coisas que não diziam respeito. Essa fase da minha vida tinha ficado já lá atrás. O meu caminho agora era para a frente.

A Inês juntou-se a nós mais tarde, ao serão. Optei por não contar da visita surpresa do Dr. Jaime. Conhecendo a Inês como conhecia teríamos assunto para o resto da noite. Resolvi guardar para mim esse episódio, contando somente o que se passara na audição e como estava feliz por ter arranjado outro emprego. A Ana ficou preocupada pois achava que seria cansativo demais, mas eu acalmei-a dizendo-lhe que só tocávamos quatro vezes por semana. É claro que não mencionei os horários nem os dias de ensaios. Achei melhor não dizer nada por enquanto. Precisávamos de dinheiro, e só o ordenado dela a entrar não era suficiente. Mais umas semanas assim, e o melhor seria voltar para casa, e isso estava fora de questão. Quando me deitei nessa noite foi com a imagem do Dr. Jaime. Não sabia bem porquê, mas o facto dele demonstrar interesse em mim deixava-me bastante satisfeita. E isso parecia ser só o inicio de qualquer coisa. Nos dias seguintes foram vários os encontros que tivemos. Todos rápidos e aparentemente casuais, apesar de ambos sabermos perfeitamente que esse não era o caso. Eu passei a tomar um caminho diferente sempre que me era possível. Nesse caminho ficava o hospital, e tinha sempre esperança de o encontrar. O mesmo se passava com ele, que começou a tomar o pequeno-almoço numa pastelaria simpática perto da faculdade. A frequência destes encontros foi tal, que a dado momento deixámos as formalidades de lado e dei por mim a tratá-lo por Jaime e a receber telefonemas dele a horas consideradas por muitos, ofensivas. Mas tudo isto teve um efeito bastante regenerador em mim. Parecia que as coisas começavam a entrar nos eixos novamente e desta vez sentia que estava a tomar o caminho certo. Os horários voltaram a estar mais preenchidos. Por uma questão de “timing”, a banda onde estava agora inserida, optara por iniciar o trabalho no clube no inicio do ano. Até lá tinha tempo de aprender e ensaiar as musicas, e conhecer também melhor o ambiente de tudo aquilo que era novo para mim. Na faculdade os ensaios também se intensificaram, devido á aproximação do dia do espectáculo. A Ana voltou a pôr a sua cara de amiga preocupada, e eu voltei a sorrir. E quando demos por isso, o dia da minha apresentação em palco chegou finalmente.

  •            

Espreitei pela cortina ainda fechada para ver como estava o ambiente. Arrependi-me quase imediatamente. Viera mais gente do que eu pensava, e as cadeiras estavam praticamente todas elas ocupadas. O coração começou a bater mais depressa, e pela primeira vez senti o sangue subir e descer-me á face. Isto demonstrava bem o meu estado de espírito naquele momento. Não sabia se havia de perder as forças ou de me envergonhar ainda mais.

- Mel, é melhor ires para o teu lugar. – A Zé tinha vindo chamar-me. -  Mais dois minutos e começa… Mel? Tu estás bem?

Fechei a cortina e fixei os olhos no chão. Ouvi a Zé muito longe dali.

- Rapariga tu estás mais branca que a cal das paredes. Que se passa?

Levantei por fim os olhos e encarei-a.

- Acho que não devia ter espreitado… lá para fora…

- Já percebi… Pois, não o devias ter feito, mas agora já está, por isso recompõe-te. Vais entrar já na primeira cena, e essa expressão não é a melhor.

Respirei fundo e tentei concentrar-me. “Uma artista não se comporta desta maneira, Mel Andrade!” Ergui a cabeça e fui ocupar o lugar que me competia. Faltavam apenas uns segundos para que a cortina levantasse, e na minha mente rezei uma rápida e pequena oração. De olhos ainda fechados, ouvi o sinal e soube que era chegado o momento. Pus um sorriso nos lábios, encostei-me ao pilar que fazia parte do cenário, ajeitei o chapéu, e, quase instintivamente, a voz saiu-me na mesma melodia que ensaiara tantas vezes durante os últimos dois meses.

Havíamos escolhido para peça de final de ano uma adaptação do filme “Moulin Rouge”. Esta escolha devia-se ao facto dos cenários serem bastante apelativos, assim como o guarda-roupa, e as músicas… essas eram de sonho. Como estávamos a ser avaliados, não quisemos deixar nada ao acaso, e a originalidade também não foi esquecida. Assim, em vez de uma imitação amadora de um filme de grande sucesso, optámos por satirizar um pouco toda a história. Alterámos algumas personagens, modificámos algumas letras de músicas, e até a época da história foi retratada numa era mais actual. A mim coubera-me uma das personagens principais, e a meio da primeira música dei-me conta de que era mais difícil conciliar a representação com a dança e o canto. Nos ensaios parecia ser tudo muito mais fácil…

Depois da música de entrada, parei alguns segundos para olhar para a plateia. Os meus olhos correram rapidamente toda a segunda fila até encontrar alguns rostos conhecidos. Lá estavam a Ana, a Inês e o Bruno. Mesmo por trás deles o Jorge e o Jaime, todos com um sorriso de orelha a orelha. Disfarcei um sorriso de contentamento por vê-los ali, e muito subtilmente acenei. Eles perceberam imediatamente o meu sinal. A partir desse momento senti-me muito mais protegida, segura. Estar em cima do palco deixou de ser uma coisa pesada e tornou-se muito mais leve. Consegui descontrair-me muito mais, soltar-me. Até a voz me saía mais limpa, poderosa. Senti-me orgulhosa de mim mesma e comecei realmente a divertir-me. Parecia que nada poderia correr mal. Tudo andava conforme planeado e o público mostrava-se bastante satisfeito.

Chegámos ao intervalo e aproveitei para me refrescar um pouco. Só tínhamos quinze minutos antes de começar a segunda parte, por isso não pude ir ter com o resto do pessoal. Queria muito saber o que estavam a achar do espectáculo até ali. Mais uma vez espreitei pela cortina, pouco antes de entrar em cena, e vi como estavam todos já preparados para a continuação. A Inês e o Bruno pareciam estar em mais uma das suas discussões, a que a Ana tentava pôr alguma ordem. O Jorge e o Jaime tinham um ar mais formal, e mantinham-se calmos nos seus lugares. Perdi-me a olhar para eles. De repente senti algo estranho a invadir-me, como se fosse um aperto no peito. Não sei o quê, mas algo me fez desviar o olhar para um local mais distante. E foi aí que o vi. Para lá das bancadas principais, num dos lugares mais escondidos, sem luz. Não fazia ideia de há quanto tempo estaria ali, se desde o principio ou se acabara de chegar. Só sei que fazia parte do público, o David. O meu David. A razão de tantas alegrias nesse ano, mas também de tantas tristezas. E se antes tinha ficado sem pinga de sangue, agora dava-se o oposto. Sem querer senti-me envergonhada, pouco á vontade… embora não o visse há mais de três semanas senti o coração palpitar mais forte, tal como acontecia cada vez que o via, cada vez que estávamos juntos e ele me tocava e beijava. E eu deixava-me ir, era impossível resistir-lhe tal era o poder que ele tinha em mim. Na minha cabeça eu havia-o renegado, mas no coração… É difícil ordenar algo ao coração. Por muito que tentemos, por muito convencidas que fiquemos, quando este nosso musculo, símbolo da vida não quer é praticamente impossível negar-lhe seja o que for. E a verdade é que o David ainda fazia parte de mim, gravado com fogo e lágrimas, bem no meu ser. Não sei quanto tempo fiquei a observá-lo, tentando encontrar algo que me fizesse achá-lo menos do que antes. Mas não encontrei nada a não ser a mesma perfeição de sempre. Teria ficado assim o resto do tempo, até que ele se levantasse e se fosse embora, e não teria achado um desperdício de tempo. Afinal, ele era ainda o meu David…

- Mel, um minuto e começamos!

Despertei do meu transe e apercebi-me que tinha a garganta mais seca do que no inicio do intervalo. Corri a buscar água, o tempo escasseava. “E agora? O que é que eu faço?”, pensei. Voltei para o palco e esperei que a cortina subisse. Não esperei muito. Felizmente, não era eu a começar a segunda parte. “Preciso de tempo!”. Mas o tempo não resolveu grande coisa, e quando chegou a minha vez gelei completamente. Olhei para o fundo, para o sítio onde eu sabia que o David estava e os nossos olhares cruzaram-se. Ele mantinha uma expressão calma, serena, mas ao reparar que a voz não me saía começou, também ele a demonstrar uma certa ansiedade. Tentei concentrar-me no que estava a fazer e notei que todos os olhares estavam postos na minha pessoa, á espera. A maioria não sabia se tamanha pausa fazia ou não parte do espectáculo, pelas caras confusas que faziam. Pousei os olhos na Ana e na Inês que me faziam sinais, e só então consegui limpar a minha mente e a primeira nota saiu. Atrás dela veio todo o repertório, e sem saber como o medo foi-se, definitivamente. Consegui fazer toda a segunda parte sem mais atrasos, brancas ou enganos. De vez em quando virava o olhar na direcção do David, só para confirmar se ainda lá estava. E sim, ainda… Ficou até ao fim. Só quando a cortina baixou pela última vez deixei de o ver sentado no seu lugar escondido. Voltei para dentro, para trocar de roupa, ansiava por ir ter com os meus amigos. Será que algum deles o tinha visto?

Caminhava pelo estreito corredor que levava à pequena divisão onde eu e outros membros do espectáculo mudávamos de roupa quando vi um vulto encostado á parede. Conhecia bem aquela figura, até de olhos fechados conseguia dizer que era ele, o David. Parei no instante em que o vi, ligeiramente assustada. Ele fitou-me directamente e deu-me aquele sorriso que me derretia e desarmava completamente. Como se fosse preciso isso para me deixar sem forças. Respirei fundo e retomei o meu percurso. O corredor encontrava-se vazio, todos estavam ainda no palco ou nos bastidores. Aproximei-me dele e sorri também.

- Parabéns! – Disse.

- Obrigado!

- Sério, você foi muito bem. Fiquei orgulhoso…

Acenei com a cabeça.

- Como é que soubeste que a peça era hoje?

- Eu tenho as minhas fontes.

- A Inês…

- O Ruben. Ele me falou que o espectáculo era por estes dias e eu liguei p´ra cá, p´ra confirmar o dia.

- Pensei que já estivesses no Brasil.

- Tou indo p´ra lá amanhã. Eu não ia perder isto por nada deste mundo.

- David…

- Eu sei que não existe nada entre a gente, mas isso não quer dizer que a gente não possa ser amigos. E eu vim dar uma força p´ra uma amiga.

- Foste muito simpático.

Baixei a cabeça e fixei a biqueira dos meus sapatos. Não sei qual de nós estava mais constrangido. “ Porque é que não aparece ninguém”, pensei.

- Eu… Tenho de ir. O pessoal já deve estar lá fora á minha espera.

- Claro, eu também já vou indo. O Ruben tá me esperando no carro. Eu só passei p´ra te dar os parabéns e… eu queria te dar uma coisa antes. Algo que eu esqueci de dar.

- David, não…

E antes que eu pudesse terminar a frase, os seus lábios silenciaram-me, e mais uma vez eu deixei-me ir. Que saudades… Voltei a entrar no nosso mundo, o nosso cantinho que sempre me fazia sentir a pessoa mais feliz do mundo. Um arrepio percorreu-me de cima a baixo, e contra qualquer lógica dei por mim perdida nos seus braços, correspondendo ao seu acto repentino. Senti os seus caracóis entrelaçados nos meus dedos, o seu cheiro invadiu-me e deixou-me zonza, atordoada. Que amor era este que me deixava rendida ao mais pequeno gesto de carinho…

Quando nos separámos não tinha palavras que pudessem explicar o meu momento de fraqueza. Mas também não foi preciso. Olhei bem dentro dos seus olhos e vi a sua determinação. A mesma que eu tivera á umas semanas atrás quando lhe dissera que estava tudo acabado. Aquela que se tinha sumido, mal ele se aproximara de mim.

- Agora eu posso dizer adeus.

Continuei a olhá-lo, séria, confusa, saudosa. Ele tinha razão. Nós não nos tínhamos despedido convenientemente. Depois de tudo o que nos tínhamos feito sentir, tudo o que fizéramos, era justo. Afastámo-nos quase pontualmente, como se tivéssemos ensaiado a hora da despedida.

- Adeus! - Disse, olhando-o nos olhos.

- Adeus! – Disse-me no mesmo tom.

A história terminara, a cortina caíra. Despojei-me da minha personagem e segui o meu caminho.

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 20:11

23
Nov 10

- Hum! Já vos disse que o café aqui na vossa casa tem um sabor especial. Não sei… é super delicioso.

- Sim, já sabemos. É por isso que não sais daqui.

- Ora, pensem como seria aborrecida a vossa vida sem mim.

- E como não gastávamos tanto em café, também.

Inês e Ana estavam sentadas á mesa e saboreavam o pequeno-almoço. Lá fora, o dia cinzento deixava adivinhar a chuva que com certeza iria cair ainda de manhã. Era já habitual a Inês juntar-se a nós logo cedo, e depois ela e a Ana seguiam para o estádio, enquanto eu ficava com o Jipe para as minhas voltas. A Ana não queria que eu andasse de transportes públicos e ficasse limitada aos horários dos mesmos, apesar de haver sempre algum de cinco em cinco minutos.

- Como é que ela está?

- Está bem… aquilo é mais rijo que o aço. De vez em quando dou com ela a olhar para o infinito, perdida em pensamentos.

- Pensa no David?

- Tenho a certeza que sim, mas por fora, quem a vê, ninguém diz que acabaram de lhe partir o coração, nem que saiu do hospital há menos de uma semana.

- É cá das minhas. Então o coraçãozinho dela foi partido pelo David Luiz! Pfu! Quem quer saber disso? Ela consegue muito melhor se…

- Bom dia, comilonas! Já sentadas á mesa? Ao menos sobrou alguma coisa para mim?

- Tens ali leite quente e o pão está todo na mesa.

Em bicos de pés, apressei a preparar uma caneca de leite que bebi quase de seguida.

- Caramba Mel, e depois as glutonas somos nós…

- Estou á pressa. Tenho de tomar um banho antes de sair, passar na faculdade para deixar umas coisas para o espectáculo, a seguir tenho uma entrevista num bar, e depois ainda tenho de voltar para a faculdade para o ensaio.

- Mel, não abuses… Queres fazer tudo ao mesmo tempo e depois vais-te abaixo.

Pousei a caneca e lancei um sorriso de bigodes de gato, que me ficaram do leite. Depois aproximei-me da Ana e dei-lhe um abraço forte.

- Vou pôr-me debaixo do chuveiro!

E desapareci. Tinha realmente um dia cheio. E, se tudo corresse bem, talvez ainda arranjasse emprego. Um colega da faculdade dera-me o número de um primo que tocava ao vivo num bar, e a banda andava á procura de uma voz. Não fazia ideia de como seria o aspecto ou que tipo de música tocariam, e cantar numa banda seria uma experiência totalmente nova para mim… Exactamente o que eu andava á procura. Coisas novas. Tinha decidido seguir com a vida para a frente, e não perder tempo com sofrimentos. Fizera o meu luto e agora era viver, um dia de cada vez. E eu já era mestre nisso. Continuava no entanto a sonhar todos os dias com o David. Acho que não passara uma noite sem que me aparecesse em sonhos. Lindo como sempre. Os seus olhos esverdeados e o seu sorriso descarado a tentarem-me, noite após noite.

Meti-me debaixo de água e tentei que esta me levasse a sua imagem. Tinha de me concentrar noutros assuntos.

- Mel? – A Ana espreitava por detrás da porta da casa-de-banho. – Nós vamos embora. Logo devo chegar mais tarde também. Se calhar é melhor adiarmos a decoração de Natal para depois.

Abri um pouco da cortina, e respondi:

- Tudo bem. Também não sei a que horas vou chegar. Tratamos disso no fim de semana.

- Ok. Não abuses. E estou a falar a sério.

- Sim, mãe!

  •                 

O duche foi realmente muito rápido. Mal pus o pé fora da banheira ouvi a campainha da porta. Pelo tempo, calculei que fosse uma delas, esquecida de alguma coisa. Corri até á porta enrolada na toalha e em bicos dos pés por causa do chão frio. A campainha tocou mais uma vez antes de ter tempo de abrir a porta. Quando o fiz dei dois passos para trás, tal a minha surpresa.

- Bom dia, Mel. Parece que vim em má hora…

O Dr. Jaime encontrava-se á minha frente, do outro lado da porta, com um ar quase tão atarantado como o meu. Eu estava sem reacção alguma. Jamais imaginaria que o meu Doutor viesse até á minha casa, logo pela manhã, e muito menos que lhe abrisse a porta com uma toalha apenas a cobrir-me o corpo.

“Boa Mel! És mestre em fazer figuras parvas em frente aos outros.”

- Dr. Jaime! Eu… estava no banho… não ouvi a campainha. Desculpe.

- Eu é que peço desculpa por ter vindo sem avisar… O meu sentido de oportunidade não foi muito bom, mas vou entrar daqui a pouco e só podia cá vir a esta hora.

- Claro, eu compreendo. Fez bem em ter vindo agora. – Fiz uma pausa. O que acabara de dizer não fazia sentido nenhum. – Hã, já agora, o que veio cá fazer?

O Doutor deu uma gargalhada. Para ele também não estava a fazer muito sentido nada daquilo.

- Queria dar-lhe uma coisa… Posso entrar?

- Claro, por favor.

Fiquei de tal forma surpresa com a visita que nem me passou pela cabeça convidá-lo a entrar. Desviei-me e o Doutor passou por mim, entrando na minha modesta casa.

- Tem aqui uma casa bastante acolhedora. – Disse.

Eu sorri.

- Acho que é uma maneira de ver as coisas… A-a-a-a-a-tchim!

- Santinho! É melhor vestir-se. Não quero ser responsável por uma gripe. Não fica bem para um médico, sabe.

- Desculpe! Eu volto já. Fique á vontade, como vê a sala é já ali. – Disse, apontando para o meu lado esquerdo.

Dirigi-me então para o quarto o mais rápido que pude. Por sorte já tinha a roupa separada, por isso não demorei muito. Arranjei os cabelos o melhor que pude, lavei os dentes e voltei. Estava intrigadíssima com a visita do Doutor á minha casa, mas a pressa era tão maior que nem tentei adivinhar o motivo da mesma.

- Voltei. – Reparei nessa altura que a mesa ainda estava posta do pequeno-almoço.

“Boa” Mais uma!”

- Peço desculpa… De manhã é sempre uma correria cá em casa. – Disse, envergonhada.

- Não se preocupe com isso.

- Então, Doutor, o que o trouxe por cá?

- Isto. – Levando uma das mãos ao bolso, retirou deste um pequeno saco de papel creme, meio amassado. Estendeu-mo e pediu-me que tirasse o que estava lá dentro.

- Uma caixa de comprimidos… - Disse, com ar meio surpreso, meio irónico.

- Na verdade, tinha pensado trazer-lhe flores, mas a esta hora a maior parte das floristas estão fechadas. E depois, acho que isso vai ser-lhe bem mais útil que um ramo de flores.

Corei dos pés á ponta dos cabelos. Podia esperar qualquer resposta, menos a que acabava de me dar. Ele deve ter reparado, pois esboçou um largo sorriso. Olhei os seus grandes olhos azuis. Era realmente muito atraente este médico.

- Desculpe…  Na verdade, tinha esperanças de a convencer a começar a tomar esses novos comprimidos.

- Doutor Jaime, eu…

- Eu sei. Parou o tratamento como forma de protesto á sua situação. Mas garanto-lhe que estes novos medicamentos não vão afectar em nada a sua condição. Na verdade, são apenas suplementos, que podem ajudar o sistema a criar mais defesas, o que no seu caso é óptimo. Claro que continuará a ter crises, mas… Tome-os, por favor. Ajudá-la-ão no seu dia-a-dia, para que não se sinta tão cansada.

Olhei novamente para o embrulho que me dera. A sua voz pareceu-me tão sincera, que não pude recusar o seu pedido.

- Obrigado! – Disse. – Eu… prometo que os vou tomar.

- Obrigado eu.

Nesta altura olhei para as horas e dei um salto, em pânico.

- Meu Deus, estou super atrasada.

- Peço desculpa, a culpa é minha. Quer que a deixe em algum sítio?

- Não, obrigado. Não pense que o estou a pôr na rua, mas tenho aulas daqui a cinco minutos.

- Claro… Aulas? Não sabia que estudava.

- Sim, na Faculdade das Artes. – Disse, enquanto saiamos e trancava a porta.

- Uma artista…

- Não. Uma amante das artes.

- Gostava de ver isso.

Sorrimos os dois e descemos as escadas até á rua. Agradeci ao Doutor Jaime mais uma vez e despedi-me dele, com um amigável aperto de mão. Ele, sempre muito simpático retribuiu o cumprimento, e seguidos ambos caminhos opostos. Não sei que me passou pela cabeça então. Talvez fosse pelo gesto atencioso do Doutor, ou talvez porque o achasse bastante atraente. Só sei que voltei atrás…

- Doutor Jaime. Se quer mesmo ver, daqui a duas semanas temos um espectáculo… É a nossa maneira de fecharmos o ano. O espectáculo vais ser no palco do teatro da faculdade. Se puder ir…

- Vou com certeza. E estarei na primeira fila.

Sorri novamente e segui então o meu caminho. Desta vez mantive o passo e o sorriso que tal resposta me dera.

 

 

  •  

Na segunda parte de “ Um feliz Natal”:

- Mel faz provas para cantar na banda, mas será que entra?

- O espectáculo de Fim de Ano começa, e o Doutor Jaime cumpre o que prometeu… Mas ele não é o único a ver o espectáculo, e a Mel pode ter uma surpresa.

 

Aproveito também para me desculpar pelo tempo que tenho demorado a postar. Faço o que posso... Até ao fim da História. Beijos para todas as que seguem a fic, e obrigado pelos comentários e apoio. Agradeço que também façam criticas. A vossa opinião é essencial para melhorar. ;)

 

 

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 00:58

16
Nov 10

De manhã acordei com a algazarra habitual de um hospital. Medir tensão, tomar medicamento, conferir se o cateter está no sítio… um infindável círculo de tarefas que já me eram tão familiares, que poderia fazê-las sozinha e de olhos fechados. A hora do pequeno-almoço chegou e pude finalmente comer. Antes porém, retiraram-me o cateter e disseram-me que tivesse paciência, que o Dr. Jaime viria ter comigo logo que fosse possível. Fiquei bem mais animada, de estômago cheio e sabendo que em breve viria o médico para me dar alta, tal como me prometera. A única coisa que me assombrava era a imagem do David, saindo porta fora, cabisbaixo. Sabia que o tinha magoado, que talvez nunca mais me perdoasse pelo que fizera. Mas também eu tinha sido magoada, e não tencionava sê-lo novamente. E depois, a confiança que sentia nele tinha-se desvanecido, desde a noite da gala da claque. Ainda não sabia até que ponto o David estava ou não envolvido, e não queria saber. E mesmo que não tivesse, deixara-me sozinha, abandonada, trocada por uma ex-namorada que era agora uma melhor amiga, e tinha mais poder sobre ele que os seus sentimentos por mim. Que amor era aquele, que dissera sentir por mim…?

- Bom dia, Mel?

Fui subitamente acordada pela voz do Dr. Jaime, que me tirou completamente dos meus pensamentos.

- E como se sente hoje?

- Muito bem, obrigado. E tenho a certeza de que me irei sentir melhor quando me mandar para casa. – Disse com um sorriso, tentando convencer o médico a passar-me a nota de alta e tentando mostrar o quão bem já me sentia. O Dr. Jaime percebeu e rasgou um sorriso amável.

- Isso ainda iremos decidir, depois de ver a sua ficha e os resultados de hoje.

Encostando-se á parede, abriu o dossier que trazia debaixo do braço e, com ar compenetrado começou a lê-lo. De vez em quando via-o franzir o sobrolho e olhar para mim, como se tentasse analisar alguma coisa. Eu não sabia se me havia de manter quieta e séria, ou fazer um ar de quem não estava minimamente atenta ás expressões que mostrava. A espera era infindável, e de repente passou-me pela cabeça que pudesse estar tão mal que nunca mais iria sair dali. Tentei controlar-me mas o medo disso acontecer apoderou-se de mim e empalideci.

- Que cara é essa Mel? À pouco parecia bem mais confiante e bem – disposta.

- Demorou tanto tempo a olhar para a minha ficha que pensei que tivesse encontrado algo…

- Realmente…

Paralisei.

- Levante a camisa, se faz favor. Preciso auscultá-la.

Fiz o que me pediu. Arrepiei-me ao sentir o estetoscópio frio na minha pele e abafei um som de estremecimento. Quando se aproximou mais olhei directamente nos seus olhos e constatei mais uma vez a sua beleza.

- Parece tudo bem, apesar de um pequeno ruído que me pareceu ouvir vindo dos pulmões. Não esteve constipada recentemente?

- Recentemente não. Só no inicio do Verão, mas já lá vão uns meses.

- Não andou á chuva, apanhou uma corrente de ar?

Fiz um momento de silêncio. Tinha andado á chuva á pouco mais de uma semana, mas deveria contar?

- Talvez tenha apanhado umas pinguitas, á uns dias atrás.

- Ah! Então está explicado.

- Mas ainda posso ir para casa, não posso? Quer dizer, eu não me cheguei a constipar e tenho andado bem.

- Se andasse bem não estava aqui connosco.

Baixei a cabeça, desolada. Era mais que óbvio que alguma coisa não estava bem e provavelmente ainda teria de passar mais tempo internada.

- Mas penso que pode ir para casa…

 Quase saltei da cama ao ouvir estas palavras.

- …Desde que tenha alguns cuidados e siga á risca o que lhe vou dizer.

- Sim, prometo.

O Dr. Jaime riu-se novamente.

- Acho que neste momento você prometeria qualquer coisa só para eu a mandar embora.

Corei. Não conseguia disfarçar a ansiedade que sentia, e a pressa que tinha em sair dali para fora. Era tudo verdade.

- Bom, em primeiro lugar vai ter de tomar algo para esse “miar” que vem dos seus pulmões. Se não tratar disso, corre o risco de vir passar uma temporada connosco, e dessa vez serão uns bons dias.

Acenei que sim com a cabeça.

- Depois, vai prometer-me que vai começar a ter muito cuidado consigo. Todos os sintomas que apresenta são sinais de descuido. Sabe que não se pode brincar com o que tem.

Acenei mais uma vez.

- Óptimo. Então vista-se que eu volto já.

Nem foi preciso dizer-me duas vezes. Mal o Dr. Jaime saiu do quarto, saltei da cama e procurei pela minha roupa. A Ana tinha metido tudo dentro de uma mochila, roupas, documentos e objectos pessoais, por isso foi fácil encontrar o que queria. Depois de lavada e vestida agarrei no telemóvel e liguei à Ana para que me fosse buscar, assim que pudesse. Não fazia ideia de quanto tempo mais teria de esperar, mas tinha esperança de que não fosse muito. Os hospitais davam-me falta de ar. Precisava do ar frio e puro das ruas. Bem, talvez o ar em Lisboa não estivesse lá muito puro, mas pelo menos era ar livre, e não aquele que se respirava entre quatro paredes. Desliguei o telemóvel com um sorriso na cara.

- Juro-lhe que nunca vi ninguém vestir-se tão rápido como a Mel.

A voz do Dr. Jaime assustou-me.

- A nota de alta já está assinada. A partir de agora pode sair quando quiser.

- Estou só á espera que me venham buscar. – Respondi.

- Então ainda tenho tempo de lhe fazer algumas perguntas.

Franzi o sobrolho, em tom interrogativo. “Perguntas? Que tipo de perguntas?”

- O Dr. Barros disse-me que não valia a pena marcar consultas, porque a Mel nunca aparece.

- Geralmente só vinha ter com o Dr. Barros em casos urgentes. Ele e eu já nos conhecemos há muito…

-Eu sei. Mas se for eu a pedir-lhe que venha…

Notei um certo constrangimento nas palavras do Doutor, e por momentos pareceu-me vê-lo corar. Fingi não notar, como se estivesse numa conversa normal entre médico e o seu paciente.

- Vou fazer exactamente o mesmo. – Respondi.

- Hum! Calculei que o fizesse. De qualquer forma, se precisar de alguma coisa, venha ter comigo.

- Com certeza.

- Ah! Só mais uma coisa. Confirme a sua morada e o seu número de contacto à saída.

- Pensava que tinham isso tudo actualizado.

- Com o Dr. Barros, sim. Mas sou eu que a vou seguir agora, e quero ter tudo certo, no caso de precisar de alguma coisa.

- Está bem. Eu passo pela administrativa para deixar lá os dados.

- Muito bem. Então até breve, Mel Andrade.

“ Até breve? O Dr. só pode estar a gozar, certo?”

Desapareceu tão rapidamente que nem tive tempo de responder. Um toque do telemóvel avisava-me que a Ana tinha chegado e estava á minha espera. Agarrei nas minhas coisas e saí, sem olhar para trás uma única vez.

 

  •          

O Benfica empatara no jogo desse fim-de-semana. Estavam em segundo lugar da tabela e a quatro pontos do líder, o grande rival de sempre, FCPorto.

David não gostava de empates. Era um  vencedor por natureza, por isso ou era ganhar, ou nada. Já todos tinham saído do balneário. Ele fora último a sair. Segundo o Ruben era porque demorava muito tempo a “compor-se”. Segundo ele, era porque não tinha pressa alguma em chegar a lugar nenhum…

Mesmo á saída esbarrou com uma das raparigas da claque. A princípio não reparou quem era, só a voz desta lhe despertou a atenção.

- David! Pensava que já não estivesse aqui ninguém.

- Patrícia… Tou precisando falar com você.

- Comigo?

David agarrou no braço de Pat e arrastou-a de volta ao balneário. A sua face expressava dor e raiva. Muita raiva.

- Ai, David. Pára. Estás a magoar-me.

 - Que história é essa, de você ter ligado p´ra Carol dizendo p´ra ela vir p´ra cá…

- Quem foi que te contou isso?

- Ela mesma. Por isso não adianta negar.

- David, eu sei o que isso pode parecer, mas eu só o fiz porque estava preocupada contigo.

- Eu não pedi p´ra você se preocupar comigo. Aliás, eu nem me lembro de ter dado a você autorização pra se meter na minha vida. SE enxerga garota, que eu nem te conheço.

- Eu sei. E peço desculpa pelo meu erro. Mas a Soraia disse-me que tinha ouvido uma conversa da Mel e da Inês, e ficou preocupada.

-Que conversa?

- Uma conversa em que a Inês dizia á Mel que lhe tinha saído a sorte grande, e ela veio ter comigo e contou-me. Depois ficámos com medo que ela só andasse contigo por interesse.

- Isso é ridículo. A Mel nunca faria isso.

- Eu sei disso agora, mas na altura eu não conhecia bem a Mel, e achava que ela podia ser uma interesseira. Eu só fiz o que me pareceu melhor. Eu entrei em contacto com a Carol, porque achei que ela podia ajudar-te.

- E o que você fez gala. Também estava querendo me ajudar?

- David, aquilo foi um terrível engano. Eu fui induzida em erro. Toda a gente me falou cobras e lagartos da Mel. E eu não a conhecia. Só sabia o que me contavam. Tu sabes que eu não vejo maldade em ninguém. Eu sou amiga da Soraia há muito tempo, e a Carol sempre foi uma querida. Em quem é que tu acreditavas? Em pessoas amigas, que conheces há que tempos, ou numa pessoa que chegou assim do nada, e que ninguém sabe de onde vem, que é…

David mudou de expressão, e Pat viu que as suas palavras começavam a surtir efeito.

- Eu sei que tu estás magoado, e que as coisas entre vocês não têm estado muito bem… Mas eu também não tive culpa. Eu não me devia ter metido na tua vida, é verdade, mas… eu fiz isso porque gosto muito de ti. Tu sabes… Toda a gente te adora. Eu tive medo que tu tivesses a ser enganado.

David baixou a cabeça e saiu. Ele entendia as razões que levaram a Pat a fazer isso. Ambos tinham sido enganados por pessoas que julgavam ser de confiança. Ele não podia culpa-la. Ele teria feito a mesma coisa por alguém de quem gostasse.

Pat apressou-se a sair do balneário e dirigiu-se para a “ Catedral da cerveja”. Tinha de ter uma conversa muito séria com Soraia.

Mal entrou, encontrou-a atrás do balcão e fez-lhe sinal para que a seguisse. Soraia nem hesitou. Sempre que a sua amiga Pat chamava, ela ia, e não questionava.

- Segue-me. – Disse Pat, em tom autoritário. Esta conduziu-as até á rua, para um local resguardado de todos.

- Que se passa?

- Ouve, se o David ou alguém te perguntar tu vais dizer que foste tu que me pediste para falar com a Carol. Dizes que a ideia foi tua.

- Pat! – Soraia mostrava-se irrequieta. – Que se passa? Porque é que eu tenho de dizer isso?

- Porque eu te estou a dizer para o fazeres. Ouve, o David veio ter comigo. Aquela estúpida da Carolina disse-lhe que fui eu que a contactei. Por isso eu disse-lhe que foste tu que me pediste porque ouviste uma conversa da Mel e da Inês. É claro que ele sabe que a conversa é uma invenção, mas ele pensa que é uma invenção tua.

- Mas assim ele acha que sou eu a culpada de tudo.

- Exacto. És mais esperta do que eu pensava.

- Mas, Pat. Ele é o David Luiz. E ele namorava com a Mel. E agora acabaram por causa desses esquemas que tu inventaste, e eu posso ficar queimada aqui dentro.

- Pois é linda. Isso é uma pena. Mas é melhor seres tu do que eu, certo?

Soraia nem queria acreditar no que estava a ouvir. A sua amiga Pat… Ela acreditara nela, tinha-a como uma verdadeira amiga e confidente. Ela ajudara-a quando ela tinha precisado, e agora estava aí a paga.

Pat viu a hesitação nos olhos de Soraia, e tornou a ameaçar.

- Ouve, é bom que confirmes tudo o que te disse, senão vais ser muito pior para ti. E mesmo que não o faças, achas que as pessoas vão acreditar em quem? Em mim, que sou filha de sócios importantes do clube, capitã da claque e faço parte desta casa desde que nasci? Ou em ti, uma empregadita de mesa que ninguém sabe o nome?

Soraia sabia que Pat tinha razão. Mesmo que ela não confirmasse, nunca iriam acreditar nela. Esta havia-a encurralado!

 

 

 

 

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 16:12

27
Out 10

Sentia a boca e os lábios secos quando acordei. O braço esquerdo estava dorido do cateter e um “bip-bip” media os batimentos cardíacos. A visão ainda estava desfocada, e tive uma ligeira tontura ao tentar levantar-me. Encostei-me novamente na almofada e fechei os olhos na esperança de que passasse depressa.

- Então, já acordámos finalmente!

- Dr. Barros!

- Como é que te sentes?

- Bem… mais ou menos. Quando é que posso ir para casa.

- Não gostas mesmo nada de estar connosco, pois não?

- Conhece alguém que goste?

O Dr. Barros riu.

- Precisamos de fazer alguns exames, e depois logo se vê. Talvez ainda fique hoje para observação.

Nesse momento vejo a Ana a espreitar pela porta. O Dr. faz sinal para que entre.

- Veja lá se a distrai, que ela já nos quer deixar. Eu volto mais tarde.

- Então princesa, como estás?

- Se eu não estivesse numa cama de hospital dizia que estava com melhor aspecto que tu. Há quanto tempo não descansas, Ana?

- Isso não interessa. Eu perguntei como é que tu estás.

- Deitada…

- Mel ?...

- Está bem. Estou um pouco zonza ainda. É de estar deitada. E tu estás a precisar disso mesmo. Vai para casa, amor. Eu não vou a lado nenhum, sabes. Pelo menos enquanto não me derem ordem.

- Eu vou sim, preciso de ir tomar um bom banho. Mas antes preciso de te dizer uma coisa.

- O quê?

- A Inês e o Bruno estiveram aí várias vezes a perguntar por ti. E o Jorge também já ligou. Pediu que o avisasse quando houvesse novidades.

- Só por isso vale a pena viver… Ok, os recados estão dados.

- Há outra coisa…

- Sim?

- O David esteve aí.

O sorriso da minha cara desvaneceu-se rapidamente.

- O que queria ele? Quem lhe disse que eu estava aqui?

- Mel… Nós avisámos-te para isto.

- Vocês disseram-lhe?

- A Inês disse-lhe onde tu estavas e ele apareceu aí com o Ruben. Eu não lhe queria contar, porque também não era por mim que ele devia saber, mas ele disse que falava com o médico… não houve como fugir.

- Eu não acredito que vocês fizeram isso.

- E eu não acredito que depois de tantas oportunidades me tenha calhado a batata quente a mim. Não vou discutir contigo Mel Andrade, mas é para que saibas que ele já sabe de tud…

David já se encontrava encostado á porta e ouvira parte da conversa. A Ana baixou os olhos e eu não soube o que dizer.

- Eu vou a casa. Volto daqui a pouco. Até já.

Eu e o David ficáramos sozinhos no quarto. Eu estava muito envergonhada com tudo aquilo. Baixei a cabeça e fiquei em silêncio. Depois, levantei o olhar e vi que ele se tinha aproximado. Por fim, foi ele quem quebrou o silêncio.

- Como é que você está se sentindo?

- Bem…

O silêncio voltara de novo. Ainda não tinha coragem de encará-lo, por isso mantinha a cabeça baixa. Quando finalmente ganhei coragem para pronunciar qualquer coisa, David também o fez, e atropelámos as palavras.

- Mel, eu…

- David…

- Desculpa, fala tu.

- Não, que é isso. Você primeiro.

- David, o que é que tu estás a fazer aqui?

- Estava preocupado com você. Eu já sei de tudo… Porquê você não me falou nada, Mel?

- Por causa disso… da maneira como tu olhas para mim agora.

- Como assim, eu olho p`ra você?

- Com esse olhar de piedade, de quem tem pena de mim. “ Pobre Mel. As coisas que ela tem de aguentar”.

- Eu não olho p`ra você desse jeito. De onde você tirou essa ideia? Eu estou olhando do mesmo jeito de antes. E se você tivesse me contado, eu teria te ajudado… Eu quero te ajudar.

- Eu não preciso que tu me ajudes. Preciso que saias daqui.

- Deixa de ser orgulhosa. Eu posso te ajudar, e você sabe que precisa. E não é por pena, é porque eu gosto de você.

- David, quando é que vais perceber que a nossa história acabou? Tu não tens obrigação nenhuma para comigo.

- E porquê você não me ouve? Eu já sei o que aconteceu…

- E eu não quero saber. Por favor sai.

- Você quer mesmo que eu vá embora.

- Eu... não quero que me vejas assim.

- Assim como?

- Assim… Aqui.

- Você continua linda, como sempre.

- Duvido. David, por favor…

- Mel… Eu te amo!

Agora sim, fixara o meu olhar no dele. Nós já tínhamos dito muitas vezes o quanto gostávamos um do outro. E não só por palavras, mas também por gestos, olhares. Mas nunca nenhum se atrevera a dizer a palavra começada por “A”. Amo-te. Parecia-me algo tão banal de se dizer. E no entanto, quando ele a pronunciou soube-me tão bem ouvi-la, que por momentos viajei até á Lua, até ás estrelas. Já não estava na cama de hospital. Estava de novo com ele, no nosso mundo. Só nosso.

Respirei fundo ao acordar do sonho em que aquelas palavras me mergulharam. O David parecia tão sincero…

- Isso não muda nada! – Disse por fim, e tentei ser a mais fria possível.

Vi o rosto do David empalidecer. Pensei em voltar atrás, dizer-lhe que também o amava… muito. O sofrimento que via na sua cara doía-me mais que a minha própria condição. Mas era necessário que o fizesse. Uma vez tentei sonhar alto demais, e esqueci-me de ter os pés no chão. Esse sonho fez-me cair, e doeu. Doeu demais. Não queria passar por aquilo outra vez. E ainda estava muito magoada com ele. Desviei o olhar para não o encarar mais. Não acho que pudesse suportar. Ele percebeu, e afastou-se. Antes de sair, deteve-se á porta e disse:

- Não me arrependo de nada do que disse, nada do que fiz, enquanto estive com você.

E saiu. Eu vi-o desaparecer no corredor. Desta vez foi ele que não olhou para trás. Tive noção do quanto o magoara, mas impedi-me de chorar. Já tinha chorado demais pelo David. Agora era virar a página.

  •   

Tentei adormecer logo após a saída do David, mas foi impossível. Em todo o lado via a sua cara de desilusão, principalmente se fechasse os olhos. Felizmente a Ana chegou pouco depois, e trazia companhia.

- Allô miúda! Ainda deitada?

- Estou preguiçosa. Ainda bem que vieram. Estava a precisar de uma boa disposição como a vossa.

- Então Mel… Não estás zangada comigo? – Perguntou a Inês.

- Humm… Não. A culpa disto tudo foi minha. Se eu tivesse contado mais cedo, nada disto teria acontecido.

- Eu já sei que ele esteve aí.

- Saio há pouco. Mas não quero falar sobre isso.

- Quer dizer que não se entenderam?

- Quer dizer que não quero falar.

- Ok, já percebi.

Nesse momento o Dr. Barros entra no quarto. Também ele vinha acompanhado.

- Já parece mais coradinha Mel.

- É da companhia. – Disse, rindo.

- Este aqui é o Dr. Jaime. Está a tirar a especialidade e a partir de agora vai ser ele o responsável a seguir o seu caso.

Olhei para aquele novo médico. Era realmente novo, talvez dois ou três anos mais velho que eu. Alto, cabelo escuro e olhos de um azul como nunca vi.

“ Mudei para melhor. Pelo menos de aspecto”, pensei. E não fui a única. A Ana e a Inês estavam de boca aberta a olhar para aquele jovem médico, e não era difícil adivinhar os seus pensamentos. É claro que a Inês tinha de lhes dar vida.

- Doutor Jaime! Vou passar a acompanhar mais vezes a Mel. Não tenho sido uma boa amiga. Vai que ela desmaia outra vez…

Levei as mãos á cara e  baixei a cabeça. Que vergonha. O Doutor percebeu e riu-se. Felizmente o Dr. Barros já tinha saído. O novo médico aproximou-se de mim e abriu um pouco da camisa para me auscultar. Corei. Nunca tinha sido examinada por alguém tão jovem.

- Então Mel, como é que se tem sentido hoje?

- Mais ou menos… mas estou melhor agora.

 Dissera aquela frase com o intuito de me dar alta, mas alguém aproveitou a deixa.

- Quando os médicos são bons…

Desta vez olhei directamente para a Inês e fiz-lhe sinal para que parasse. A Ana achou melhor levá-la dali e eu suspirei de alivio.

- Parecem gostar muito de si, as suas amigas.

- Sim. Eu tenho muita sorte.

- Também, aposto que deve ser fácil gostar de si…

Corei novamente. Era impressão minha ou o Dr. Jaime estava a atirar-se a mim?

- Desculpe. Eu não quis ofender. Só disse porque o Dr. Barros falou de si com muito carinho. A jovem que precisa de um transplante mas preferiu parar com o tratamento. Qualidade, em vez de quantidade.

Olhei para este novo médico de perto. O seu rosto era quase perfeito, e tinha uma expressão gentil. Sorri.

- Acho que foi muito corajoso da sua parte. Insensato, mas corajoso. Pronto, parece estar tudo normal. Se continuar assim, amanhã poderá sair.

- Isso é que é uma boa notícia.

- Passo por aqui depois, para ver como está.

- Se acha necessário…

- Não acho, mas quero.

E saiu de sorriso nos lábios, deixando-me a mim de queixo caído.

 

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 20:04

Ana tinha já feito quilómetros naquele corredor de hospital. Já conhecia todos os quadros pendurados, e todas as fendas na parede. Não ia a casa há mais de 24 horas. Sentia o cansaço em todos os músculos do corpo. Precisava de um banho, de uma refeição decente, de uma pausa. Mas ela não o sentia. Estava demasiado preocupada, e não se atrevia a sair do hospital sem saber notícias da sua melhor amiga. O Bruno tinha-lhe deixado lá qualquer coisa para ir petiscando, mas ainda não lhe tinha tocado. Sentia o estômago embrulhado. A Inês oferecera-se para ficar lá durante uma ou duas horas. O tempo suficiente para ir a casa tomar um banho, deitar-se meia-hora. Mas ela não era capaz de sair dali. Não sem antes ter a certeza de que estava tudo bem. Mas as dúvidas pairavam. Os médicos ainda não tinham dito muita coisa. Mel continuava em observação e sem poder receber visitas. O seu estado ainda era reservado, mas Ana tinha conhecimento bastante sobre o que ela tinha para conseguir ter uma ideia do que se estava a passar. E não era bom… Há muito que ela esperava por uma coisa assim. Sabia que sem tratamento pouco ou nada havia a fazer. Pensava que estava preparada para o pior, mas afinal enganara-se. Não estava nem perto disso.

Era tarde, já passava das onze da noite e o hospital estava praticamente vazio àquela hora. Só dois ou três familiares de pessoas também internadas, e que tal como Ana aguardavam notícias. Esta estava encostada á parede, meio dormente, quando o som do elevador a despertou. Esfregou os olhos para se manter acordada, e não reparou nos dois vultos que se aproximaram dela.

- Ana!

Ana levantou a cabeça e Ruben reparou como tinha um ar cansado e estava pálida.

- Ruben? David? O que fazem vocês aqui?

- A Inês… ela disse ao David que a Mel estava no hospital.

Ana respirou fundo.

- Ela não devia ter feito isso.

- Ana, - Pergunta o David – que aconteceu com a Mel?

Hesitante, Ana não sabe o que responder. Está cansada, demasiado para pensar nalguma coisa. E depois, a Mel já devia ter falado com o David, há muito tempo… Agora, era tarde.

- David, não me faças perguntas a que eu não posso responder. Olha, tu nem devias estar aqui. O melhor é voltarem para casa. A Mel depois fala contigo.

- A Mel não atende os meus telefonemas, não quer que vocês me contem que ela se demitiu do emprego, me evita o tempo todo… Você acha que eu acredito mesmo que ela vai me falar sobre o que aconteceu?

- Tu também não foste propriamente correcto com ela. Estavas á espera de quê?

- Eu não vim aqui p`ra discutir isso. Mas eu preciso saber o que está havendo. A Inês não me falou nada. Disse que não sabia ao certo, ficou rodeando, inventando desculpas. Eu não insisti porque eu estava louco p`ra vir p`ra cá. Mas agora eu não saio daqui enquanto alguém não me disser o que é que a Mel tem. Se for preciso, eu falo com o médico.

Ana encarou David de frente. Este tinha uma expressão decidida, determinada, e ela percebeu que não adiantava fugir mais á questão.

- É melhor falarmos lá dentro, com calma.

David seguiu-a até uma salinha pequena e vazia. Ruben resolveu esperar cá fora. Ele percebera pelo constrangimento de Ana, que algo de grave se estava a passar, e que o que quer que fosse, naquele momento, só interessava a David.

- Aqui podemos falar mais á vontade. – Disse Ana. – A Mel vai ficar danada comigo… Era ela que já te devia ter contado, e há muito tempo até.

- Contado o quê? O que é que a Mel tem?

- David, a Mel está doente. Há muito tempo que ela tem um problema… eu nem sei como começar.

- Começa pelo princípio. Eu quero saber de tudo.

- Quando a Mel era pequena descobriu-se que ela tinha uma imunodeficiência no fígado. É uma coisa rara, que geralmente só se descobre mais tarde. Mas no caso dela haviam já certos sintomas que permitiram fazer um diagnóstico mais cedo. Ela foi medicada mas esses medicamentos eram muito fortes, e limitavam-na muito. Ao princípio ela não ligou, porque era muito nova. Mas com o passar dos anos, ela foi querendo fazer sempre mais coisas. Aquela rapariga tem um bichinho dentro dela que não a deixa estar quieta. Por isso ela começou a estudar música e dança. Mas muitas vezes sentia-se mal, os músculos ficavam presos, sem força. Por isso ela decidiu parar com a medicação. Mas ninguém soube, só eu.

- Mas… ela podia fazer isso? Parar de fazer um tratamento de um dia p´ro outro, não é perigoso?

- Bastante. Mas ela já não queria saber. Há muito tempo a Mel decidiu que preferia viver com qualidade, do que com quantidade. E depois veio a bolsa aqui da faculdade. A mãe dela quando soube ia tendo um ataque. Ela não queria que a Mel viesse para tão longe. Queria tê-la lá, onde pudesse vigia-la. E quando a Mel lhe disse que já não tomava os medicamentos há uns tempos e que já tinha decidido vir para Lisboa, ela passou-se completamente. Deu-lhe um ultimato. Ou esta voltava a andar na linha, ou estava fora de vez. E a Mel resolveu ficar de fora.

David ouvia tudo com o coração nas mãos. Não entendia porque razão ela nunca lhe tinha contado nada.

- Mas então e agora, o que aconteceu? Ela piorou? Quem sabe falando com o médico a gente descobre uma maneira de…

- David, a Mel está a morrer.

-…

- A única solução é fazer um transplante de fígado, mas não está fácil convencer os médicos. O facto de ela ter interrompido o tratamento não ajuda. Pelo contrário. Eles acham que ela não se interessa. Ninguém percebe que a qualidade de vida dela era mínima. Tinha dias que nem saia da cama com dores. Era horrível, eu sei, eu assisti.

- Porque ela não me falou nada? Eu podia ter ajudado ela…

- A Mel não quer a ajuda de ninguém. Ela sempre foi assim. Quer fazer tudo sozinha. Eu sempre lhe disse para te contar a verdade, mas ela não queria. Dizia que estava á espera do momento oportuno.

- E agora? Ela piorou?

- Os médicos deram-lhe entre dois a três anos de vida, sem medicamentos. Ela já deixou de os tomar á mais de um ano. Os sintomas de que a doença está a vançar são cada vez mais frequentes. Os desmaios são um presságio do que pode vir aí.

- E o que é?

- A qualquer momento ela pode entrar em coma...

David estava cada vez mais chocado com o que ouvia. Não sabia o que dizer, como reagir, o que fazer.

- Olha, eu acho que é melhor ires para casa. Não há nada que possas fazer aqui. Depois falas com ela, quando ela sair daqui.

- “Se” ela sair daqui.

- Ela vai sair. Foi só uma crise, como tantas outras que ela já teve. Tu nem imaginas como eu já a vi. Vai para casa, descansa. Eu falo com ela primeiro e depois aviso-te, ok?

David assentiu e saio com o Ruben. Estava demasiado perplexo com o que acabara de ouvir. Precisava de tempo para digerir tudo aquilo. Ruben viu que a conversa que ele tivera com Ana deixara-o muito abalado, mas não perguntou nada. Quando David se sentisse preparado para falar, falava. Mas este não sabia nem o que pensar. Nessa noite não dormiu, olhando pela janela e pensando no que ela significava realmente para ele.

  •    

No dia seguinte, bem cedo, David saiu de casa do seu mano e dirigiu-se para a sua. Quando entrou Carol ainda estava de pijama.

- David, você voltou.

- Vim ver se você já tinha ido embora.

- Eu vou embora esta tarde, foi o que consegui…

- Óptimo. – Este falava com uma expressão grave.

- David, o que você tem, meu an…

Carol conteve-se. Lembrara-se das palavras que ele lhe tinha dito, e não quis aborrecê-lo mais.

- Nada.

- Eu posso só dizer uma coisa.

- Carol, eu estou sem tempo, e sinceramente não acho que possa ter mais alguma coisa que me interesse.

- Eu só queria pedir desculpa p`ra você. Eu sei que não agi direito, e estou arrependida. Se você quiser eu falo com a Mel e tento explicar tudo.

- Eu não quero você nem perto dela, ouviu bem?

- Você gosta mesmo dela, não é? Você nunca olhou p`ra mim do jeito que eu vi você olhando p`ra ela.

- Eu vou indo.

- Vai falar com a Mel?

- Vou tentar… Quando eu voltar não quero mais ver você aqui, ou eu chamo o segurança.

David saiu porta fora, e Carol ficou imóvel no meio do corredor. As lágrimas começaram a descer e esta soube que tinha chegado ao fim…

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 01:10

25
Out 10

- … esse cara por quem eu tou apaixonada, é você.

David encontrava-se de pé, no meio da sua sala, e as palavras que ouvira deixaram-no completamente desarmado, sem reacção. Há muito tempo atrás ele amara aquela rapariga, tivera uma relação com ela. De alguma forma essa relação ainda existia. Diferente, mas existia. Ela fora o seu primeiro amor e ele guardava-a no seu coração. Juntos partilharam momentos, sentimentos. Mas isso fora há muito tempo. O único sentimento que restara fora a amizade, o carinho e o respeito. David pensava que era assim com os dois. Mas estava enganado.

- Eu sei que eu não devia ter mentido pra você, mas eu não sabia como te dizer. A verdade é que eu nunca esqueci você. Eu tentei, juro que tentei, mas não deu. Eu continuo te amando.

- Você devia ter me falado a verdade…

- Eu sei, mas quando me disseram que você tava namorando, eu não pensei em nada. Eu tinha medo de te perder par sempre, porque enquant…

- Peraí! Quando disseram pra você que eu tava namorado? Quer dizer que você sabia?

Agora era a vez de Carol ficar sem reacção. As suas palavras traíram-na, e desta vez não havia volta a dar. Ela conhecia o David, e o melhor seria dizer a verdade.

- Me enviaram uma mensagem, através da internet, me dizendo que você tinha conhecido outra pessoa, mas que ela não tava te fazendo bem. Dizia que você andava desconcentrado, triste, p´ra baixo, e me pediam se eu podia vir a Portugal p´ra… sei lá, tentar tirar você de uma roubada. Eu não conhecia a Mel, e eu fiquei com medo que ela só tivesse querendo se aproveitar de você.

- Você não tinha esse direito, Carol.

- Mas eu pensava que eu ia estar te ajudando. David, eu continuo gostando de você, nada mudou. E eu sei que você sente alguma coisa por mim também. Se você me der uma chance… eu venho pra cá desta vez, eu largo tudo lá no Brasil, e eu sigo você pra onde você for.

- Você não entendeu. Eu gosto de você sim, mas como amiga, uma irmã. Não tem mais nada entre a gente, eu pensava que isso tinha ficado bem claro quando a gente terminou.

- Eu também pensava isso, mas aí o tempo foi passando e eu fui percebendo que eu gostava mais de você do que eu própria imaginava. David, eu sofri tanto sem você. Cheguei a pensar que eu ia ficar doida.

- Eu pensei que te conhecia, que podia confiar em você. Eu abri as portas da minha casa pra você, te dei a mão. Eu fiquei do seu lado quando você fingiu que tava sofrendo por um cara. Que idiota que eu sou.

- Eu não queria te magoar, eu juro que não queria.

- E a Mel? Você faz ideia do que você fez?

- David, eu não tive nada a ver com o que aconteceu no jantar. Eu nem sabia que aquilo ia acontecer.

- E quer que eu acredite em você, depois do que eu ouvi aqui?

- Mas é verdade, eu não sabia.

- Então foi coincidência naquela noite, você ter inventado que tava mal, só pra eu ficar do seu lado? Você fez de tudo pra eu não me aproximar daquela maldita gala.

- Não. Quer dizer… David, me disseram que nessa noite era minha chance de eu tentar reconquistar você. Mas eu não sabia…

- Quem falou p´ra você? Quem foi que contou p´ra você que havia alguém na minha vida? Fala Carol. E não adianta dizer que não sabe quem foi.

Carol hesitou alguns segundos, e por fim disse:

- Foi a Pat.

- Eu não acredito. A Inês tinha razão o tempo todo. As duas conspirando pra me separar da Mel. Como foi que a Patrícia descobriu?

- Isso eu não sei David, ela nunca me falou. Mas foi ela que me mandou a mensagem e também que me disse pra eu segurar você na noite da Gala. Ela disse que era a minha grande oportunidade.

David esboçou um sorriso irónico na cara, antes de sair da sala e entrar no seu quarto. Carol, foi atrás dele, mas este ignorou-a. Estava demasiado chocado com tudo o que tinha ouvido.

- David, vamos conversar, por favor. Fala comigo.

- Falar? Conversar? Se eu nem vontade tenho de olhar pra você.

- Olha, eu sei que eu errei, que eu não devia ter mentido. Mas para e pensa um pouco. Se a Mel te amasse de verdade ela escutar você. Talvez até tenha sido melhor assim. David, olha p´ra mim meu anjo. Porquê você está arrumando suas coisas?

- Não me chama de anjo.

- Mas p´ra onde você está indo a essa hora? Você vai atrás dela?

- Não! Eu estou indo p´ra casa do Ruben porque se eu ficar aqui com você, eu tenho medo do que eu posso fazer. Nesse momento eu não suporto estar perto…

- David, - Carol, desesperada, soluçava. – Por favor. Não faz assim. Me escuta.

- Eu já escutei tudo. Agora é sua vez de escutar. Eu estou saindo, mas eu volto. E quando eu voltar, eu não quero mais ver você aqui, na minha casa. Entendeu?

- David… mas…

- Eu te dou uns dias porque sei que não é fácil nesta altura arranjar voo p´ro Brasil. Mas não pensa em abusar, porque eu sei como essas coisas funcionam. Eu não quero mais falar com você, olhar pra você ou ter qualquer tipo de contacto com você. Me esquece.

E sai do quarto, levando o essencial numa mochila, e deixando Carol de rastos, chorando. Esta sabia que agora sim, a história deles tinha chegado ao fim.

  •    

O dia abriu um pouco no sábado, e a Ana e eu resolvemos dar uma volta pelo centro comercial. O natal estava á porta e, apesar da situação difícil, gostava de ver e sentir o ambiente natalício. Aproveitava e procurava nova ocupação laboral. Havia sempre uma ou outra loja a precisar de alguém. À hora do almoço a Inês e o Bruno juntaram-se a nós.

- Preciso de encontrar uma prenda para os meus pais.

- Tão querido o nosso Bruno. Morar com os pais é no que dá. A primeira prenda é sempre para eles.

- Lá estás tu. Importas-te de pelo menos hoje não me aborreceres com as tuas coisas. Estamos em época de Natal. Paz, criatura.

- Eu dou-te a paz.

Como sempre, o Bruno e a Inês não podiam estar muito tempo juntos. Os dois faziam faísca. Eu e a Ana mantinha-mos a nossa distância, e a maior parte do tempo tínhamos de disfarçar uma gargalhada bem sonora. Acho que a Ana já partilhava da minha opinião. Eles tinham sido feitos um para o outro.

Entrei nalgumas lojas em que pediam colaboradoras e deixei o meu contacto. Se tivesse sorte, alguma me havia de contactar. Foi ao sair de uma destas lojas que comecei a sentir uma ligeira falta de ar e tontura. Tentei não dar muita importância ao caso, pois o cansaço físico e emocional da última semana muito contribuíra para isso. Continuei acompanhando o ritmo dos meus amigos, mas cada vez com mais dificuldade. Os disparates e as risadas continuavam. Lembrei-me que há já algum tempo que não me ria assim. Depois, a imagem do David apareceu-me tão nitidamente, como se tivesse realmente na minha frente. As vozes foram ficando cada vez mais longe e tive dificuldade em distinguir quem dizia o quê. A Ana estava mesmo ao meu lado, mas tive de abrandar o passo, pois o chão parecia-me fugir. Eles continuaram, um pouco mas alguém deu pela minha falta e olhou para trás. Eu estava parada no meio da multidão e a Ana, percebendo que algo se passava, deu meia volta e veio ter comigo. A Inês e o Bruno riam, e ouvi alguém perguntar:

- Mel? Estás tudo bem?

A cara da Ana foi a ultima coisa que me lembro de ter visto. Tentei agarrar o seu braço, mas foi tarde demais…

  •    

O jogo do Benfica já tinha terminado, e estes haviam perdido. Nestes dias a “ Catedral” ficava sempre mais vazia. O desânimo contagiava toda a gente. A Inês dava graças a Deus por não haver quase ninguém no restaurante. Ela obrigava-se a estar ali naquele dia. A sua mente estava longe, muito longe dali. Lá dentro, o Bruno limpava a loiça muito calado. Todos tinham reparado que algo se passava com aqueles dois, mas ninguém sabia o porquê. A Inês arrumava as bebidas por trás do balcão, mas fazia-o quase instintivamente, sem olhar para o que estava realmente a fazer.

- Oi Inês, tudo bom?

Ela levantou os olhos e viu o David na sua frente.

- Posso falar com você?

- Olá David. Desculpa não te vi. Precisas de alguma coisa?

- Eu preciso falar com a Mel. Ela está aí?

- Não David… A Mel não trabalha mais aqui.

- Como não trabalha mais aqui?

- Ela despediu-se, logo no dia a seguir á Gala.

- Porquê você não me disse nada?

- Porque ela não deixou. Ela não quer que tu saibas mais nada da vida dela.

- Mas eu preciso falar com ela. Não posso esperar mais tempo. Eu dei espaço pra ela se acalmar, como você disse. Mas agora não dá mais. Quer saber? Tou indo lá na casa dela, e é agora.

- Não vale a pena David. Também não a vais encontrar lá.

- Não vai me dizer que ela também mudou de casa?

- Não…

- Então onde ela está, Inês? Me fala, por favor?

- Ela… A Mel está no hospital!

publicado por nuncamaissaiodaqui às 23:25

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D