10
Dez 12

- Não! Não… Não! Não… N-não! – A única palavra que me vinha á cabeça era… - Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não! Não… Não!

- Mel! – O Dr. Barros tentava fazer-me voltar á realidade, mas o choque inicial fora tão grande que a negação parecia ser o meu único escape.

- Não!...

- Mel! Sente-se e vamos conversar, com calma.

Sem me aperceber começara a andar às voltas por toda a sala do Dr. Barros, ainda em negação, e a tentar perceber como fora uma coisa destas acontecer.

- As análises não estão boas… Enganaram-se! Não são minhas! Não podem ser minhas… - Disse desesperada e deixando-me cair finalmente na cadeira.

- As análises não estão enganadas, mas podemos repetir se quiser. Mas antes, pense comigo. A Mel é uma pessoa inteligente. Acha mesmo que iríamos cometer tal erro?

- Não! Mas, pode acontecer…

- Há quanto tempo tem esses enjoos?

- Não são bem enjoos, é mais uma má disposição. Às vezes…

- Eu sei que não quer reconhecer, mas é o que aí está.

- Não, eu cuido-me sempre…

- Tem a certeza?

- Sim! Quer dizer… Houve uma vez que… Mas foi só uma vez.

- É quanto baste.

- Não! Não! Como…?

- Então, Mel? Não quer agora que eu lhe explique como é que se faz. Você há-de saber melhor do que eu como é que engravidou.

Cruzei os braços sobre a mesa e encostei a cabeça aos mesmos. “ E agora? O que é que eu faço? O que é que eu vou dizer ao David?”. Percorri todos os momentos em que estivera com o David na esperança de encontrar uma resposta que mostrasse que o Dr. Barros estava enganado, mas apenas consegui provar que nem sempre tivéramos tanto cuidado…

- Mel! A sua situação neste momento é muito delicada. Uma gravidez numa altura destas tem de ser muito bem avaliada. Mas eu estou a ver que neste momento não está com cabeça para pensar muito nisso. Aconselho-a a ir para casa descansar. Eu vou-lhe passar umas vitaminas para tomar que não afectam em nada o seu problema de saúde. Fale com o pai da criança e depois venha falar comigo. O mais breve possível. A Mel sabe porquê.

Abanei a cabeça num gesto afirmativo. As implicâncias de uma coisa destas dada a minha situação clínica, podia ser desastrosa. Saí do consultório do Dr. Barros a tremer. O meu cérebro tentava processar ainda toda a informação. “ Como é que tu foste tão estúpida…”. O telemóvel tocou no instante em que entrei no elevador. Era a Ana. Recusei a chamada e esperei até chegar á rua. Depois liguei-lhe de volta.

- E então, como é que estás? O que disse o médico?

- Estou… - Nem sabia o que dizer. Não me sentia pior, mas depois de uma “bomba” destas me cair em cima também não me sentia melhor. - Olha, eu logo falo contigo. Agora não dá.

Desliguei antes que a Ana me fizesse mais perguntas ou notasse algo na minha voz que a fizesse ver o quão perturbada eu me encontrava. Decidi apanhar um táxi do hospital e regressar a casa. Não estava com cabeça para mais nada. Quando cheguei, segui o conselho do Dr. Barros e deitei-me. Mas não consegui adormecer. As palavras do que me dissera repetiam-se constantemente e eu não tinha forma de as calar. Senti o meu corpo todo a tremelicar. Como é que eu ia contar uma coisa destas ao David? E se ele pensasse que a culpa era minha?

Agarrei na almofada e tapei a cabeça com a mesma, na esperança que fosse capaz de calar todas as vozes que soavam e me transtornavam cada vez mais. Inútil! Em vez disso, os pensamentos pioraram, tornaram-se mais altos até não conseguir suportá-los mais. Levantei-me de rompante e procurei pelos sapatos. Calcei-os á pressa, olhei para o relógio em cima da mesinha do meu quarto, ajeitei o cabelo com as mãos, peguei na mala e saí disparada para a rua. Tinha de provar a todo o custo que desta vez o médico se enganara. Eu não estava grávida! Com um passo mais apressado do que o normal, dirigi-me á farmácia mais perto de casa e entrei. Estavam lá três ou quatro pessoas e mantive-me a um canto, á espera da minha vez. Enquanto esperava, dispersei o olhar pelo interior e deparei-me com uma secção de produtos para bebés. Não pude deixar de sentir um aperto no coração. Naquele momento, uma vida pequena e frágil crescia dentro de mim, dependia do ar que eu respirava e dois corações uniam-se num único batimento. Sem que me apercebesse, levei a mão á barriga em forma de protecção e mantive-a lá. Nunca me imaginara numa situação tal. Sim, a dado momento acho que iria querer ter filhos, constituir família. Mas nunca pensara bem no assunto, em parte devido á minha situação clínica. Sabia bem qual o significado das palavras do Dr. Barros. Não era fácil conviver com algo assim. A qualquer momento eu podia ir parar a uma cama de hospital, as crises sucediam-se cada vez com mais frequência. Não me tinha sido ainda permitido pensar em ter filhos, não na minha condição. E mesmo que nada disso se passasse comigo, havia ainda a questão dos meus estudos, o meu trabalho que estava ainda no início… e a carreira do David. Nós tínhamos reatado há muito pouco tempo. Tal assunto nunca tinha surgido, nem de brincadeira. Fechei os olhos e tentei pensar em coisas positivas. “O teste! O teste de gravidez vai provar que os resultados estavam errados. As análises não eram minhas! Eu não estou grávida! Eu não estou…”

- Seguinte, por favor!

A voz da farmacêutica despertou-me. Olhei em redor, chegara a minha vez. Aproximei-me timidamente do balcão e pedi, numa voz trémula e sumida:

- Boa tarde! Eu queria um teste de gravidez, se faz favor!

- Desculpe? – Voltou a perguntar. A frase saíra-me num tom tão baixo que mal se ouvira.

- Um teste… de gravidez.

- Ah! Um teste de gravidez. Falou tão baixo á pouco que não a percebi.

Retribui com um sorriso amarelo. Era escusado ter repetido o pedido, pensei.

- Aqui tem! – Disse, estendendo-me uma caixa pequena em tons rosa e roxo. Parei uns segundos a olhar para ela. – Mais alguma coisa?

- Não! É só!

Saí da farmácia como quem sai de um assalto a um banco. Olhava com desconfiança para todos os que passavam por mim. “ Que estupidez, Mel! E então? Compraste um teste de gravidez! E o que é que isso tem? Hoje em dia é a coisa mais normal.” Respirei fundo e voltei a fazer o caminho que fizera, em sentido contrário mas no mesmo passo apressado.

Mal entrei em casa, joguei a mala para o chão e corri para a casa de banho. Tranquei a porta, abri o pacotinho e li atentamente as instruções. “ Esperar cinco minutos até o resultado aparecer”, dizia quase no fim. “ cinco minutos”, pensei, “Não podiam ser antes 5 segundos?”. Fiz o que tinha de fazer e coloquei o teste em cima da bancada. “ Agora é só esperar”. Foram provavelmente os cinco minutos mais longos da minha vida. De vez em quando era assaltada por uma vontade quase incontrolável de espreitar, mas tinha medo do que iria ver. Olhei as horas no telemóvel e constatei que finalmente o tempo já tinha passado. A medo, peguei novamente no teste e confirmei o resultado: Positivo!

Deixei-me estar muito quieta a fixar os dois tracinhos avermelhados que apareceram no mostrador. Era escusado. Por muitos testes que comprasse, por muito que o quisesse negar, já não havia nada a fazer. Sai da casa de banho em direcção á sala, sem me aperceber que levava ainda o teste na minha mão. Depositara todas as minhas esperanças naquele pequeno pauzinho, e todas elas caíram por terra. Nesse instante a porta abriu-se e a Ana entrou seguida pela Inês. Eu virei-me num impulso, alertada pelo barulho, mas a minha cabeça estava bem longe dali.

- Ah, cá estás tu. Mel, o que é isso aí na tua mão?

A Ana olhava-me com ar interrogativo. Eu apercebi-me do que ainda carregava e instintivamente levei o braço para trás das costas.

- Nada! – Respondi de forma nada convincente.

- Isso é… - A Inês aproximara-se mais… - Isso é um teste de gravidez?

Vi a Ana franzir a testa enquanto o queixo lhe caia e ela exclamava:

- Mel!?

  •  

- E agora, o que é que eu faço?

Ana e Inês mantinham-se em silêncio á minha frente. Foi a Inês quem primeiro se levantou e veio ter comigo.

- Calma! A primeira coisa a fazer é contares ao David. Eu tenho a certeza que ele vai entender. E além disso, não fizeste isso sozinha. Ele tem metade da responsabilidade do que aconteceu.

- Eu sei… Mas como é que eu lhe digo que “isto” aconteceu? Nós sempre tomamos cuidado, nunca…

- Nunca? Não me parece que tenha sido bem assim. Em algum momento baixaram a guarda.

- Tens ideia de quando aconteceu? – A Ana perguntou.

- Acho que sim… Sim. Quando ele chegou de Itália e veio ter comigo. Eu não estava á espera, e ele veio directamente para cá… Nós estávamos a ponto de reatarmos e acho que nenhum pensou… Não sei…

- Ah, pois... Estiveram tanto tempo separados que acabou por dar nisso.

- Inês! – Ana chamou-lhe a atenção. – Não é hora para isso agora.

- Eu sei… Desculpa.

Eu continuava sentada no sofá, ainda em choque pelo que me estava a acontecer.

- Olha, eu tenho a certeza de que o David vai apoiar-te. Ele é uma pessoa ás direitas e gosta de ti. Bastante… E depois, um filho não é assim tão mau. Já imaginaste? Um rapazinho a correr pela sala de caracolinhos dourados como os do pai? O máximo…

Levantei-me num salto.

- Não! Não! Não e não! Recuso-me a estar nesta situação.

- Ah, Mel… Já está feito… Isso não é uma encomenda que possas recusar porque não gostaste. A menos que estejas a pensar…

Parei no meio da sala e encarei-as directamente. Pôr um fim á causa da minha aflição era coisa que ainda não me tinha passado pela cabeça. Por muito desesperada que estivesse.

- Não! – Gritei! – É claro que não estou a pensar nisso. Mas a verdade é que também não sei se posso levar isto adiante. A minha saúde...

Rodopiei nos calcanhares e deixei-me cair novamente no sofá. Fechei os olhos e soprei.

- Sinto-me tão perdida.

Ana e Inês abraçaram-me.

- Nós sabemos, amiga! Mas nós estamos aqui. E não vamos a lado nenhum até que encontres o caminho de volta.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 03:01

09
Dez 12

Abril chegou num piscar de olhos. Andara tão ocupada e feliz durante todo o resto do mês de Março que nem dera pelo tempo passar. No meio de tudo isto só uma coisa me aborrecia: O mediatismo que ganhara depois que assumira a minha relação com o David. Os colegas da Faculdade perguntavam-me coisas sobre ele. Onde quer que fosse ouvia pelo menos uma pessoa comentar “ Olha, aquela é a namorada do David Luiz!” No estádio passei a assistir aos jogos nas bancadas destinadas aos Vips e familiares, coisa que não me agradava muito. Gostava de comemorar os golos á minha maneira e lá nunca me sentia á vontade para o fazer. Preferia mil vezes juntar-me á algazarra dos comuns mortais nos piores lugares dos sectores. Mas o pior de tudo era quando dava com uma foto minha numa dessas revistas cor-de-rosa, tirada por algum fotógrafo armado em paparazzi, ou pela câmara do telemóvel de alguém que simplesmente me viu passar. Nestas situações só a Inês delirava. Costumava comprar toda e qualquer revista ou jornal onde eu aparecesse. Mesmo que a cara mal se reconhecesse e a qualidade de imagem fosse péssima. Certa vez julguei que lhe fosse dar um ataque de coração quando ela própria se viu estampada numa foto ao meu lado, à saída do Estádio da Luz. Apressou-se a comprar duas revistas, recortou o artigo das duas e emoldurou-os. Quando cheguei a casa tinha uma moldura nova pendurada na sala, sendo que a outra ficara pendurada na sala dela. Aí, quem ia tendo um ataque era eu. Já o David ria de tudo isto, e às vezes até a encorajava a fazer algo mais estapafúrdio. Cheguei a duvidar da sanidade dos dois… Mas é claro que também me divertia. E depois, todos os momentos que passava com ele compensavam em dobro.

E assim foram os dias passando, e eu não dei conta…

- Se calhar é melhor fazer mais pipocas. – Inês olhava indecisa para um pacote de milho que tinha nas suas mãos.

- Mais pipocas? Mas já encheste três tigelas grandes…

- Sim, mas somos muitos e  só eu como uma dessas tigelas.

- Ok! Faz como quiseres, mas acho que já não temos mais nada onde as meter.

- Porque é que não deixas para fazer depois?

- Depois quando? Quando estiver a dar o programa e eu ter de interromper? E depois perco algum grande plano da Mel.

- Inês, é por isso que nós temos aquilo a gravar. – A voz da Ana soou num tom irónico.

- Mas não é a mesma coisa.

- Como é que não é a mesma coisa se está gravado?

- Ora… porque não é! Assistir a gravações é o mesmo que comida aquecida de há um dia. Não tem o mesmo sabor.

Ana e eu entreolhámo-nos atarantadas. A Inês sempre arranjava maneira de nos confundir.

“Trim! Trim!”

- A campainha! Deve ser o Bruno.

Era a estreia em televisão do programa no qual eu participava como uma das vozes de coro, apresentado pelo João Manzarra. Eu, a Ana e a Inês tínhamos convidado o David, o Ruben, o Gustavo e o Bruno para jantarem em nossa casa, e assistirmos depois todos juntos. A Ana e a Inês encarregaram-se da comida, ficando uma responsável pelo jantar enquanto a outra tratava dos aperitivos, sobremesas e afins para mais tarde. As pipocas eram para mais tarde. Eu tratei de arrumar a casa e pôr a mesa. O Bruno, que acabara de chegar, traria as bebidas.

- Por favor, diz-me que não te esqueceste.

- Mas tu pensas que eu sou o quê?

- Queres mesmo que te responda?

O Bruno fez-lhe uma careta.

- Trouxe vinho, cervejas, espumante…

- Espumante? – Interrompi.

- A Inês disse-me para trazer.

Virei-me na direcção desta franzindo o sobrolho.

- Espumante?

Inês encolheu os ombros.

- Então, temos de comemorar a tua primeira aparição na TV.

- Mas esta não é a minha primeira aparição na TV. – Disse.

- Ai não? – Perguntou o Bruno confuso.

- Não! – Respondi. – A primeira foi há uns anos atrás, num outro programa em que eu participei.

- Ora, mas esse não conta.

Suspirei. Com a Inês não valia a pena discutir. Ela ganhava sempre.

- Estás bem Mel?

- Hum-hum! – Disse, encostando-me à bancada ao sentir uma ligeira tontura. – Estou só um pouco cansada e maldisposta.

- Vou abrir a janela para entrar o ar. – Disse a Ana. – Aqui dentro está muito abafado.

- E eu vou tomar um duche rápido e trocar de roupa. O David e os outros devem estar por aí a chegar.

  •  

Deixei-me ficar ainda alguns minutos debaixo do chuveiro. A água quente a cair-me na pele sempre me relaxava. Sentia-me bem, despreocupada. Parecia que as coisas estavam finalmente a entrar nos eixos. Sem me aperceber deixei-me invadir por lembranças de como era a minha vida há um ano atrás, e de como as coisas mudaram desde que chegara a Lisboa. Acontecera tudo tão rápido, e no entanto todas as memórias anteriores a isso pareciam-me tão distantes… como se tivesse vivido numa outra vida. Apesar de tudo o que tinha acontecido já não me imaginava sem toda aquela agitação que tomara de assalto a minha nova vida. Não me imaginava sem a Ana a viver debaixo do mesmo tecto. Sem a Inês e a sua grande boca e imenso coração. Sem a Faculdade e os ensaios. E principalmente, já não me imaginava sem o David. Ele era parte de mim, como se estivesse impresso em todo o meu ser. Era impossível separar-me dele. Mesmo que um dia nos voltássemos a afastar, eu sabia que ele sempre ficaria em mim, marcado, tatuado no meu coração e na minha alma.

- Mel?

A voz da Ana despertou-me.

- Sim!

- O David já chegou.

- Eu vou já. Estou a acabar de me vestir.

Despachei-me o mais depressa que pude e fui ter com o resto do pessoal. Andavam todos num entra e sai da cozinha, carregando qualquer coisa e tropeçando uns nos outros. “ Estamos a precisar de mudar para uma casa maior!”, pensei.

- Ah! Aí está a estrela da noite! – Disse o Ruben, estendendo-me uma travessa com carne assada. – Toma! Não quero que te acostumes á boa vida.

Fiz-lhe uma careta. David veio por trás e tirou-me a travessa da mão.

- Não senhor! Hoje essa garota aqui não vai fazer mais nada a não ser se divertir, e levar muitos beijos do seu namorado.

Todos riram e alguns até assobiaram. Eu devo ter corado até á ponta dos cabelos.

- Isso, habitua-a mal. Quando deres por isso estás na cozinha a fazer o jantar. – Brincou o Ruben.

- Tá com ciúmes, tá nenem?

- Ai, mas isso sem duvida que vai acontecer. A Mel não gosta de cozinhar. Só vejo duas soluções. Ou contratam uma cozinheira ou passam a ir jantar fora todos os dias. – A Inês completou.

Quando finalmente nos sentámos á mesa e eu pude ver tantas caras sorridentes, agradeci por ter tanta gente amiga e amada á minha volta.

- Mel?

- Hum?

- Você tá bem? Está me parecendo um pouco pálida. Mal tocou na comida.

- Eu estou bem. Só estou um bocado enjoada e não me apetece comer. Acho que foi de toda a tarde só ter visto comida.

- Tem certeza que é só isso?

- Tenho!

- Não te preocupes, David. Assim que a sobremesa vier passa-lhe logo o enjoo.

Esbocei um sorriso amarelo. A verdade é que tinha passado todo o dia com o estômago embrulhado e com um ligeiro mau-estar. Mas optei por não dizer nada para não preocupar ninguém. E também não queria estragar o jantar. Aquela era a primeira vez que estávamos todos juntos em convívio. E estava a ser um serão bastante agradável e animado.

Após o jantar, resolvi eu lavar a loiça para que ninguém perdesse o inicio do programa. O David protestou mas eu mostrei-me irredutível, e ele não teve outro remédio senão conformar-se e oferecer-se para me ajudar. Da cozinha ouvíamos as conversas e os risos que vinham da sala e aproveitámos também para namorar um bocado. É claro que várias vezes fomos apanhados pela Inês, que nessa noite de tudo fazia uma desculpa para ir á cozinha. O David ficava sempre um bocado atrapalhado. Acho que ainda não recuperara da cena do banho. A Inês também não lhe dava uma folga. Eu limitava-me a franzir a testa e a disfarçar um sorriso. Conhecia a Inês bem demais e sabia que quanto maior importância desse ao caso, pior ela iria fazer.

- Vai começar! – O Bruno gritou da sala.

Pousei o pano da loiça, Virei-me de frente para o David que até então havia estado abraçado a mim por trás, beijando-me o pescoço e dificultando-me o trabalho, subi o máximo que pude em bicos dos pés para ficar da sua altura, beijei-o e agarrando-lhe nos braços arrastei-o para a sala.

- Essa foi a lavagem de loiça mais longa de toda a história.

David e eu trocámos um olhar de cumplicidade entre nós e sentámo-nos abraçados.

  •  

Ao final da noite, David tentara convencer-me a passar a noite na sua casa, mas recusei. Estava a pouco mais de um mês do inicio dos exames e precisava começar a estudar. Dentro em breve iria começar também novo trabalho para a produtora e isso limitava-me muito o tempo de estudo. Logo, tinha de aproveitar ao máximo todos os minutos, e por muito tentadora que a sua proposta me parecesse, tive de recusar. Em vez disso pensei em ter uma boa noite de sono que me fizesse recuperar algumas energias. David saiu um pouco contrariado, mas entendeu porque o fiz. Ele também era um profissional e sabia que para tudo havia um tempo certo.

No dia seguinte, e ao contrário do que tinha pensado, acordei com mais sono ainda e cansada. O estômago continuava embrulhado e uma sensação de sonolência minava-me completamente os sentidos. Só a muito custo consegui abrir os olhos e convencer-me de que tinha de me levantar. Quando o fiz, a Ana já estava levantada e numa roda-viva pela casa.

- Bom dia! – Disse com um bocejo.

- Credo! Que cara de sono é essa? Não dormiste?

- Dormi, mas não sei porquê dormia ainda mais.

- Ai, também eu. Deixei-me dormir e já vou apanhar transito até ao trabalho. O David vem-te buscar? Sempre posso levar o Jipe?

- Sim, podes! Ele deixa-me na faculdade. Vais ter comigo ao almoço?

- Sim. Eu dou-te um toque quando chegar e almoçamos juntas. Tenho de ir. Até logo.

A Ana saiu a correr pela porta e eu dirigi-me para a cozinha no mesmo passo pesaroso com que me levantara. O cheiro a café intensificou-se mal meti um pé dentro da mesma, e tive de conter um vómito tapando o nariz e a boca com as mãos. Dei meia-volta e sai, desta vez muito mais rápido do que quando entrara.

- Que horror! – Disse para mim mesma.

Resolvi não tomar o pequeno-almoço, não fosse ficar ainda mais maldisposta. Fui directamente para a casa de banho lavar a cara para ver se acordava de uma vez. O David devia estar a chegar e se queria estar pronta teria de apressar o ritmo. Vesti qualquer coisa á pressa e apanhei o cabelo para não demorar muito mais tempo. A seguir arrumei o que precisava levar para a faculdade e desci para baixo na altura exacta em que chegava a minha boleia.

- Bom dia! – Disse com um sorriso. David não respondeu. Em vez disso deu-me um beijo de tirar o fôlego e arrancou.

Na primeira aula que tive mal consegui manter os olhos abertos. De dois em dois minutos estava a bocejar e comecei a sentir-me um bocado mal, visto que o professor começara a reparar.

- Foi boa a noite de ontem, Mel? – Perguntou sarcasticamente.

- Desculpe?

- Se calhar é melhor ir um pouco lá fora apanhar ar. Volte quando estiver acordada.

Levantei-me mantendo os olhos no chão, e saí da sala em direcção á rua. As manhãs ainda estavam frescas e corria uma brisa que me pareceu bastante agradável. Encostei-me á parede, fechei os olhos e inspirei fundo. O Sol a bater-me na cara fez-me ter consciência de que a Primavera havia chegado, apesar do frio que ainda se fazia sentir e dos dias chuvosos teimarem em aparecer. De repente senti qualquer coisa a vibrar no bolso de trás. Tirei o telemóvel e vi que tinha nova mensagem. Era do Jaime. Senti algumas das minhas forças abandonarem-me quando vi o seu nome. Desde a ultima vez que faláramos no hospital nunca mais soubera nada dele. Fiquei na dúvida se havia de ler ou não e resolvi apagar. Fosse o que fosse preferia não saber. Voltei a guardar o telemóvel e saí em direcção á aula.

  •  

A Ana já me esperava na entrada quando saí. A última aula da manhã era prática e atrasara-me um bocado. Como a hora do almoço era apertada, decidimos comer na cantina da faculdade.

- … e quando o Jorge chegou estavam os dois quase pegados. Eu sei que ele é muito boa pessoa, mas não sei como é que ele aguenta aqueles dois. A Inês ás vezes… estás-me a ouvir?

- Diz? Desculpa!

- E eu estou a falar para o boneco. O que é que se passa? Ainda mal tocaste na comida. Já ontem também não comeste nada ao jantar.

- Não sei. Não tenho andado muito bem-disposta.

- Sentes-te pior?

- Não… O Jaime mandou-me uma mensagem hoje.

- O Jaime? O que é que esse quer?

- Não sei! Não li a mensagem, apaguei-a!

- Fizeste bem. Quanto menos souberes, melhor. Ele que se convença de que já não há nada entre vocês.

- Sim! – Disse levantando-me da mesa, mas nesse momento senti uma tontura tão forte que tive de me sentar logo de seguida.

- Mel? Que foi isso?

- Uma tontura, mas já passou.

-Olha bem para ti. Estás pálida! Mel, há quanto tempo andas assim?

- Eu estou bem, a sério.

- Não, não estás! Estás prestes a ter outra crise que te leve à cama, ou pior.

Ana tinha razão. Há já alguns dias que me sentia estranha e sabia bem o que isso significava, mesmo que não o quisesse admitir.

- Não era melhor falares com o Dr. Barros? Fazeres umas análises, pelo menos. Ouve, este último mês foi uma coisa atrás da outra. Tu não paras. Eu levo-te até ao “Curry Cabral”, falas com o médico, e logo se vê o que ele diz. Sabes que se deixares adiantar vai ser pior.

Fui obrigada a concordar. Tinha demasiados projectos em mão para me permitir ter uma recaída neste momento. Assim concordei que a Ana me levasse até ao hospital. O Dr. Barros ainda andava pela enfermaria quando cheguei. Assim que o informaram de que eu lá estava e a razão, pediu de imediato umas análises ao sangue e que eu aguardasse até ele acabar a ronda para falarmos. Eu assim fiz e felizmente não precisei esperar muito. No entanto, mal entrei na sua sala reparei no ar sério que tinha. “ Não acredito que os resultados estão assim tão maus.”, pensei.

- Sente-se Mel! – Disse no mesmo tom grave. – estive agora mesmo a ver as suas análises.

- E…? – perguntei a medo.

- E… Temos um problema.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 00:21

07
Dez 12

 

- O que é isso, Pat? Você ficou maluca, garota?

Da entrada eu assistia a uma cena que me fez gelar o sangue, e ficar completamente sem reacção ao ver outra agarrada e aos beijos com o David. Mas aparentemente, a surpresa não fora só minha. O Beijo que surpreendi não durou mais de dois segundos, seguido de uma reacção rápida de afastamento. David, agarrara Pat pelos braços e conseguira desprendê-la de um abraço tão apertado que me fez lembrar as pinças de uma lagosta pronta a cortar a sua refeição ao meio… Vá se lá saber porquê.

- David! David eu amo-te! Eu estou completamente apaixonada por ti. – Dizia Pat num tom misto de súplica e sedução. – E eu sei que tu também sentes..

- Sinto? Que sinto o quê? Eu amo a…

- Mel?! – O rosto da traidora abriu-se num sorriso ao pronunciar o meu nome.

David virou-se imediatamente e vi-o empalidecer quando notou a minha presença. Eu continuava no mesmo sítio, não me movera um milímetro. Depois do choque inicial, parecia que o meu cérebro deixara de funcionar, de processar toda e qualquer informação. No entanto, estava bem ciente do que acabara de ver e ouvir, e ao contrário do que podia esperar, as forças não me abandonaram, as pernas não cambalearam, e eu continuava ali como se de um muro se tratasse. Calmamente, fui avançando na direcção dos dois sem nunca tirar os olhos do rosto da Patrícia, sem sequer hesitar. Á medida que ia avançando notava as mudanças na sua expressão. Passou de sorriso vitorioso, a sorriso forçado até finalmente me dar um daqueles seus olhares de superioridade falso que tanto me afectavam no passado. Tomei isto como um sinal do desespero que a atingia, e era mais do que evidente que o facto de a estar a enfrentar a apanhara completamente de surpresa. David tentou falar quando passei por ele, mas ignorei-o e ele desistiu de continuar. Há já muito tempo que tinha “negócios” pendentes com a Pat, e estava na hora de os resolvermos de uma vez por todas. Parei a poucos centímetros dela. Os saltos que eu usava faziam-me bem mais alta do que o habitual e forçaram-na a olhar para cima.

- Patrícia! – Comecei por dizer. – Estás á espera de ganhar o quê com esta atitude ridícula?

Ela sorriu novamente e respondeu:

- Ridícula? Ridícula és tu que acabas de ver o teu homem aos beijos com outra e ainda te achas única, especial.

Nesse momento, David tentou interferir e justificar-se.

- Epá! Peraí. Eu não beijei ninguém não, você é que saltou p´ra cima de mim …

- Ora David! Queres enganar quem? Sim, eu tomei a iniciativa, mas tu podias muito bem teres-te esquivado. Não me vais agora dizer que eu te obriguei a alguma coisa. Um homem desse tamanho, forte e era dominado por mim? Essas desculpas podem servir para a Mel, mas a mim não me enganas tu.

- Quem tá querendo enganar alguém aqui é você. Você me chamou aqui dizendo que precisava me contar uma coisa importante, você me pegou assim, do nada, dizendo que tava apaixonada por mim. Eu nunca…

- PAREM OS DOIS! – Gritei!

David franziu a testa com ar surpreso. Nunca antes me ouvira gritar assim. Até a Pat engoliu em seco antes de voltar ao seu ar natural de quem controla tudo e todos. Quanto a mim, sentia o estômago ás voltas num misto de raiva e dor e pena. A minha vontade era a de matar a Pat, literalmente. Mas não queria descer ao seu nível. E, no final de contas, apercebera-me de que tudo aquilo não fora mais do que um esquema desesperado, uma última tentativa para me separar novamente do David. Mas desta vez eu não estava disposta a facilitar-lhe a vida. Desta vez não iria fugir, nem ter medo. Pelo contrário. Eu estava disposta a lutar pela minha felicidade. E essa felicidade estava ali, mesmo ao meu lado. Respirei fundo e voltei a aparentar a mesma calma com que começara, mas sentia algo a crescer dentro de mim. Algo contrário a tudo o que tentava passar para fora.

- Há muito tempo que nós duas temos algo pendente. Tu nunca gostaste de mim. Eu também não morro de amores por ti. A diferença é que tu sempre tentaste fazer da minha vida um inferno. Foste tu que armaste tudo para que a Carolina viesse do Brasil e aparecesse aqui do nada.

- Não, Mel! – David interveio mais uma vez. – Quem falou p´ra Carol vir foi…

- A Pat! Eu não sei que história é que te contaram, mas foi ela que falou com a Carol. Elas combinaram para que tu nunca aparecesses na Gala, e a Pat fazia o resto. Foi um belo discurso aquele. Foi tão bom que eu sai de lá a correr, completamente de rastos. Cheguei até a acreditar que o David tinha parte naquilo tudo. Que ele só andava comigo para o gozo. Eu estava bastante insegura em relação a nós os dois, tinha demasiadas duvidas por tu seres quem és e eu… bem, eu pensava que não estava á tua altura. A Pat percebeu isso, e usou-o contra mim.

O rosto da Patrícia voltou a iluminar-se. Era notória toda a satisfação que sentia ao relembrar a noite em que me humilhara.

- Depois de ter conseguido o que queria, fez-se passar por uma pessoa que nunca foi. Ofereceu-te o ombro amigo, também ela havia sido uma vítima. Ela soube exactamente onde nos atacar. Mas isso não lhe valeu de nada. Achas-te mesmo que ias conseguir alguma coisa?

- Isso é uma história muito bonita, Mel… Mas não achas que já és muito grandinha para acreditares em contos de fadas? O David conhece-me. Ele sabe que eu nunca iria fazer isso. No meio de tanta alucinação, só acertaste numa coisa. Tu não mereces o David. Nunca soubeste lutar por ele. Á primeira dificuldade desististe, fugiste. Que raio de amor é esse que tu dizes sentir se nem acreditavas nele? Eu jamais duvidaria do meu amor pelo David. Eu luto pelo que quero, sou uma vencedora, tal como ele. A vossa relação está condenada, nunca vai dar certo. Eu sempre estive lá para ele. Eu sempre acreditei nele, dei-lhe apoio e atenção. Nós partilhámos algo. Eu sou sua semelhante. E tu? Tu não passas de uma doente com os dias contados, e se não fosses tão burra já tinhas percebido que ele só está contigo por pena.

“BAC!”

Por esta altura já só ouvia partes do que a Pat dizia. Tentara manter adormecida toda a raiva que me consumia desde que entrara na sala e a vira aos beijos com o David. Mas não consegui aguentar mais. Não sei bem em que momento fechara a mão. Sequer me apercebi de ter levado o braço atrás. Mas lembro-me de ter depositado nele toda a força, toda a ira que sentia naquele instante, quando o meu punho atingiu em cheio uma das suas faces. A cabeça rodou para um dos lados, ouve um desequilíbrio e Pat recuou dois passos para trás. Pelo canto do olho consegui ver o queixo de David cair com tamanha surpresa. Pat levou imediatamente as mãos á cara, mas não se atreveu a enfrentar-me. Eu mantive-me imóvel, de respiração regular e expressão serena.

- Eu estava a dever-te uma… Agora, estamos quites!

Toda a energia que sentira a fluir dentro de mim, acalmara. Pela primeira vez olhei para aquela figura á minha frente e vi-a, em toda a sua mesquinhice e pequenez. Perguntei-me como era possível um dia ter-me deixado intimidar por tal pessoa. Como me deixara tão insegura, como me sentira tão mal comigo própria. Pela primeira vez via tudo claro, tal como fora e como era. E senti-me orgulhosa por me ter libertado de tal sentimento, de ter tido coragem de a enfrentar e de não cair em mais uma das suas intrigas. É claro que agredi-la não estava nos meus planos, apesar da vontade enorme que tinha em fazê-lo. Evitei-o o máximo que pude, e no fim… foi a cereja no topo do bolo.

Dei meia volta, olhei para David que continuava de queixo caído, fixando-me, e disse no tom mais natural do mundo:

- O Ruben está à tua espera para apresentarem o prémio.

Depois, no mesmo passo calmo e lento, afastei-me. Um pequeno sorriso vitorioso surgiu-me dos lábios, e tive de calar todos os gritos eufóricos que teimavam em querer sair cá para fora. Não me apercebi de que nunca se deve virar costas a quem é desprovido de moral, nunca se deve baixar a guarda a quem manipula os sentimentos dos outros e só se dá a conhecer realmente quando sente que já não tem saída. E fá-lo não por coragem, mas por desespero. Numa última tentativa de vingança, Pat lança-se na minha direcção, pronta a dar o troco. Mas desta vez, foi David quem interveio. Eu virei-me mesmo a tempo de o ver interpor-se entre nós, agarrando no seu braço e travando-a do seu propósito.

- Nessa aqui você não toca, não! – Disse, fitando-a directamente nos olhos.

- Ai! David… estás a magoar-me.

- Tá doendo? Óptimo. Da próxima vez que você se aproximar da Mel, ou de mim, vai doer muito mais.

Não consegui disfarçar mais a minha alegria quando ouvi o David defender-me. Este pôs o seu braço por cima do meu ombro, e afastámo-nos juntos, sem olhar para trás.

  •  

Quando regressámos ao salão, Ruben já tinha subido ao palco. À última hora David fora substituído por Ramirez, que acompanhou o “manz” na apresentação do prémio. Limitámo-nos a sentar, o mais discretamente possível, e a desfrutar do resto da Gala. A Pat já não voltou ao salão, e não voltámos a vê-la nem á saída do Casino. Ana estava curiosa para saber o que se tinha passado, mas não tivemos tempo de falar mais. Era suposto irmos todos sair assim que a Gala terminasse, mas David e eu decidimos ir antes para casa. Os eventos dessa noite tinham sido estonteantes para ambos. Despedimo-nos á pressa, entrámos no carro e seguimos para casa dele. Nem uma palavra foi dita durante toda a viagem. Eu estava finalmente a processar tudo o que dissera e fizera nessa noite, e custava-me bastante a acreditar no que tinha acontecido. David conduzia concentrado, e de vez em quando punha a sua mão por cima da minha e apertava-a. Não consegui perceber se tinha ficado desiludido comigo, por ter cedido á raiva que me tomara ou se me apoiava totalmente. Silêncio absoluto. Quando sai do carro, uma corrente de ar deu-me um arrepio e tentei proteger-me colocando os braços em volta de mim mesma. David apercebendo-se, despiu o casaco e colocou-o por cima dos meus ombros desnudados. Mas continuou sem falar. Comecei a temer que estivesse chateado comigo e fui invadida por uma inquietação irritante agravada pelo som abafado do elevador a subir. Quando finalmente entrámos em casa, ganhei coragem e perguntei-lhe:

- Ficaste chateado comigo… Pelo que eu fiz à Pat? Eu sei que não foi bonito, mas não consegui controlar-me mais. Eu andava com ela engasgada à meses e…

- Eu não estou chateado com você. – Disse com um sorriso triste. - Eu estou chateado comigo mesmo. Eu deixei que tudo isto acontecesse. Eu não soube te proteger. Eu acreditei numa mentira, eu preferi acreditar nisso. Eu te fiz sofrer. Por causa disso você se envolveu com um cara doente, doido, que quase te machucou sério. Se alguma coisa tivesse te acontecido, eu nunca iria me perdoar.

- David… Tu não tiveste culpa de nada. Tu não sabias o que andavam a tramar. E quanto ao Jaime, eu envolvi-me com ele porque quis. Achei que era o melhor para mim naquela altura. Enganei-me. Mas tu não tiveste culpa nenhuma.

- Eu tive sim. Eu te abandonei.

- Não. Tu seguiste o teu coração. Tu és uma pessoa generosa, capaz de tudo pelos amigos. E aproveitaram-se disso. Eu não quero que penses assim. Aliás, o melhor é nenhum dos dois pensar mais nisso. Passou, é passado. Não interessa mais. O que importa é que estamos juntos. E eu quero-te tanto…

Aproximei-me de David e acariciei-lhe os caracóis. Ele retribui com um beijo suave, lento nos meus lábios. Senti as suas mãos a puxarem o casaco que ainda tinha vestido para trás e inclinei-me para lhe facilitar a tarefa. Momentos depois, o corpete apertado ficou mais folgado e as suas mãos prenderam-me pela cintura, bem junto a ele. Fechei os olhos e deixei-o comandar todos os movimentos que fazíamos. Não demorou muito para que a parte de baixo do vestido caísse pelo chão e ele me pegasse ao colo, sentando-me no móvel do corredor da entrada. Comecei a desabotoar-lhe os botões da camisa, beijando-lhe a pele nua que aparecia. Ele encostou-me contra a parede e voltei a sentir um arrepio quando o frio da mesma tocou  nas minhas costas. Mas desta vez, o frio não tivera nada a ver com isso. Era ele, o seu toque, o seu cheiro, o seu corpo que me arrepiava. Inclinei a cabeça para trás e soltei um pequeno gemido quando o senti totalmente unido a mim. Abri os olhos, olhei o tecto por cima da minha cabeça. Os seus caracóis roçavam ao de leve pelo meu pescoço e pelo meu peito, e era a melhor sensação que jamais tinha sentido. Voltei a fechar os olhos, e lágrimas de felicidade rolaram pela minha face.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 04:27

14
Set 12

                                                                                       

A Ana apertava-me o corpete roxo atrás, enquanto eu sustinha a respiração para este não alargar. Toda a semana fora uma só agitação em torno da Bendita Gala. David insistira em oferecer-me o vestido, uma vez que eu não tinha nada apropriado para a ocasião. E alugar outro nem pensar, dado o fiasco que fora da última vez. Assim, passara tardes inteiras á procura do vestido ideal e finalmente encontrara-o numa dessas lojas que eu jamais pensaria entrar. Era de um roxo escuro, dividido em duas partes: corpete e saia comprida, que armava ligeiramente e me dava certa facilidade a andar. O corpete era em estilo antigo, com cordões que apertavam atrás. O cabelo ficaria solto e a cair sobre os ombros desnudados. Já os sapatos tinham um salto um tanto alto demais para o meu gosto, mas a Ana dissera-me que assim não faria tanta diferença de altura do David e que em público ficaria melhor. Acedi então a trazê-los, apesar de saber que me iria ser bastante difícil suportá-los durante toda a noite.

Outra surpresa, esta bem mais agradável, era o facto de a Ana também ir á Gala… Com o Ruben. A explicação que me dera foi a de que o David falara com o Ruben para este a levar e eu não me sentir tão sozinha. E como o Ruben também não tinha par resolviam-se dois problemas. O David confirmou-me que tinha falado com o amigo, mas também só o fizera porque já há algum tempo notara uma certa cumplicidade entre os dois, algo com o qual eu também concordava. Fosse como fosse, a presença da Ana fez-me sentir bem mais segura. Pelo menos não me sentiria tão deslocada.

- Passa-me o rímel, se faz favor!

- Toma! – Disse. – A Inês não disse que vinha ajudar-nos?

- Disse, mas como ainda não chegou já não sei. Se calhar não conseguiu sair a tempo.

- Por este andar quando cá chegar já nós estamos prontas.

- Isto “Se” chegar…

A campainha da porta tocou nesse momento e eu corri a abri-la.

- Até que enfim!

- Desculpem, mas a “Catedral” hoje encheu e não consegui sair mais cedo. Trouxe o que me pediram.

- A Ana está no quarto. Ela é que precisa disso.

Inês dirigiu-se para o quarto com um modelador de cabelos, onde uma Ana bastante impaciente aguardava por um penteado.

- Que inveja que eu tenho de vocês. Assistir a uma Gala destas. Fazem ideia de quantas pessoas queriam estar no vosso lugar.

- Eu de bom grado daria o meu. – Murmurei.

- Não sejas assim, Mel. Duvido muito que tu trocasses o David por outra coisa qualquer.

- Eu não estou a falar do David. Estou a falar do meu lugar esta noite…

- …que é  junto do David. Por isso é quase a mesma coisa. Deixa de ser assim. Tens um homem desejado por muitas e que só tem olhos para ti. Convida-te  para ires a um evento destes para que todos te conheçam como sua namorada, oferece-te um vestido lindo… O que é que tu queres mais?

- Quero… Paz, normalidade e sossego.

- Pois, mas isso não vais ter com uma pessoa como ele, por isso habitua-te.

- Olha, e que tal deixarem-se de conversa e tratares do meu cabelo antes que eles aí cheguem e a gente se atrase mais.

Inês e eu trocámos um olhar de cumplicidade.

- Hum! Tu não és oficial mas estás muito rezingona. Pensava que só estavas a fazer um favor a uma amiga…

- E estou. Mas lá porque não vou entrar de mão dada, não quer dizer que não esteja nervosa também.

- OH! Tens razão. Estou a ser egoísta e a pensar só em mim. Desculpa, desculpa, desculpa!

Aproximei-me da Ana e abracei-a. Andara tão preocupada com o que poderia acontecer comigo que me esquecera que para ela também não ia ser fácil.

Inês esticou o cabelo da Ana num instante. Depois acabámos de nos maquilhar e quando estávamos a dar os últimos retoques recebo uma mensagem do David a dizer que ele e o Ruben estavam á nossa espera lá em baixo, no hall de entrada. Inês fez questão de ir na frente como que para nos anunciar. Antes de sair, espreitei pela porta e lá estavam eles, no seu fato de gala, gravata vermelha – ou não fosse esse um acessório de marca para uma ocasião destas. Achei o David o homem mais lindo á face da terra. O porte, os caracóis, o sorriso… tudo nele me encantava. Observei-o alguns segundos a brincar com o Ruben ao fundo das escadas, antes de aparecer na entrada. De inicio não reparou que eu me encontrava pronta a descer, foi o Ruben quem primeiro deu por nós e fez-lhe sinal, apontando. David voltou-se e vi, pela expressão que fez, que ficara tão encantado quanto eu ao vê-lo. Comecei a descer as escadas segurando o corrimão devido aos saltos dos sapatos, que não me davam confiança nenhuma. David não desviou o olhar nem por um segundo. Infelizmente, ao chegar ao fim tropecei e desequilibrei-me, e quase que caia se não fossem os reflexos rápidos dele que me seguraram a tempo. Tentei brincar com a situação para que não visse o quanto estava envergonhada.

- Eu e as minhas entradas triunfais…

David mantinha o mesmo sorriso para mim.

- Foi perfeita! Você, é perfeita!

- Menos quando estou de saltos.

David soltou uma gargalhada.

Ana acabara de descer também e pudemos então sair para a tão esperada” Gala do Benfica”.

  •  

Comecei a avistar as luzes do Casino do Estoril mal o David virou para a avenida de acesso ao mesmo. Senti o coração a bater-me mais forte no peito e uma certa agonia invadiu-me o espírito. “ Calma! Vai correr tudo bem! O David está comigo!”. Tentei pensar positivo mas na verdade estava aterrorizada com tudo aquilo. “Pelo menos desta vez sei que não vai faltar. Está mesmo aqui ao meu lado.” Olhei para o David na esperança que me tranquilizasse, mas estava demasiado ocupado na condução e a tentar furar por entre as pessoas amontoadas na rua, á espera para verem os seus ídolos. Quando finalmente estacionou numa zona mais calma, o coração pareceu querer sair-me pela boca. Ao longe os “ flashs” das câmaras fotográficas faziam vislumbrar vultos um tanto confusos para que me fosse possível identifica-los. Alguns pareciam ser jogadores, outros dirigentes e sócios, mas nenhum que eu conseguisse reconhecer. David saiu do carro, deu a volta, e como um perfeito cavalheiro abriu a minha porta estendendo-me a mão para me ajudar a sair. Depois entregou a chave a um dos empregados que estava por perto. Olhei em volta á procura da Ana e do Ruben, mas nem sinal deles. David deu-me a mão e seguimos os dois em direcção á entrada. Nos primeiros metros não se via ninguém, mas á medida que nos aproximávamos os gritos aumentavam de som, e os vultos que ainda há pouco não reconhecia começavam agora a ficar claros para mim.

- Eu vou precisar dessa mão ainda hoje! – Disse-me de repente.

- Hã? – Olhei para a mão que estava entrelaçada com a do David e dei-me conta da força com que a prendia. – Oh! Desculpa!

David riu. Continuámos em frente até chegarmos á zona dos fotógrafos e dos repórteres. Por todo o lado só se ouvia o nome “David! David Luiz!”. A minha cabeça estava zonza com tamanha algazarra. Assim, do nada, fomos invadidos por uma multidão de pessoas de microfones em punho que tentavam obter respostas para as suas perguntas. Nesta altura já não sabia bem para que lado me virar e por momentos perdi a noção do que quer que fosse. “ Onde é que eu me vim meter!”. Estava a ser cada vez mais difícil manter-me perto do David. De todos os lados era um “encosta e empurra” cada vez mais violento. De repente, num esticão mais forte, senti a mão do David separar-se da minha, enquanto era imediatamente afastada dele até o perder no meio da tanta gente interposta entre nós. Quase entrei em pânico. A minha cabeça mais parecia um cata-vento a tentar encontrar alguma cara conhecida, mas era inútil. Continuava sem saber da Ana ou do Ruben, e agora o David fora-me “arrancado” e arrastado para o meio de uma multidão de fanáticos pela bola. Fui tomada pelo mesmo sentimento de terror que senti na noite em que pela primeira vez me atrevera a entrar em tal círculo. As palavras que ouvira ditas pela Pat, de que não pertencia aquele lugar,  ecoavam pela minha mente e senti a temperatura do meu corpo a baixar rapidamente, até ficar gelada. Pouca a pouco fui perdendo o sentido das coisas até já não ouvir nada mais á minha volta. Somente as vozes na minha cabeça existiam, e estas misturavam-se com as cenas diante dos meus olhos. Lentamente, fui começando a andar para trás em pequenos passos. Sentia-me assustada e cada vez mais perdida. Tentei desviar a minha atenção para as pessoas que, calmamente, já tinham conseguido chegar á porta de entrada do Casino e preparavam-se para entrar. “ Por este andar não vou lá chegar.”, pensei. Quando pensava que aquela iria ser mais uma noite desastrosa, uma mão quente e suave parou sem aviso na minha, agarrando-a com força. Virei a cabeça e vi um David calmo e sereno mesmo á minha frente, sorrindo-me.

- Estás aqui! – Foi a única coisa que me ocorreu dizer.

- Falei p´ra você que eu não ia te largar!

E ao mesmo tempo entrelaçou os seus dedos nos meus e puxou-me para ele. O sorriso que mantinha e o calor da sua mão, novamente ligada á minha, foi o suficiente para que me acalmasse. “ Ele voltou! Sentiu a minha falta do seu lado, atravessou aquela barreira humana e voltou por mim!”. Inconscientemente comecei também a sorrir. David despediu-se dos jornalistas educadamente e continuámos até á entrada, desta vez sem mais paragens. E agora era ele quem prendia com força a minha mão.

Uma série de caras alegres e conhecidas circulavam por toda a entrada do Casino. A primeira pessoa que me saltou á vista foi o Eusébio. Estava acompanhado da sua esposa e conversava animadamente com Rui Costa. Parecia totalmente recuperado. Alguns jogares do plantel actual encontravam-se espalhados por ali, mas uma boa parte deles já havia entrado para o salão.

- David! – Ouvimos uma voz a chamar. Era o Ruben seguido pela Ana. Ao vê-los fiquei ainda mais animada.

- Onde é que vocês se meteram? – Perguntei ansiosa.

- Vínhamos mesmo atrás de vocês. Bem, viste só aquilo lá fora. É a loucura.

- Se vi? Vi até demais.

Senti a mão do David a puxar-me e segui-o. Por onde passávamos éramos cumprimentados por todos. Eu limitava-me a sorrir pois não sabia bem o que dizer. Felizmente ainda não tínhamos parado para falar com ninguém.

- Olha ali, manz. É o mister!

 Espreitei por detrás das costas do David e vi o treinador, Jorge Jesus, no meio da sala principal onde teria lugar a Gala.

- Vem! Eu quero te apresentar p´ra ele.

- Eu? A mim? – Perguntei, atónita. David riu-se.

- Claro. Tem mais alguém aqui comigo? Vem!

- Espera! – Detive-o. Estávamos mesmo prestes a entrar naquela que eu considerava ser a “toca do lobo”. David olhava para mim como se esperasse que eu lhe dissesse algo. Eu voltei a espreitar para dentro do salão. Não sei ao certo o que procurava mas queria ter a certeza de que conseguiria fazer aquilo sem mostrar o quão assustada me sentia. Comecei a percorrer com os olhos todas as pessoas que ali se encontravam. Muitas delas eram conhecidas, mas a maior parte não fazia ideia de quem fossem. Congelei ao pôr a vista em cima de alguém que não esperava encontrar.

- A Patrícia está cá?

Ana desviou o seu olhar para um canto ao fundo onde a Pat e outras raparigas da claque riam despreocupadamente.

- E então? – Perguntou. – Hoje não é como da outra vez. – E fez-me sinal com a cabeça na direcção do David, como que a dizer-me que ele estava comigo, não tinha nada a temer.

- Mel! – David posicionou-se mesmo á minha frente, olhando directamente nos olhos. – A gente vai ter que entrar aí.

- A sério? Pensava que depois disto tudo, dava-mos meia volta e saíamos pela porta das traseiras.

- Aí! Já está até fazendo piada. Essa é a minha Mel. Vem!

Respirei fundo e entrei finalmente no salão, sempre apoiada pela mão dele. Avançávamos calmamente no meio dos outros convidados na direcção do “mister”. Eu não conseguia tirar os olhos da Pat. Esta ainda não nos tinha visto. Senti a Ana bem próxima de mim, alguns passos atrás. Ela devia estar tão nervosa quanto eu, mas nunca deixou transparecer.

- Mister! – David chamou. – Fazendo charme no meio da sala?

- Olha o respeito, rapaz!

O há vontade com que falava a todos, era uma das coisas que mais me fascinava no David. Todos pareciam ter um carinho muito especial por ele. E ele mostrava-se sempre muito atencioso e brincalhão. O “mister” também era mais simpático do que eu imaginava. De todas as vezes que o vira sempre me parecera uma pessoa rígida e dura. Mas fora dos treinos era bem mais acessível. Por esta altura começava a descontrair-me e a aproveitar a noite. Nem o facto de estar na mesma sala que a Pat me incomodava já.

- Melhor irmos p´ro nosso lugar. Tá prestes a começar.

Os vários grupos de convívio que se tinham formado começaram a dispersar e a dirigir-se para os respectivos lugares. Pat deu meia volta e foi nesse momento que viu David. O sorriso que tinha no rosto iluminou-se, mas só por um breve instante. Assim que me viu surgir a seu lado, de mãos dadas, e precisamente num evento daqueles, percebeu o que se passava e mudou completamente de expressão. Senti o sangue gelar-me nas veias com o olhar que me lançou de alto a baixo. Consegui ver nitidamente o esforço que fazia para não explodir de raiva. David, que estava de conversa com Ruben, nem reparou. Eu fingi que não percebi e desviei o olhar.

- Mel, viste só o olhar que a Pat te lançou? – Ana aproximou-se de mim e falou quase num sussurro. Eu abanei a cabeça que sim. – Se os olhares matassem, tu já estavas estendidinha no meio do chão, amiga.

Fiz sinal á Ana para que falasse baixo. Não queria que o David se apercebesse do assunto. Aquele não era o momento. Continuámos então em silêncio até aos lugares marcados. Estes eram um pouco á frente, uma vez que David iria apresentar um dos prémios juntamente com Ruben. As luzes baixaram de densidade e o espectáculo começou. O David continuou sempre de mão dada comigo. De vez em quando lançava um olhar á Ana sem que ela se apercebesse. Apesar de sportinguista, parecia estar a divertir-se bastante. Acho até que ainda não se dera conta de que aquilo era o Benfica, e não o Sporting. E tinha a certeza de que parte se devia á companhia.

  •  

No final da primeira parte, David e Ruben foram chamados pela equipa responsável pela organização da Gala. Precisavam combinar umas últimas indicações para quando chegasse a sua vez. Ana e eu aproveitámos para fazer alguns comentários sobre a noite que ambas estávamos a ter.

- Ainda não consegui ver a Pat. – Disse, olhando para trás.

- Pois eu não faço questão nenhuma de a ver outra vez. Ana, pára de olhar para trás. As pessoas vão dizer o quê?

- Então, não vão dizer nada. Até parece que sou a única á procura para ver outras pessoas que aqui estão. Estas coisas servem sempre para se cortar na casaca.

- Eu não quero cortar na casaca de ninguém. Quero ficar aqui no meu canto sossegada.

- Sim! Não me digas que não te sentiste nem um bocadinho vitoriosa quando destes de caras com a víbora. Só o focinho dela disse tudo.

- Por acaso… soube-me bem! – Disse, com um sorriso malicioso. – Por esta é que ela não estava nada á espera.

Ana abafou uma gargalhada quando Ruben se aproximou.

- E o David? – Perguntei.

- Ficou lá atrás mas ele vem já.

Recostei-me no banco e revi na minha mente tudo o que até então se tinha passado desde que chegáramos. Esbocei um sorriso quando cheguei á parte em que a Pat descobrira que eu e o David estávamos de novo juntos. As luzes baixaram novamente em sinal de que estava prestes a começar a segunda parte. Olhei para a entrada mas do David nem sinal. O Ruben percebeu a minha preocupação e disse-me baixinho:

- Não te preocupes. Ele vem já.

Assenti com a cabeça e tentei relaxar com o resto da Gala. Mas á medida que os minutos passavam, a minha mente começava a tornar-se mais inquieta e já mal conseguia desviar os olhos da entrada. Por fim não aguentei mais e levantei-me.

- Vou ver se o encontro.

Ruben apontou-me que direcção tomar e, com todo o cuidado e descrição que poderia ter dirigi-me para a mesma. Mal saí, virei á direita até chegar a um corredor. As únicas pessoas que ali estavam eram seguranças ou organizadores. Passei por algumas entradas e, de repente detive-me numa delas. As vozes que me chegavam eram-me familiares. Aproximei-me mais um pouco e pude reconhecer a voz do David como uma delas. Sustive a respiração para melhor poder ouvir, mas nesse momento as vozes calaram-se. O coração começou a bater mais forte quando tive a ideia de entrar pela porta entreaberta. A dúvida assolava-me o espírito, mas finalmente decidi-me e entrei. As batidas fortes do coração foram substituídas por uma paragem completa quando vi a Pat e o David… a beijarem-se!   

 

 

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 00:13

13
Set 12

 

O Final já está decidido! Quero agradecer a todas aquelas que votaram e deram a sua opinião. Espero que gostem dos restantes capítulos que por aí vêm! Obrigado a todas! 

 

 

 

O resto da tarde foi passado em casa com a Ana e com a Inês a pôr a conversa em dia. Depois do tumulto por causa do banho do David, este comeu qualquer coisa e saiu. Combinámos sair mais tarde para jantar… Fora de casa. A Ana Ficou zonza com tudo o que lhe contei, e a Inês… Bem, acho que já não recuperou da visão que teve…

- Eu não acredito que estive fora enquanto isto tudo aconteceu… E não acredito que não me tenhas contado nada em nenhum dos telefonemas.

- E eu não acredito que haja homens assim… nem que a mim não me calhem desses.

Fiz-lhe uma careta.

- Eu não queria que te preocupasses com nada. Além disso só resolvemos as coisas ontem á noite, quando ele chegou…

- Sim, devem ter ficado mesmo resolvidas…

- Inês, chega! O pobre do David saiu daqui super envergonhado.

- Pobre? Desculpa dizer-te, mas de pobre ele não tem nada!

Voltei a franzir a testa. Conhecendo a Inês como já a conhecia, as piadinhas iriam durar dias…

- Então quer dizer que agora é oficial? Vocês vão mesmo assumir?

- Hum-um! – Assenti com um sorriso nos lábios.

- Finalmente! Isso era o que deviam ter feito logo de início, se alguém não fosse tão cabeça dura.

- Então e… o Jaime?

- Não sei. Pelo que o Dr. Barros me falou, o Jaime não está nada bem. E se se provar que ele não tem condições para exercer, é suspenso.

- E é muito bem feito. O homem não é bom da cabeça.

- Eu tenho pena dele!

- Pena? Ele quase que te agrediu, é um mal formado. Merecia era que o David lhe tivesse partido o nariz.

- Em vez disso, quase que partia era a mão. Eu nem gosto de me lembrar disso.

- Sim, recordemos antes coisas mais agradáveis… como o David no ban…

- Inês! – A voz da Ana e a minha juntaram-se numa só.

- Ok! Pronto… Não se fala mais nisso.

Aproximei-me das duas e abracei-as. Tinha saudades daqueles momentos a três. Tinha saudades de me sentir feliz, protegida, completa.

- Ele vem buscar-te?

- Vem, depois do treino. Vamos jantar…

- Então é melhor ires preparar-te. Não queres atrasar-te já no primeiro encontro.

- Oh, atrasa-te sim. As mulheres devem fazer os homens esperar.

Ri-me. As teorias da Inês em relação aos homens eram um tanto estapafúrdias, mas de vez em quando acertava uma. De qualquer forma, eu estava demasiado entusiasmada para fazê-lo esperar, se tudo o que queria era vê-lo novamente.

  •  

 

David levou-me a jantar num restaurante simpático junto ao rio. Não estava muito cheio mas á medida que íamos passando as pessoas olhavam. Tentei disfarçar o mais que pude o meu pouco á vontade com a situação… sem sucesso. David parecia adivinhar todos os meus pensamentos e ao fazer a reserva escolheu a mesa mais discreta e longe de olhares curiosos. Fiquei aliviada quando me sentei e reparei que quase não tínhamos visibilidade nenhuma para o resto da sala. Ele também deve ter reparado nisso.

- Você tem noção de que se quiser ser uma artista vai ter de lidar com o público. Todo o mundo vai te reconhecer, não dá p´ra você ficar nesse nervosismo todo. Cê vai ter de encarar.

- Eu sei! – Respondi com um suspiro.

- Não se preocupa não. Eles tavam olhando p´ra mim.

- Não sei como é que vocês conseguem aguentar com tanta pressão.

- Tem dias que é meio difícil mas você nunca pode esquecer que o carinho dos adeptos é quem faz de você o que você é. Então eles merecem toda a sua gratidão e consideração.

- Mesmo assim… É uma coisa que me assusta…

- Não se preocupa. Eu vou estar sempre do seu lado.

Sorri. Aquele era o nosso primeiro encontro como casal e não queria preocupar-me com nada. Só queria aproveitar. E depois, o David tinha razão. Mais tarde ou mais cedo eu ia ter de lidar com o facto de ter um namorado conhecido. Eu própria, se queria vingar no meio artístico tinha de perder todo esse medo. E para isso tinha pessoas que me apoiavam, que acreditavam em mim. Amigos que sempre estiveram comigo, que me ampararam e me deram a mão. E tinha o David.

- Mel…

- Sim?

- Você não me contou ainda como foi a sua conversa com o… é… com o Jaime.

Fiz silêncio. O assunto Jaime ainda não tinha dado á costa, apesar de eu saber que mais tarde ou mais cedo ele iria perguntar-me sobre o mesmo. Era tanta informação que eu nem sabia bem por onde começar.

- Correu tudo bem. Não foi fácil. Acabar uma relação nunca é fácil, mas o Jaime já estava á espera, não foi surpresa nenhuma.

- Mas ele não tentou nada com você, né?

- Não! Ele… não fez nada.

- Eu não quero você perto desse cara. Ele é perigoso. E se ele tentar alguma coisa com você, desta vez eu parto p´ra cima dele com tudo.

- Não vamos estragar o jantar! – Disse. Optei por não dizer nada sobre o que o Dr. Barros me havia contado. A altura não era apropriada e não queria deixar o David com mais raiva.

- Há outra coisa que eu quero te perguntar.

- Sobre o quê?

- É sobre sua saúde. Quem vai te seguir agora?

Respirei fundo. Dei-me conta de que iria ser um jantar cheio de assuntos difíceis para mim.

- Tecnicamente, ninguém. Eu parei o tratamento, mas quando estou pior ou tenho crises, o Dr. Barros é quem me assiste. Ele tinha passado o caso para o Jaime, mas eu já falei com ele também e ele vai voltar a ser o “médico de serviço”.

-  Eu quero te ajudar. Você marca uma consulta com esse Dr. Barros aí, e a gente vai junto no médico. Se eles cá não podem fazer nada, a gente procura em outro sítio.

- Não, David! – Respondi de imediato.

- Porquê não?

- Porque eu não quero que tu te envolvas nisto.

- Mel, eu amo você. A gente tá junto agora, eu posso te ajudar. A gente procura em outro País, quem sabe eles…

- Não! Sabes quanto custa uma operação destas? É muito cara.

- Dinheiro não é problema…

- Para mim é!

O empregado de mesa aproximou-se nessa altura trazendo algumas entradas, e eu agradeci mentalmente por essa interrupção. Os ânimos estavam a ficar um pouco alterados. Aquele não era de maneira nenhuma o encontro que eu tinha imaginado. Peguei numa das pequenas iguarias que se encontravam em cima da mesa e levei-a à boca. A verdade é que já tinha perdido o apetite, mas não queria que o ambiente ficasse mais estranho do que já estava. David esperou que o empregado se afastasse antes de recomeçar a falar.

- Mas que mulher mais teimosa.

- David, por favor. Podemos não falar mais sobre isto? Pelo menos não hoje, não agora.

- Tudo bem! – Disse, suspirando. – Eu também não quero brigar logo no nosso primeiro encontro. Mas não pensa que isto vai ficar por aqui mesmo.

Limitei-me a encolher os ombros. Eu sabia que ainda voltaríamos ao mesmo. Mas por agora a primeira batalha estava ganha. E fora eu que vencera. O resto resolveríamos depois.

  •                                                                                    

Depois do jantar, David levou-me a casa. A noite estava fria demais para passeios e após a noite anterior em que quase não dormíramos nada, chegámos á conclusão que o melhor era cada um no seu canto… pelo menos por esta noite.

- Acho que ainda não me dei conta do que se está a passar. – Disse abraçada a ele. David deixara o ar ligado para que não tivéssemos frio dentro do carro e estacionara num ponto mais escuro para termos mais privacidade.

- Isso quer dizer que você está feliz?

- Não se nota?

- Não sei. Há pouco no jantar só faltou você me expulsar da mesa…

- Não, por favor. – Disse, endireitando-me no banco. – Não vamos falar disso outra vez.

Ele olhou para mim de uma forma terna e assentiu com a cabeça. Voltei a aninhar-me nos seus braços.

- Era capaz de passar a noite toda assim, contigo.

- Então porquê não passa?

- Porque preciso de dormir e descansar.

- A gente pode ir lá p´ra minha casa e você dorme lá. Sem perigo de alguém pegar você nua… só eu.

Rimo-nos.

- Isso é muito bonito, mas sabes tão bem quanto eu que se fossemos para a tua casa metade da noite estava perdida. E eu tenho mesmo de pôr o sono em ordem. E tu também.

- Tá bom. Só tem uma coisa que eu queria te falar antes de você ir.

- Ai, David! Não me digas que lá vem mais do mesmo…

- Quer fazer o favor de me escutar. Caramba! Além de teimosa tem pavio curto também.

- Desculpa. Ás vezes sou um bocado rabugenta.

- É, tou vendo! Eu só quero te fazer um convite. A Gala do Benfica vai ser nesse fim de semana e eu quero que você venha comigo.

Voltei a endireitar-me no banco.

- A Gala do Benfica? Mas isso não foi já?

- Era p´ra ter sido semana passada, mas você sabe que o Eusébio teve doente e eles vão homenagear ele este ano. Então tiveram que adiar um pouco o evento. Vai ser nesse Domingo porque no Sábado a gente tem jogo.

Respirei fundo. Ainda tinha bem presente a última gala a que fora.

- Eu sei o que você tá pensando, mas eu prometo p´ra você que eu não vou te deixar sozinha nem um segundo. Eu passo aqui p´ra pegar você e a gente vai directo p´ra lá.

Isso não me sossegou nem um bocadinho. Chegarmos juntos a uma Gala desta dimensão era como gritar para o mundo inteiro que estávamos juntos. E por mais que tivéssemos decidido assumir o nosso compromisso, fazê-lo oficialmente num momento deste era algo que me assustava bastante.

“ Tens de ser forte, Mel Andrade!”

- Está bem! - Acabei por concordar. O David presenteou-me com mais um sorriso e chegando-me para ele murmurou-me:

- Vai dar tudo certo. Confia em mim!

publicado por nuncamaissaiodaqui às 00:24

03
Set 12

Caros(as) Leitores(as)

Tal como já anunciei, aproxima-se o fim da Fan fic “Recomeçar”. Quero agradecer a todos(as) aqueles(as) que sempre acompanharam a história, mesmo depois da longa pausa a que os(as) sujeitei, e pedir desde já desculpa pela mesma. Quero aqui também deixar um muito especial Obrigado a todos(as) os que comentaram e que sempre me apoiaram.  

Dito isto, quero anunciar que não deverei postar nos próximos dias. Sei que estão á espera de novos capítulos, mas estando prestes a escrever o final, preciso de tempo para acabar todos os capítulos para que não haja falhas. Também porque sinto que os últimos que tenho escrito não correspondem de todo aquilo que vos quero oferecer.  E ao escrever e postar logo (método que tenho utilizado) tenho mais trabalho pois tenho de rever tudo antes de iniciar nova escrita. Peço que me compreendam, mas tentarei não demorar muito.

Por fim, gostaria de pedir a colaboração de todos(as) os(as) seguidores(as) da História para o final.  Tenho 3 finais previstos para a Mel e o David, mas só um vai ser publicado. Cabe a vós, fieis seguidores(as) escolherem qual será.

Final n.º1 – Mel e David seguem caminhos diferentes. Ele segue para outro clube, noutro País e ela decide-se pela sua carreira.

Final n.º2 – O estado de Mel agrava-se e ela acaba por morrer.

Final n.º3 – Mel e David terminam juntos.

Antes de tomarem qualquer decisão, peço-vos que pensem bem no final que querem. Digo isto porque quase que adivinho qual o destino que todos querem. No entanto, posso garantir que nenhum deles é totalmente mau. Lembrem-se que a vida nem sempre é feita de finais felizes, mas até nas alturas mais difíceis se encontra uma saída. E, é claro que eu como autora também vou ter algo a dizer…

De forma a que seja realmente um final surpresa, a contagem será secreta. Assim, deverão enviar a vossa escolha para o e-mail recomecarfanfic@gmail.com  , até ao dia 12 de Setembro.

Agradeço desde já a vossa participação e fico à espera da vossa decisão.

Até breve!

A autora

S.G.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 03:44

28
Ago 12

 

Inês mantinha-se de boca aberta á minha frente, o garfo onde enrolara a massa chinesa pendia da sua mão. Esta tinha sido a sua postura durante quase toda a nossa conversa.

- … e agora estão a investigá-lo. Imagina a minha cara quando o Dr. Barros me contou isto.

- Devia ser um pouco parecida com a minha neste momento, não?

- Sim! – Disse, olhando-a directamente. – Acho que era tal e qual.

- Hum...! – Inês levou finalmente o garfo á boca.

- Durante todo este tempo eu andava a sair com um…

- Psicopata?

- Não. Quer dizer, não sei que nome lhe dão…

- Psicopata! – Repetiu a Inês. – Uma pessoa que sofre de depressões, tem dupla ou tripla personalidade, mata uma paciente propositadamente porque sabe que a namorada teve outros namorados antes dele, ameaça as pessoas, é agressivo… Que nome é que tu dás a uma pessoa assim?

- Mas o Jaime … Ele sempre foi tão educado e cavalheiro… excepto estas últimas vezes.

- Não vale a pena pensares mais nisso.

- Inês, eu namorei com este tipo quase três meses.

- Bom, pensa assim: Vocês saiam juntos, davam uns beijinhos e tal mas, nunca passaram disso. Tecnicamente não pode ser considerado um namoro.

- Queres parar de fazer brincadeiras?

- Mel, esquece! Já passou. Foste lá e acabaste tudo, não foi? Então esquece. Concentra-te em coisas mais importantes, como o teu futuro daqui para a frente… com um certo rapaz de cabelos aos caracóis.

Fiz-lhe uma careta.

- Já conversaram?

- Ainda não. Ele vai amanhã para a Itália e eu achei melhor falarmos depois.

- Oh, Mel! És sempre a mesma. O que foi desta vez? Não se tinham já entendido?

- Mais ou menos.

- Mais ou menos? Ele passou cá a noite e tu dizes-me “mais ou menos”?

- Ele passou cá a noite porque estava com a mão magoada e era tarde… Primeiro eu fiquei de resolver esta história com o Jaime. Depois, quando ele voltar, nós logo vemos.

- Ok. Tu é que sabes. Mas queres um conselho? Não penses demais. Tu gostas dele, ele gosta de ti. Vocês foram feitos um para o outro. Aproveita. Nem toda a gente tem segundas oportunidades, muito menos quando envolve homens como o David.

  •  

 

David esteve fora três dias, mas para mim pareceram mais três meses. Ao fim de 24 horas já estava mais do que arrependida de não ter estado com ele na véspera da partida. Infelizmente, a chegada também não foi fácil para a equipa. A derrota em Itália eliminou o Benfica da Champions e nestes casos o ambiente era sempre pesado.

O jogo começara já tarde, e apesar de terem saído assim que este terminara, a chegada a Lisboa estava prevista já de madrugada. Não sabia portanto quando o iria voltar a ver. Pensei ligar-lhe, mas não sabia a hora exacta a que aterrava. E depois, devia estar cansado e desiludido. O melhor seria esperar até ao dia seguinte… Mas é claro que não iria conseguir adormecer tão facilmente. Resolvi então adiantar alguns trabalhos que tinha para entregar. Mantinha-me distraída e punha em dia a parte teórica da faculdade que, entre as práticas e o meu trabalho, ficava sempre para trás. Acendi a lareira da sala e em meia hora tinha todos os livros e folhas espalhados pelo chão. Mantive a televisão ligada para “companhia”, mas sem som. De vez em quando, olhava para o telemóvel e via as horas. Pensava nele e onde estaria… Depois voltava aos estudos. Em cima da mesa, um pacote de bolachas que eu “assaltava” de tempos a tempos. E, sem dar por isso, deixei-me dormir em cima da carpete. Á minha volta parecia que um furacão tinha passado e deixado tudo de pernas para o ar…

Acordei com o telemóvel a tocar. Era a Inês. Atendi com a voz ensonada.

- Inês… passou-se alguma coisa?

-“ Não. É só para te dizer que já chegaram.”

- Quem? – Perguntei meio a dormir.

- “Quem é que havia de ser, rapariga… A equipa acabou de aterrar.”

- E como é que tu sabes isso? – Disse, levantando-me e tentado pôr o cérebro a funcionar.

-“ Porque acabei de ver as notícias.”

- E então?

- “ E então? Então que o David já cá está. Mas tu estás a dormir ou quê?”

- Por acaso…

- “ Oh, rapariga! Acorda de uma vez. Ele já chegou.”

- Sim, já sei… E deve estar cansado e a precisar de descanso.

- “ Ai! Estás-me a dar nervos… Queres que eu vá aí?”

- Vens aqui fazer o quê?

- “Sei lá. Abanar-te para ver se acordas de uma vez. Posso ir buscar-te e levar-te a casa dele.”

- Mas nem pensar. Deixa-te de ideias, Inês. Está tarde. É hora de dormir que amanhã é dia de levantar cedo. Beijo!

- “ Mas, Mel…”

Desliguei antes que a Inês começasse com as suas teorias. “ É bem capaz de me aparecer aí á porta e arrastar-me daqui, só para ir ter com ele…”. E não é que eu não quisesse ir. Mas não ia forçar nada. Aproveitei antes que já estava acordada e comecei a organizar os papéis espalhados pela sala. A Ana chegava no dia seguinte e era capaz de ter um ataque se desse com a casa naquele estado.

“Trimmm – Trimmm!”

Fui interrompida pelo som da campainha. “ Não acredito que aquela maluca veio até cá!”, pensei. Pousei um volume enorme de livros em cima da mesa e apressei-me a abrir a porta. Mas não era quem eu esperava. Em vez da Inês, foi com o David que encarei, e o sermão que lhe tinha preparado ficou pendente no ar.

- Falei que eu vinha encontrar você! – Falou com a voz mais suave do mundo e um sorriso nos lábios. Eu continuei imóvel e calada. Ele esperou alguns segundos e entrou, fechando a porta atrás de si. Eu dei dois passos para trás e deixei-me ficar, novamente quieta e ainda sem acreditar que ele estava mesmo á minha frente. Pensara que ele iria chegar cansado demais para vir aquela hora ter comigo. Pensara que só o iria ver de manhã. Mas ele viera! Estava ali, naquele momento. Nem a derrota e o facto de provavelmente estar aborrecido o haviam feito desistir. E eu fui invadida por uma felicidade imensurável.

David olhava-me directamente nos olhos. Havia muito a dizer, a esclarecer. Mas era como se nada tivesse importância. Com a mão direita acariciou-me a face e eu retribui aconchegando-me no seu peito. Cheirava tão bem… Abracei-o pela cintura e deixei-me ficar. Muito lentamente, ele começou a tentar despir-me o casaco que eu tinha vestido, ao mesmo tempo que a sua boca procurava a minha. No momento em que eu esperava sentir o toque dos seus lábios, desviou-os. Um arrepio de frio subiu-me pela espinha quando a camisola de alças abandonou o meu tronco, deixando-me descoberta para ele. David continuou a tirar, peça por peça, o que me cobria. Levou o seu tempo. Sentia os seus olhos postos em mim, a percorrerem cada canto do meu corpo como se procurassem algo. As suas mãos deixavam um rasto de fogo por onde passavam. Fechei os olhos e tentei abstrair-me de tudo o resto. Não sei como aguentara ficar tanto tempo sem sentir o seu toque, o seu cheiro… “Se calhar ainda estou a dormir e isto é só um sonho.” Mas os beijos de David despertaram-me, trouxeram-me de volta á vida, apurando todos os meus sentidos e tornando-me uma das pessoas mais felizes do Mundo nessa noite.

  •  

Deitada ao lado de David, de frente para ele, sorria inconscientemente. O sol já nascera há horas, e tinha perdido as aulas da faculdade, mas não estava minimamente preocupada. Podia começar a 3ª Guerra Mundial que eu continuaria calma e serena ao lado do homem que amava. Ambos tínhamos dormido muito pouco essa noite, o David tinha treino só á tarde, por isso todos os segundos contavam.

- Pensei em você o tempo todo.

- Lamento que tenham perdido.

- Nem me fala. Meu único consolo foi saber que você tava aqui me esperando.

- Estava… - Suspirei! David notou que algo me perturbava e aproximando-se mais perto de mim, perguntou:

- Conheço essa cara. O que foi dessa vez?

- Sabes, isto tudo… o que eu estou a sentir… Tenho medo de acabar… como da primeira vez.

David sorriu.

- Eu sei. Mas desta vez é diferente.

- Diferente como?

- Eu não vou deixar ninguém atrapalhar nosso namoro.

- Namoro? – Perguntei um pouco admirada. – Então já namoramos?

- E o que foi que a gente ficou fazendo a noite toda?

Corei. David olhava-me com um sorriso matreiro. Baixei o olhar, meio envergonhada.

- Ei! Mas tem uma condição.

Franzi o sobrolho desconfiada. David continuou.

- Nada de namorar escondido. A gente tentou isso uma vez, não deu certo.

- Mas, David…

- Eu não tou dizendo p´ra gente ficar gritando por aí que estamos juntos. Mas sem essa de segredos. Eu quero poder passear com você sem ter medo que alguém possa ver a gente juntos. A gente não é mais criança, Mel.

Respirei bem fundo. Namorar e assumir uma relação com o David parecia ser uma coisa complicada. Mas eu sabia que ele tinha razão. Estava na hora de assumir o que nos unia. Só assim nós iríamos conseguir ficar juntos. Olhei-o nos olhos, beijei-o e a seguir repousei a minha cabeça no seu peito.

- Está bem! Eu confio em ti. – E foi como se um peso saísse de cima de mim.

  •                                                                

Passava pouco da hora do almoço quando o David se levantou e foi tomar um banho. O chuveiro da casa de banho que dava para o meu quarto estava sem água quente, por isso disse-lhe que utilizasse a banheira do quarto da Ana. Enquanto isso, eu fiquei deitada mais um pouco. As poucas horas de sono que tinha em cima começavam a fazer-se sentir, e fui invadida por uma sonolência tal que nem dei por fechar os olhos e adormecer. Não dormi durante muito tempo, mas foi o suficiente para acordar em sobressalto…

Ana tinha ligado á Inês para que a fosse buscar á rodoviária. Pensava que a essa hora eu estaria nas aulas. Eu ainda não lhe tinha contado sobre os últimos acontecimentos, por isso ela nada sabia sobre mim e o David. Quando entrou em casa de mala na mão e extremamente cansada de subir as escadas com a mesma, só pensava num bom banho de espuma e quentinho. Inês foi para a cozinha preparar algo para comerem e Ana correu para o seu quarto. Mal entrou ouviu o barulho da água a correr e pensou que fosse eu quem lá estava. Pousou a mala e dirigiu-se á casa de banho, chamando por mim.

- Mel? Estás em casa a esta hora? … AHHHH!

Eu estava completamente envolvida na terra dos sonhos quando fui arrancada da mesma. Reconheci imediatamente a voz e levantei-me num salto. Enfiei a primeira coisa que me veio á mão e saí disparada em direcção ao quarto da Ana. Quando lá cheguei deparei-me com a Ana e a Inês em modo “frozen”, as duas de frente para um David Luiz completamente embaraçado e nu, meio escondido atrás da cortina do banho e tentado explicar o que fazia ali aquela hora.

- Ana! – Gritei! – Chegaste! – Disse tentando amenizar a situação.

Esta pareceu acordar do transe e saiu para o quarto.

- Oh! Meu Deus! Mel, desculpa! – Disse ao passar por mim. Segui-a.

- Eu é que te peço desculpa. Não sabia a que horas vinhas e o David precisava de … - Olhei para trás e vi que a Inês ainda não tinha saído. Fiz sinal á Ana que esperasse e voltei a entrar na casa de banho. A Inês não se tinha movido um milímetro. Acho que nem sequer tinha piscado os olhos. David continuava atrás da cortina, cobrindo com as mãos o que podia.

- Inês! – Chamei, mas sem resultado. Tive de a agarrar por um braço e arrastá-la dali para fora. A seguir pedi desculpa ao David e fechei a porta.

- Porque é que não me disseste que estavas em casa? E com… ele?

- Desculpa, mas eu não adivinhava a que horas é que tu chegavas.

-O que é que… ele… está aqui a fazer? – A expressão da Ana estava cada vez mais confusa.

- A tomar banho, não é óbvio… - Disse por fim Inês, em tom irónico.

- É melhor irmos até á sala. Eu já te explico tudo.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 02:32

25
Ago 12

“Bip-bip-bip! Bip-bip-bip!”

David e eu acordámos ao som do telemóvel dele. Era o Ruben. Este estava preocupado por David não ter chegado ainda ao treino, e dados os últimos acontecimentos pensou que teria acontecido algo.

- Que horas são? – Perguntou com o telemóvel ainda no ouvido.

- Quase 10. – Respondi ao mesmo tempo que me levantava á pressa.

- Grande M****! Fala pró mister que eu tou indo… Tá, tá tudo bem. Te vejo daqui a pouco.

De um salto, David saiu do sofá e começou a vestir-se enquanto eu corri até á cozinha para preparar qualquer coisa para ele comer.

- Tenho leite, pão, cereais e café. – Gritei da cozinha ao abrir a porta do armário de cima. – AH! – David já estava atrás de mim. – Pára de me pregares sustos! – Disse ao mesmo tempo que lhe dava uma palmada no braço. Ele riu e fingiu que o tinha magoado. – Como está a tua mão? Ainda te dói muito?

- Um pouco, mas eu acho que vai dar pra aguentar. – Respondeu, mexendo a mão. Depois, puxou-me para ele e beijou-me nos lábios, muito levemente. – Amanhã tou indo com o resto do time p´ra fora. Fim-de-semana tem jogo na Itália… Você vai ficar bem? Não tou gostando dessa história de você ir sozinha p´ra falar com esse doido varrido desse doutorzinho.

- Isso é um assunto meu. Sou eu que tenho de resolver.

- Mas você podia esperar eu sair e a gente ia junto.

- É melhor não, David. Isso sim, ia dar confusão. Vê só o que aconteceu ontem á noite.

David apertou-me contra o seu peito e eu pude ouvir o seu coração bater. A sua mão esquerda acariciava-me os cabelos.

- Me liga assim que você terminar de falar com ele. Eu vou ficar com o celular, vigiando.

- Não vai acontecer nada. Podes ir para o treino sossegado. Aliás, já eras para estar a caminho.

- Ih, Caramba! Vou ter de voar…

- Então e não comes nada?

- Cê tem uma fruta aí?

- Tenho. Serve uma maça?

- Vai ter que servir. – Disse, enquanto procurava as chaves do carro. Depois virou para trás e, com os braços á volta da minha cintura, levantou-me até ficar da sua altura. Beijou-me. – Te amo!

- Eu também “te amo”!

- Hum! Seu sotaque brasileiro não tá com nada. Tou vendo que vou ter de ensinar você…

- Vai-te embora…

- Tou indo! – Pôs-me no chão e virou em direcção á porta, mas antes de lá chegar voltou-se novamente para trás, esbarrando comigo e beijando-me outra vez.

- Vai-te embora! – Ordenei novamente e ele pareceu obedecer. Abriu a porta e no mesmo instante em que pôs o pé de fora, tornou a virar-se e a beijar-me… mais uma vez.

- Hum! Vai…- Empurrei-o!

- Embora! Já sei! Tou indo! – E desceu as escadas a correr. Eu fiquei a observá-lo até finalmente desaparecer.  Depois, fui para o banho preparar-me para um dia difícil.

  •  

 

Cheguei ao hospital antes do meio-dia. Resolvi não avisar que ia ou o Jaime poderia querer marcar noutro sítio, e a verdade é que não me sentia segura sozinha com ele. Se fosse só pelo que tinha acontecido entre nós os dois, eu até poderia entender e já tinha até perdoado. Mas depois do que o David me contou, dos escândalos que ele fez, das ameaças e agressões, era claro para mim que o Jaime não era de maneira alguma a pessoa que eu pensava que fosse. Perguntava-me até quem era o homem com quem eu tinha estado nestes últimos 3 meses, pois era evidente que fora tudo uma farsa. Mantinha no entanto a esperança de que ainda havia um pouco do ser humano que eu conheci, e que era com esse que eu iria conversar, num diálogo civilizado e calmo.

Subi até ao piso do gabinete e dirigi-me á secretária. Á medida que me aproximava lembrava-me das palavras de David, e a sua oferta em ir comigo parecia-me cada vez mais tentadora. “ Não, Mel! O David não é para aqui chamado. Se ele viesse, aí sim isto dava para o torto. Assim sabe Deus…”, pensava.

- Bom dia!

- Bom dia, Mel! Vieste falar com o Dr. Jaime? Não sei se ele está na sala…

A voz de Susana soava um pouco nervosa, como se quisesse dizer mais qualquer coisa.

- Não faz mal. Eu espero.

E sentei-me na sala de espera. Esta estava cheia, como de costume, e as conversas misturavam-se entre elas. Geralmente prestava atenção a uma ou outra coisa de que se falava. Afinal, todos os que ali estavam partilhavam algo em comum e falar de um caso poderia ajudar outro, ou pelo menos esclarecer ou iluminar. Mas naquele momento os meus pensamentos estavam longe, muito longe dali. De repente lembrei-me de algo. O Jaime era o médico que agora me acompanhava. Era ele que tratava de mim quando tinha alguma recaída. Dada a situação, isso teria de mudar. “ Mais uma!”. Assim que terminasse de falar com ele teria de ir falar com o Dr. Barros. Este iria interrogar-me sobre os motivos que me levaram a abandonar o Doutor Jaime, e eu teria de pensar muito bem sobre o que dizer. Não queria prejudicar o trabalho dele, as minhas razões era pessoais e ele era um excelente profissional. Mas temia que se lhe contasse sobre os últimos acontecimentos isso viesse a acontecer. “ Bolas! Não estou com cabeça para pensar em tudo ao mesmo tempo.”.

- Mel? – A voz de Jaime afastou-me destes pensamentos. A sua figura surgiu-me em frente á porta da sala onde esperava, de bata branca e cara igualmente pálida. – A Susana avisou-me que estavas aqui.

Levantei-me e avancei na sua direcção.

- Sim… Podemos falar? – Perguntei a medo, uma vez que a minha vontade era precisamente o contrário. Ele respondeu-me num tom calmo mas firme.

- Claro! – Disse, fazendo sinal para eu passar.

Entrei no seu gabinete e mantive-me de pé. As mãos transpiravam apesar do frio que fazia, e eu sentia alguma dificuldade em respirar. Tentei manter a calma para a voz não me falhar. Mais uma vez foi ele quem falou primeiro, fazendo sinal para me sentar.

- Muito bem! Fala!

- Jaime… eu vim aqui porque… Bem, eu acho que dadas as circunstâncias… Depois do que aconteceu, e…

- Queres parar de rodear e falar de uma vez?

Abri a boca para recomeçar, mas ele interrompeu-me:

- Não! Deixa estar, não precisas dizer nada. Afinal, ambos sabemos porque é que tu estás aqui, não é verdade?

- Sim, sabemos. Mas também estavas á espera do quê? Depois do que tu fizeste…

- Depois do que eu fiz? E o que tu fizeste? – O tom de voz de Jaime começava a alterar-se. – Preferiste ficar do lado daquele “Playboy”… Abandonaste-me completamente, a mim, que sempre te apoiei. E um sacana daqueles que só te fez mal, foi esse que tu escolheste. Aquele imbecil. Sabias que tenho a polícia á perna por causa dele?

- O quê?

- Sim! Vieram hoje aqui à minha procura. No meu local de trabalho, á frente dos meus colegas. Intimaram-me. Disseram uma carrada de mentiras, entregaram-me a carta de intimação e foram-se embora. Não bastou ser humilhado pela pessoa que eu amo, também tiveram de me vir espezinhar aqui. Quem é que ele pensa que é?

Eu comecei a ficar nervosa e levantei-me da cadeira. A conversa estava a tomar um rumo completamente inesperado, e eu não estava a gostar nada daquilo.

- Mas Jaime, foste tu que o procuraste e ameaçaste. E depois destruíste o carro do Ruben…

- E quem é que te contou isso? Foi ele? Estavas lá? Como é que sabes que ele não está a mentir?

- O David não mente! – Acabei por gritar também, arrependendo-me quase de seguida ao ver a expressão de fúria que tomou a sua feição.

- O David não mente? É claro que tu o ias defender. Também estás contra mim…

- Eu não estou contra ninguém, eu só …

- Vieste aqui terminar tudo, não foi? – Interrompeu-me mais uma vez, mas a voz voltou a sair-lhe calma. – Pois bem, considera tudo acabado entre nós. Agora, se não te importas… sai!

Desta vez não respondi. Não queria assistir a mais um acesso de fúria desmedida da sua parte e decidi fazer o que me pediu. Tinha ido pôr um ponto final na nossa relação, e apesar da conversa não ter saído exactamente como imaginei, fora isso que fizera. Estava tudo acabado. Abri a porta e sai sem dizer palavra. Nem sequer me virei para ver como tinha ficado. Na minha mente só um pensamento: “ Mas que homem foi este com quem me envolvi?” Seguia pelo corredor em direcção ao elevador quando uma voz me chamou. Era a secretária, Susana.

- Mel! O Doutor Barros quer falar consigo, se puder.

“ O Dr. Barros!” Esquecera-me completamente dele. Tal era a minha ânsia em sair dali para fora. Acenei com a cabeça e segui no sentido inverso até chegar á sala do meu antigo, e agora futuro médico.

- Mel! A Susana disse-me que estava aqui. Sente-se. Precisamos de falar.

  •  

Mal entrei no jipe, deixei-me imediatamente cair no banco. O que acabara de ouvir deixara-me perplexa e sem reacção. Ainda nem conseguia acreditar. Não tinha noção… Fiquei assim por alguns minutos, a tentar digerir tanta e surpreendente informação. Só quando tive certeza de ter recuperado todos os meus sentidos, meti a chave na ignição e… O telemóvel tocou! Ainda atarantada, procurei pelo mesmo na mala e atendi. Era a Inês.

- “Mel! Então rapariga, onde é que tu estás?”

- Estou a sair do Curry Cabral.

- “Então já resolveste tudo?”

- Sim… acho que sim!

_ “…”

- É uma história tão comprida, Inês…

- “Ok! Fazemos assim. Mal eu acabe o meu turno vou direitinha para tua casa e pomos as novidades em dia. Passo pelo restaurante chinês e levo-nos o jantar. Parece-te bem?”

Sorri. Ainda não me tinha dado conta do quanto precisava de companhia, e senti-me aliviada pela sugestão.

- Parece-me óptimo! – E desligámos. Mandei o telemóvel para cima do banco e preparei-me para sair então, mas o aparelho tocou novamente. “ Mas será possível que eu não vou conseguir sair daqui hoje”, pensei um pouco irritada. Olhei para o visor. Era o David.

- Sim!

- “ Mel! Onde você está? Porque não me ligou?”

- Porque só estou a sair do hospital agora… ou pelo menos a tentar.

- “…” Você está bem? Ele fez alguma coisa com você?”

- Não! Está tudo… bem!

- “ Mesmo? Pela sua voz não parece, não!”

- Só estou cansada. Foi mais difícil do que eu pensava.

- “ Eu tou saindo do treino daqui a pouco e vou direto pra sua casa.”

- Não, David! Não me leves a mal mas eu hoje preciso de pôr as ideias no lugar. E depois a Inês vai lá ter assim que sair, ela faz-me companhia.

- “ Pôxa!, Que fora!”

- Não é “fora”. A gente precisa de conversar sobre um montão de coisas, mas hoje não é o melhor dia. Eu preciso deste tempo agora, entendes?

- “ Tem certeza que é isso que você quer?”

- Tenho! Tu partes amanhã para a Itália, tens de estar concentrado só no jogo. Quando voltares, a gente conversa com calma sobre a nossa situação.

David fez uma pausa de alguns segundos antes de responder.

- “ Tá bom. Se é isso que você quer…”

- É, é isso que eu quero. – Menti. A verdade é que estava mortinha para cair nos braços dele, mas o melhor agora era ir com calma.

- “ Me espera… assim que eu voltar eu te encontro.”

Sorri.

- David… eu…

- “ Eu também!”

Desligámos e pude finalmente seguir o caminho para casa.

 

 

 

 

 

 

publicado por nuncamaissaiodaqui às 00:53

21
Ago 12

 

Subi com o David até minha casa e sentei-o no sofá enquanto fui buscar algo para tratar da sua mão. Quando voltei vi a cara de sofrimento que fazia agarrado á sua mão direita. Apesar da situação não pude deixar de sorrir. Este deu pela minha presença e endireitou a sua postura, retomando o mesmo ar forte que tinha antes de o deixar. Ajoelhei-me no chão, mesmo á sua frente e muito cuidadosamente peguei no seu pulso.

- Deixa ver. – Disse enquanto observava com atenção os seus dedos. – Consegues mexer os dedos todos?

Ele fez uma tentativa sofrida e eu não insisti.

- Hum! A mão vai inchar. Pomos uma pomada e um pouco de gelo.

Fui até á cozinha buscar gelo e envolvi-o num pano grosso. Depois tirei a pomada e comecei a espalha-la por toda a zona inchada.

- Só o seu toque já está me deixando melhor.

Sorri. Mesmo magoado continuava a cortejar-me.

- Peço desculpa se te magoo, mas tenho de espalhar isto muito bem ou não vai fazer efeito. Eu sei que dói mas amanhã vais estar melhor, vais ver.

David olhava-me continuamente e eu fingia não perceber. Se me perdesse a olha-lo também iria com certeza desconcentrar-me do que estava a fazer, e podia magoa-lo sem querer.

- Deduzo que não tenhas muita prática nisto… em distribuir murros, quero eu dizer.

- Você tá brincando? Eu sou quase lutador profissional. Se eu não tivesse me saindo  tão bem jogando futebol, minha profissão seria lutador de boxe.

Soltei uma gargalhada. O David estava a sair-se muito bem, apesar das dores que devia sentir não soltou um “ai” e ainda brincava com a situação. Quando terminei peguei no gelo e pu-lo em cima da mão, recomendando:

- Deixa estar assim durante um bocado. O melhor será que não mexas muito a mão.

Nessa altura olhei para cima e reparei que tinha o lábio cortado.

- David, tens o lábio machucado também. Mas que raio é que vocês andaram a fazer, a servir de saco de pancada um ao outro?

Levantei-me para ir buscar algo que tratasse daquele novo ferimento, mas ele deteve-me.

- Não precisa se incomodar. Isto aqui não é nada. – Disse, enquanto se levantava e se chegava a mim.

- Não devias ter vindo.

- Eu precisava te ver, saber se você tava legal. Aquele cara não presta, Mel.

- Tu não o conheces. Ele tem estado sobre uma grande pressão. E depois o que aconteceu foi culpa minha. Eu devia ter sido sincera com ele desde o início e …

- Você não teve culpa de nada. Você não viu o jeito dele quando chegou na casa do Ruben. E antes disso lá no clube. O cara armou a maior cena… Ele me ameaçou, e ameaçou outras pessoas também. Mel, ele quebrou o carro do Ruben pensando que era o meu. Pessoas normais não têm esse tipo de atitude não.

- Eu sei David, mas tu devias ter deixado que eu falasse com ele primeiro. Ele era o meu namorado, era eu que tinha de resolver as coisas com ele.

- “Era” seu namorado?

- O quê? – Perguntei, sem perceber o que ele queria dizer.

- Você falou que ele “era” seu namorado. Não é mais?

- Era… é… eu disse que ele é meu namorado…

- Não, você disse “era”, passado. Eu ouvi muito bem.

- Eu disse que ele era… Não. Não é nada disso. Estás-me a baralhar toda.

- Ele não gostou quando você ficou do meu lado agora á pouco.

- Ele não devia ter começado a luta. Eu fiquei do lado de quem eu acho que tem razão. – E tentei sair novamente, mas David impediu-me mais uma vez. E desta vez agarrou-me bem forte pela cintura, e aproximou a sua cara da minha. Ficou tão próximo de mim que conseguia sentir a sua respiração.

- Você ficou do lado da pessoa que você ama. E não adianta negar. Eu vi a cara que você fez quando me viu caído no chão.

- Não fiz cara nenhuma. Levei foi um susto. – Disse, tentando disfarçar o meu embaraço e fugir do seu olhar. – Nunca tinha tido ninguém a brigar por causa de mim.

- Jura? Não sei se eu acredito nisso. Linda desse jeito, aposto que já teve um montão de caras brigando feio por você.

- Não brinques com coisas sérias. Isso não resolve nada, e eu detesto brigas.

- Eu também, sou de paz. Mas sou capaz de brigar com o mundo inteiro por causa da minha Mel.

E com esta desarmou-me por completo. Fiquei sem raciocínio e sem reacção. Até aqui conseguira mais ou menos manter-me focada, mas depois do que acabara de ouvir foi-me impossível continuar. Ele ergueu a sua mão esquerda, a única que se encontrava em condições e acariciou-me a face, os lábios, o pescoço… até me puxar definitivamente para ele e, quase imperceptivelmente beijou-me. Mas foi um beijo tão suave que me deixou desejosa por mais. Ele continuou naquele jogo de sedução, queria tirar-me completamente do sério até que eu não conseguisse resistir-lhe mais.  Conhecia-me tão bem… Sabia exactamente o que fazer para me deixar fora de mim. Aproximava os seus lábios dos meus e quando eu me preparava para lhe corresponder, afastava-se destes e beijava-me só ao de leve no canto da boca. E voltava novamente ao mesmo. Estava presa ao seu jogo, sem hipóteses de escapar. Com uma das mãos prendia-me a nuca, os meus cabelos entre os seus dedos. Com a outra segurava-me firmemente um pouco acima da cintura, e era tal a força com que me agarrava que me sentia quase prensada a ele. Como se estivéssemos num estreito corredor sem espaço para nos movimentarmos. Finalmente desisti de tentar perceber qual o gesto seguinte e fiquei imóvel, esperando ansiosamente que terminasse de me explorar e me beijasse de uma vez. Ele pareceu ler os meus pensamentos e pousou definitivamente os seus lábios quentes e macios nos meus. Depositou nesse beijo a mesma ansiedade e desejo que tinha depositado antes, enquanto brincava comigo. E apertava-me cada vez mais, tanto que a certa altura pensei que ia deixar de respirar e morrer ali mesmo sem que ele notasse que me estava a sufocar com aquele beijo. Mas era um sufoco bom demais para que eu o impedisse. Se morresse ali, naquele momento, teria morrido feliz beijada pelo homem que amava. E que homem! E que beijo! Fez-me desejar que não terminasse nunca. Sentia o desejo a crescer não só em mim, mas nele também. Envolvi-o com os meus braços, acariciando-o e explorando-o. Conhecia-o tão bem, e no entanto era como se fosse a primeira vez que o tocava e que sentia o seu corpo, todos os seus músculos e traços. As suas mãos começaram também a explorar-me, e os seus lábios afastaram-se finalmente dos meus para seguirem por outros caminhos, mais perigosos, e que deixavam um rasto de fogo por onde passavam. Seguiram pelo meu queixo, pescoço, e quando dei por mim repousavam no meu decote enquanto uma das mãos me acariciava os seios e… o telemóvel tocou.

Dei um salto para trás com o susto que levei. Naquele momento estava tão longe que nem acredito que estivesse no planeta Terra. Voltar assim tão de repente foi um choque tão grande como passar de água quente para água gelada. Atarantada, procurei o telemóvel irritante e amaldiçoei o dia em que tinha aderido a essa moda de andar com um telefone portátil atrás. Quando o encontrei olhei o visor e o nome “Ana” piscava ao som do seu toque. Atendi, ainda ofegante.

- Sim?

Do outro lado a voz da Ana soava preocupada. Tinha sabido através da inês sobre o que se passara com o Jaime e o David no clube, e queria saber como é eu estava e se era preciso voltar mais cedo.

- Está tudo bem. – Respondi. – Eu estou bem, não aconteceu nada de mais. Fica descansada e goza os dias com a tua mana. Cansada? Eu? Não, não é nada. É que estava no quarto e vim a correr para atender.

David começou-se a rir. Tinha a respiração mais acelerada do que eu pensava. Aproximando-se por trás de mim, cercou-me com os seus braços e começou novamente a beijar-me o pescoço. Eu tentava manter-me séria para que a Ana não percebesse. Não que não fosse contar-lhe depois, mas não queria que ela se preocupasse, e se soubesse que o David estava ali comigo iria desconfiar que algo se tinha passado, e encurtava a visita á sua família.

- Ok. Se for preciso eu aviso. Mas não te preocupes. A Inês tem tomado bem conta de mim. Sim mãe! – Brinquei. – Beijos e diverte-te.

Desliguei. Quando me virei o David estava disposto a iniciar o mesmo jogo do ponto onde tínhamos ficado, mas eu já estava suficientemente lúcida e desta vez consegui trava-lo.

- Calma menino. É melhor pararmos.

- Eu fiz alguma coisa errada? – Perguntou com uma expressão tão angelical que tive que reprimir um sorriso, afastando-me dele o mais que pude.

- Não… Sim. David, nós fizemos tudo errado. Eu não sei o que é que eu disse á pouco ou o que é que tu percebeste, mas a verdade é que eu estou numa relação com outra pessoa. E por mais certo que esta esteja prestes a terminar, dado todos estes acontecimentos, para todos os efeitos eu ainda sou namorada do Jaime. E além disso, tu e eu… bem, nós já passámos por isto e não deu certo. Será que queremos mesmo voltar ao mesmo?

- Eu te magoei muito… Me perdoa. Eu nunca devia ter convidado a Carol p´ra ficar lá em casa, e eu não devia ter deixado você sozinha naquela noite. O que aconteceu foi culpa minha…

Baixei a cabeça. Ainda me era tão doloroso lembrar de tudo aquilo...

- Tu fizeste o que achavas que estava certo. O problema é que nós temos visões muito diferentes sobre as coisas.

- O problema é que eu não sabia que amava tanto você. Eu nem imaginava o que você sentia, sabendo que outra garota dormia debaixo do mesmo tecto. Eu só percebi isso no dia em que eu vi você com outro, abraçada a ele. Aí eu entendi. Meu Deus, eu não consigo nem pensar, vocês os dois juntos, ele tocando em você… - David fechou os olhos com tal intensidade, a sua expressão de total horror até a mim impressionou. Percebi o quanto sofrera durante todo o tempo que estivéramos separados, imaginando-me nos braços de outro homem.

- Acho que não precisas massacrar-te muito com isso. O Jaime e eu nunca… tivemos nada… quer dizer… - Atrapalhei-me um bocado. Mas porque raio tinha eu ido buscar aquele assunto. Isso era uma coisa minha e do Jaime, e o David não tinha nada a ver com a nossa intimidade. E depois, era bem feito que sofresse. Assim sabia o que me havia feito passar. Olhei-o novamente, e a sua expressão era tal que não resisti. Não podia deixá-lo nessa agonia. E depois, nunca fora uma pessoa vingativa, acreditava que mais tarde ou mais cedo, cada um teria o que merecia. E o David já tinha tido.

- Ora… não interessa.

- Você quer dizer que… você e o doutor nunca…

- Não! – Interrompi-o, corada até á ponta dos cabelos.

- Mas, nem uma vez, assim…

- Não, David. Queres que te diga o quê? Nunca dormi com ele, nunca fiz sexo com ele… Nunca o deixei tocar-me como tu me tocaste, nunca sequer me conseguiu beijar como tu me beijaste… beijas. Pronto, satisfeito? – Disse, já num tom bastante alterado.

David olhava-me do outro lado da sala, com um sorriso nos lábios. Eu tentei pensar noutra coisa, e desviei o olhar.

- E pára de olhar para mim assim. Da próxima vez deixo-te na rua, e tu que trates sozinho da tua mão inchada.

Ele continuava a sorrir.

- Você me ama mesmo, né!

- Deixa de ser convencido.

Agarrei no estojo de primeiros socorros que estava em cima da mesinha, dei meia volta e sai da sala. Aquele tom do David estava a afectar-me profundamente. E na verdade  estava bastante envergonhada com o que acabara de lhe revelar. Precisava mesmo de me afastar dele. Entrei no meu quarto e abri a porta do roupeiro onde tinha o estojo guardado. Quando fechei a porta, encarei com o David parado mesmo á minha frente e dei um salto para trás, com o susto que levei. Mais uma vez o David agarrou-me.

- Queres parar de fazer isso.

- Só se você disser que me ama.

- Eu não tenho nada para te dizer.

- Olha p´ra mim. Eu amo você.

Desviei o olhar mais uma vez. Estava a tornar-se cada vez mais difícil resistir-lhe, e se eu bem o conhecia, ele não ia desistir.

- David, por favor… - Supliquei!

- Tudo bem. Eu não vou mais te aborrecer com isso. Você tem razão. Seu namorado ainda é o cara de c… o Doutor Jaime, e eu não devia ter feito o que fiz. Me desculpa.

E afastou-se, desta vez com cara de menino abandonado. “ Este homem sabe mesmo como me dar a volta!”, pensei. Mas mantive-me firme e mudei de assunto.

- Com a mão assim é melhor não conduzires esta noite. Se quiseres podes dormir no sofá.

- No sofá? – Disse, com cara de desapontamento.

- Sim. E é o melhor que eu posso oferecer.

- Tá bom.

Arranjei um lençol e um cobertor e ajeitei o sofá da melhor maneira possível, para que ficasse confortável. A seguir dei-lhe a almofada da Ana e despedi-me dele.

- Boa noite! Dorme bem.

Voltei para o meu quarto e vesti o pijama. Ter o David Luiz a dormir na minha sala, a poucos metros do meu quarto, não ajudava nada ao meu estado de espírito já inquieto. Tentei adormecer, e na verdade sentia-me bastante cansada, mas era impossível. Estava demasiado agitada. Turbilhões de pensamentos invadiam-me a cada dois segundos, e quando parecia ter tudo bem definido, concluía que afinal nada daquilo fazia sentido e voltava de novo á estaca zero. Para o David a noite também não devia estar a ser muito fácil. De vez em quando sentia-o ás voltas no sofá, e perguntava-me qual de nós estaria com mais dificuldade em adormecer. Ao fim de quase duas horas resolvi dar-me por vencida. Levantei-me e fui até á sala. Tal como imaginava, o David também ainda não tinha adormecido. Escondida atrás da almofada, sentei-me numa ponta do sofá e procurei algo para dizer. David olhava-me sereno.

- A mão ainda te dói muito? – Acabei por dizer.

- Um pouco. Mas tive uma óptima enfermeira.

Sorri. Mantinha a almofada á minha frente como se de um escudo se tratasse, protegendo-me não sei bem do quê. Respirei fundo e ganhei coragem para falar do que realmente importava.

- Amanhã vou falar com o Jaime. Não vale a pena continuar uma coisa que… bem, não é justo para ele e nem para mim.

David continuava a olhar-me calado.

- Tu tens razão. Todos, sempre tiveram razão. A verdade é que eu nunca gostei do Jaime. Ou melhor, gostei, mas não da maneira que ele queria que eu gostasse. Ele foi muito querido comigo, paciente, compreensivo. Mas devia ter ficado por aí, na amizade. Foi um erro que eu cometi e vou repará-lo quanto antes.

Encarei o David e continuei:

- Lamento pelo que aconteceu. E lamento tu e o Ruben terem sido apanhados no meio disto.

David ergueu-se, acariciou-me o cabelo, beijou-me na testa e puxou-me para ele. Não resisti e deitei-me junto a ele. O sofá tinha o tamanho ideal para que pudéssemos estar os dois juntos. Deitei a cabeça no seu peito e ele envolveu-me nos seus braços. Fechei os olhos e senti uma sonolência apoderar-se de mim. Conseguira finalmente aquietar-me. Parecia estar a alucinar enquanto me encontrava entre o sonho e a realidade, e vários “flash” de imagens minhas e do David percorreram a minha mente. Lembrei-me de quando pela primeira vez me disse que me amava. Fora no hospital, e nessa altura tive dificuldade em acreditar nas suas palavras. Abri ligeiramente os olhos e vi que também ele se encontrava no limite de adormecer, respirando regularmente.

- Eu também amo…tu! – Murmurei.

Depois, não sei se já estava mesmo a dormir, mas se assim foi, sonhei que me sorriu ao ouvir-me. E apertou-me mais para ele.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 19:14

20
Ago 12

 

 

Mantive o telemóvel desligado o resto da manhã, não fosse o David ligar-me outra vez. Não sei porque o fizera mas escolhera o momento errado para me voltar a ligar. No entanto, uma pontinha de curiosidade assombrou-me por todo o dia. Depois de terminarmos eu pedira-lhe que não me tentasse falar, fosse de que maneira fosse, pedido que ele sempre respeitou. E, tirando as vezes que nos cruzámos por acaso, nunca antes tínhamos tido contacto, e ele nunca o tentara. Porque iria ele agora quebrar esse silêncio? E já duas vezes em dois dias. Precisamente no dia em que eu e o Jaime estávamos a tentar resolver as coisas entre nós. Por sorte ele pareceu não se ter dado conta de quem era a chamada. Não que eu estivesse á espera de outra reacção negativa da parte dele, mas depois de tudo o que se passou, a última coisa que eu precisava era que visse chamadas do David no telemóvel. Tentei esquecer o sucedido e concentrar-me no que tinha para fazer, mas não era tarefa fácil. Se já estava nervosa por causa do encontro com o Jaime, um telefonema do David não facilitava em nada as coisas. “ Primeiro falo com o Jaime para decidirmos como fica a nossa situação”, pensei. E saí da faculdade decidida a não dar importância ao que se tinha passado.

Tal como prometera ao Jaime, depois de saber qual o horário das gravações desse dia, liguei-lhe. Não sabia bem a que horas estaria despachada, mas teria um intervalo de hora e meia entre as 19 e as 20h30. Dava perfeitamente para jantarmos e falarmos mais um pouco. Percebi pelo tom de voz que ficara contente. E eu também me senti aliviada. A verdade é que desde o encontro com o David,  eu sentia-me terrivelmente culpada por causa do beijo que trocámos. O Jaime tinha errado, é verdade. Mas eu também tinha cometido erros na nossa relação. Um novo começo, sem segredos, sem mal-entendidos era o que eu queria. E tinha a certeza de que assim que esclarecêssemos tudo, as coisas iriam ficar resolvidas.

  •  

David acabara de ter um dos piores dias da sua vida. Para além de uma noite mal dormida e da falta de concentração nos treinos, ainda descobriu que Mel poderia estar em perigo, saindo com um psicopata. Tentara várias vezes durante o dia falar com ela, mas fora inútil. O telemóvel estava desligado. Quando ligou para a faculdade ela já tinha saído, e ninguém sabia qual a produtora para a qual estava a trabalhar agora. Tivera uma vontade enorme de largar tudo e sair a procura-la, mas ele era, acima de tudo, um profissional. Então não teve outro remédio senão aguentar e esperar que o dia passasse. Quando finalmente acabou, deu Graças a Deus por ter aceitado boleia do Ruben. Este tentara distraí-lo, minimizar a situação, mas sem sucesso. A mente de David estava longe esse dia, muito longe. E o coração apertado.

Enquanto Ruben conduzia de regresso a casa, David olhava as nuvens cinzentas que ameaçavam o céu já escuro. Iria ser uma noite agitada, tal como se encontrava o seu espírito. Era uma pessoa pacata, pacífica. Mas os últimos acontecimentos haviam-no deixado assim. Detestava o que estava a sentir. Por um lado, sentia-se furioso. Por outro, um ser impotente e incapaz de proteger a pessoa que ele amava. Ruben observava-o pelo canto do olho e quase lhe adivinhava os pensamentos.

- Estás a pensar na Mel? – Perguntou sem obter resposta. – Ouve, eu sei que é uma situação delicada, mas antes de fazer seja o que for tens de te acalmar.

- Eu preciso falar com a Mel… ainda hoje.

- E como é que tu vais fazer isso? Desde manhã que tentas falar com ela e não consegues.

- Não sei, mas eu tenho de falar com ela. Eu preciso ver se ela tá bem.

- Ok, eu percebo isso. Mas só não acho boa ideia andares por aí sozinho hoje.

David esboçou um sorriso amarelo.

- Tá pensando que eu vou dormir na sua casa de novo, pode esquecer. Não aguentava mais ouvir você roncando.

- Eu não ressono, mano. Esse és tu.

- Que sou eu o quê? Onde já se viu, eu roncando e fazendo barulho de noite. Vai-se olhar no espelho, vai.

Por breves instantes, Ruben conseguira fazer sair o David brincalhão e descontraído que todos conheciam. E apesar de ele saber que no fundo ele sentia precisamente o contrário, foi bom ver que o mesmo ainda lá estava. Mesmo em situações adversas… E foi com um ambiente mais leve que chegaram a casa de Ruben. Este parou o carro em frente ao portão e esperou que se abrisse.

- Comemos aí qualquer coisa? – Perguntou Ruben enquanto aguardavam.

- Não. Tou sem fome. Tou indo p´ra casa e como qualquer coisa por lá mesmo.

- Tens a certeza? Podemos mandar vir qualquer coisa e depois vais…

As luzes de um carro a aproximar-se desviaram a atenção de Ruben. Estas apontavam directamente para o seu, deixando-o encandeado e sem visibilidade suficiente para identificar o vulto que saiu do veículo.

- Este tipo está-me a dar com os máximos. – Disse, piscando os olhos. David virou-se na direcção das luzes e pareceu reconhecer o andar do indivíduo que acabara de sair do carro. Este trazia qualquer coisa na mão direita. Os dois amigos aproximaram-se um pouco mais do vidro da frente, mesmo a tempo de verem algo na direcção do capôt do carro de Ruben, seguido de um tremendo “baque”.

- Este gajo é maluco! – Gritou Ruben, enquanto tentava tirar o cinto e sair do carro. O agressor continuava e já tinha partido os dois faróis da frente, deixando-o sem luz. David foi o primeiro a sair do carro e a conseguir ver o maluco que os atacava.

- Você de novo! O que é que você pensa que tá fazendo?

Jaime mantinha-se á frente da casa de Ruben com a mesma expressão de raiva que mostrara no dia anterior. Na mão trazia um taco de golfe com o qual agredia vezes sem conta o carro deste, danificando-o bastante.

- Eu disse-te para te manteres afastado dela! – Gritava Jaime.

- Eu vou ligar á polícia! – Disse Ruben, já fora do carro.

David tentava arranjar maneira de segurar as mãos de Jaime, mas este não parava de andar de um lado para o outro. Ruben adivinhou o que David tentava fazer e correu a impedi-lo.

- Não David! O tipo está descontrolado! Se ele te acerta com aquilo pode magoar-te a sério.

- Mas esse cara não pode fazer isso! Seu carro…

- Eu já liguei á polícia. O carro que se lixe.

Jaime continuou a bater no carro, indiferente a tudo o que se passava a seu redor. Ruben morava num local novo, a maior parte das casas ainda estavam em construção, e com o tempo chuvoso não se via ninguém a passar. A única hipótese era esperar que a polícia chegasse. Até porque Jaime parecia mais interessado em fazer estragos no seu carro. David ainda tentou Pará-lo, mas Ruben segurou-o. E quando este finalmente se cansou de agitar o taco de golfe, afastou-se e desapareceu tão rapidamente como quando apareceu. No mesmo instante David dirige-se para dentro da propriedade, seguido por Ruben.

- David! – Chamou! – É melhor esperarmos…

- Esperar o quê? Eu preciso achar a Mel, agora!

- Tu viste o que ele fez. Nós podemos fazer queixa dele.

- E você acha que isso resolve? Não tem ninguém por perto. O cara já sumiu. Ele pode ter ido atrás dela. Me desculpa, mas eu não vou ficar aqui esperando.

- E vais fazer o quê?

- Vou procurar a Mel, nem que eu tenha que ficar a noite toda esperando  lá na porta da casa dela. – E saiu a toda a velocidade, as rodas derrapando no piso molhado.

  •                                                                                                           

Passavam 5 minutos das sete da noite quando saí. O Jaime, sempre pontual, já me esperava junto do seu BMW. Trazia numa das mão um lindo bouquet de flores que me estendeu mal me aproximei. “ Obrigado!”. Depois, deu a volta para abrir a porta do outro lado e eu entrei. Inconscientemente esbocei um sorriso. Que mulher não gostaria de ser mimada assim?

- Fiz reservas num restaurante aqui perto, para não perdermos muito tempo. – Disse.

Assenti com a cabeça e ele arrancou. Mantivemos alguma conversa de circunstância, falámos de trivialidades e pouco mais. Ambos deixámos de parte o que realmente interessava. Isso ficava para mais tarde, durante o jantar. E como ele tinha sido atencioso o suficiente para tratar de tudo, o mesmo não tardou.

- Tomei a liberdade de escolher. Espero que não te importes.

- Não, fizeste bem. Infelizmente não tenho muito tempo, é melhor assim.

Um silêncio um pouco constrangedor instalou-se entre nós. Nenhum dos dois sabia como começar. Ele mantinha a cabeça baixa e fingia ajeitar algo na mesa. Eu lia a ementa, apesar de o prato já estar escolhido. De vez em quando atrevia-me a olhá-lo por cima da carta. Parecia nervoso, mas tentava a todo o custo disfarçar. Pensei que dada a situação não era para menos. Pousei a ementa decidida a começar eu, mas ele adiantou-se.

- Ainda estás muito zangada comigo? – Perguntou a medo.

- Não! Nunca estive zangada contigo. Desiludida, magoada, assustada, sim. Mas não zangada.

- Mel, eu lamento tanto o que aconteceu… Eu não queria ter feito nada daquilo, mas quando soube que tinhas tido uma relação com o… bom, perdi a noção das coisas. Tu podias ter-me contado… Arrependo-me tanto. A minha vida tem sido um inferno desde esse dia.

- Eu lamento não te ter dito nada, mas foi uma relação da qual saí muito magoada. Não estava preparada para falar sobre ela, eu disse-te isso. Mas agora estou disposta a contar-te tudo.

- Não. Seja o que for, eu não quero saber de mais nada. Tu tinhas razão. O passado é passado e devemos concentrar-nos no presente.

- Mas Jaime, eu…

- Esquece. Fui eu que errei. Perdoas-me e nunca mais falamos sobre isto… Por favor?

Os olhos de súplica dele bateram bem fundo em mim. Eu conhecia bem as suas qualidades. E eram muitas. Errou. Pediu desculpas. Prometeu nunca mais o fazer. Aprendeu com o erro. Eu tinha aprendido com os meus. Agora podíamos avançar. Só tinha de esclarecer só mais uma coisa. Algo que me andava a intrigar desde esse dia.

- Como é que soubeste da minha história com o David? – Perguntei. – Não havia muita gente com conhecimento da mesma.

- Bom, a pessoa pediu-me sigilo, mas dada a situação… Eu não quero esconder-te nada. Foi aquela tua amiga que encontrámos na festa de noivado, a… Patrícia?

- A Pat? – Perguntei em sobressalto.

- Sim. Encontrei-a no hospital nesse dia, o avô estava lá internado e esbarrámos por acaso.

De repente tudo fez sentido para mim. Conhecendo a Pat como conhecia, o encontro com o Jaime fora tudo menos coincidência. E imagino qual não terá sido a história que inventou para ele. Como é que eu não me tinha lembrado disso antes? Este facto deu-me ainda mais a certeza de que fizera bem em dar uma segunda oportunidade ao Jaime. Qualquer pessoa envenenada por aquela víbora perderia completamente a cabeça. “ Mas que Karma!”, pensei. “ Quando é que esta tipa me vai deixar em paz’”

O resto do jantar decorreu em ambiente normal. O assunto David não foi mais mencionado, tal como combinámos. Em vez disso pusemos os assuntos em dia. Falei-lhe das gravações do novo programa que iria para o ar nesse Verão, e como estavam a correr. Ele falou-me de novos estudos na área da saúde para doenças consideradas incuráveis. No fim, levou-me de volta e perguntou se poderia ver-me mais tarde. Disse-me que tinha saudades, que queria aproveitar todo o tempo comigo. Respondi-lhe que não sabia a que horas terminava, mas não via porque não.

- Eu ligo-te assim que sair daqui.

- Óptimo! Eu vou ter contigo a tua casa.

Concordei, com algum receio. A Ana não estava, eu e ele ficaríamos sozinhos depois de um tempo afastados e de uma briga séria entre nós. Sabia bem o que isso queria dizer, mas se tinha decidido apostar na nossa relação, então teria de me entregar a ela a cem por cento. Deixei-o beijar-me. Foi um beijo diferente, talvez por ser um beijo de reconciliação. Mas saboreei-o. Sorri. “ Até logo!”, disse e saí do carro.

  •                                                                                                

Eram quase onze e meia da noite quando mandei mensagem ao Jaime a dizer que estava a ir para casa. A noite estava fria e caia alguma humidade. Agasalhei-me bem dentro do casaco, esfreguei as mãos uma na outra tentando aquecê-las e arranquei no meu Jipe. Nestas alturas dava jeito um carro com ar condicionado. Fui todo o caminho a pensar nos acontecimentos desse dia. O telefonema do David ainda me perturbava. Por muitas voltas que desse não conseguia imaginar qual a razão que o levaria a ligar-me. Felizmente, o Jaime e eu tínhamo-nos entendido. Menos um problema. Agora faltava também perceber o que levaria a Pat a intrometer-se na minha vida. Fizera de tudo para me separar do David, e conseguira-o. Com isso tinha conseguido aproximar-se dele a ponto de aparecerem juntos em festas. Que sentido faria estragar a minha relação com outra pessoa? Demasiadas perguntas sem resposta. Cerrei os olhos e abanei a cabeça como para sacudir todos os pensamentos que me invadiam. “ Mel, organiza-te!”, pensei. “ Falta metade do semestre para acabar, conseguiste um bom trabalho que convém manter e, tenho o Jaime. Concentra-te no que interessa”. Foram tantas as questões que me assolaram durante a viagem até casa que, mal dei por mim, estava a chegar. Àquela hora e com o tempo que se fazia sentir,  era quase impossível arranjar estacionamento perto de casa. Estacionei o mais perto que consegui e apressei o passo até casa. Do Jaime nem sinal. “ Deve vir a caminho!”. E não conseguia parar de sentir um certo formigueiro na barriga. “ Cada vez estou mais tola!”, pensei enquanto tentava distinguir quais as chaves de casa. De repente parei. O formigueiro que sentia deixou de existir e senti o coração disparar. Não sei quanto tempo permaneci imóvel, mas foi o suficiente para a minha presença ser notada. Tentei articular qualquer coisa, mas nada queria sair. Levantou-se e começou a andar na minha direcção e eu esperei que não fosse ele. Pedi para estar enganada, que era alguém parecido… mas ao passar debaixo do poste da luz, esta iluminou-o o suficiente para deitar por terra todas as minhas esperanças.

- Mel! – Chamou. A voz soava suave e preocupada ao mesmo tempo. Tentei controlar os batimentos do meu coração. Pensei que se não o fizesse ele iria aproximar-se e ouvir o quão acelerado estava.

- David! – E a voz saiu-me tão sumida que mais pareceu um sussurro. Ele continuou a aproximar-se até parar bem perto de mim. Olhei para cima, directamente nos seus olhos. Os caracóis caiam-lhe mais do que o normal devido á humidade.

- O que é que estás aqui a fazer? E com este tempo?

- Eu preciso falar com você. Tentei te ligar, mas seu celular tava desligado.

- Eu sei. Fui eu que o desliguei. David, tu não devias estar aqui.

- Cê não tá entendendo. Eu preciso te falar uma coisa. É importante.

- Há quanto tempo estás aí?

- Faz um tempinho já… - Disse, sorrindo. – Foi o único jeito que eu achei p´ra falar com você.

Corei. As suas atitudes ainda me surpreendiam. E a sua presença ainda me perturbava. Em menos de um segundo esqueci tudo o que tinha em mente até aí, incluindo o facto do Jaime estar a caminho da minha casa, também. A única coisa que conseguia era olhá-lo. Era como se me hipnotizasse só com o olhar. Senti a sua mão fria tocar no meu rosto, ao de leve, quando desviou uma madeixa do meu cabelo.

- Você tá bem? – Perguntou num tom afável. Respondi que sim com a cabeça. Ele sorriu-me novamente. – Tem uma coisa que você precisa saber.

- O quê? – Perguntei, murmurando.

- É sobre…

- Afasta-te dela! – A voz de Jaime surgiu de repente por trás de mim, e eu pareci acordar do transe em que estava e aperceber-me da gravidade da situação.

Instintivamente, David puxou-me para trás dele ficando entre mim e o Jaime. Eu não percebi logo porquê. Jaime continuou no mesmo tom alterado.

- Desgraçado! Filho da P***! Devia ter-te batido a ti em vez do carro.

As palavras de Jaime não faziam sentido para mim. Ele batera no carro? Qual carro? E porquê? David saiu em sua direcção.

- É mesmo? Quero ver você bancar o forte agora sem seu taco.

Eu continuava atónita com tudo o que se estava a passar na minha frente. Os dois corriam uma para o outro e pareciam prestes a embater num “ Choque de Titãs”. Jaime insultava-o e ameaçava-o. A sua atitude começou a parecer-se muito como aquela que tivera comigo. David continuava a provocá-lo.

- Quer bater em alguém? Vem bater em mim, seu covarde!

Dois segundos depois o punho fechado de Jaime acertava em cheio no lábio de David. Este cambaleia um pouco para trás, tentando manter o equilíbrio mas Jaime acerta-lhe novamente, desta vez com um pontapé certeiro.

- DAVID! – Gritei ao vê-lo cair. Senti as forças abandonarem-me e corri para ele.

- Mel, não se aproxima não! – David levantou-se num ápice, tomou balanço e empurrou Jaime até um poste. O embate foi tão forte que até eu pareci sentir o mastro de betão contra as minhas costas. Depois também ele acertou um murro em Jaime que o fez pôr-se de joelhos. Este preparava-se já para nova investida mas eu interpus-me no meio dos dois.

- Parem! – Gritei! – Jaime, é melhor que te vás embora! – ordenei.

- O quê? Estás a mandar-me embora a mim? Então e ele? Ele é que veio aqui provocar-me!

David tentou aproximar-se dele novamente mas eu barrei-o.

- Eu vim avisar a Mel do Canalha que você é. Maluco!

- Avisar a Mel do quê? Ela é minha… está comigo agora. Tu não tens nada de te intrometer.

- PAREM! – Gritei novamente. Algumas luzes começaram a acender-se nos prédios ao redor, e os carros que passavam abrandavam o passo na esperança que perceberem o que se estava a passar.

- Mas, Mel…

- Jaime, sai daqui… Já!

- É, melhor cê ir embora antes que eu…

- E tu ficas quieto! – Ordenei de seguida a David.

Jaime continuava imóvel á minha frente. Um misto de raiva, ciúme e perplexidade estampado no rosto. Por fim assentiu com a cabeça. Deu meia volta nos calcanhares, apontou para David com ar ameaçador, entrou no carro mal estacionado e saiu como um louco, desaparecendo na estrada. Quando isso aconteceu, virei-me então na direcção de David. Tinha a mão machucada da briga que tivera… Por causa de mim.

- É melhor entrares para tratarmos dessa mão.

publicado por nuncamaissaiodaqui às 18:03

Vou postar aqui a fan fic da Sandra. Espero que gostem :)
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Agradecimento
Muito obrigada a todas que comentam a fan fic :D